My Songs, My Life
3 Thank You
Notas iniciais
Chego em casa exausta. Tiro os sapatos e jogo a mochila no sofá e corro para a cozinha à procura de uma garrafa d’água. Minha mãe sai do banheiro e vem me perguntar como foi meu dia.
Minha mãe é uma excelente amiga. Ela me apoia na maioria das minhas decisões, apesar de me privar de muitas coisas. Quero dizer, ela gosta de me censurar. Para que eu saia com meus amigos, preciso pedir permissão mil vezes e ela simplesmente abomina a possibilidade de eu ter um namorado.
Ela é bem diferente das outras mães dessa geração, mas eu gosto disso nela. Mesmo que ela me prenda algumas vezes e eu acabe me irritando, eu sei que isso é pelo meu bem. Mas eu também culpo meu excesso de timidez por isso.
–E aí Rin, como foi hoje? –ela me pergunta.
–Foi legal. A Teto fez um texto incrível para o clube de literatura. Elas estão analisando uns livros estrangeiros. –respondo entre um gole e outro.
–E o clube de música?
–Está bem. Enquanto a Meiko estiver lá, estará tudo bem. Temos que fazer novas músicas.
–Ah boa sorte filha! –minha mãe diz tentando me dar coragem.
Mamãe trabalha como veterinária e meu pai é professor na Universidade local. Hoje ele trabalha até as dez. Mas sei que ele voltará um pouco mais cedo.
–O pai deve chegar mais cedo não é? –pergunto guardando a garrafa na geladeira.- Hoje é dia de beisebol, certo?
–É sim. Mesmo sendo campeonato colegial, seu pai insiste em assistir.
–Acho que se eu tivesse nascido menino, ele ia me obrigar a jogar.
Rimos um pouco juntas até que fui em direção à escada e minha mãe voltou à cozinha. Antes que eu possa subir as escadas tranquilamente, ouço a voz dela numa pergunta que congela meu corpo:
–Mas Rin, você recebeu alguma nota hoje?
–Ah, recebi sim mãe.
–E não ia nem me falar? Ia esconder de mim? –ela pergunta com aquele tom de voz intimidador materno.
–Não mãe, só esqueci de falar. Tirei sessenta e um na prova de física.
–Sessenta e um? –sua voz parece surpresa, mas não de um jeito bom. –Poderia ter sido melhor, mas como você não é boa com exatas, nem é tão ruim. É a média, não é?
–É sim. Eu queria ter sido melhor...Prometo me esforçar mais na próxima!
–Faça com que não fique só na promessa, mocinha!
Depois de livrar-me finalmente dessa conversa, vou ao banheiro livrar-me das impurezas do dia. Primeiro tomo uma ducha morna e encho a banheira de água com a mesma temperatura e entro nela. Fico submersa até o queixo e abraço minhas pernas em baixo d’água aproveitando seu cheiro.
Minha cabeça está cheia. Provas, músicas, Len. Quando a imagem do loiro se forma em minha mente, mesmo que involuntariamente, eu suspiro apaixonadamente.
Pareço até idiota assim....
Termino meu banho depois de muito tempo e vou para o meu quarto. Estudo um pouco, desço para jantar com minha mãe, assisto algumas coisas na televisão, inclusive um anime que estreou na temporada, no qual eu estava louca para ver. O que me surpreendeu foi que a banda que toca a música de encerramento, é uma banda que Len me apresentou.
Será que ele sabe disso?
Penso se não seria legal mandar uma mensagem para ele perguntando. Mas ao mesmo tempo imagino que será algo interessante para conversarmos amanhã.
Depois de uma longa secessão de conversa com meus pais – o que eu acho muito legal e saudável- vou para o meu quarto, coloco meu pijama e deito-me na cama. Apenas vislumbrando o teto e pensando no dia em que tive até adormecer.
Amanhece e minha rotina segue. Chego no colégio e troco meus sapatos. Nenhum sinal de ninguém conhecido. Quando sigo subindo as escadas, sinto alguém tocar meu ombro, quando viro é com um grande sorriso. Meu amigo Gakupo está atrás de mim.
A relação que tenho com Gakupo é algo que ninguém pode explicar. O conheço desde os meus quatro anos; creio eu. Ele morava na minha rua quando éramos crianças e logo se tornou meu melhor amigo. Sempre um ano à frente na escola, ele também é um ano mais velho e é algo como um irmão mais velho para mim. Quando fez dez anos, ele se mudou com a família para o templo na parte mais afastada da cidade, onde seus avós moram. Ele cria seu cabelo longo e roxo como se fosse uma garota. Muitos rapazes acham estranho, mas ele está apenas querendo imitar seu avó, por quem tem um alto nível de admiração.
Muitos no colégio o chamam de “samurai roxo”, além do cabelo, ele está no clube de kendo. Somos muito amigos e andamos sempre juntos por aí. Quando entrou no ginasial, Gakupo se tornou muito popular entre as garotas. Acabou virando algo parecido com um ídolo para elas. Como sempre andamos juntos, as pessoas começaram a achar que estávamos namorando ou estávamos apaixonados um pelo outro, mas nada disso. Eu sei que não posso dizer que dessa água não beberei, mas como ele é quase um irmão para mim, não consigo vê-lo de outra forma ou desenvolver qualquer interesse amoroso por ele. Por mais atraente que seja.
Como nos conhecemos a muito tempo, sabemos quase que exatamente o que cada um está passando. Fora Miku, ele é o único que a quem contei da minha paixão por Len. E, como meu melhor amigo, ele está me dando vários conselhos sobre o que rapazes gostam ou o que tenho que fazer para conquistar meu colega de classe.
–Bom dia, Rin! –Gakupo diz para mim.
–Bom dia, Assassin! *
(NT- *Referência ao personagem do anime/jogo Fate Stay Night, onde o personagem Assassin tem o cabelo parecido com o de Gakupo.)
–Como está seu caso? –ele pergunta.
–Bem, eu tenho feito uns movimentos. Seus conselhos têm sido de grande ajuda. –digo sorrindo.
–Fico feliz, mas Rin-chan, agora eu quero a sua ajuda.
–Claro, manda aí.
–Bem...eu acho que estou gostando de uma garota...- Gakupo fala com as bochechas vermelhas.
Apesar de ser bastante alto e forte, ter uma aparência que deixa todas as garotas afim dele, Gakupo é muito tímido em relação ao sexo oposto. Quando são meninas que não fazem seu tipo, ele não hesita em rejeitá-las, mesmo que educadamente. Mas quando é alguém que mexe com ele, o medo e a timidez tomam conta do seu ser.
É nisso que somos completamente parecidos.
Como disse antes, garotas que não são do interesse de Gakupo não despertam sua timidez, mas não quer dizer que ele sempre as rejeite. Muitas das vezes, ele não quer ver a menina triste ou precisa aliviar alguma pressão e acaba ficando com algumas meninas que o admiram ou se apaixonam por ele. Eu sei que ele já “pegou” várias garotas, mas nenhuma que satisfizesse seu coração.
Agora que ele diz estar apaixonado, não sei o que pode ser.
–Quem é a sortuda? –pergunto curiosa e em baixo tem de voz.
–É sua amiga... –ele diz colocando a mão na frente, com seu rosto tão corado que chega a ser fofo.
–Fala logo idiota!
–Eu acho que estou afim da Miku.
Eu juro que quero dar um enorme grito. Ele é meu melhor amigo e ela é minha melhor amiga. Se eles ficassem juntos seria como um sonho realizado!
–Isso é ótimo! Isso é lindo! Fala pra ela! –digo com entusiasmo.
–Rin, você sabe mais que eu que não dá só pra falar! –Gakupo revida.
–Eu sei, olhando assim, parece que estamos no mesmo barco.
Sinto uma ideia chegando. Como se uma lâmpada piscasse acima da minha cabeça.
–Ela sabe sobre o que sinto pelo Len... e ela me deu uma dica. Disse que era para eu me aproximar mais dele, e assim fiz. Agora ela disse que eu tenho que me declarar para ele. E me deu um dia especial para isso.
–Que dia? –ele pergunta.
–No dia do festival do fundador. A escola fica toda agitada sabe? Então, acho que podíamos fazer algo como uma aposta, o que acha?
–Onde quer chegar?
–Temos que ambos nos declarar para quem gostamos no dia do festival do fundador. Se um de nós não o fizer por falta de coragem, teremos que pagar um almoço para o outro. E aí, o que acha?
Ele passa a mão no queixo em sinal de que está pensando na proposta.
–Tudo bem. Se um de nós não conseguir...
–Você me paga um yakisoba. –digo correndo para a minha sala sabendo que estou atrasada.
Caminho risonha para a sala. Essa situação em que o Gakupo está é tão engraçada. Torço para que fique tudo bem. Às vezes eu pego Miku de olho no garoto de cabelos roxos e os dois estão sempre conversando...
Se os dois namorarem vai ser tão legal...
Mas e se eu voltasse a namorar?
Os pensamentos encerram-se quando encontro Len e Rinto conversando na porta da nossa sala. Os dois são bem próximos, parecem mais irmãos que primos. Rinto é um pouco mais alto que Len e seus cabelos são mais claros e mais curtos. Ele está no clube de basquete do colégio e ainda tenta arrastar o primo para jogar com ele, mas Len decidiu abandonar o basquete na nona série.
E Rinto é o único que sabe o motivo de sua saída.
Os dois estão sempre conversando, rindo além de morarem perto um do outro. Comprimento os dois e ouço alguém me chamando no corredor.
–Rin-chan! –uma garota de cabelos rosados corre em minha direção.
–Ah, Luka-senpai, bom dia. –digo educadamente.
–Bom dia! Eu tenho uma novidade! É explosiva! –ela diz entusiasmada ao extremo.
–O que? Fala! Agora você me deixou curiosa. –digo segurando suas mãos.
Ela olha ao redor e vê os dois garotos assustados observando sua euforia. Ela automaticamente cora e os cumprimenta. Em seguida ela sussurra em meu ouvido:
–O irmão da Miku está aqui. Ele voltou de Tokyo ontem.
–Mikuo? Ah, você vai visita-lo?
–Rin-chan! N-não fale alto! –a garota gagueja com vergonha de sua paixão- Eu vim justamente perguntar a você se eu devia.
Vou tentar simplificar as coisas; Miku tem um irmão três anos mais velho. Hatsune Mikuo está estudando direito na Universidade de Tokyo e de vez em quando ele aparece por aqui fora de época. Luka o conheceu nas férias de verão de seu primeiro ano e foi amor à primeira vista. Apesar dessa paixão já ter seus dois anos, a rosada ainda não obteve coragem para declarar seus sentimentos ao jovem rapaz.
Ela tenta ao máximo expressar seus sentimentos indiretamente quando ele está por perto. Acho que nisso somos muito parecidas. Mesmo que ela seja mais velha, mais feminina, mais educada e entre outras milhares de qualidades que ela tem, somos muito parecidas em relação à paixões.
O problema não é apenas seu amor pelo garoto ou sua timidez. O problema é por ser o irmão de sua amiga e colega de sala. Isso não seria um grande problema, se Miku não fosse tão ciumenta. Sim, Miku é extremamente ciumenta com seu irmão e raramente deixa uma garota se aproximar de Mikuo.
Apaixonar-se pelo irmão de sua amiga é quase que como uma traição para Luka.
Outro problema é o fato dela me pedir conselhos. Justo eu que mais preciso de conselhos para quase o mesmo assunto. Logo eu, que tenho menos pontos atrativos que a veterana à minha frente.
–Eu acho que devia. Vai pra casa deles como quem não quer nada.
–Mas a Miku vai perceber. –ela diz chorosa.
–Então eu vou com vocês e a gente fica no quarto dela conversando, você sai para beber água, o encontra na cozinha, conversa e espera coisas acontecerem!
–Rin-chan, você é um gênio dos esquemas! –Luka diz me abraçando. –Combinado então, depois do ensaio.
Ela então sai correndo e saltitando em direção ao corredor do terceiro ano. Eu realmente queria ser “a rainha dos esquemas”, mas essas coisas apenas passam pela minha cabeça. Sou incapaz de tomar a iniciativa para qualquer ação amorosa.
Eu sou terrível nisso...em amar...
Penso que finalmente vou poder terminar de chegar na minha sala em paz, quando ouço o comentário de Rinto:
–Ei Len, sabe, a Megurine-senpai é gostosa, não acha?
Meu corpo congela após a linha da porta. Esses comentários masculinos...Garotos realmente não têm a noção de quando e como dizer certas coisas. Sei que isso é normal. É natural que todo mundo se observe. Ainda mais garotos, que só faltam colocar as cabeças abaixo das nossas saias.
O comentário não é ruim, Luka é realmente uma bela garota, com um belo corpo. Ele poderia dizer que ela tem curvas perfeitas, mas dizer que é gostosa soa ofensivo e vulgar. Como se ela fosse apenas um pedaço de carne à disposição de qualquer predador. Eu não sei como certas garotas conseguem achar esse tipo de “elogio” agradável. Creio que as que assim acham, são tão vulgares quanto a palavra que usam para as definir.
Irrito-me por isso ser quase um insulto para uma amiga que amo e uma veterana que respeito fielmente, mas também fico apreensiva em ouvir a resposta de Len. Sei que Luka é um pouco mais alta que eu, mas ela não é apenas mais alta. Eu não sei exatamente como expressar, mas ela tem tudo o que os garotos gostam. Ela tem seios grandes, quadris largos e pernas grossas. Tudo o que atrai homens e seus instintos carnais.
Eu por outro lado...
Não quero dizer que sou uma tábua completa, tenho seios medianos, mas que não chegam aos pés dos de Luka. Minhas pernas não são tão grossas e eu não sou toda “jeitosa” como a rosada. Eu sei que o gosto muda de pessoa para pessoa, mas sinto realmente muito medo de Len concordar com o que Rinto diz.
Porque se ele gostar de garotas do tipo de Luka, vai ser bem difícil dele gostar de mim.
–Sim, ela é bem bonita. –Len responde.
Seu idiota! Idiota! Idiota! Idiota!
Pelo menos respondeu educadamente...
Minhas mãos suam, mas sento em minha carteira tentando encarar isso de maneira natural. Não é pelo fato dele acha-la bonita ou sexualmente satisfatória, que ele vai ter o interesse em namora-la. Ele sequer conhece a personalidade dela.
Isso Rin! Não seja ciumenta com alguém que nem é seu...ainda...
As aulas da manhã seguem normalmente. Minha cabeça vagueia entre vários assuntos diferentes; minha mãe falando das minhas notas, Meiko falando que temos que compor novas músicas, a professora de biologia falando sobre reprodução, Rinto chamando Luka de gostosa.
Dou dois tapas em meu rosto quando o sinal bate anunciando a hora do almoço.
–Ei Rin, você está bem? Está batendo em si mesma. –Len me pergunta.
–Isso é só para acordar. Mas e você? Está meio calado hoje. Algo aconteceu? –pergunto em seguida.
–Ah é só o Rinto. Ele está me enchendo para entrar no clube de basquete daqui e voltar a jogar com ele.
–Ah é, vocês jogavam no fundamental, não é?
–É, mas eu saí antes da gente se formar.
Imagino que essa seja a oportunidade perfeita para saber a razão. Talvez isso conecte-se perfeitamente ao motivo de Len querer ficar sozinho com a música e não querer participar de banda ou clube algum.
–Mas Len, por que você saiu justamente quando estava perto de acabar? –pergunto.
–Rin, você sabe quais são os objetivos dos clubes escolares?
–Objetivos, como assim?
–Eles querem que a gente encontre algo que nos identificamos e gostamos. Assim a gente se desenvolve em clubes e assim escolha isso como rumo profissional no futuro.
–Ah, disso eu sei. Mas o que há de ruim nisso? –pergunto.
–Na verdade nada... –o loiro diz abaixando a cabeça. –Quando estávamos no início da nona série, o clube da nossa escola ia muito bem nos torneios de ginasiais. Chegou a uma época de professores do ensino médio e olheiros de universidades irem assistir os nossos jogos. Eu acabei me sentindo sufocado.
–Sufocado? Como?
–Eu comecei a ver o basquete como uma obrigação, não como uma diversão. Eu jogava porque era divertido, sempre gostei do esporte e era muito bom jogar com os garotos de lá e com o Rinto. Mas logo eu percebi que todos estavam obcecados com isso. Eu pensei que se eu enxergasse dessa maneira, eu ia começar a odiar o esporte.
–Mesmo sendo algo que você gosta? Não é melhor fazer algo que você goste e lhe dê dinheiro? –pergunto assustada com sua lógica.
–Pensa no seguinte; se seu pai trabalha com computadores o dia inteiro, ele não vai querer encostar no computador no final de semana. Eu penso que se eu jogar profissionalmente, eu não vou querer jogar com os amigos no final de semana.
–Desculpa Len, mas eu serei obrigada e descordar de você. Minha mãe é veterinária e passa o dia com animais e ao chegar em casa não economiza tempo para dar carinho aos nossos cães e gatos.
–Bem Rin, isso é bem relativo. Quando todos estavam falando de jogar basquete no futuro eu comecei a pensar em treinos exaustivos e sofrer as explorações de um time grande. Na verdade eu já estava sentindo uma pressão do capitão do time da escola. Comecei a sentir que iria odiar o basquete, então decidir sair antes que iniciasse um ódio por algo que amo.
–Isso é meio parecido com o que você me disse sobre música.
–Na verdade Rin, é a mesma coisa. Eu gosto de proteger as coisas que amo de mim mesmo. E me odeio por isso sabe. A verdade é que não quero ter trabalho com as coisas. Se tenho trabalho acabo desistindo ou odiando a coisa. Eu odeio isso em mim. Deixo de ter prazer para ter conforto.
Seus olhos são completamente cobertos por seus cabelos. Vejo seus pulsos cerrados e seus lábios comprimidos. Eu entendi basicamente a ideia de não querer se esforçar, mas não faz sentido.
–Rin, eu vou ao refeitório comprar meu almoço, a gente se vê depois. –ele diz saindo lentamente de seu lugar em direção à porta da sala.
Imagino se a conversa fora desagradável para ele. Não quero nem imaginar isso. Creio que há algo a mais nessa história de não querer se esforçar por aquilo que gosta, mas por enquanto, não quero sugar mais dele. Assim que uma conversa descente sobre o assunto surgir, eu perguntarei.
Levanto-me da minha cadeira e o assunto da conversa de Rinto e Len sobre Luka volta a me incomodar.
Vou ao encontro de minhas amigas e começamos a conversar. Não estou muito ligada nos assuntos delas e sim no meu corpo. Passo o tempo inteiro olhando para baixo. Nunca fiquei tão insegura quanto às minhas curvas.
–Rin-chan, está tudo bem? Você está meio cabisbaixa hoje. –Teto diz.
–Eu estou bem, só um pouco pensativa.
Observo Teto, Neru e Haku. Das três, a com maior busto é Haku, apesar da diferença ser quase mínima. Imagino se perguntar sobre o assunto para elas seria constrangedor demais, já que quase não falamos sobre nossos corpos.
–E-ei meninas, vocês acham que está tudo bem comigo? –pergunto sentindo meu corpo derreter.
–Como assim? –Haku pergunta.
–Vocês acham que eu sou... uma tábua? –meu ser está em chamas por completo.
As reações são variadas. Teto abaixa a cabeça vermelha e envergonhada. Neru e Haku morrem de rir em proporções diferentes.
–R-Rin-chan, eu acho que está tudo bem com você aí em cima. –Teto diz com o rosto avermelhado.
–Você usa tamanho M não é? Está tudo bem com isso Rin, não se preocupe. –Haku diz.
–Ah Rin, mais um motivo para você não se preocupar. –Neru diz entre risos- O Len prefere bundas.
Meu corpo inteiro passa por um intenso choque térmico. Por vários motivos, meu suor vai do frio ao vapor. Neru pode até saber que eu gosto de Len, mas Teto e Haku não. Segundo, esse fato é completamente constrangedor.
E satisfatório ao mesmo tempo, considerando que eu sou mais avantajada atrás...
RIN, ACORDE!
–N-N-Neru sua idiota! –digo escondendo meu rosto atrás de um caderno.
–Rin, não se preocupe com a gente. –Haku diz.
–Nós já percebemos há um tempo. –Teto conta.
–O quê? Eu sou tão legível assim? –pergunto assustada.
–Bem, o jeito que você age com ele é completamente diferente do jeito que você age com outros rapazes. –Teto diz sorrindo.
–Será que ele percebeu isso? –pergunto apreensiva.
–Considerando a lerdeza dele, tenho quase certeza que não. –Neru diz. –Mas com o tamanho da sua retaguarda, você até que tem alguma chance.
Mesmo com vergonha rio com essa piada sem graça e todas rimos. O horário de almoço acaba e as aulas da tarde seguem. Perto das aulas finais, Len me chama atrás:
–Rin, você sabe que eu e o Kaito somos amigos, não sabe?
–Sim, por que?
–Bem, no intervalo do almoço, no refeitório, ele me chamou para fazer parte do clube de música.
Meu coração acelera estupidamente quando ouço isso.
–E o que você disse?
–Eu recusei e ele aceitou numa boa. Mas não fala pra ele que eu não fico legal em clubes caso ele pergunte algo, certo?
–Tudo bem. Isso por acaso é algum tipo de segredo?
–Não exatamente, mas o Kaito é meio que um cara brilhante. Ele se encaixa em tudo então isso meio que me diminui em relação à ele.
Algo acontece nos meus nervos. Algo que me faz levar minhas mãos às bochechas de Len.
–Nunca diga isso! –grito com as mãos em suas bochechas.
–Isso o que? –ele pergunta assustado.
–Nunca diga que se sente pequeno em relação à alguém. Todo mundo tem suas inseguranças, até mesmo o Kaito. Ele não é Deus.
–C-Certo, obrigado.
Não disse isso por gostar de Len. Mas digo isso porque me sinto pequena em relação à Kaito. Ou ao menos costumava me sentir assim. Ele sempre tirou notas boas e sempre foi incrível em tudo o que faz, mas eu decidi ir além dele e superá-lo em tudo em que for possível.
Ele é como um rival para mim.
As aulas terminam e cada um segue seu rumo. As meninas vão para a sala do clube de literatura, eu arrumo minhas coisas para ir para o clube de música. Estou sozinha na sala de aula. Len saiu assim que ouviu o sinal, como sempre.
Idiota, não precisa fugir da escola, ela não morde.
Vou em direção à porta e me surpreendo quando vejo um Len esbaforido, com os cabelos bagunçados e uniforme amassado.
–Sabia que você ainda estava aqui. Ah ainda bem! –ele diz tentando recuperar o fôlego encostando na porta.
–O que foi Len? Esqueceu alguma coisa?
–N-Não exatamente. Quer dizer, esqueci, mas não é exatamente uma coisa... –ele diz avermelhado. –Eu voltei correndo assim que me lembrei. Na verdade a Neru me lembrou.
–O que foi seu tonto?
Ele ajeita o cabelo, corrige a postura e olha estreitamente dentro dos meus olhos. Morde o canto esquerdo do lábio inferior e diz:
–Muito obrigado por tudo Rin!
Isso assusta-me de uma maneira inexplicável. Por quê? Por que ele estaria me agradecendo? E o que fora tão importante que o fez correr a ponto de tirar o fôlego? Se foi Neru que o lembrou algo, isso me assombra. O que raios ela disse para ele?
–O que? Como assim Len? Por que está me agradecendo? –pergunto confusa.
–Você é a única pessoa que está sempre tentando me ajudar sem me forçar a nada. Você me escuta e me entende. Ninguém nunca tentou me entender. Os outros tentam me motivar me forçando a fazer as coisas, você apenas me motiva mostrando como o mundo é diferente do que eu acho que é. –ele diz com uma feição nervosa.
–Len...você...
–Estava comentando isso com a Neru. Que você disse que eu não deveria me sentir pequeno. Isso me fez sentir tão grande que eu não sabia como retribuir. Aí ela me disse para agradecer à você.
Meu coração bate tão rápido. Estou tão feliz. Nunca imaginei que ele fosse capaz de me agradecer desse jeito. A maneira que ele diz essas coisas faz parecer com uma confissão de amor...
E se fosse?
–Você realmente está grato? –pergunto engasgada de emoção.
Ele então me puxa para perto e encosta minha cabeça em seu peito e diz:
–Claro. Suas palavras me motivam. Obrigado Rin.
Seus batimentos estão tão rápidos quanto os meus. Imagino se ele fez isso justamente pela razão que imagino. Mas agora eu não quero dizer nada. Só quero aproveitar esse momento em que ele finalmente tomou a iniciativa para algo.
–Eu que...Eu que deveria agradecer, por você estar por perto Len. –digo baixinho.
–N-Não diga isso...estou com vergonha agora. Você sabe que esse tipo de coisa é constrangedor.
–Idiota. –digo entre risos.
Tento me afastar para abraça-lo de forma completa, mas sua mão esquerda ainda segura minha cabeça. Ele não quer que eu saia daquela posição. Talvez ele não queira que eu veja sua expressão envergonhada.
Imagino que essa é a situação perfeita para confessar o que sinto para ele, mas sinto que posso me aproveitar ainda mais dessa situação. Seguro seu braço direito e, lenta e gentilmente o retiro de minha cabeça. Ponho minhas mãos em seus ombros e estendo-me nas pontas dos pés para alcançar seu ouvido e dizer:
–Você pode até me agradecer, mas minhas palavras e apoios não sairão de graça.
–Típico seu, sua mercenária. –ele diz entre pequenos risos.
Saio das pontas dos pés e ficamos cara a cara, ele então diz:
–Me diga seu preço.
...
Continua.
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