Notas iniciais
A história não foi betada, então talvez deva ter alguns erros gramáticais. Espero que não tenha, sou muito chata com isso.

Como aprendi que não sei bosta nenhuma sobre o câncer

Já pensou como seria bem doido se sua vida inteira mudasse a partir de um telefonema? Acho que já. Várias notícias são entregues a partir de telefonemas. Comigo não foi diferente. Minha vida estava tranquila. Faculdade de Cinema (lembre-se, Cinema, Não Medicina), uma namorada bonita, vários amigos, festa toda sexta a noite. Oh, vida boa. Estudava apenas o que queria, o que não queria estudar, a solução era fácil; matava a aula. Queria que tivesse sido assim para sempre.
Mas não foi.

Então, lembra quando eu disse que tudo pode mudar a partir de um telefonema? Ótimo, porque mudou.

Dia 25 de março, eu estava no dormitório com meus dois melhores amigos, Henry e Mark. Brincávamos de verdade ou desafio. Mas não é verdade ou desafio do tipo de criança do sexto-ano. A coisa era pesada. Prefiro não dizer aqui o que fizemos, porque foi tenso.

Bem, no meio da brincadeira, meu celular tocou. Pensei que fosse ser a Kaitlyn, minha namorada. Mas não era.
Era minha mãe.

Estranhei, porque ela nunca me ligava. Sempre que tinha algo importante a contar, mandava email. Mas dessa vez não. Deveria ser algo bem importante.
E era.

Atendi o celular, meio tenso.
Uma voz chorosa e dramática estava no outro lado da linha.
— Mãe, oi. O que houve?- perguntei aflito. Ela estava me ligando, quando normalmente mandava email. Estava chorando, o que não era um bom sinal.
— Oi filho.- ela respondeu, chorando ainda.
— Tá tudo bem? Por que a senhora está chorando?- perguntei novamente. Nunca chamei minha mãe de senhora. É estranho, tipo, ela é minha mãe, e não uma senhora qualquer.
— Filho, acabei de voltar do hospital com sua irmã.- ela explicou.
— Quê? Emily? Mãe, para de chorar e fala direito!- exclamei. Posso ter parecido um pouco grosso, mas na verdade estava confuso.
— Ela está doente, filho. Sua irmã está doente.- ela continuou.
Henry e Mark me olhavam preocupados.
— Doente como, mãe?- perguntei outra vez.
— Ela tem leucemia.- ela disse, desabando em lágrimas.
— Leucemia? Nossa. Que triste, mamãe. Que pena. E quando ela vai ficar boa?- perguntei. Não sabia o que era leucemia ná época, mas não queria pagar papelão, então fingi que sabia. Mas muito mal. Se ao menos soubesse que era um câncer, poderia ter mentido de forma mais convincente.
Bem, minha mãe chorou ainda mais depois de eu ter perguntado quando ela iria ficar boa. Tentei acalmá-la, mas ela não parou de chorar. O melhor que poderia fazer era desligar o celular. Henry me lançava um olhar raivosos, e Mark um olhar indignado.

Depois de ter desligado o telefone, Henry disse um palavrão. Mark reprimiu um grito de raiva.

— Que foi? Disse algo errado?- perguntei na maior inocência do mundo.
— Disse. Disse algo muito errado, Evan.- Henry me falou, bravo.
— Sabe que leucemia é um câncer, não sabe?- Mark perguntou, como se estivesse perguntado: sabe que o chocolate vem do cacau, não sabe?
— Sim, sei. Claro, tipo, nossa.- menti. Muito mal. Para variar.
Henry bateu com a mão na testa.
— Leucemia é um tumor na médula óssea, onde as células do sangue são produzidas.- Mark explicou.
— Atá. Cara, tem certeza de que escolheu o curso certo?- perguntei irônicamente.
— Vou fazer medicina quando terminar Direito.
Assenti com a cabeça. Eu era muito burro para saber a gravidade da leucemia. Confesso que nunca fui fã de Medicina, sempre gostei de Cinema.
— É câncer no sangue, Evan.- ele terminou. Acho que ele tinha percebido que eu não tinha entendido.
— Nossa. Mas, tipo, ela corre risco de vida?- perguntei preocupado.
— Me recuso a responder.
— Tá bem.- aceitei, bolado.


Depois desse telefonema da minha mãe, continuamos o jogo. É, essa informação realmente não é importante para o desenrolar da história.

Enfim, uma semana se passou, e eu praticamente havia esquecido que minha mãe havia me ligado. É, eu esqueci que minha mãe me ligou chorando dizendo que minha irmã mais nova estava com câncer. Até que meu pai me ligou, me pedindo para voltar para casa e animar a Emily.

— Pai, isso é realmente necessário?- perguntei pelo telefone (não, não. Foi pelo tablet, seu burro.)
— Filho, Emily não sai do quarto. Ela só fica vendo séries de TV com Neanderthal no colo, ou fica lendo livros o tempo inteiro. Só sai do quarto para comer e usar o banheiro. Só isso.- ele falou.
— Pai, não vejo a Emily tem dois anos. Mas me lembro de que ela agia exatamente assim antes. Não tem nada de errado com ela.
— Filho, por favor. Vem para a casa. É um momento difícil para nossa família, e queremos você conosco.
— Tá, pai. Vou falar com o coordenador e ver se ele deixa eu voltar para casa.- concordei aborrecido.
Queria mesmo que o coordenador não tivesse permitido. Não via Emily à bastante tempo. E ela era totalmente introvertida. Não introvertida do tipo, tímida. Introvertida do tipo, antisocial. Não ia á festas, não saia com os amigos, nada. Só ficava no quarto lendo e vendo séries de TV. Eu não era próximo dela nem quando ela era saudável. Não era um problema em sua medula óssea que iria nos aproximar.
Mas o coordenador permitiu. Ele deixou que eu saísse na faculdade por um tempo para visitá-la.

Eu fui. Comprei uma passagem de ônibus e voltei para casa. Pensei que se eu dissesse que não queria vê-la, soaria egoísta. E sooa mesmo. Não apenas me faz parecer um egoísta, mas também um idiota. Então fui, contra minha vontade, mas fui. As vezes temos que fazer coisas que não queremos, pois mesmo que nós não percebamos, pode valer algo bem maior do que realmente achamos. Não era egoísta por não querer ver minha irmã. Mas nós não eramos íntimos quando ela estava bem. Por que seriamos agora que ela está doente?

O ônibus estava bem fedido. Uma moça entrou no banheiro e ficou vomitando durante 30 minutos. Ela devia estar grávida. Um bebê tinha feito cocô na fralda, e a mãe não trouxera outras. Eu que quase vomitei. O pior de tudo é que a mãe e o bebê estavam sentados do meu lado. Um moço levou uma gaiola com um papagaio, que ficou repetindo o choro de outra criança, uma menininha, que chorava porque seu pai esquecera de trazer sua pequena boneca Barbie. São nesses momentos da vida em que você pensa se realmente vale a pena viver. Doeu. Aquela viagem doeu no fundo da alma, de tão ruim que foi. Essa informação é completamente irrelevante, mas foi o que aconteceu.

Cheguei em casa depois de 6 longas horas de tortura. Ela continuava igual a dois anos. Um sobrado marrom feito de madeira. Toquei a campanhia, e meu pai antendeu. Ele me deu um abraço, e eu retribui. Depois foi minha mãe. Ela enterrou sua cabeça em meu ombro e começara a chorar. Adivinha quem não me cumprimentou? Isso mesmo. Emily. Ela não desceu para a sala, ficou lá em cima, em seu quarto, provavelmente assistindo Breaking Bad. Como eu sabia que era Breaking Bad? Não sabia. Mas sei que ela ama séries de TV, então estaria vendo alguma.

— Filho, vai dizer olá para sua irmã. Ela está morrendo de saudades.- minha mãe pediu. Saudades. Ahãm. Se ela ao menos tivesse percebido que eu não estava presente nos últimos dois anos, teria ao menos decido para dizer: Hey, idiota, tenho um problema na minha médula óssea. Provavelmente irei morrer, então preciso que você me ajude e me anime.
Piada ruim, mas vamos prosseguir com a história. — Ela está lá em cima. Vá cumprimentá-la.
Eu fui.

Cheguei no quarto dela. Esperava encontrá-la careca, pois pensava que o efeito colateral do câncer era perder o cabelo. Lembre-se: Cinema, não Medicina.
Mas encontrei ela normal. Estava mais alta, com o cabelo mais longo, e, pode parecer estranho, mas estava com um corpo mais de mulher. Antes de ir para a faculdade, ela tinha 14 anos. Mas com corpo de 12. Quando voltei, ela tinha 16, quase 17, e corpo de 16 mesmo.
Ah, mulheres. É engraçado como o corpo delas funciona. Na verdade, como a mente e o corpo funcionam. Tem aquela TPM, que faz com que elas pareçam ainda mais bipolares do que realmente são, nos dias normais. É claro que nem todas são assim.
Mas a maioria é.

Bem, isso realmente não tem importância para a história. Emily tava na cama, vendo TV, com nosso gato, Neanderthal, no colo.

— Oi, Emily!- disse, tentando fingir estar animado.
— Oi.- ela respondeu, sem tirar os olhos da TV.
— Bem, como vai? Terminou de assistir, como era o nome? Friends?- perguntei, tentando não tocar no assunto "câncer".
— Eu terminei o ano passado.- ela respondeu novamente, de forma seca, sem tirar os olhos da tela.
Depois de um longo silêncio, perguntei:
— Que série está vendo?
Ela demorou um tempo para responder.
— Once Upon a Time.
— É legal?- perguntei. Na verdade, Kaitlyn vê essa série, ela vive me dizendo que é incrível e que eu tenho que ver. Mas prefiro ver futebol e comer nachos.
— Eu sei que você não tem o menor interesse de assistir, Evan. Só está aqui porque o papai te falou que estou doente. Mas não preciso que me anime. Quero ficar aqui, curtindo a vida do jeito que curto desde os 11 anos. Muito obrigada.- ela falou, pausando a TV.
Olhei para ela boquiaberto.
— Emily, aguentei 6 horas em um ônibus para vir aqui te animar. Não vai realmente ficar jogada na cama vendo séries e lendo, né?
— Vou sim, obrigada! Agora, me dê licença, por favor. Esse é o meu jeito de ficar animada. Não preciso de você.- ela me expulsou do quarto, fechando a porta na minha cara.
Tava óbvio que não seria uma missão fácil.

Notas finais
Espero que tenham gostado. E comentem por favor. Saber que tem gente lendo e gostando motiva muito os autores a continuar. Bem, por enquanto é isso.