My old friends

1 Um Estranho na Noite


Chovia naquela noite, uma chuvinha fina e murmurante. Matt podia ouvi-la, como se minúsculos dedinhos estivessem batendo em sua janela. Um cão latia em algum lugar da escuridão e, por mais que se virasse de um lado para o outro, Matt não conseguia dormir.

Como a chuva não o deixava dormir, ele se sentou e esfregou os olhos. Decidiu que iria até a cozinha tomar um copo de chocolate quente, na esperança de que o sono viesse. A luz havia acabado e não voltara nos últimos dois dias. Matt se levantou, pegou um velho e torto castiçal com uma vela meio derretida sobre seu armário e uma caixa de fósforos na gaveta. Riscou o frágil palito em sua caixa prendendo o castiçal sob o braço. Estava justamente encostando o fósforo aceso no pavio já queimado da vela quando ouviu passos lá fora. Assustado, Matt apagou o fogo com um sopro, ajoelhou-se em frente à janela molhada pela chuva e olhou para fora. Foi então que ele o viu.

A chuva dava à escuridão um tom esbranquiçado, e o estranho quase não passava de uma sombra. Somente seu rosto, virado na direção de Matt, brilhava lá embaixo. Os cabelos estavam grudados em sua testa molhada. A chuva o encharcava, mas ele parecia não se importar. Estava imóvel, os braços em volta do peito, como se dessa maneira pudesse se aquecer ao menos um pouco. Assim, ele olhava para a casa de Matt.

"Preciso acordar o Edd!", Matt pensou. Porém, continuou ali, com o coração aos pulos, os olhos fixos na noite, como se o estranho o tivesse contagiado com a sua imobilidade. Repentinamente, ele virou o rosto e Matt teve a impressão de que olhava diretamente em seus olhos. Matt levantou, recuou e correu pelo corredor escuro. Estava frio, seus pés descalços tinham a sensação de pisar em gelo em contato com os degraus de madeira.

A porta do quarto de Edd estava entreaberta, onde notava-se uma claridade. Era comum ele ficar desenhando até altas horas da noite. Quando Matt tinha pesadelos, ia refugiar-se junto dele. Não havia nada melhor para fazê-lo adormecer novamente do que um abraço confortável, um gole de Cola, a respiração calma de Edd ao seu lado acompanhada do som baixo dos riscos do lápis no caderno. Nada espantava mais rápido os sonhos ruins do que as ideias animadas dos desenhos maravilhosos de Edd.

Mas a figura na frente da casa não era um sonho.

O caderno de desenho que Edd usava naquela noite tinha uma capa dura verde-claro. Havia uma vela de sete dias acesa próxima a cabeceira da cama de Edd, iluminando o esboço que ele traçava com calma com um lápis grafite HB no papel branco e fino.

— Edd, tem alguém lá fora!

Edd ergueu o rosto e olhou para Matt com uma expressão ausente, como sempre fazia quando ele o interrompia em sua arte. Sempre demorava alguns instantes até que ele voltasse completamente do seu mundo de ideias.

— Alguém aqui? Você tem certeza?

— Tenho. Ele está olhando para a nossa casa.

Edd pôs o caderno de lado.

— Você assistiu algum filme de terror antes de dormir?

Matt franziu a testa.

— Edd, por favor! Venha comigo.

Edd não estava acreditando, mas foi atrás dele. Matt o puxava com impaciência pela manga do pijama.

— Ele está plantado ali fora. — sussurrou Matt enquanto puxava Edd para o sótão.

— Ele tem uma cara peluda? Se tiver, pode ser um lobisomem.

— Para com isso! — Matt encarou Edd com uma expressão séria, embora as brincadeiras dele espantassem seu medo. Ele próprio quase já não acreditava mais na figura lá fora na chuva... até aproximar-se da janela. — Ali! Está vendo?

Edd olhou para fora através das gotas de chuva que continuavam a escorrer no vidro e não disse nada.

— Você não prometeu que nunca um ladrão viria aqui porque não há nada para se roubar? — sussurrou Matt.

— Não é um ladrão — Edd respondeu, mas estava com uma expressão tão séria quando se afastou da janela que o coração de Matt começou a bater ainda mais depressa. — Volte a dormir, Matt. A visita é para mim.

E então Edd já não estava mais no quarto, antes mesmo que Matt pudesse ter perguntado que visita podia ser aquela para aparecer daquele jeito no meio da noite. Aflito, ele foi atrás de Edd.

No corredor, ouviu Edd soltar a corrente da porta e, quando chegou ao fim dos degraus, Matt viu-o parado em frente a porta aberta.

A noite escura e úmida entrou na casa, e o barulho da chuva soou alto e ameaçador.

— Tom! — exclamou Edd para a escuridão. — É você?

Tom? Que nome era aquele? Matt não conseguia se lembrar de tê-lo ouvido alguma vez, mas assim mesmo lhe parecia familiar, como uma lembrança muito antiga que não queria tomar forma definida.

Por alguns instantes, tudo permaneceu quieto lá fora. Somente a chuva caía, murmurando e sussurrando, como se de repente a noite tivesse adquirido voz. Então Matt ouviu passos se aproximarem da casa, e o homem que estava na rua emergiu da escuridão. O moletom azul que ele usava estava grudado em seu corpo, encharcado de chuva, e quando o estranho apareceu na luz da frente da casa, por uma fração de segundo Matt se sentiu tonto com a escuridão nos olhos vazios do homem.

Tom passou a manga no rosto molhado e estendeu a mão para Edd.

— Como vai, Edd? — ele perguntou. — Há quanto tempo!

Edd apertou a mão estendida, com hesitação.

— Muito tempo — ele disse, passando os olhos pelo visitante, como se esperasse ver atrás dele mais uma figura surgir do meio da noite. — Entre, você vai acabar pegando uma pneumonia. Matt disse que você já está aí fora há um bom tempo.

— Matt? Ah, é claro.

Tom deixou que Edd o conduzisse para dentro da casa. Então ele olhou tão demoradamente para Matt que este se sentiu desconfortável, sem saber para onde olhar.

— Ele ficou aqui com você, então.

— Isso te incomoda?

— Não.

Matt notou que Edd deu duas voltas com a chave.

— Faz quantos anos que não nos vemos?

Tom sorriu para Matt. Era um sorriso estranho. Matt não conseguia definir se era sarcástico, desdenhoso ou simplesmente tímido. Não retribuiu o sorriso.

— Seis — respondeu Edd.

— Seis? Minha nossa!

Tom tirou os cabelos encharcados da testa. Eles quase chegavam aos seus ombros. Matt perguntou-se de que cor seriam quando estivessem secos. Ao redor da boca de lábios finos, sua barba por fazer era castanha, rala como a primeira barba de um rapaz.

— Seis anos — ele repetiu. — É claro. Naquela época eu tinha... Dezenove, não é mesmo?

Edd confirmou com a cabeça.

— Venha, vou lhe dar uma roupa seca. — Ele levou o visitante consigo, impaciente, como se tivesse pressa em escondê-lo de Matt. Disse a ele, por cima dos ombros: — E você vá dormir, Matt.

Então, sem mais uma palavra, Edd fechou a porta do seu quarto atrás de si.

Matt ficou ali, esfregando as mãos frias uma na outra tentando aquecê-las. "E você vá dormir, Matt." Às vezes, quando era muito tarde, Edd o levantava e o jogava na cama como um saco de farinha. Outras vezes ele lhe fazia cócegas até que, já sem fôlego de tanto rir, Matt se refugiava em seu quarto. E algumas vezes estava tão cansado que se esticava no sofá, e Edd lhe fazia um chocolate quente com marshmallows e o acompanhava até a porta. Mas nunca, nunca ele mandara Matt para a cama daquele jeito.

Um pressentimento impregnado de medo espalhou-se em seu coração: o de que, com aquele desconhecido, cujo nome soava estranho e mesmo assim familiar, algo ameaçador tivesse invadido sua vida. E Matt desejou, com tanto fervor que ele próprio se assustou, que Edd não tivesse aberto a porta e que Tom tivesse ficado lá fora até que a chuva o arrastasse para longe.

Quando a porta do quarto se abriu novamente, Matt levou um susto.

— Mas você ainda está aí! — disse Edd. — Vá dormir, Matt. Vá!

Na sua testa havia uma pequena ruga que somente aparecia quando Edd estava realmente preocupado com alguma coisa. Nessas ocasiões ele olhava para Matt como que sem vê-lo, como se em pensamento estivesse em um lugar totalmente diferente. O pressentimento ruim cresceu e abriu suas asas negras no coração de Matt.

— Mande ele embora, Edd! — ele disse, enquanto era empurrado para o quarto. — Por favor! Eu não quero ele aqui!

Edd encostou-se na porta aberta do quarto.

— Amanhã, quando você acordar, ele já vai ter ido embora. Eu juro.

— Você jura? Sem cruzar os dedos?

Matt olhou firme nos olhos dele.

— Sem cruzar os dedos — ele disse, erguendo as duas mãos como prova.

Então Edd fechou a porta atrás de si, embora soubesse que Matt não gostava disso. Matt encostou a orelha na porta. Ouviu a louça tilintar. "Ah, o senhor olhos-pretos vai ganhar um chocolate para se aquecer. Tomara que ele pegue pneumonia" pensou Matt. Bem, ele não precisava morrer. Matt ouviu novamente o tilintar da louça e a porta do outro cômodo se fechando.

Matt esperou alguns segundos por precaução, o que foi bastante difícil. Então, pé ante pé, voltou para a porta de Edd. Agora procurava entender as palavras sussurradas e quase incompreensíveis trocadas pelos dois homens atrás daquela porta.

— Não o subestime! — ouviu Tom dizer. — Ele faria qualquer coisa para obtê-lo! E acredite, qualquer coisa quer dizer qualquer coisa!

— Eu não vou me entregar. — Esse era Edd.

— Mas ele vai acabar conseguindo de uma forma ou outra! Ouça, vou repetir mais uma vez: estão no seu encalço.

— Não é a primeira vez. Até agora sempre consegui despistá-los.

— Ah, é? E por quanto tempo você acha que isso ainda vai funcionar? E o Matt? Vai me dizer que ele gosta de ter a memória apagada toda hora? Acredite, eu sei do que estou falando.

Atrás da porta ficou tão silencioso que Matt quase não se atrevia a respirar, de medo que os dois homens pudessem ouvir.

Então Edd falou outra vez, hesitante, como se encontrasse dificuldade em formar as palavras.

— E o que... devo fazer, na sua opinião?

— Venha comigo. Eu o levarei até eles. — Uma caneca de vidro tilintou. Uma colher caiu no chão. Como os pequenos barulhos ficavam altos no silêncio. — Você sabe que Tord ainda te considera, ele ficaria feliz se você contribuísse por vontade própria!

Tord. Mais um nome esquisito. Tom o pronunciara como se o som pudesse morder sua língua. Matt mexeu os dedos, que ainda estavam gelados. O frio subiu até o vão entre seus olhos e, embora não entendesse muito do que os dois homens diziam, ele tentava gravar cada palavra.

No quarto, reinava o silêncio novamente.

— Não sei... — Edd finalmente disse. Sua voz soou tão cansada que Matt sentiu um aperto no peito. — Preciso pensar. Quando você acha que estarão aqui?

— Logo.

A palavra caiu como uma pedra pesada em um lago.

— Logo — repetiu Edd. — Pois bem. Então decidirei até amanhã. Você tem onde dormir?

— Ah, dá-se um jeito. Já estou me virando bem, embora tudo ainda continue muito rápido para mim — respondeu Tom, dando uma risada que não parecia alegre. — Tantas coisas aconteceram e, ter que recorrer a você naquele último telefonema foi muito... exaustivo, psicologicamente. Mas eu gostaria de saber o que você decidiu. Tudo bem se eu voltar amanhã? Lá pelo meio-dia?

— Claro. Vou sair do trabalho no meu intervalo às dez e meia. Venha depois.

Matt ouviu uma cadeira ser empurrada. Mais do que depressa, correu de volta pelo corredor e pela escada. Quando a porta de Edd se abriu, Matt havia acabado de fechar a porta do próprio quarto. Deitou-se na cama, puxou o cobertor até o nariz e ouviu Edd se despedir de Tom.

— Mais uma vez, obrigado por me avisar! — ele o ouviu dizer.

Então os passos de Tom foram se distanciando, lentos e entrecortados, como se ele hesitasse em prosseguir, como se não tivesse dito tudo o que queria.

No entanto, ele se foi, e apenas a chuva tamborilava com seus dedos molhados na janela de Matt.

Quando Edd abriu a porta do quarto, Matt fechou os olhos depressa e tentou respirar devagar, como se estivesse em um sono profundo. Mas Edd não era bobo. Às vezes, ele era terrivelmente esperto.

Edd levantou o cobertor quente de Matt e tocou-lhe os pés ainda frios.

— Eu sabia — ele disse. — Você estava espionando. Você não pode fazer o que eu digo pelo menos uma vez?

Com um suspiro, Edd pôs o cobertor de volta.

Sentou-se na cama, passou as mãos no rosto cansado e olhou pela janela.

— Não entendi nada do que vocês falaram — Matt murmurou.

— Ótimo.

Edd olhava para fora como se Tom ainda estivesse na rua. Então levantou-se e foi até a porta.

— Tente dormir mais um pouco — ele disse.

Mas Matt não queria dormir.

— Quem era esse Tom?

Edd não respondeu.

— E o outro, o que está atrás de você... eu ouvi quando Tom falou... Tord. Quem é?

— Ninguém que você precise conhecer. — Edd não se virou. — Você não disse que não tinha entendido nada? Até amanhã, Matt.

Dessa vez, ele deixou a porta aberta. A luz do corredor batia na cama de Matt e misturava-se ao negro da noite que entrava pela janela. Ele ficou ali deitado, esperando que a escuridão afinal desaparecesse e levasse consigo a sensação de que algo horrível estava para acontecer.

Somente muito depois ele compreendeu que o mal que lhes ameaçava não nascera naquela noite. Ele apenas voltara sorrateiramente.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.