My R

1 ... Mesmo Sem Acreditar ...


"Hoje é o dia, eu finalmente vou ser livre das dores"- Eu pensava, no último andar daquele prédio, enquanto tirava meus sapatos.

Mas então, na beirada, eu vejo, uma garota de cabelo trançado voando ao vento, que tinha chegado antes de mim. E mesmo que eu tenha vindo aqui com a mesma intenção que ela, não consigo me impedir de gritar:

— Hey, você! Não faça isso, por favor!- Ooopa, o que eu estou pensando, eu realmente disse isso?

Eu nem ao menos me importava com a vida daquela garota, na verdade, eu até estava com raiva! Tinha acabado de perder uma oportunidade.

E a garota de cabelo trançado, tendo me ouvido gritar, olhou pra mim e me contou seus problemas:

— Você provavelmente já ouviu tudo o que vou te contar milhares de vezes. Eu estava muito apaixonada por um garoto, chegamos a namorar, e eu achei que ele fosse ser o único para mim, mas então ele terminou comigo, e na semana seguinte, já estava namorando outra garota.- Ela disse chorando, e eu senti uma onda de fúria me preencher.

— Pelo amor de Deus! Você está falando sério? Eu não acredito que você ia se suicidar por isso! É estupido! Como você chegou aqui antes de mim?- Disse irônica, mas percebendo que essa abordagem não funcionaria, tratei de me acalmar, e voltei a falar- Sinceramente, você tem sorte de nunca ter tido nada roubado de você, e se com ele não deu certo, vai dar com outra pessoa!- Disse num tom gentil.

— Eu me sinto melhor, obrigada por me ouvir, eu acho que me sinto melhor.

E então a garota de cabelos trançados saiu da beirada, passou do meu lado e desapareceu. Nunca mais vi ela depois daquele dia. E eu, tendo perdido minha oportunidade, calcei os meu sapatos, me virei e fui embora.

Voltei ao prédio no dia seguinte, e pensei:

" Okay, é hoje, o grande dia em que fico livre! Finalmente!"

Mas eu só pude pensar isso, pois logo após tirar meus sapatos, eu vi, sentada na beirada do prédio, uma garota muito pequena, e apesar de estar brava por não ter chegado antes, eu vou e grito:

— Hey, você! Não faça isso, por favor!

A pequena garota, então se vira, surpresa, e me olha com seus olhos repletos de lágrimas, se levanta da beirada, caminha até mim, e se senta do meu lado, me fazendo sentar também. Ela, assim como a garota de cabelos trançados, também me contou seus problemas, começando sua fala exatamente como a outra garota:

— Você provavelmente já ouviu tudo o que vou te contar milhares de vezes. As pessoas me odeiam, me empurram, batem em mim, me roubam e me ignoram, eu não me encaixo em nenhum lugar... — Ela disse triste, e eu... Não consegui me impedir de suspirar.

— Pelo amor de Deus! Você está falando sério? Eu não acredito que você ia se suicidar por isso! É estupido! Como você chegou aqui antes de mim?- Eu disse, dessa vez calma e com um tom gentil.- Pense comigo, se eles te machucam, e te ignoram, é por que eles tem inveja de você! Você é forte, aguentou muita coisa! O que é um pouco de bullying comparado com a felicidade que você vive em casa? E quando se sentir pequena e fraca, lembre-se que você tem uma família que te ama muito em casa, e sempre tem um jantar quente e delicioso te esperando na mesa, não é?

— Eu estou com fome!- Disse a pequena garota, levantando e correndo até a porta do telhado, mas parando antes de ir embora, se virando e gritando- Obrigada por me escutar!

E então ela se virou e foi embora.

Depois daquilo, nunca mais vi aquela pequena garota.

E então isso continuou, durante uma semana, todos os dias, eu ia para o terraço daquele prédio, ouvia suas histórias e os ajudava a reconsiderar, e depois os via ir embora felizes.

E embora eu tenha feito isso muitas vezes, ainda sim, eu não tinha ninguém para me fazer reconsiderar, ninguém me ouviria, ou apontaria as coisas boas que eu ainda tinha, eu não podia abandonar a minha dor.

E então, ontem, pela primeira vez eu vi alguém com as mesmas dores que eu.

O garoto, já tendo vindo aqui, várias e várias vezes, usava um casaco amarelo.

Sem que eu nem ao menos dissesse nada, ele se pôs a falar:

— Eu só estou cansado, quero parar as cicatrizes do meu braço que triplicam toda vez que vou para casa, por isso vim até aqui, para acabar com isso...

Foi o que o garoto de suéter amarelo disse.

E mesmo que eu soubesse que não tinha como parar aquele garoto, eu gritei:

— Hey, você! Não faça isso, por favor!

Droga, o que eu vou fazer? Não tenho como para-lo! Pela primeira vez eu tinha mordido mais do que conseguia mastigar!

— Se você não vai parar, então por favor, apenas faça isso rápido, eu não suportaria ver sua expressão deplorável! Ela é demais pra mim!- Eu gritei, chorando.

— Acho que hoje não é o meu dia.- O garoto do casaco amarelo disse, enquanto saia da beirada e desaparecia. E eu, tendo perdido outra oportunidade, vou embora.

E agora, aqui estou eu, subindo as escadas do prédio novamente, depois de lembrar de todas as pessoas que ajudei aqui, lembrando o apoio e os conselhos que dei a elas. E mesmo que eu tenha ajudado muitas pessoas ao passar da última semana, eu sei que ninguém vai me ajudar, me aconselhar, me impedir... Por que ninguém se importa.

E então eu chego ao terraço...

Tiro meu casaco amarelo...

Desfaço minhas tranças...

Voando ao vento...

Essa garota tão baixa quanto poderia ser...

Vai pular agora...

E ser livre!

Mas então, pouco antes de pular, escuto uma voz feminina atras de mim:

— Hey você...

Era a menina de cabelo trançado, percebi, quando virei a cabeça pra traz para olhar. Logo depois disso, apareceu aquela pequena menina, e depois veio o garoto de casaco amarelo.

Os três pareciam me olhar com carinho, e eu não estava entendendo nada...

Foi então que a garota de cabelo trançado voltou a falar:

— Eu estava mal por uma coisa fútil, e você, mesmo não me conhecendo, me mostrou isso. Não sei quais são suas dores, mas afirmo pra você ouvir, que nada nunca mais será roubado de você! Obrigado por me ouvir e ajudar, e por favor, deixe-nos te ajudar também!

E então foi a vez daquela pequena garota falar:

— Você me fez lembrar de uma força que eu esqueci que tinha, e você, mesmo sem ter obrigação, me lembrou de usa-la, e me deu uma base onde me apoiar. Eu não conheço seu passado, não faço a mínima ideia do que você sofreu, mas te garanto que se sua família não te espera, nós vamos estar te esperando!

E então finalmente foi a vez do garoto de casaco amarelo:

— Você não precisou fazer absolutamente nada para me atingir, apenas o jeito que você chorava e o seu olhar de dor, me disseram tudo que eu precisava saber. Você me mostrou, que embora meu sofrimento seja enorme, eu não sou o único passando por isso, eu não sou o único quebrado aqui. E assim como você nos mostrou que não estamos sozinhos, deixe-nos fazer o mesmo por você! Deixe que sejamos sua família, e nós te esperaremos com o jantar pronto em casa, deixe que te protejamos, e nada seu nunca mais será roubado, deixe que fiquemos ao seu lado, e nunca mais estará sozinha!

E então, para encerrar eles disseram todos juntos:

— Só... Não faça isso, por favor!

E então, enquanto chorava, eu percebi que eu finalmente...

Tinha o meu lugar.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!