My Rebel Angel
2 Minha quase morte
Notas iniciais
Naquele dia eu definitivamente não acordei bem. O despertador tocou como todas as manhãs, a luz cálida do sol entrou pelas janela como em todas as manhãs, minha gatinha Muffin miou e pulou em cima de mim como em todas as manhãs... Mas algo estava errado. Muito errado.
– Deixe de ser preguiçosa. – Me repreendi em voz alta. – É só isso. Preguiça.
Me levantei e desliguei meu despertador. Afastei Muffin (que não ficou nem um pouco feliz com isso), Fui para o banheiro e me olhei no espelho. Eu estava péssima. Com olheiras em volta dos olhos, o cabelo para cima e o rosto amassado. Ainda bem que hoje é sábado, Pensei. Não sei se poderia dar um jeito nisso antes da aula.
Mas algo ainda estava errado. Eu me sentia vigiada. Queria esconder o rosto entre as cobertas e gritar para que quem quer que estivesse me vigiando fosse embora. Deixe de ser medrosa, me repreendi, dessa vez mentalmente.
Fiz minha higiene matinal e desci as escadas até a cozinha.
– Oi dorminhoca. – Mary me cumprimentou.
– Que horas são? – Perguntei pegando um dos bolinhos que Mary havia feito.
Se você nunca comeu um bolinho da Mary, nunca viveu. Sério. É como comer um pedaço do céu açucarado que desmancha na sua boca. É como manjar dos deuses.
– Já são nove e meia da manhã. – Mary riu. – Pelo jeito dormiu bem, hein?
Eu sorri e ia protestar.
Mas eu não fiz isso. Paralisei. Havia alguém nos vigiando pela janela, bem atrás de Mary. Não era bem alguém, era um vulto. Totalmente negro, nos observando com atenção. Como ela estava de cotas, não havia percebido. A “criatura”, quando percebeu que eu a tinha visto, simplesmente sumiu, como que se fundindo nas sombras projetadas pelo telhado da varanda antes mesmo de eu dizer olha!. Deixei meu bolinho cair no prato. O que era aquilo, eu não sabia. Mas definitivamente não parecia ter vindo para entregar cestas de presentes.
– Mary, — A chamei sem tirar meus olhos da janela. — Tia Charlotte convidou alguém?
– Não, querida. – Mary já havia mudado a expressão de divertida para preocupada. Eu sempre devorava dois bolinhos pelo menos, e naquele dia mal havia comido um. – Ninguém. O que...
– Nada. – A interrompi. –Só tive a impressão de ver uma sombra ali fora.
Mary olhou pela janela, e naturalmente, não havia nada lá. Ninguém perambulava por aí em uma manhã de sábado para vigiar outras pessoas por janelas. Pelo menos era o que eu pensava.
Respirei fundo. Aquela sensação estranha tinha voltado, mais forte do que antes. Eu quase podia sentir uma respiração gelada em minha nuca. Deixei meu bolinho de lado.
– Perdi a fome. – Falei e deixei Mary sozinha na cozinha.
Respirei fundo e fui me vestir devidamente, afinal, eu estava de pijama. Aquela sensação estranha não passou nem por um segundo.
Resolvi sair um pouco, falar com Jack talvez, e ver se ele percebeu algo de estranho. Vesti algo bem simples: Um short jeans e uma blusa amarela de um ombro só. Minha tia não aprovaria. Mas eu não ligava. Adorava irritar aquela velha.
– Oi garota! – Jack gritou e sorriu aquele sorriso assim que me viu.
– Oi Jack. – Não pude evitar, sorri também. Ele era surpreendentemente contagiante para um senhor de sua idade. Muffin estava aos pés dele. Como ela tinha chegado lá tão rápido? Eu não fazia idéia.
– O que é que minha pequena quer? – Ele perguntou.
– Não sou pequena, tenho 13 anos. – Falei e ele riu.
– No meu tempo, 16 anos era ser pequeno. Basicamente, você é um bebê.
Revirei os olhos e ri junto com ele. Ás vezes, aquele senhor idoso ali era mais criança que eu.
– Tudo bem, mas não é sobre isso que eu vim falar.
– Então?
– Você viu alguém passar por aqui?
– Não.
– Tem certeza? – Insisti.
Ele parou o que estava fazendo e voltou sua atenção para mim.
– Não. Você está bem?
– Estou. – Menti. – Claro.
Um silêncio se passou. O ar estava carregado.
– Então, eu... Já vou. – Falei e antes que ele pudesse dizer algo, eu saí. Algo ainda estava me incomodando. É só a sua imaginação te pregando uma peça, me repreendi. — Tchau Jack!
– Tchau, garota. — Ele falou sorrindo, mas se via sua preocupação.
O que está acontecendo comigo?, Pensei. Isso é muito estranho. Estou ficando... Louca?
Fui tirada de meus pensamentos por um toquinho familiar. Desde os 7 anos eu ouvia esse toque e endoidava. O carrinho de sorvete. Eu amava sorvete.
Tinha alguns trocados no bolso, então resolvi comprar um. E então avistei ela: Dona Sandra. Dona Sandra era uma senhora de meia idade muito simpática que fazia o melhor sorvete do mundo.
Sorri para ela e ela sorriu de volta, parando do outro lado da rua.
E então tudo aconteceu.
Foi muito rápido. Eu ia atravessar a rua, me esqueci de olhar para os dois lados, pois estava cumprimentando Dona Sandra. Um carro veio desgovernado na minha direção. Quando eu o vi, ele estava a 10 metros de mim, mas minhas pernas pareciam chumbo, eu não conseguia me mover. Então só esperei a colisão...
Que não veio. Alguém entrou na minha frente. Era, provavelmente, um garoto da minha idade, um pouco bronzeado, atlético e com cabelos negros, incrivelmente negros e enrolados. Ele trajava apenas uma calça completamente branca e tinha o peito nu.
Ele parou em frente ao carro. Eu quis gritar para ele correr, mas não tinha voz para isso.
E então, do nada, o carro simplesmente parou e estacionou ali perto, como se seguisse os comandos do menino na minha frente. Fiquei boquiaberta. O menino se virou para mim. Tinha as feições mais lindas que eu já vira. Seus olhos, assim como seus cabelos, eram incrivelmente negros e intimidadores.
– Você está bem? – Ele perguntou com uma voz aveludada.
Eu não conseguia formar frases completas, então eu simplesmente fiquei balbuciando palavras.
– O carro... Você... Ele ia...Como...
Ele riu, um repicar de sinos ao vento, o som mais lindo que eu já ouvira.
– Acalme-se Kate. – Falou.
Demorei um pouco para perceber que ele havia me chamado pelo nome. Aquele menino desconhecido sabia o meu nome.
– C-Co-como sabe meu nome? – Gaguejei. — Quem é v-você?
Ele me dirigiu um sorriso sofrido.
– Eu sou Dave. – Ele falou e de suas costas brotaram... Asas? Sim, eram asas. Cinzas, quase pretas, enormes asas. – Seu anjo.
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