My life

9 Minha mente não suporta tudo isso


E assim foi feito, cinco dias depois Têmis chegou ao Olimpo para o nosso julgamento. Não falei com ninguém durante quatro dias foi um ato covarde, mas necessário. Eu jamais queria fazê-los serem julgados por Têmis ela é justa com os que estão certos e suas penas para os que erram são sempre as mais cruéis, incluindo o Tártaro. Fiquei trancada no meu quarto, Zeus aparecia por lá de vez em quando e não me dirigia a palavra nenhuma vez, apenas me olhava com um olhar incompreensível. Se com seu silêncio ele queria que eu me sentisse mal ele conseguiu, mas não foi só por ele. Eu destruí aquilo que devia ser a única coisa que ele amava além de Atena, eu destruí a ordem do nosso mundo.

O caminho para a sala dos tronos nunca foi tão curto como naquele dia. Em poucos minutos eu cheguei na sala dos tronos e tive que me sentar. A sala estava completamente diferente naquele dia, haviam apenas três tronos nela – o de Têmis, o de sua ajudante e um que estava no meio da sala que era o meu. Não havia ninguém na lá além de nós três o que significava que ela estava levando aquilo muito a sério e não queria intromissões.

–Hera, agradeço a pontualidade. –Têmis falou ainda sentada em seu trono. –Tive que me livrar de muitos compromissos importantes por você, mas o que interessa é que estou aqui então vamos começar. Scarlet, por favor.

–Hera, deusa do matrimônio e Rainha do Olimpo foi acusada de adultério e por quebrar um juramento pelo Estige. De acordo com o acusador Hera traiu o marido com o cunhado, Poseidon, quebrando o juramento de fidelidade. –Scarlet tinha uma voz extremamente irritante. –Apresente sua defesa.

–Eu não tenho como me defender. Não vou negar que fiz isso, pois seria mentira. Eu realmente traí meu marido com meu cunhado ciente de que estaria quebrando meu juramento.

–Você pode nos explicar o porquê disso? –Têmis pediu com uma curiosidade explicita.

–Por que eu não faria isso? Por anos vivi uma vida desgraçada aqui, tendo que cuidar dos meus problemas de rainha, dos problemas do meu marido irresponsável, tive que aturar deuses rindo de mim por ser A Traída, tive que conviver com o fato de que todas as noites meu marido ia pra cama com uma mulher diferente. Ninguém nunca se preocupou em me perguntar “Tudo bem? Você quer ajuda?”. Eu achei que mereci ser feliz por pelo menos uma semana da minha vida. Eu não me arrependo do que fiz.

–Não se arrepende nem de fazer Poseidon sofrer junto com você? –Scarlet perguntou.

–Poseidon não tem culpa de nada. Ele não fez nada. –Falei um pouco mais alto do que deveria.

–Você realmente gosta de Poseidon? –Scarlet perguntou, ela parecia mais curiosa que a própria Têmis.

–Eu amo Poseidon. Eu sei que comecei a conviver com ele não faz nem um mês, mas nesse pouco tempo ele me tratou melhor do que qualquer um que mora aqui há séculos.

–Acredito que realmente ame Poseidon, mas o amor não justifica tudo principalmente no nosso mundo, espero que entenda. Irei avaliar sua situação agora se retire, por favor. –Têmis falou rispidamente.

Me levantei do trono ao mesmo tempo em que a porta foi aberta. Virei para trás e vi Poseidon sendo escoltado por dois homens da guarda de Zeus. Nossos olhares se cruzaram por um breve instante até Têmis praticamente gritar para que eu me retirasse. Eu saí correndo, mas não sem antes dar uma última olhada nele. Lágrimas secas manchavam seu rosto, seus olhos tristes me olhavam implorando para que eu não o deixasse ali. Em um momento de insanidade eu voltei correndo e o abracei. Eu não queria soltá-lo, queria que aquele momento durasse pra sempre, mas isso não aconteceu. Os guardas tiveram que me arrastar para fora da sala. Fui literalmente jogada pela porta como se fosse um nada.

Corri por todo Olimpo com um único destino em mente. Ignorei a todos no caminho, estava muito perdida pensando em minha vida desgraçada para falar com qualquer um naquele lugar. Desci as escadas correndo ainda mais. Só parei quando senti o cheiro da brisa do mar que só tinha no templo de Poseidon.

O templo de Poseidon era de um tom de azul suave com colunas e arcos. O som de ondas quebrando na praia ecoava por todo o templo. Ninfas brincavam com conchinhas do mar em um canto, distraídas demais para notar minha presença. Caminhei até o trono e me sentei ao seu pé encostando minha cabeça. Lágrimas vieram trazendo memórias de momentos que eu não queria esquecer.

“–Sim, eu amo alguém. Alguém que não deveria. Eu jamais deveria me deixar amar você!”

“–Eu amo você, Hera. Sempre foi você desde o inicio nunca foi Atena, nunca foi Anfitrite. Sempre foi você, Hera.”

Como um simples beijo pode acabar com a felicidade que sentimos naquele momento? Eu nunca seria capaz de pensar que Zeus teria coragem de chamar Têmis. Naquele momento só consegui me amaldiçoar por amá-lo, por destruí-lo, porém todos aqueles pensamentos se esvaíram quando uma das ninfas percebeu minha presença.

–Você pode se sentar no trono, senhora. Isso fará com que ele sinta sua presença.

–Será que ele vai querer senti-la? Eu destruí sua vida. –Falei sem olhar para ela.

–Nós sentimos quando nosso mestre está feliz posso garantir para a senhora que ele nunca esteve tão feliz. Ele vai gostar de senti-la por perto.

–Obrigada... –Eu não sabia seu nome para agradecer.

–Ayla. É sempre um prazer. –Ela fez uma reverência desnecessária e voltou para perto das outras ninfas.

Eu não coloquei muita fé em suas palavras, mas mesmo assim fiz o que falou. Levantei-me do chão e me sentei no trono. Um choque percorreu meu corpo no momento em que me sentei e tive um vislumbre de Poseidon ajoelhado perante Têmis. Lágrimas escorriam pelo seu rosto, porém ele sorriu, seu sorriso era incrivelmente lindo. Depois de poucos segundos minha visão voltou ao trono e sem mais nada para fazer para poder ajudá-lo fiquei sentada ali, até que acabei adormecendo. Eu não estava fisicamente cansada, porém minha mente não aguentava mais funcionar.

Notas finais
Podem me xingar já eu deixo