Notas iniciais
Aí, capítulo novo com menos de uma semana, milagre hein? Eu também sinto falta da época que conseguia fazer esse milagre acontecer, mas vamos aproveitar enquanto ainda estou de férias. Enfim, esse capítulo foi bastante trabalhoso (e doloroso) de ser escrito, então, por favor, leiam ele com carinho. Gostaria de agradecer os comentários da Asuna Neko e da Yan Tsundere, no último capítulo, obrigada gente! Conto com a leitura de vocês (e com os comentários também, comentário é sempre bom, é o que mantem isso aqui vivo). Enfim, aproveitem o capítulo.

Minhas pernas tremem e minha mente parece girar. O garoto em minha frente possui os cabelos prateados que eu costumava tocar com carinho, os olhos verdes pelos quais me apaixonei quando eu era mais nova, o nariz fino que ficava vermelho durante o inverno, a única coisa que parece mudar em Piko é a sua altura e musculatura.

Ele está boquiaberto, assim como eu. Seu olhar é direcionado apenas para mim e logo seus passos também. À medida que ele se aproxima, meu coração bate mais rápido e meu corpo parece derreter. Uma mistura de emoções que me deixam tonta; eu amei Piko, mesmo depois dele ter sumido e perdido contato comigo, continuei o amando por um bom tempo, creio que perdi esses sentimentos apenas quando consegui entrar para o ensino médio.

Mas que misto de emoções seria esse? Susto; nostalgia, saudade, raiva, nojo, tristeza, um pouco de remorso, tristeza, esperança e uma pontinha de paixão, tal ponta que restou dos meus quatorze anos, época em que meu coração derretia por Piko.

O menino se aproxima mais de mim, fico ainda mais assustada com a situação e aperto a lata de refrigerante com minhas duas mãos em reflexo. Ele tira os headphones e coça a nuca. Seu rosto parece tão assombrado quanto o meu, apesar das bochechas dele estarem vermelhas.

—Você... É Kagamine Rin-san, não é? –ele pergunta tropeçando nas palavras.

—Sim... Você seria O Utatane Piko-kun?

—Sim... Sou eu...

Ficamos estáticos olhando um para o outro. Quero dizer tanta coisa, mas as palavras simplesmente não saem da minha boca. Não sei se ele também quer me falar algo, já que fora ele quem me deixou.

Rebobinando a fita para uns três anos atrás, quando eu tinha apenas uns treze anos de idade, estava me superando no ginasial. Estava em um bom clube, tinha feitos amigos, mas sentia que ainda faltava algo na minha vida. Foi aí uma vez que visitei um parquinho com Teto e encontrei um garoto tocando violão.

Ele estava em um balanço, tinha cabelos prateados e ombros largos. Ele cruzava as penas para apoiar o violão e tocar para crianças no parque. Seus dedos eram largos e tocavam muito bem as cordas do instrumento. Teto e eu acabamos deslumbradas pela sua música, e mesmo que sem querer, ele nos percebeu. Depois daquele dia que o ouvimos tocar, comecei a ir mais vezes ao parque, só que sozinha, apenas para encontrá-lo.

Até então, eu não tinha me apaixonado ainda por ele, sequer sabia seu nome ou do que gostava além de tocar violão. Chegou um dia em que ficamos sozinhos no parque e conversamos bastante. Foi aí que eu percebi que ele era muito além de apenas um aspirante a músico. Piko nadava no clube de natação de sua escola, tinha a mesma idade que eu, ele aprendeu a tocar numa escola de música do seu bairro, gostava de videogames e sempre conversava comigo sobre quadrinhos.

Trocamos números telefônicos e começamos a trocar mensagens também. Quando não nos encontrávamos no parque, conversámos por texto, isso nos ajudou bastante para conhecer um ao outro, eu passava noites em claro conversando com ele por telefone. Cheguei a me matricular na escola de música onde ele aprendeu a tocar violão, me inscrevi na aula de mesmo instrumento, o que fez dele meu senpai. Piko nunca perdeu a chance de esfregar na minha cara que tocava há mais tempo que eu. Mas não demorou muito até que eu o alcançasse e ficasse tão boa quanto ele.

Minha amizade com Piko foi crescendo a ponto de contarmos nossos segredos um para o outro. Eu não tinha tantos segredos assim, apenas algumas notas baixas que escondia dos meus pais e o meu medo deles descobrirem e me odiarem, e também tinha Kaito, que me perseguia na escola e me deixava desconfortável. Já Piko tinha problemas bem maiores. Sua mãe era uma executiva em uma grande empresa de cosméticos e seu pai tinha problemas com álcool. Aparentemente, eles brigavam todos os dias e isso abalava muito o garoto de apenas treze anos.

Os meses foram passando e eu percebi que estava apaixonada por Piko. Mas claro, não sabia se ele sentia o mesmo. Já era quase inverno, quando ele começou a pedir conselhos para conquistar a garota que ele gostava, até então, eu não fazia ideia de quem era essa garota, pensei que era alguém da escola dele ou da própria rua. Em minhas dicas, eu mencionava que também gostava de uma pessoa, e falava o que faria para conquistá-la se tivesse coragem de fazê-lo.

Certa feita, estávamos voltando juntos da escola de música e Piko aparentava muito inquieto. Ele queria ajuda para escrever algo para a garota que estava gostando. Era doloroso para mim, fazer isso, o garoto que eu estava gostando estava gostando de outra pessoa. Não era a primeira vez que eu me apaixonara por alguém que não poderia corresponder meus sentimentos. Eu era muito diferente naquela época, era medrosa o bastante para não correr atrás da pessoa que amava para não perdê-la de vista.

Naquele dia, ao tentar escrever aquele poema, ou música, ou bilhete (sequer me lembro o que era), ousei a perguntar a Piko quem era a sua amada. Claro que ele hesitou, ficou vermelho, mas eu insisti tanto que ele virou-se para mim e disse com todas as letras:

—A garota que eu gosto... É você!

Meu corpo derreteu e eu não sabia o que fazer. Apesar de me sentir em chamas por dentro, meu exterior estava congelado. Aquilo tudo foi uma surpresa para mim, nunca ninguém havia se apaixonado por mim antes, ou se sim, nunca contara para mim.

—Você realmente gosta é de mim? Tem certeza disso? –pergunto assustada.

—É você sim, mas pode me dar um fora, eu estou preparado.

—Mas... Eu não posso te dar um fora...

Eu hesitei. Fiquei com medo do que poderia acontecer. Meus pais desaprovariam qualquer relacionamento, eu não me sentia madura o suficiente para ter um namorado, nunca havia tido um relacionamento, sequer beijado até então. Se eu dissesse que não o amava, estaria mentindo, tanto para ele quanto para mim, mas eu faria isso com medo de nossa amizade morrer. Se eu dissesse sim, o que poderia acontecer?

—Você pode sim. –ele disse pondo as mãos no bolso- Afinal, não sente o mesmo que eu...

—Quem disse que não?

Os olhos de Piko ficaram arregalados, minha resposta foi algo bem involuntário. Com vergonha do que fiz, saí correndo do parque, ele também correu atrás de mim e quando finalmente me alcançou, pegou meu antebraço e me colocou contra um alambrado perto do parque.

Seu rosto estava a poucos centímetros de mim, nossos narizes se encostaram e eu pensei que logo viria um beijo. Fiquei nervosa, nunca havia beijado ninguém, tinha medo de ser horrível e desagradável, mas a situação era louca, era o garoto que eu gostava. Então, não demorou até que nossos lábios se encostassem.

Não foi um beijo ruim. Foi apenas um selinho, rápido e simples, mas foi o suficiente para fazer meu corpo queimar. Não havia sido o primeiro de Piko, o que provava que ele tinha experiência. Foi aí que ele voltou sua boca para minha e dessa vez, um beijo de verdade aconteceu.

A partir daí, Piko e eu começamos a namorar. Escondido de nossos pais é claro, os meus por serem deveras rígidos, e os dele por serem bastante problemáticos. Era engraçado ver todas as garotas da minha turma deslumbradas com os rapazes mais velhos porque eles eram mais altos ou fortes, maduros, enquanto eu namorava um menino da minha idade, magro, da mesma altura que eu e que tinha as mesmas ideias que eu tinha.

O tempo que namorei Piko foi muito bom, mesmo de baixo do pano. Éramos muito jovens na época, mas aproveitamos muito. Era muito bom ir dormir feliz porque escutou um “eu te amo muito, boa noite” pelo telefone e responder bem baixinho para que ninguém escutasse.

O tempo passou, e chegou um tempo que Piko parecia distante. Ele começou a ficar um pouco frio, até então eu não me importei muito porque mesmo assim, ele tirava um pouco do seu tempo para me dar atenção. Eu perguntava se eram problemas em casa, mas ele simplesmente não se abria comigo. Quando percebeu que notei algo de diferente, ele disfarçava com um sorriso vazio, mas se era algo que o incomodava, eu não podia força-lo a lembrar.

Foi então numa madrugada de sábado para domingo, num verão dois anos atrás. Eu estava dormindo, mas meu celular estava cheio de mensagens, todas as mensagens de Utatane Piko. Nenhuma delas era diretas, cada uma dizia algo subjetivo que era difícil para entender. Coisas como “desculpa”, “preciso falar com você”, “deixa”, “perdão”, “estação quinze”, “desculpe-me”. Eu não havia entendido nada até ler a última mensagem que ele me mandara no momento em que peguei o telefone pela manhã. “Adeus”.

Deduzi seu “adeus” e “estação quinze”, o que me fez pegar a primeira roupa que estava na minha frente, vestir e sair correndo desesperadamente em rumo à décima quinta estação. Fora a última vez que vi Piko, ele estava entrando num trem, mas não era um trem qualquer, era um interurbano. Acabei vendo-o entrar no transporte com sua mãe e algumas bagagens. A única coisa que pude fazer foi gritar seu nome, e vê-lo sumir de minha vista.

Ele não me explicou nada, tudo isso me fez cair de joelhos no meio da estação e começar a chorar. Depois disso, recuperei minhas forças e corri para a casa dele, que estava vazia. Chorei a noite toda e na segunda, quando minhas aulas terminaram, fui para a escola dele e um professor disse que ele tinha se mudado para Tóquio.

Claro que passei horas tentando ligar para Piko, mandar mensagens, mas nunca obtinha uma resposta, passei a procura-lo pela internet, em todos os cantos, de todas as maneiras que pude, mandei milhares de e-mails, mas nunca era correspondida. Continuei o amando por muito tempo, até que o ginasial acabou e entrei para o ensino médio.

O dobro de matéria para estudar, os compromissos com o clube e até certa nova atitude minha, de maior maturidade, fizeram-me esquecer de Piko. A primeira coisa foi reduzir o tamanho do meu cabelo, que chegava à cintura deixa-lo nos ombros. Depois disso, fui deixando muito aquela Rin do fundamental, e com ela, meus sentimentos pelo garoto de cabelos prateados.

Antes de apaixonar-me por Len, havia momentos de tristeza ou de vazio que me faziam pensar em Piko. Algumas memórias voltavam à minha cabeça em formato de flash, mas era apenas algo para deixar uma nostalgia no meu coração.

Nunca soube a verdadeira razão de Piko ter me deixado. Meu maior medo na época em que estávamos juntos era que ele se cansasse de mim, ou que eu fizesse alguma coisa que o deixasse bravo ou triste. Mas ao invés disso, fui deixada com apenas um adeus escrito em uma mensagem de celular. Fiquei triste de início, mas depois fiquei com raiva. É bom ele ter um bom motivo para não ter me contatado, afinal, estamos na era da tecnologia. Mas apesar de ter tido vários pensamentos negativos a cerca de Piko, nunca falei mal dele ou difamei. Afinal, ele me deu bons momentos, mesmo com meus amigos me mandando esquecer tudo o que aconteceu entre nós, eu não quero esquecer nada.

Foi um relacionamento, o meu primeiro na verdade. É mais que natural que não desse certo. Mas não é porque acabou que significa que foi ruim. Claro que brigávamos às vezes, mas ainda tivemos bons momentos, tais coisas, não devo esquecer, pois ajudaram a construir quem eu sou hoje.

Deixando o passado de lado, volto minha mente para o agora. Piko está na minha frente e põe as mãos nos bolsos de sua calça. Ele parece esperar que eu diga algo, mas nada sai da minha boca, afinal, ainda estou surpresa. Logo, ele decide dar o primeiro passo:

—Você... Cortou o cabelo...

—E você sumiu por dois anos. –digo impulsivamente.

Eu deveria escutar mais Teto quando ela diz que eu sou muito intensa. Creio que devo controlar minhas intensidades.

—Eu sinto muito por isso. Muito mesmo. Se quiser, pode me dar um soco agora.

Fecho ambas as mãos em punhos e coloco bastante força nelas. Meus lábios ficam comprimidos, sinto um nó na minha garganta, daqueles que se sente quando você tenta engolir o choro ou está com algo preso e não consegue soltar. Decido não soca-lo, mas dizer tudo o que tem ficado engasgado na minha garganta por esses dois anos:

—Você poderia ter dito o que estava acontecendo, poderia ter ligado, mandando uma mensagem de verdade... Existe internet, você sabia? Existem redes sociais, e-mails, blogs, salas de bate-papo, aplicativos de conversa, cartas cara! Existe papel e caneta, fax, telegrama! Você não tem razão para não ter me contado por que se mudou! Você me deixou sofrendo sozinha, por meses! Você poderia simplesmente ter aberto o jogo para mim, poderia ter dito “Rin, eu vou me mudar, não sei se vou ser capaz de manter um relacionamento à distância, vamos terminar em virtude disso”.

—Eu sei que havia um monte de coisas que eu deveria ter feito...

—Sim, claro que havia! Eu sei que você só tinha quatorze anos, eu só tinha quatorze anos também. Eu também sabia que era apenas questão de tempo até aquela relação acabar, mas eu apostei nela. Eu não estou com raiva por termos terminado, até porque, eu consegui seguir minha vida e me apaixonar por outra pessoa, estou com raiva porque você nunca me disse o por quê!

—Nossa... Tudo isso doeu mais que um soco. –Ele para e coça a nuca- Eu tenho uma grande razão por trás de nunca ter conseguido entrar em contato com você. Mas antes que você fique sabendo, tome isto.

Ele tira uma mochila das costas e a apoia em cima da mala vermelha para abri-la. De dentro dela, ele tira um grande envelope amarelo, grosso de tantos papeis que tem dentro. Pego o material e abro, acabo deparando-me com um monte de envelopes menores e folhas de caderno dobradas e quadrados pequenos. Sento-me em um banco para segurar todo o conteúdo e Piko senta ao meu lado, mas mantendo certa distância.

Todos os papeis tratavam-se de cartas para mim, o que me surpreende um pouco. Passo os dedos entre as folhas, mas não tenho coragem para lê-las.

—Bem, ao contrário do que parece, eu tenho conhecimento de que caneta e papel existem. –ele explica- Eu só fui boicotado por minha mãe diversas vezes. Ela e meu pai se separaram porque ele tinha ultrapassado os limites com o álcool, assim, ela acabou pedindo transferência para Tóquio. Antes de irmos, minha mãe quebrou meu celular e deixou meu computador para trás. Ela não queria que eu tivesse contato com ninguém daqui de Osaka, assim eu não teria como falar com ninguém da família, nem meu pai, e se eu ficasse muito apegado aos meus amigos daqui, eu seria incapaz de seguir em frente em Tóquio.

—Então quer dizer que você viveu uma ditadura por todo esse tempo?

—Sim. Demorou mais de um ano para minha mãe me deixar ter contato com a internet de novo e ter um celular também. Claro que esse foi o tempo para que eu me acostumasse, fizesse amizades e tivesse notas perfeitas o suficiente para entrar numa escola de nome lá. A única coisa que distraia a minha mente um pouco, eram as festas de promoção de produtos que ela tinha na empresa, e sempre me levava.

—Pensei que odiasse festas.

—Ainda odeio, mas era o único “lazer” que eu tinha o direito de ter. Foram diversas as vezes que eu fugi para ir para um orelhão público, para ligar para meus avós e até para você. Mas o tempo passou e eu acabei esquecendo o número de todo mundo. Eu também sofri por meses porque não pude me despedir propriamente de você, e você também deveria estar magoada comigo. Nesse meio termo, minha mãe acabou descobrindo que eu tinha namorado você e dobrou a vigilância, se eu tinha uma namorada em Osaka, era provável que eu ficasse interessado em voltar uma hora ou outra.

Nos olhos de Piko, eu vejo apenas dor. Ele passou por muita coisa durante todo esse tempo, não seria surpresa para mim se ele odiasse sua mãe agora, entendo que ela pudesse mantê-lo longe dos amigos e até de mim, mas dos parentes? Dos avós? Acho isso muito insano.

—Mas... Piko –tento perguntar- Se sua mãe queria tanto te ver longe de tudo que te lembrasse de Osaka, por que você está aqui?

—Pode-se dizer que minha mãe tem muito rancor do meu pai, mas não significa que ela o odeia. Na verdade, eu cansei de ouvi-la chorando e sussurrando o nome dele logo quando nos mudamos. Uma tia minha, por parte de mãe, que mora aqui, entrou em contato conosco dizendo que meu pai está internado em uma clínica de reabilitação. O estado dele é muito crítico e meus avós o colocaram lá. Minha mãe voltou para ver no que pode ajudar, claro que eu também pedi muito e ameacei ter o mesmo destino dele.

—Então ela pediu transferência de novo e vocês vão ficar morando aqui?

—Sim, só não sei quanto tempo.

—Já sabe onde vai estudar?

—Ainda não, mas vou dar uma pesquisada.

—Entendi... Bem, de qualquer forma, seja bem-vindo de volta. Desculpa ter jogado tudo aquilo em cima de você, é que eu me segurei... Por dois anos...

—Eu sei, na verdade, você não devia nunca me pedir desculpas. Fui eu que não te falou nada. Espero que você seja capaz de me perdoar.

—Eu perdoo você. Entendi sua situação. Apesar dos pesares, quero voltar a ser sua amiga. Como éramos quando nos conhecemos naquele parque.

—Claro, podemos ser bons amigos de novo, afinal, naquela época, você era minha melhor amiga. Só não vá se apaixonar por mim novamente. –ele parece brincar sobre isso.

—Eu já amo outra pessoa, não pretendo desistir dela. Mas aceito voltar a ser sua amiga.

—Beleza! –ele estende sua mão para mim- Sem ressentimentos!

—Sim, sem ressentimentos! –aperto a mão dele de volta.

Ele despede-se de mim e me deixa com o envelope amarelo nas mãos. Lembro-me de ter escrito algumas coisas para ele, tanto antes quanto depois de terminarmos. Mas isso tudo foi um choque para mim.

A chuva dá uma trégua e meu trem chega. Dentro do transporte, decido guardar o envelope na mochila e, ao chegar em casa, penso se devo abri-lo ou não. Eu sei que os sentimentos que tenho por Len não mudarão, também sei que disse que não gostaria de esquecer o que vivi com Piko por questão de experiência e de ter tido boas memórias daquela época, mas será mesmo que ler essas cartas é bom para mim?

Não estou dizendo que meu amor por Piko voltará, mas sei que esses papeis contam o desespero de um menino que viveu uma ditadura com sua mãe, que sofreu com o alcoolismo de seu pai... Não sei se quero ler coisas sobre sofrimento.

Acabo deixando as cartas de lado. Escondo-as de mim mesma no fundo da gaveta da minha escrivaninha. Lembro-me da prova de literatura que tenho amanhã e decido estudar para esquecer um pouco do que aconteceu.

É extremamente complicado adquirir concentração com tantas coisas acontecendo, mas decido focar o máximo na matéria. Antes de dormir, deito-me em minha cama e fico observando o teto. Gostaria de escutar alguma música, mas nenhuma se encaixaria com o momento. Talvez escrever uma música minha seria bom e libertador, mas estou cansada demais para fazer esse tipo de coisa agora. Minha gata entra no meu quarto e sobe na minha barriga. Deposito meus dedos sobre seu pelo macio e sigo fazendo carinhos, a felina corresponde fazendo barulhos e ronronando. Depois de repetir o carinho por vários minutos, decido coloca-la em minha cadeira e tentar dormir.

—Se eu tiver um pesadelo, você me acorda. –falo com minha gata, e ela me responde com um miado.

Ao contrário do que pensei, minha noite foi tranquila e nem um pouco conturbada. Não consegui sonhar com nada, mas agradeço por isso, talvez se sonhasse com algo, ficasse presa nos pensamentos dos sonhos, ou eu podia sonhar com algo que não quero.

É sábado letivo, temos prova de literatura e depois receberemos os resultados de todas as avaliações que fizemos durante essa semana. Minha cabeça dói ao pensar nos resultados das provas de cálculo (menos química, sou tranquila com essa disciplina).

Sentamos todos e a professora nos entrega os papeis da avaliação. Len bate em meu ombro, desejando-me boa sorte, faço um sinal com o polegar em sinal de aprovação. Ele não devia ter feito isso, essa ação só me lembrou de que é o último dia de provas, é o dia em que ele me dará sua resposta.

Não tenho certeza se fiz uma boa prova, já que não conseguia me concentrar direito. Saio da sala e me dirijo para a janela mais próxima no corredor, onde coloco todo o meu rosto para fora na tentativa de tomar um bom ar. Sinto a brisa abafada de verão, também ouço os professores arrastando os quadros onde colocarão os resultados dos alunos de todas as turmas do segundo ano.

Saio do corredor e procuro o meu lugar seguro, a sala do clube. Lá, encontro apenas Kaito e Luka, ele está confortável em sua bateria, mas não a toca. A rosada está lendo uma revista de culinária.

—Foram bem na prova que fizeram hoje? –pergunto, mas com raiva antecipada da resposta de Kaito.

—Não poderia ter sido melhor. –Kaito responde- Matemática é uma beleza!

Como esse idiota consegue ser tão exibido?

—Foi tudo bem, e você, Rin-chan? –Luka me pergunta.

—Foi razoável. –digo sentando-me em uma das cadeiras- Tenho muita coisa na minha cabeça. Mas agora eu quero muito tocar.

—Tem que esperar até a entrega total dos resultados, isso deve ser depois do meio dia. – Kaito responde e confirma que ainda são nove e meia da manhã.

—E o Len-kun- Luka pergunta- Como ele está se saindo?

—Não sei bem. –respondo- Toda vez que pergunto se ele está bem, ele afirma. Mas eu nunca tenho a certeza se ele está falando a verdade.

—Vamos esperar para ver. –Luka me diz.

—Você deve estar preocupada, não é? –Kaito pergunta.

—Bem, não é problema se ele conseguir recuperar as notas nos quatorze dias, né?

—Não deve ser. –Luka responde- Sou a presidente do clube, vou perdoá-lo se ele só pegar os quatorze dias, mas se ele ficar por um mês, aí já é com a professora.

Continuo preocupada com Len, até que ele chega na sala e começa a conversar com todos como se não tivesse acabado de fazer uma prova. Depois dele, entra Miku, reclamando de sua avaliação de matemática.

—Eu realmente não fui feita para números. –Miku reclama.

—Você vai precisar deles na sua vida, apenas conforme-se. –Kaito responde.

—Cale a boca, seu imprestável. Consegue ser o primeiro a sair e não ajuda ninguém!-Miku joga seu estojo em Kaito.

—Opa- o azulado desvia do material- Mas eu ajudei você a estudar. Ou você queria que eu te passasse alguma resposta?

—Você bem que poderia ter feito isso.

—Desculpa Miku-chan, isso vai de encontro aos meus princípios. –O azulado responde em tom de deboche.

—Ah, falando em matemática, você acha que passa nela Len? –Luka pergunta- Você tinha tirado abaixo da média antes.

—Talvez... –Len coça a bochecha com um indicador. –Pode ser que eu perca... Mas se isso acontecer...

—Relaxa, eu ajudo você a estudar. –Kaito apoia seu braço sobre um dos ombros do loiro.

—Mas você já vai estar de férias.

—Bem, você é um bom baixista, não podemos perder você. Ah e eu considero você meu amigo também. E mais uma, eu te devo muita coisa, não acha? –Kaito responde Len.

Aí, eu não fazia ideia que Kaito tinha uma dívida com Len. Não faço ideia do que é, e é claro que isso me deixa mais do que curiosa. Mas ao invés de fazer alguma careta estranha ou algo do tipo, Len aceita a ajuda de Kaito sem reclamar.

—Mas vamos confiar um pouco em você, vai que você passa e tudo... –Tento reanima-lo.

O tempo passa mais rápido com nossa conversa saudável na sala do clube. Claro que não estou apenas preocupada com Len, eu também não tenho certeza se tirei uma nota satisfatória em matemática. Mas os assuntos do pessoal parecem mais interessantes que toda a minha ansiedade.

—Então, Len, sua prima mais nova também está estudando aqui?- Miku pergunta.

—Sim, ela está no primeiro ano. –Len responde.

—Ela está tendo dificuldades? –Luka questiona.

—Não que eu tenha percebido, mas ela fez amizades rapidamente. Algumas das garotas da sala dela estudaram com ela antes dela ir embora, uns três anos atrás.

—Ah, que legal... Essa sua prima por acaso está solteira? –Kaito pergunta descaradamente.

Eu sei que odeio esse jeito mulherengo de Kaito e estou torcendo para que ele e Lily tenham algo, mas eu não acharia má ideia usá-lo com Lenka para que ela esquecesse Len.

Sei que minha mente é podre, desculpa.

—Ela está sim. –Len responde dando um sorriso sem graça- Mas o Rinto parece meio ciumento em relação à irmãzinha.

—Logo o Rinto? Mas ele é um mulherengo igual ao Kaito. –digo tirando sarro.

—Mulherengo? Eu? –Kaito ironiza- Você sabe que meu coração pertence apenas a você, meu docinho.

—Sai, seu mulherengo. –fico constrangida com o fato de Len estar por perto quando Kaito me provoca. Não posso reagir positivamente a essas provocações.

—A diferença do Kaito para o Rinto é que o Kaito consegue realmente pegar as garotas, enquanto o Rinto fica apenas cantando-as. –Len diz rindo.

—Sinto até um pouco de pena dele, ele parece investir bastante na Haku. –digo.

—Ele não conseguirá nada com ela nunca. –Len judia verbalmente do próprio primo sem pudor algum.

Somos tirados de nossa zona de conforto pela presença inesperada de Meiko, que nos diz que os resultados saíram. Todos saem com pressa da sala, mas Len parece um pouco hesitante, assim como eu. Toco seu ombro, como ele fez comigo mais cedo e então ele me segue. Despedimo-nos dos veteranos e vamos para o corredor do segundo ano.

Ao chegar ao corredor do segundo ano, encontramos Rinto, Gumi, Teto, Neru e Haku tentando observar seus nomes no quadro. Len e eu nos colocamos na multidão de alunos, que apertam e empurram uns aos outros para ver suas notas. O acúmulo de estudantes nesse calor de verão não tem cheiro de suor, tem cheiro de desespero.

Muita gente sai do lugar aliviada, outros saem trêmulos e com os olhos molhados. Minhas mãos suam e minhas pernas tremem, meu coração parece que saltará do meu peito. Talvez eu esteja até pálida feito papel, até que finalmente, encontro uma folha com os nomes da minha turma.

Len percebe que estou nervosa, ele também está. Ele pega minha mão silenciosamente e a aperta. Não sei se fez isso para me acalmar, ou se foi para acalmar a si mesmo. Palavras não são trocadas, apenas olhares. Seus olhos estão nervosos, mas mesmo assim ele força um sorriso, e eu tento fazer o mesmo. Em meio a tudo isso, encontro meu nome.

Olho todas as disciplinas e quase tomo um susto com minha nota de matemática. Sessenta e dois. Apenas um ponto a mais do que eu precisava. Em física tirei até mais do que imaginava, enquanto a prova de literatura, da qual fiz de maneira desatenta acabei me saindo muito bem. Não me atrevo a procurar o nome de Len na lista, já que ele aperta a minha mão fortemente.

Olho de volta para ele, mas não consigo ver seus olhos. Balanço um pouco nossas mãos entrelaçadas, numa tentativa de chamar a atenção dele, mas falho. Então, começo a chamar seu nome baixinho e vou aumentando o tom da minha voz gradativamente.

—Ei Rin...

—O quê?

—Faltou pouco...

Vejo seu nome na lista. Len tirou apenas dois pontos abaixo da média. Ele terá de refazer a prova. Terá de vir para a escola e gastará no mínimo, quatorze dias de aulas de verão para refazê-la.

Na tentativa de quebrar o gelo, levo o garoto para o telhado, juntamente com duas latas de refrigerante. Len se joga no chão e fica encostado no muro do terraço, solta um suspiro e depois abre a lata de refrigerante que o entrego. Sento ao lado dele e também abro minha bebida.

—Pelo menos você perdeu com honra. –digo depois de um gole.

—Como assim?

—Você estudou dessa vez. E também tem algo que quer proteger, sua presença no clube. Isso prova que você com certeza se esforçará para adquirir uma nota melhor.

—Isso você tem razão. Eu vou fazer o meu melhor.

—Assim espero.

—Mas... Eu te fiz uma promessa, eu te daria uma resposta quando as provas acabassem.

—Eu lembro, mas tecnicamente, suas provas ainda não acabaram.

—Mesmo assim... Eu não quero te deixar esperando mais...

Meu coração dispara...

Len... É agora que...

...

Continua...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.