A vida é engraçada, não é?

Eu sempre fui de evitar me apaixonar por melhores amigas, mas por Elena foi impossível. Aquela jovem de cabelos lisos, pretos e compridos, com belos olhos verdes escuros e pele pálida, lábios finos e belos... Ah, que lábios! Que sempre que eu via tinha um desejo de tocá-los!

Chamo-me Lucas, tenho 17 anos. Eu também tenho cabelos pretos, mas meus olhos são igualmente pretos e minha pele é mais morena. Elena e eu éramos melhores amigos desde pequenos, quando eu a conheci, foi engraçado...

*12 anos atrás*

Eu estava na nova rua onde moraria, tinha apenas 5 anos de idade. Minha mãe, dona Carmem, costumava conversar com nossos novos vizinhos quando nos mudávamos. Fiquei observando na pequena rua sem saída se avistava alguém da minha idade.

Foi quando avistei uma menina da minha idade, porém mais baixa. Ela chutava uma bola de futebol na parede e parecia triste. Olhei para dona Carmem e a mulher antes de correr em disparada até a garota.

- Ei, está triste? — Perguntei.

- Sim... Ninguém quer brincar comigo...

- Eu brinco! — Exclamei. — Sou o Lucas e você?

- E-Elena...

Sorri e peguei a bola de futebol, dando embaixadinhas e fazendo outras coisinhas com o objeto. Mas foi num desses "truques" que acabei chutando a bola na cara dela. Elena estava prestes a chorar quando joguei a bola na minha cara para ela não chorar. A menina não chorou e começou a rir.

*Atualmente*

Naquele momento estava em casa, ouvindo músicas e cantando ao mesmo tempo. Algo normal diga-se de passagem. Já que meus pais trabalhavam eu ficava em casa fazendo coisas aleatórias.

- Tô com saudade de você
Debaixo do meu cobertor
E te arrancar suspiros, fazer amor
Tô com saudade de você
Na varanda, em noite quente
E o arrepio frio que dá na gente, truque do desejo
Guardo na boca o gosto do beijo
Eu sinto a falta de você
Me sinto só

E aí, será que você volta?
Tudo à minha volta é triste
E aí, o amor pode acontecer
De novo pra você, palpite...

- Canta bem hein! — Ouvi alguém gritar do lado de fora da janela.

Abri um pouco das cortinas e deparei-me com minha melhor amiga segurando um guarda-chuva enquanto estava tendo praticamente uma tempestade do lado de fora. Corri para a porta e a chamei, não queria que ela pegasse um resfriado.

- Obrigada por me deixar entrar. — Ela agradeceu, sentando-se no sofá.

- D-de nada...

Elena se virou, me encarando com um olhar do tipo "Por que você tá agindo estranho?". Revirei meus olhos e fui pra cozinha, indo pegar algo pra comer.

- O que anda escondendo de mim? — A jovem de cabelos negros perguntou.

- N-nada...

- Para de gaguejar e fala!

- Elena, não dá... Eu acho...

Ela fez um biquinho. Depois de montar meu sanduíche me aproximei dela e sorri, abraçando-a. Minha amiga riu um pouco, pensei em contar meus sentimentos, mas... E se ela não me amasse...

- Bora fazer um jogo? — Perguntei.

- Ok, qual?

- Cantamos trechos de música um pro outro e temos que adivinhar o nome da música. Se a pessoa errar, la tem que fazer o que o outro pedir.

Ela sorriu assentindo. Pedi para ela começar e logo Elena ficou pensando no que cantar. Enquanto isso, eu comia um pouco. Foi quando a jovem de cabelos pretos sorriu e riu.

- Put on your war paint
Cross walks and crossed hearts and hope-to-dies
Silver clouds with grey lining

- Fácil, é The Phoenix. — Comentei e ela fez uma cara emburrada.

Ri um pouquinho, logo, pensei numa música bem difícil, uma que ela não conhecesse, mas seria uma missão impossível, Elena era muito inteligente e sabia música de quase o mundo todo.

- Você pode me ver
Do jeito que quiser
Eu não vou fazer esforço
Pra te contrariar...

- Tá zoando comigo né? É Rosas!

Fui até a sala e me joguei no sofá, ainda comendo e esperando a jovem indo pra lá. Quando ela chegou, estava esfregando as mãos nos braços, aparentava sentir frio. Andei até Elena e mandei-a subir.

- Deixa eu te emprestar uma blusa. — Comentei, pegando um blusão azul que tinha.

- N-não precisa Lucas... T-tô bem...

- Você tá é morrendo de frio!

Dei o blusão e ela logo corou um pouco, acho que porque havia se esquentado ou porque estava com vergonha. Ri um pouco, colocando algumas mechas de seu cabelo atrás da orelha e colocando o capuz.

- Vamos continuar o jogo? — Elena perguntou.

Assenti, era a vez dela escolher uma música.

- Deus me perdoe por querer
Que Deus me livre e guarde de você

- Fácil, é Reza.

Minha amiga fez uma expressão de raiva, porém, não ia desistir, era cabeça dura demais pra esse tipo de coisa. Fiquei pensando numa música e logo sorri ao lembrar de uma praticamente impossível dela saber.

- They're counting down on the doomsday show
The president, government, running wild
It's written on the wall
A minute to go

- E-eu não sei...

- Era Decadence Avec Elegance só que a Deborah Blando cantando... Você vai me deixar fazer cócegas em você!

Elena arregalou um pouco os olhos, fiquei em cima dela fazendo as cócegas e ouvindo a risada dela. Ah, que risada... Uma risada gostosa de se ouvir como risadas de crianças inocentes, mas acho que era por isso que sua risada era assim, ela era um pouco mais inocente que meninas da nossa idade.

- Hahahahahahaha! P-para! Hahahaha!

- Ok ok... — Comentei. — Sua vez.

- Um vento, um tufão
Uma batedeira sem botão
Foi assim, viu
Me vi na sua mão

Arregalei meus olhos, realmente, eu não sabia o que ela havia cantado. Olhei para os lados na tentativa de disfarçar, porém foi em vão.

- Eba! Agora você tem que me responder: Por que quando estamos perto, você gagueja, cora muito e ainda por cima fica viajando e me encarando diferente?

- B-bem... — Não havia outra maneira senão contar a verdade. — É que eu sinto uma coisa maravilhosa por você, dizem que esse tipo de sentimento é horrível e nos estraga, mas ele é maravilhoso isso sim... A verdade é que te amo e sempre te amei, desde meus 9 anos... Quando cantei no seu aniversário foi meio que pra me declarar...

- E aí, o amor pode acontecer
De novo pra você, palpite... - Ela sussurrou, como se algo encaixasse em sua cabeça.

Elena me encarou, surpresa e um pouco boquiaberta. Ela se aproximou de mim e me abraçou, era uma sensação maravilhosa aquela de senti-la me envolvendo com seus delicados braços que estavam cobertos pelas mangas do meu blusão.

- E eu achei que você nunca sentiria o mesmo que eu sinto por você... Estava enganada...

Não resisti, levantei seu rosto com dois dedos segurando seu queixo e me aproximei lentamente, fechando os olhos devagarinho e encostando meus lábios com os dela, logo pedi passagem, deixando-me explorar sua boca com gosto de chocolate.

É, a vida é mesmo engraçada não?

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!