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1 O que queima na chuva



1
O QUE QUEIMA NA CHUVA

Nos olhos dele,

Tem aquilo que me eleva.

Um vermelho que queima,

Loucamente inebriante,

Mas quase morto.

Tudo ao seu redor estava turvo. Maroo não conseguia ver ou ouvir. A chuva caía pesadamente sobre seu corpo nublando seus sentidos.

Não havia mais como fugir.

Andava cambaleando na estrada esburacada e molhada pela forte chuva que caía naquela noite. O frio perfurava como agulhas o seu corpo machucado, o qual, naquela altura, ele nem sabia dizer onde começava e terminava.

Maroo apenas andava, caía para novamente se erguer, deixando uma trilha de sangue escuro por onde passava, que logo era lavado pelos pingos d'água.

O líquido viscoso e vermelho se misturava aos seus cabelos, escorria em seus braços, pernas e ele não saberia dizer o que era sangue e o que era chuva sobre si.

Ele apenas seguia. Ele precisava continuar. Seu coração batia acelerado levando formigamento a todos os membros de seu corpo. Ele apenas precisa seguir. A sua mente há muito era dispersa e seu corpo, reagindo instintivamente, seguia para vida, como se soubesse que estava próximo de ser salvo.

Até que ele finalmente viu.

Uma mansão há alguns metros — ou seriam quilômetros? Não conseguia dizer. Mas apenas continuou, batendo em algumas árvores durante o caminho, na esperança de encontrar qualquer coisa que pudesse o ajudar lá.

Apenas um único pensamento rondava sua mente.

Eu preciso sobreviver.

—---

Um, dois, três!

Elina conseguiu, usando os braços como apoio, levantar da cama para a cadeira de rodas. Ajeitou as pernas e abaixou a saia do vestido que havia desarrumado com o impulso.

Ela fez a tradicional vistoria no quarto antes de dormir, para ter certeza que não havia nenhum perigo. Era um hábito que ela sabia que nunca iria morrer, adquirido depois de ter sido sequestrada anos atrás. Nisso, percebeu que a porta de vidro que dava acesso à sacada estava entreaberta, deixando a chuva molhar o chão do quarto.

Aproximou-se e fitou através da porta de vidro a forte tempestade que estava caindo sem pena sobre a terra. As gotas caíam com tanta força que se assemelhavam a riscos prateados, fazendo sons ao se chocarem com o chão gramado e as árvores dos jardins e do bosque além dos limites da mansão.

Elina resolveu se aproximar e abriu a porta de vidro, sentindo os pingos de chuva arderem em sua pele. Como que hipnotizada, ela se aproximou sentindo o vento intenso contra seu corpo, que fez balançar seus cabelos loiros. Fazia tempo que ela não sentia tanto frio, mas desde aquele acidente nunca havia se sentido tão bem. Pôs os seus pés no chão e apoiou-se nas alças para se levantar de uma vez da cadeira de rodas.

Ela estava próxima ao parapeito. O vestido branco estava molhado, quase transparente e o vento forte fazia-o esvoaçar numa dança sincronizada a seus cabelos. Elina abriu os braços e respirou fundo, com os lábios curvados num sorriso contido. Sentia-se viva. Sem dor, apenas a sensação da chuva e vento contra sua pele. A sensação de vivacidade e calma entorpeciam seus sentidos e a deixava incapaz de qualquer coisa além de senti-las.

O clarão de um relâmpago iluminou o céu e as nuvens cinza brilharam num tom azulado por rápidos instantes. Após alguns segundos, um trovão rugiu e Elina sentiu um arrepio subir pelas suas costas perante o som atordoante.

Ela escutou sons de passos, distraindo-a de seu momento e ao olhar através do parapeito para o térreo ela assistiu os seguranças de terno preto correrem para outra localidade da mansão. Apenas um permaneceu, mantendo guarda para seu quarto.

— Acho que acabou. — Ela suspirou tristemente, de repente se tornando muito consciente do frio quebrador de ossos e da incômoda roupa grudada em sua pele. Uma ligeira dor voltou a incomodar sua coluna.

Um estalo soou e ela girou a cabeça instintivamente à sua direita em direção ao som. Viu uma enorme sombra pairando a poucos passos de distância e Elina ofegou em medo. Ela viu apenas tarde demais um homem enorme e sangrento bem de frente para ela. Como se os céus estivessem escrevendo um conto de terror, outro relâmpago rasgou a noite; e o brilho refletiu nos olhos dele a profunda cor carmesim.

— Ajude-me. — A voz masculina não era nada além de um sussurro sôfrego.

Elina viu com seus olhos azuis arregalados o homem à frente dela. Não conseguiu desviar dos olhos vermelhos, que pareciam um convite à loucura que habitava nele.

— Eu não posso morrer.

Elina observou o homem cambalear, tentando não cair. Algo dentro de si estalou. Nem sequer considerou gritar por ajuda ou até mesmo fugir. Estava refém dos olhos dele, que brilhavam profundamente; praticamente a única coisa vivaz em seu corpo machucado. Ela sentiu o coração pular uma batida. Por um momento, pareceu como se fosse desmaiar; mas de repente voltou a bater com força contra sua caixa torácica.

Não posso deixá-lo morrer.

O homem se aproximou mais um passo e não conseguiu se manter em pé dessa vez, caindo com um joelho no chão. Elina se abaixou rapidamente e segurou o homem com as mãos.

— Vamos para dentro.

Ele olhou para ela e assentiu. Elina posicionou o braço dele por cima dos próprios ombros e se levantou, amparando o peso dele e caminhou a passos curtos para dentro do quarto. O rastro de sangue atrás deles foi, pouco a pouco, lavado com a chuva que em nenhum momento parou de cair.

—---

Maroo sabia que podia morrer, mas ele não podia fazer mais nada além de confiar em seus instintos que lhe diziam ter muitas mais chances de viver pedindo ajuda para ela. Ele estreitou os olhos tentando manter-se desperto. Apesar de seu corpo estar quase congelado, sua mente funcionava a todo vapor, prestando atenção em tudo ao seu redor. Conseguiu identificar pouco, paredes pintadas de azul e alguns móveis, mas nada que o levasse a pensar que houvesse perigo.

Andando lentamente, Elina pensou no melhor local para acomodá-lo, concluindo que não havia nenhum além de sua cama.

— Eu vou colocar você na cama. Consegue me entender? — Elina falou, olhando para o rosto dele.

— Sim.

Ao chegarem à cama, Elina virou de costas para ela junto com Maroo e desceu um pouco, soltando o braço do homem de seus ombros. Ele caiu sobre o colchão e ela se equilibrou para não ir junto, e só então pôde olhar claramente para o corpo dele.

Podia ver a pele morena por debaixo do sangue rosado, por estar diluído. Ao percorrer o olhar sobre seu torso ela viu uma grande mancha escura no abdômen que não cheirava bem, mas pelo menos não sangrava. Sentiu um arrepio desagradável ao perceber que era uma ferida muito infeccionada.

— O que houve com você?

Maroo escutou a pergunta da mulher e gemeu numa tentativa de resposta. Ele apenas conseguia sentir o tecido macio embaixo de si e sabia que estava desorientado, pois a única sensação que ele conseguia identificar era o formigamento na ponta dos dedos. Maroo sabia que perdera muito sangue, visto que seu corpo não mais respondia aos estímulos.

— Não se sente, você está uma bagunça. Você foi baleado?

Maroo inspirou fundo e balançou a cabeça em negação. A expressão dela se aliviou.

— Qual o seu nome?

Ele reuniu suas forças e conseguiu responder uma sílaba por vez entre as respirações. — Ma-roo.

Elina franziu as sobrancelhas em estranhamento ao nome. — Sou Elina Alaster. Vou buscar coisas para te ajudar. — Ela andou rapidamente até o banheiro, pegou o kit de primeiros socorros e vários panos molhados e voltou para perto de Maroo, sentando-se numa cadeira ao lado dele. Em momento algum ele se mexeu, olhando fixamente para o teto, letárgico.

— Vou limpar com um pano. Pode doer um pouco. — Ela não esperou consentimento dele e pôs-se a realizar a tarefa.

De forma firme, porém sem tentar machucá-lo mais, Elina limpava o ferimento de Maroo. Ele mantinha os olhos fechados e semblante calmo, mas ela sabia que era devido à inercia causada pela dor. Após a limpeza ela conseguiu ver melhor o ferimento e segurou o fôlego. Havia cinco cortes, aparentemente não profundos, mas irregulares e antigos. Parecia como se houvessem começado a cicatrizar, mas então tivessem sido cortados por cima da nova carne várias vezes; nunca dando chance do corpo se recuperar. As bordas dos cortes estavam arroxeadas e pontinhos amarelos podiam ser vistos.

— O que fizeram com você? Deve estar doendo muito. — Ela não conseguiu evitar o comentário. Pensou pesarosa que alguém provavelmente se divertiu torturando-o.

Maroo escutou sua pergunta, mas o significado era desconhecido. Ele beirava entre a consciência e inconsciência, e só conseguia sentir um cheiro forte de rosas. Os instintos que lhe deixaram alerta, pouco a pouco também se esvaíam.

Elina resolveu ir à busca de mais machucados. Desceu um pouco o cós das calças e não viu nada além de arranhões. Foi para as pernas e subiu as calças até às coxas e viu um hematoma enorme no joelho esquerdo, como se houvesse sido golpeado com alguma coisa de metal. Ela não sabia o que fazer. Como ela iria ajudá-lo? O que ela poderia fazer para evitar que ele morresse? Ele poderia morrer de infecção se não fizesse nada. Ela simplesmente não sabia o que fazer. Levou a mão ate o rosto pálido dele e sentiu a pele extremamente fria.

— Hipotermia. Calor. Ele precisa ficar quente.

Ela imediatamente pegou o interfone e chamou a cozinha. Após alguns toques, a voz conhecida atendeu.

— Sim, senhorita Elina?

— Ainda bem que é você, Carmen. Eu preciso de um favor enorme e só você pode fazer isso. É segredo, entendeu? Você não pode falar a ninguém. Você entendeu?

Após alguns instantes de silêncio na outra linha, a mulher respondeu com a voz sussurrada.

— Você sabe que pode confiar em mim para tudo. O que houve?

— Você pode trazer para mim várias bolsas térmicas e água quente? Eu também preciso de gelo. Traga lençóis novos e grossos. Eu preciso de analgésicos, antibióticos e anti-inflamatórios. Traga muita água para beber e pegue algumas calças masculinas para empregados. E pelo amor de Deus, Carmen, ninguém pode saber disso!

— O que...

— Não pergunte e faça.

Elina desligou o telefone e pegou uma toalha seca no banheiro. Olhou para Maroo em cima de sua cama e hesitou por apenas alguns segundos antes de fazer o que era necessário.

— Quente. Ele precisa ficar aquecido.

Ela usou a tesoura do kit para cortar fora a calça de Maroo completamente e então começou a enxugar todo seu corpo com a toalha, se esforçando para ignorar sua nudez. Após terminar de enxugar seu corpo, Elina foi para o rosto machucado e deslizou delicadamente o tecido ali. Nos lábios cortados, ela apenas encostou; mas percebeu alguma coisa pontuda. Não resistindo a curiosidade, usou o polegar para descer um dos cantos do lábio inferior do homem e viu presas.

Ela soltou a boca dele e deu um pulo para trás.

O quê?

Era impressão sua ou o homem tinha os dentes molares extremamente proeminentes? Aproximou-se e afastou novamente o lábio inferior, vendo ali duas presas. Engoliu seco e então afastou o lábio superior. Mais duas.

Ou Maroo fez um implante dentário ou ele não era humano.

Após alguns instantes em choque Elina balançou a cabeça e resolveu deixar isso de lado. No momento precisava focar em deixá-lo vivo. Após isso, ela poderia perguntar tudo o que quisesse.

Prosseguiu enxugando os cabelos, espremendo de leve os fios vermelhos. A toalha outrora branca estava tingida de rosa claro e cheirando a sangue, mas o homem estava seco na medida do possível. Elina cobriu a parte inferior do corpo de Maroo com uma coberta e, com outra, ela cobriu parcialmente seu torso e pescoço, deixando exposto apenas o abdômen ferido. Banhou um algodão com álcool e pôs-se a limpar os ferimentos de faca.

— Por sorte você está desmaiado. Isso iria doer muito.

Ela limpou os cortes na barriga e depois todo corte menor que via no restante do corpo com álcool. Concentrou-se nesta tarefa até que escutou batidas na porta.

— Senhorita, é Carmen. — A voz da empregada outrora no telefone soou atrás da porta.

— Pode entrar.

Uma mulher de cabelos pretos, pele branca com vestes de empregada abriu a porta e entrou no quarto trazendo um carrinho coberto. Mas quando Carmen olhou para o quarto, ficou chocada. “Um homem estava dormindo na cama da senhorita da casa Alaster”. Um homem de cabelo vermelho, musculoso, cheio de machucados e pelado.

— Feche a porta — Elina disse e colocou o dedo indicador sobre os lábios, indicando silêncio.

Carmen engoliu seco e assentiu, fazendo como pedido. Sem pensar duas vezes, ela sabia que poderia esconder esse segredo e qualquer outro para proteger Elina.

— Preste atenção — Elina falou, olhando diretamente para o rosto de Carmen. — Eu realmente preciso da sua ajuda aqui.

Carmen assentiu temerosa. — Certo.

— Você não pode falar para qualquer pessoa. Ele tem pus nos cortes na barriga e nós precisamos cuidar disso.

Elina olhou mais uma vez para o homem antes de tornar a olhar para a empregada.

— Ele vai morrer, entendeu? Eu não sei quando ele se machucou, mas ele está muito frio e sangrou muito. — Após ouvir Elina falar, Carmen finalmente percebeu a quantidade de panos totalmente sujos de sangue no chão do quarto. Sentiu um calafrio subir-lhe pela espinha. — E ele só tem a nós.

Elina olhou determinada para a mulher na frente dela. Se Carmen resolvesse gritar e chamar os seguranças, tudo havia acabado ali e Maroo, que ela de forma completamente incoerente quis salvar, seria preso ou morreria. Ela também teria que dar satisfações a seu pai e novamente ele duvidaria da sanidade dela. Ela não estava pronta para isso. Elina não queria. Mas confiava que Carmen não iria fazê-lo. Era a única empregada da casa que não devia fidelidade a seu pai; ela havia sido contratada por causa de Elina e não Eliot. Poderia arriscar.

Depois de alguns segundos em silêncio, Carmen finalmente reagiu.

— Senhorita, eu vou ajudar. Eu devo a você — ela falou e retirou a coberta do carrinho, exibindo todos os itens pedidos em recipientes de vidro fumê. — Mas se isso der errado, eu estou ferrada.

Elina sorriu de forma sarcástica.

— Nós estaremos ferradas. Vamos. — Ela se levantou da cadeira e se curvou no carrinho, abrindo todas as caixas.

A loira segurou duas injeções. Conforme as etiquetas, antibiótico e anti-inflamatório. Seu coração estava tão acelerado que ela sentiu que poderia entrar em pânico; tentando ignorar todas as sensações e a surrealidade da situação, ela virou Maroo de lado. — Segure-o nesta posição.

Carmen foi para o outro lado da cama, subiu e usou as duas mãos para mantê-lo de lado, expondo os glúteos dele para Elina. A empregada abriu a boca em surpresa.

— Hm... Senhorita... Você vai realmente fazer isso? Quer dizer...

Elina crispou os lábios. — Não tire minha concentração! Eu realmente não sei o que estou fazendo aqui.

Carmen simpatizou pela situação. Percebendo-a tensa, tentou confortar Elina da única forma que sabia fazer. — Ele tem uma bunda bonita?

— Fala sério, Carmen! — Apesar de responder de forma malcriada, as bochechas brancas de Elina coraram levemente. — Eu prefiro você chocada.

— Não dá pra fazer no braço ou algo assim?

— Eu nunca apliquei no braço. — Elina inspirou, limpou o local com um algodão com álcool e aplicou a primeira injeção. Após a aplicação, pressionou o local com o algodão por alguns segundos. — Terminei aqui. Anti-inflamatório agora.

Elas inverteram de posição e o outro glúteo de Maroo tornou-se exposto para Elina, com Carmen apoiando o outro lado.

— Isso é meio injusto. Quero dizer, ele está desacordado, é bonito e você viu a bunda dele toda. — Um momento de silêncio se fez, com Elina limpando o local de aplicação. — Dá para considerar isso um assédio?

Elina bufou. — Já aplicou alguma injeção?

— Na realidade não.

— Então não me enche.

Carmen deu de ombros e Elina prosseguiu com a aplicação da última injeção. Após voltar a deitar Maroo na cama, Elina cruzou o quarto até a mesa, onde estava o celular.

— Enrole ele de todas as formas possíveis com os cobertores. Depois disso coloque as bolsas térmicas em cima. Ele precisa ficar quente.

— Tenho certeza que ele já é. — Carmen respondeu com um sorriso malicioso que Elina resolveu prontamente ignorar.

Carmen seguiu as instruções e não pôde evitar perceber como a pele dele era queimada, como se fosse alguém que levou sol todos os dias de sua vida. Provavelmente deveria ser um trabalhador das montanhas. Mas devido aos cabelos vermelhos, provavelmente um bandido também. Na cabeça de Carmen não fazia sentido nenhum Elina, a senhorita da casa Alaster, abrigar um bandido ferido em sua cama e arriscar-se para cuidar dele. Enquanto passava os cobertores por debaixo do corpo dele para evitar que ficassem em contato com o colchão úmido, ela viu Elina em pé assistindo a alguma coisa no celular.

Foi então que Carmen percebeu.

Elina Alaster estava se movimentando livremente e fora da cadeira de rodas. Ela estava de pé em plena faculdade física. Como, raios, isso é possível? Elina não conseguia andar livremente desde os 15 anos de idade depois daquele acidente. Fazer qualquer coisa rápida ou brusca demais doía muito e ela sempre mancava. Como ela poderia se movimentar daquela forma?

E Carmen concluiu que, provavelmente, Elina nem devia ter notado qualquer coisa disso por causa da situação absurda, com a adrenalina alta em seu corpo. Suspirou, engolindo seu choque e continuando a cuidar do homem, guardando as perguntas para depois.

Elina estava buscando na internet como remover pus de uma ferida. Já havia conseguido encontrar uma cena de um filme, ou seja, uma fonte completamente duvidosa, em que uma pessoa removia o pus debaixo da pele conforme orientações de um médico por telefone, no meio do deserto.

— Isso vai ter que servir — falou para si mesma, como se estivesse se consolando.

Não era possível chamar a emergência hospitalar para Maroo. Restavam apenas Elina e sua determinação e agora, Carmen, para fazer as coisas darem certo. Elina foi até a cama e viu que a mulher havia feito conforme ela pedira. Maroo estava coberto e aquecido dos pés a cabeça por exceção do abdômen ferido. Ela vestiu as luvas, desinfetou-as com álcool e segurou a lâmina de bisturi.

— Eu vou ter que remover o pus da ferida, Carmen. Está muito infeccionada para sarar sozinha... Vou ter que espremer tudo.

Carmen contorceu o rosto em nojo.

— A senhorita está muito determinada para tratar de um desconhecido.

Elina fez uma careta tensa.

— Provavelmente Eliot está certo e eu sou louca. — Ela inspirou e expirou três vezes. — Vamos ver se eu tenho talento para ser médica.

A jovem Elina não poderia fazer nada; sua mente estava completamente focada em salvar aquele homem. Não havia lógica naquilo. Simplesmente parecia certo fazer todo o possível. O coração dela batia com força contra o peito e sentia os pés formigarem devido ao medo. Caso fizesse qualquer coisa errada, ele poderia morrer.

Não posso deixá-lo morrer.

Então, ela começou. Primeiro usando um bisturi para remover o pus para depois limpar e cobrir o ferimento. Carmen observava Elina realizar todo o procedimento sozinha, completamente estupefata. Raios, aquela menina frágil realmente tinha coragem.

Um trovão soou e Carmen institivamente olhou para a varanda, vendo que a porta estava aberta e a chuva entrava sem pena no quarto. Havia um rastro rosa de sangue no chão que ia até a cama. Só então pareceu notar como Elina estava: trajava um vestido branco que estava ensopado e manchado de sangue e a pele estava mais pálida que o normal. Combinava com todo aspecto de filme de terror que o ambiente tinha, e não pôde evitar se sentir assustada. A senhorita da casa parecia... fora de si.

Mesmo que Elina Alaster realmente estivesse louca, Carmen não deixaria ninguém saber. Se aquele homem fosse um perigo, ela lidaria com tudo.

Elina fez um curativo simples em cima do corte tratado e só então olhou para o rosto do homem, respirando aliviada. Maroo ficaria bem em alguns dias. Ele havia sido medicado, seu ferimento limpo e agora o corpo dele deveria estar na temperatura correta. Ela encostou o dorso da mão na bochecha dele e sentiu-o extremamente quente.

Agora ele tem febre.

Sentiu o pânico se instalar no peito e quando abriu a boca para falar, não conseguiu. Engoliu seco e tentou falar mais uma vez sem sucesso. Ela respirava superficialmente e o peito martelava com força. Segurou o pescoço com ambas as mãos se sentindo sufocada. Ela iria desmaiar e Maroo iria morrer. Morrer. Morrer.

Elina avistou Carmen, que a encarava com uma expressão chocada, mas se distraiu quando viu o sangue. Havia tanto sangue. Lágrimas escorriam dos olhos azuis e o ar parecia fugir de seus pulmões.

— O que está acontecendo comigo? — Finalmente ela conseguiu perguntar. Então ela olhou para baixo e percebeu que estava em pé. — Eu... Quanto tempo estou de pé?

— Elina?

Ela ouviu a voz de Carmen distante, mas não conseguiu responder. Olhou grogue para Maroo e cambaleou para trás, sendo amparada pela empregada de cabelos negros.

— Eu estou aqui. Calma. Vai ficar tudo bem.

Carmen levou uma Elina cambaleante até o outro lado da cama e fê-la deitar poucos centímetros ao lado de Maroo. Elina encarava Carmen de forma doente, de repente se sentindo muito fria.

— Vai ficar tudo bem.

Carmen foi a última coisa que Elina ouviu antes de desmaiar.

—---

Elina acordou de supetão. A sensação era de ressaca, mas ela não se demorou muito pensando em como se sentia quando percebeu Maroo dormindo do outro lado da cama.

— Oi, você apagou. — A voz de Carmen surgiu do outro lado do quarto e Elina virou a cabeça para encará-la.

— Acho que me lembro — Elina respondeu. — Quanto tempo eu dormi?

— Em torno de duas horas.

Elina jogou a mão sobre o rosto e olhou para o teto, num outro suspiro resignado. Sinceramente, até eu estou começando a duvidar da minha sanidade.

— Por que você fez isso, Elina? O que ele está fazendo aqui? Como isso aconteceu?

— Eu não sei, Carmen. Eu só... eu só não podia deixá-lo sozinho.

— Ele é seu conhecido?

— Nunca vi mais estranho.

— Você sabe que isso não tem sentido, não é? Um homem estranho invadiu sua casa, seu quarto e sua reação é ajudar? E se ele machucasse você?

Elina silenciou por segundos que pareciam cumpridos demais para serem insignificantes. Olhos carmesins vieram em sua memória, e a forma como ele parecia precisar de sua ajuda...

— Ele nunca faria isso.

— Você não sabe.

— Ele provavelmente não faria isso — ela se corrigiu, de repente menos segura.

Era completamente impossível explicar para Carmen o motivo de ter confiado nele. Na verdade, nem a própria Elina entendia.

— Como foi que você arrastou sozinha um homem deste tamanho, hein?

Elina olhou confusa por alguns instantes para Carmen, até que finalmente lembrou. Havia deixado a cadeira de rodas na varanda quando ela o trouxe para dentro do quarto. Como isso era possível? Ela sentia dor nas costas sempre que aplicava algum esforço físico. Muitas vezes, mesmo parada, a dor aparecia e os remédios apenas conseguiam aliviar um pouco. Ela mal andava por causa disso. Por dez anos foi assim. Como, sem nenhum preparo físico, ela conseguiu?

— Elina, você está ficando pálida. Calma. — Carmen se aproximou e segurou as mãos da loira de forma amigável. — Você vai ter outro ataque de pânico. Você deve ter ficado tão chocada e tão fora de si que seu corpo reagiu dessa forma. Por isso que você desmaiou também, lembra? Foi adrenalina.

O que Carmen falou parecia correto. Ela teve todos os sintomas de sobrecarga de adrenalina: as mãos formigando, o coração palpitando, a sobrecarga sensorial e os instintos afiados. Ela havia praticamente salvado a vida de um homem sozinha sem nenhum preparo para isso.

— Adrenalina, isso faz sentido.

— Mas ainda temos que contar ao seu médico, — Carmen continuou, apertando as mãos da mulher. — Isso pode ter sido a coisa mais próxima da cura que tivemos em dez anos.

— Então foi uma coisa boa ele ter vindo. — Ela suspirou.

Carmen soltou as mãos de Elina num muxoxo.

— Então, o que você quer fazer? Agora você está grata a ele por ter te trazido problemas? Não faz sentido, Elina.

Ela deu de ombros.

— Eu não vou abandoná-lo.

— Claro que você não vai — Carmen respondeu ironicamente enquanto ajeitava a saia.

— Eu acho que seria melhor deixá-lo aqui no meu quarto em vez de outro lugar. O que você pensa sobre isso?

— Eu acho melhor deixá-lo na polícia...

— Carmen, por favor, não.

Carmen suspirou e escondeu o rosto na palma da mão.

— As empregadas têm acesso ao seu quarto só se você deixar... O quarto de estudos é mais impessoal e de livre acesso, a não ser que você emita uma ordem que proíba qualquer um entrar lá além de você. E mesmo que você faça isso, é algo a ser questionado. Por que proibir a entrada numa sala de estudos?

Elina pensou por alguns instantes antes de responder.

— Vamos deixá-lo aqui, então.

— E seu pai?

Elina deu de ombros.

— Eu realmente não pretendo que ele esteja aqui quando meu pai chegar. Isso vai demorar algumas semanas ainda.

Carmen acenou.

— Eu ainda não concordo e dificilmente aceito. Eu me preocupo, você é minha amiga. Como você vai ficar aqui?

Elina sorriu, deliciada pela declaração.

— Obrigada, Carmen, você é minha amiga também. Conto com você para não me deixar ficar mais louca.

Carmen sorriu, meio conformada, meio irritada.

— Você realmente não tem jeito. Eu realmente espero que esse homem não seja alguém ruim.

— Pode ter certeza que ele não é.

Carmen balançou a cabeça negativamente enquanto puxava o colchão sobressalente que ficava guardado na armação da cama. Não era tão confortável quanto a cama, mas diante das circunstâncias, serviria.

— Como você não faz sentido, pelo menos use esse colchão para dormir.

Elina assentiu.

— Eu vou tentar me manter alerta. — Ela abriu a gaveta do criado mudo ao lado da cama e retirou de lá um revólver e munição. Montou-os e por fim, pegou o coldre, encaixou o revólver nele e amarrou na parte superior da coxa, por debaixo do vestido. — Vou realmente ficar alerta.

— Você vai deitar armada? E se atirar em si mesma acidentalmente?

Uma sobrancelha de Elina arqueou.

— Você acha que sou imbecil?

Carmen não respondeu.

— Você precisa de ajuda para mudar para o colchão?

— Não.

Carmen assentiu, entendendo a mensagem.

— Mesmo assim, cuidado, Elina. Por favor. Eu venho na mesma hora se você me chamar.

— Não se preocupe.

— Qualquer coisa pode me chamar mesmo. — Ela enfatizou a última palavra. — Eu venho sozinha.

— Pode ir.

— Volto em algumas horas.

A mulher de cabelos negros se curvou em despedida e saiu do quarto em passos lentos, apagando a luz ao sair. Apenas o abajur ao lado de Elina ficou aceso e o quarto escureceu numa penumbra calmante. A chuva já havia passado e apenas o frescor agradável do outono podia ser sentido e o cheiro da noite ainda preenchia o ambiente devido a sacada outrora aberta. No quarto já não havia marca nenhuma de sangue e tudo estava tão calmo como sempre foi, por exceção da respiração compassada de Maroo.

Ela voltou a se deitar na cama e virou o corpo de lado, olhando para o homem dormindo. Os cabelos incrivelmente vermelhos estavam num emaranhado bagunçado pelo travesseiro. O corpo machucado parecia relaxado, com a respiração calma levantando e afundando seu enorme peito. O curativo parecia bem colocado ali no abdômen, sem nenhuma mancha de sangue na gaze.

Elina levou a mão e encostou, com suavidade, no rosto dele. Estava quente, mas não tanto quanto antes.

— O que fizeram com você? Por que está tão machucado? — A pergunta dela foi sussurrada. Teria que esperar até ele acordar para que pudessem conversar. Ao mesmo tempo, não estava certa se queria saber a resposta.

Notas finais
Capítulo editado em 17/04/2018.