My boyfriend is a Dragon
8 Cerimônio da carne
Notas iniciais
A festa não era tão diferente do que uma festa humana, Amélia tinha imaginado algo mais medieval ou coisas estranhas ocorrendo, mas de fato os dragões vermelhos agiam tal como humanos, bebendo, dançando, comendo... A não ser por alguns jatos de fogo que eram lançados por alguns membros daquele clã.
–...Então eu comi tanto camarão, mas eu não sabia que era alérgico, aí fiquei todo vermelho e cheio de bolhas! –Tagarelava Pietro ainda nos braços de Alex que suspirava longamente entediado e irritado com aquelas “histórias”. Amélia conteve o riso, aquele garoto é fofo, mesmo que falasse muito, mas era interessante ver como a criança gostava de Alex mesmo que esse nem lhe desse muita atenção.
–Hora da carne! –Gritarem algumas pessoas, gritos e assobios de euforia se propagaram pela a sala.
–Hora da carne? –Perguntou Amélia meio confusa, de fato aquela festa devia ser um churrasco, apesar de até o momento não ter visto um pedaço de carne sequer.
–Está na hora de assar a carne...-Começou a explicar Alex – É costume dos dragões vermelhos que a primeira carne a ser assada seja através do fogo deles.
–Alex! –Uma voz se fez notar na multidão, na verdade depois que ela falou todos se calaram. Um jovem de cabelos ruivos encaracolados, pele morena e olhos cor de mel se aproximou. Amélia conteve um gritinho de surpresa, afinal aquele rapaz estudava na sua escola, era um dos melhores jogadores de basquete e um dos ídolos das adolescentes...
–Tales...-Rosnou Alex.
–Pietro não sei por que você vive ao lado dele...-Falou o rapaz sorrindo com desdém –Talvez por que um fraco reconhece outro...
Pietro se encolheu nos braços de Alex.
–Cala boca Tales... Não é assim que deve tratar o seu irmão mais novo! –Rosnou o jovem dragão negro.
–Ele é meu irmão e não o seu... Eu trato ele como eu quiser!
“Ele não nada parecido com o garoto de jeito doce e cordial como aparece na escola” Pensou Amélia, talvez aquela fosse a sua face verdadeira.
– O que você quer afinal? Veio aqui só provocar e maltratar o Pietro? –Resmungou Alex dando tapinhas nas costas do criança, reconfortando-o.
–Não... Eu vim te chamar para assar a primeira carne! –Sorriu Tales, contudo não era sorriso de alegria e sim de provocação –Você sendo um dragão negro pode muito bem criar fogo por meio da magia...Não?
Amélia percebeu que Alex ficou tenso.
–Se não consegue...Tudo bem! –Continuou a falar o dragão vermelho.
–Eu consigo sim...Mas pensei que a cerimonia da “primeira carne” se restringisse somente aos dragões vermelhos.
–Podemos fazer uma exceção, de certa forma vocês, dragão negros, são submissos a nós, agora, são como...Nossos irmãos bastardos! –Falou Tales com desdém. Amélia realmente estava surpresa com aquela mudança de personalidade, aquele garoto era o perfeito ídolo na escola, ajudando os professores, dando exemplos para os outros alunos, perfeito de todas as maneiras. Será que era mesmo o mesmo “Tales”?
–Eu aceito participar da cerimônia! –Disse Alex, delicadamente colocou Pietro no chão, o filhote de dragão vermelho não parecia muito contente com a situação. Amélia podia sentir a tensão no ar.
–A cerimônia ocorrerá no quintal! –Disse o outro dragão já se encaminhando para o saída da sala, Alex o seguiu.
“Eu não vou ficar aqui sozinha...” Pensou a humana.
–Vamos? –Perguntou Pietro segurando a mão da garota –Temos que torcer pelo Alex!
–Oh...-Sorriu com o olhar serio do mais novo- Não irá torcer para o seu irmão?
–Não...Ele é chato! –Respondeu rapidamente o menor puxando a humana, a guiando no meio da multidão. Logo chegaram no área que seria o dito quintal. Apresentava um grande jardim, com direito a chafariz e várias roseiras, além disso tinha uma grande piscina. Sem dúvida eles eram ricos!
–Está pronto? –A voz de Tales chamou a atenção da humana que voltou seu olhar para os dois rapazes, estes estavam rodeados por um público de dragões vermelhos que assobiavam e batiam palmas, afoitos com a dita cerimônia. No centro havia dois pedaços de carne atravessados por uma lamina de ferro, fincadas na terra, de modo que ambos ficassem em pé. Era, de fato, muita carne...
–Estou...-Falou Alex. Amélia suspirou um pouco aliviada, pois parecia que o dragão negro estava calmo. “Não que eu estivesse preocupado com ele de alguma maneira...” Pensou rapidamente.
–Então vamos começar! –Nisso Tales fez um movimento, inspirando, estufando as bochechas e depois assoprando sobre o seu pedaço de carne. Logo um jato de fogo foi emitido de sua boca.
Alex, por sua vez, parecia murmurar algo, chamas azuis começaram a se formar em volta das mãos do rapaz.
–Isso...É magia? –Sussurrou Amélia, as lembranças do encontro com o dragão púrpura logo vieram a sua mente, então naquele momento Alex também usara magia.
O Dragão negro posicionou as mãos sobre a carne, as chamas azuis que rodeavam seu braço desceram até a palmas das mãos. Um jato de chamas começou a se formar, queimando a carne.
“Tal como as chamas do Tales...” Notou Amélia, o que Arthur tinha falado anteriormente sobre os dragões negros serem capazes de copiar os poderes dos outros tipos de dragões era verdade.
Os dragões vermelhos incentivavam, torciam.
–Isso é uma competição? –Perguntou confusa a Pietro.
–Oh! Sim! Quem assar primeiro a carne, vence! Não pode queimar!
–Entendi...-Amélia achou aquilo meio estranho, contudo, agora entendia o conceito de “churrasco” para os dragões.
–O que Alex está fazendo? –Uma voz ao lado de Amélia a fez sobressaltar, era Felix.
–Cerimonia da carne...
–Tsc...Por que ele aceitou participar? Não sabia que Tales só o está provocando?
A humana não entendeu a preocupação do outro rapaz, Alex parecia estar indo bem na “competição”.
Ou talvez não... Amélia começou a notar uma estranha bruma se formando sobre o braço do dragão negro. Alex estava ofegante, o ar saia de sua boca em forma de uma fumaça branca. Os Dragões vermelhos começaram a observar a mudança e se afastaram, alguns reclamaram de sentirem frio. O fogo emanado por Alex começou a diminuir...
Tales observava o seu rival, sem parar de sobrar sobre a sua carne.
–Ah...-Alex arfou, suas mãos tremiam, as brumas agora se intensificaram e desciam para suas mãos.
–Oh...Droga...-Resmungou Felix.
Antes que Amélia perguntasse o que estava acontecendo, subitamente o fogo gerado por Alex cessou, e a carne começou a congelar, rapidamente. Espinhos de gelo surgiram do interior do pedaço de carne, logo o envolvendo por completo. A carne fora congelada.
Amélia ficou surpresa e preocupada, principalmente pela expressão de Alex, este parecia assustado.
Tales parou de soprar e riu.
–Sabia que iria perder... Apesar de ser um dragão negro ainda és parte dragão azul!
Felix rosnou, uma cadeira de plástico levitou e voou em direção a Tales que desviou, por pouco não o acertava. O dragão vermelho observou seu novo “ inimigo” com fúria.
–Pior do que um dragão negro sem habilidades próprias...É um dragão mestiço com humano!
–Pelo menos eu não uso as fraquezas dos outros para me glorificar! –Continuou a rosnar Felix.
–O que? Só por que ele não sabe controlar os poderes dele...Eu tenho que agir como ele fosse de porcelana? Um dragão que não controla seus próprios poderes...É fraco e é uma vergonha para o seu clã!
–Já chega! –Interrompeu Amélia, era evidente que Alex estava sofrendo com aquela briga, além do mais diante de todos –Alex me salvou! Ele não é fraco!
–Ah? E quem é você? –Riu com escárnio Tales.
–Tales...Você já teve o que queria! –Agora era a vez de Pablo interromper –Você ganhou a sua competição, pega a sua carne e compartilhe com os outros membros da festa! –Mandou.
–Tsc...-O dragão vermelho deu os ombros e foi fazer o que fora mandando.
–Nossa...Pablo! Tem certeza que ele é seu irmão? Sua mãe não deixou cair o ovo quando ele iria nascer? –Resmungou Felix para o namorado.
–Tecnicamente, ele não fez nada de errado...-Respondeu o líder dos dragões vermelhos.
–Como é? –Felix olhou, incrédulo, para Pablo. Cruzou os braços diante do peito, uma postura irritada.
–Alex podia ter negado a participação da cerimônia...Levando-se em conta a “condição” dele...-Diz o outro simplesmente, tentando ignorar os olhares mortais do mais novo sobre si.
–Eu não tenho nenhuma “condição”! –Rosnou Alex encarando Pablo com fúria.
Pablo suspirou longamente, uma pequena chama saiu de sua boca.
–Eu vou ajudar o Tales na distribuição de carne...-Disse –Felix...-Havia um tom de suplica em sua fala e olhou para o namorado.
–Eu vou ficar aqui! –Falou o dragão negro – Aposto que seu irmão não irá querer que um dragão mestiço participe...
Pablo suspirou novamente, agora a chama era bem maior. Massageou o pescoço.
–Eu tenho mesmo que ir...Sou o chefe, tenho que participar da distribuição. Desculpem pelo o que aconteceu! Mas eu não posso interromper uma cerimônia que não era ilegal. –Falando isso saiu, lançou um último olhar para Felix que virou o rosto, irritado.
Agora o grupo estava só.
Alex fechava os punhos com tanta força que Amélia temia que sangrassem. O que estava acontecendo? Pelo que tinha entendido até o momento, dragões negros, além de usarem a magia, tinha habilidades próprias e únicas. Felix tinha esse poder de telecinesia, Arthur podia alterar a memória... Mas, pela discussão, Amélia pode concluir que Alex não detinha nenhuma habilidade própria a não ser aquela que resultou no congelamento da carne.
“Tales mencionou dragão azul...Felix tinha me contado que a mãe do Alex era uma dragão azul...Então isso o faz mestiço, pela a lógica o poder de congelamento seria derivado da sua outra descendência” Analisou a humana.
Pietro se aproximou da carne congelada e começou a soprar, um pequeno jato de fogo saiu de sua boca.
–O que está fazendo? –Perguntou Alex, levemente irritado.
–V-vou descongelar a carne...-Diz o menor.
–Tsc...Não precisa... Seu irmão ganhou! Por que não come a carne dele?
–Quero...Comer a sua!
O rapaz ficou surpreso com a resposta.
Felix se aproximou da carne congelada, sussurrou algumas palavras em uma língua desconhecida, um jato de fogo surgiu de sua dedo indicador e começou também a descongelar.
–Eu também não quero comer a carne daquele idiota! –Disse o outro dragão negro com um sorriso nos lábios.
–Aposto que a sua carne deve estar mais gostosa...-Tentou animar Amélia segurando o punho de Alex que se sobressaltou com o ato.
–B-bem...Se vocês querem comer carne fria...Quem sou eu para negar...-Resmungou, leve rubor se formando em suas bochechas. Logo começou a relaxar, o sentimento de dor e medo causado pelo o poder dos dragões azuis se dissipou em sua mente.
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– Ele ainda está com o mesmo problema, não é? –Falou Theodor bebendo um pouco de vodka observando o grupo de garotos tentando descongelar a carne. O antigo líder do clã dos dragões vermelhos estava na sacada do segundo andar de sua mansão, mas não estava só –Artie, por que você não entra dentro da mente dele e resolve isso? Obvio que esse descontrole deve ser causado por algo psicológico!
Arthur acenou com a cabeça, sorriu triste para o amigo.
–Eu já entrei nas memórias dele... Mas eu não posso curar um trauma! A mente é algo muito complexo de se mexer, posso causar mais malefícios do que benefícios!
–Trauma? –Theodor parecia confuso.
–O descontrole de Alex advém... Da memória da morte da mãe dele. Como você bem sabe, ela morreu nos braços dele...
–Oh! Sim...Eu sei... Quando ele ainda era criança.
–...Ela morreu com uma lança de gelo atravessando seu peito, ela foi morta pelo próprio irmão, tio de Alex...A ironia do destino fez com que ele herdasse os mesmos poderes do tio.
Theodor ficou em silêncio por alguns instantes analisando a nova informação.
–Então, você acha que seu filho não consegue desenvolver a habilidade de dragão negro devido a esse trauma?
–Tudo indica que sim... Alex renega o poder dos dragões azuis. Isso bloqueia o desenvolvimento daquele relacionado com sua herança de dragão negro.
–Se você não pode ajudá-lo, Arthur, só ele pode batalhar com seus próprios pesadelos...
–Eu sei...
Os dois dragões ficam em silêncio. Notam que o grupo perto da piscina ficou mais animado, parte da carne tinha sido descongelada e agora pareciam discutir quem iria comer o primeiro pedaço.
Arthur sorriu ao ver que Alex também sorria ao ver Amélia comer a carne.
–Ele será capaz de vencer os medos dele...Sei disso... Estamos iniciando outra família, em uma nova cidade...É o reinicio! A guerra acabou...Acho que é isso que meu filho precisa para finalmente se libertar do passado.
–Talvez! –Riu Theodor oferecendo um copo de vodka ao amigo –O passado pode influenciar nosso presente, mas ele não pode destruir o nosso futuro...
Arthur concordou, esperava que seu amigo estivesse certo. Que eles finalmente encontrassem a paz para que as feridas antigas fossem curadas...
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