My Quarterback's Promises

1 Antes que o Silêncio Decida por Nós


Notas iniciais
Oi, caro leitor! Seja muito bem-vindo a My Quarterback’s Promises. Esta é uma história sobre amizade, sentimentos que crescem em silêncio e promessas que nem sempre permanecem iguais ao longo do tempo. Espero que você aproveite a leitura, torça pelos personagens e se permita sentir cada momento dessa história. Obrigada por estar aqui.


O clima de festa e animação rodeava os corredores e salas de aula da Konoha High School. Há mais de dez anos o time de futebol americano não se classificava para a final do Intramural Flag Football Tournament.


Todos estavam com altas expectativas de que o time levantasse a taça naquele ano, e os meninos haviam se empenhado muito para chegar àquela posição.


Naquele início de temporada, eu ainda não sabia que a temporada terminaria com o time disputando a final do campeonato.


Para mim, eles já eram campeões. Eu estava orgulhosa de tudo o que haviam conquistado, sobretudo quando pensava no quarterback e capitão do time.


Sasuke Uchiha.


Hoje, olhando para trás, ainda consigo me lembrar quando sua família chegou ao bairro. Eu estava brincando no quintal da frente de casa quando um caminhão de mudança, com um veículo logo atrás, estacionou em frente à antiga casa dos Johnson. Para um bairro onde quase nunca aconteciam mudanças, essa chegada repentina não passou despercebida.


Curiosa, vi por entre as frestas da cerca um menininho emburrado descendo do veículo junto com sua mãe. Naquela época não imaginava como os nossos mundos iam colidir e coexistir de uma forma única.


Ainda naquela tarde, minha mãe, querendo ser a vizinha solícita sem aparentar curiosidade com a novidade, marchou rumo à casa dos novos vizinhos comigo no encalço.


Ao entrar na residência, lembro de ver várias caixas encostadas nas paredes, mas a que mais me chamou a atenção foi a que estava por cima, próxima à escada, onde era possível ver alguns equipamentos esportivos escapando pela tampa mal colocada — algo que, na época, eu claramente não entendia do que se tratava.


Minha atenção foi retirada dos equipamentos pelo chamado de dona Mikoto, a mulher que tinha visto mais cedo junto ao menino.


— Sasuke, Itachi, venham aqui um momento, por favor.


Com o chamado, duas figuras apareceram direto do quintal dos fundos. O mais velho vinha trazendo o mais novo, que o seguia como que por obrigação.


— Meninos, queria apresentar nossas novas vizinhas: Mebuki e sua filha, Sakura.


Me encolhi perto da minha mãe quando tive os olhos voltados para mim.


— É um prazer, senhora Mebuki e senhorita Sakura — disse o mais velho.


O mais novo apenas meneou a cabeça.


— Por que vocês, crianças, não vão brincar lá fora? Sasuke, mostre o quintal para a Sakura, sim! E você, Itachi, vá ajudar seu pai na garagem enquanto converso com a Mebuki.


Senti minha mãe me empurrando em direção ao garotinho que seguia calmamente para fora.


— Vá brincar, querida, enquanto converso.


Quando me vi, estava sentada no quintal ao lado do menino mais quieto que já tinha conhecido.


— Então! Quantos anos você tem?


Obtive apenas silêncio.


— Está gostando da mudança?


Nada.


Ele continuava sentado, segurando uma bola de formato diferente nas mãos.


— Essa bola é de qual esporte? Como se brinca com ela? — e foi assim que pela primeira vez obtive uma reação dele. Uma leve troca de olhares curiosa, entre mim e a bola, apareceu em seu rosto.


Sorri satisfeita! Finalmente tinha encontrado um assunto em que conseguia a atenção dele.


— Você não conhece futebol americano? — perguntou, com uma cara espantada, enquanto lançava a tal bola no ar.


— Desculpe, não — respondi com certa vergonha. — Minha mãe não entende de esporte e meu pai… Bom, ele não está por perto — interrompi a fala. Ainda doía, às vezes, não ter papai por perto. Acho que ele percebeu a mudança repentina de humor que passava por mim. Esse assunto não era algo que eu gostava de falar.


— Posso te ensinar sobre o esporte, se você quiser.


— Mesmo?


— Mesmo! Assim, quando eu for jogador profissional, você vai poder assistir aos meus jogos e entender tudinho!


— Sakura!! — chamou mamãe. Me virei a tempo de vê-la chegando na porta dos fundos. — Vamos, querida?


Já de pé, me virei para Sasuke, que ainda permanecia sentado com os olhos sonhadores. Não queria perder o assunto que começava a fluir.


— Você promete me ensinar sobre o jogo depois? — questionei-o.


— Sim! A hora que você quiser! — sua expressão estava mais natural.


Aquela havia sido a primeira promessa que ele havia me feito. Saí de lá com o sentimento de que era apenas o começo de uma nova amizade.


«☆»


O tempo só confirmou a amizade. Sasuke começou a estudar na mesma escola e sala que eu; íamos e vínhamos juntos todos os dias. Trabalhos eram feitos em duplas, no almoço dividíamos os lanches, sempre próximos um do outro.


Passávamos a tarde brincando um na casa um do outro. Nas noites de sexta, enquanto os adultos conversavam coisas chatas de adultos, nós nos sentávamos na frente da TV, assistindo jogos enquanto Sasuke me ensinava tudo sobre o esporte. Até que comecei a entender o esporte e a ter opiniões por mim mesma.


Essa nossa dinâmica durou até pouco depois de entrarmos na adolescência. Com ela, vieram mudanças que, à primeira vista, pareciam sutis.


Sasuke havia crescido bastante desde que começara a treinar. Ganhara vários centímetros de altura e, quando percebi, já não nos sentávamos mais próximos. Sua carteira havia sido movida para o fundo da sala, enquanto eu, baixinha, continuava sentada na frente.


Aos poucos, novas amizades surgiram. Nossos assuntos já não eram tão compatíveis e, quando percebemos, deixamos de dividir o lanche todos os dias.


Os horários começaram não se encaixar mais com tanta facilidade. Sasuke tinha entrado no time de futebol americano, e eu, para o grêmio estudantil; consequentemente, as idas e vindas não eram mais feitas na companhia um do outro.


A consequência da falta de contato frequente trouxe consigo novos sentimentos que até então eram desconhecidos e estavam adormecidos.


Um aperto no peito aqui, uma borboleta no estômago ali e, quando dei por mim, já gostava dele para além da amizade.


«☆»


A presença de Sasuke sempre trazia uma mudança de ar no ambiente. Ele chamava a atenção, seja pela beleza física ou pela habilidade esportiva, apesar de continuar sendo o cara mais reservado e contido que eu conhecia.


O primeiro dia de aula do segundo semestre do ensino médio havia chegado. Não via Sasuke desde o início das férias de inverno. Ele havia viajado com o irmão para a casa de parentes. Não é como se tivéssemos combinado nada, mas sentia falta da sua presença.


Estava sentada em minha carteira quando o vi entrar. Ele parecia mais maduro do que da última vez que o vi. Esperei que trocássemos alguma palavra sobre o retorno às aulas, mas, para meu total desgosto, ela apareceu logo atrás dele. Karin, a líder de torcida que o seguia desde que chegara ao colégio, passou o braço ao redor do seu, como se os dois tivessem intimidade suficiente para aquilo.


Ele pareceu não se importar, já que continuou o percurso até sua carteira. Quando o professor chegou, as conversas diminuíram e cada um voltou ao seu lugar; nossos olhos se encontraram até seu olhar desviar para algo que Naruto dizia ao seu lado.


Voltei minha atenção para a lousa a tempo de sentir meu celular vibrar.


Sasuke: E aí rosada, não consegui chegar antes!


Sakura: Quem é vivo sempre aparece kkk foi para a cidade grande, achei que tinha esquecido dos amigos do interior 😢”


Sasuke: Com esse tom de cabelo? Nem que eu quisesse eu conseguiria esquecer kkkk.”


Sakura: Hahaha bobão 😝o dia que eu sumir de verdade você sentirá falta!


Sasuke: Prometo jamais te perder de vista chiclete, estarei sempre de olho e por perto!


Sasuke: E falando em estar por perto, me espere na saída, vamos embora juntos, preciso te contar uma novidade 😉.”


Sakura: Você sabe mesmo como deixar uma pessoa ansiosa e angustiada, hein? kkkk além disso, promessa é dívida, e essa eu vou cobrar 😋”


Sakura: Agora preste atenção na aula porque não vou te carregar nesse ano kkkk.


Obviamente que não precisava carregar ninguém, Sasuke era tão inteligente quanto eu. Mas a piada surgiu desde a vez que tive que ajudá-lo em um trabalho uns anos atrás.


Sasuke: É o que veremos, chiclete 😝.”


Ri comigo mesma após nossa interação. Estava ansiosa para o fim do dia letivo. Fazia tempo que não curtíamos a companhia um do outro.


O sinal que indicava o fim da manhã tocou ao longe; adolescentes saíam correndo porta afora como se corressem para a liberdade, mesmo sendo apenas o primeiro dia de aula após o retorno.


Eu andava em direção ao meu armário sem prestar muita atenção ao meu redor. Ino Yamanaka, minha melhor amiga, falava algo ao meu lado sem que eu prestasse atenção.


— Testuda, está me ouvindo?


— Desculpe, porquinha, pode repetir?


— Estava com a cabeça onde? Ou melhor, em quem?


Senti meu rosto esquentar com seu comentário.


— Está muito na cara, né? Combinamos de nos encontrar no final da aula, ele disse que tinha uma novidade para me contar.


— Hummm, então está explicada a cara de boba.


— Ai, Ino, estou tão ansiosa, sinto saudades de como tínhamos mais contato. Mas é a falta das coisas simples que mais pesa. E, infelizmente, não é culpa de ninguém; é coisa da vida.


— Eu sei, amiga, mas se for pra vocês ficarem, o tempo cuidará de tudo. Vai dar tudo certo. Agora vai lá encontrar seu príncipe encantado. Depois passo na sua casa para saber mais das novidades.


— Obrigada, amiga.


Fiquei observando-a se afastar, me agarrando às suas palavras enquanto me encostava ao lado do portão de entrada, aguardando. Cada vez mais e mais estudantes cruzavam para retornar aos seus lares.


Nenhum deles era Sasuke.


Esperei até o portão fechar, sobrando apenas eu e o segurança que rondava de tempos em tempos. Precisava ir embora.


Sakura: Oi, esperei até quando pude, acho que você teve algum imprevisto, estou indo para casa, depois nos falamos.


Aquela havia sido a primeira vez que ele havia quebrado uma promessa.


Por mais que entendesse seus motivos, não podia deixar de ficar chateada com o balde de água fria que tinha recebido. Fui para casa sem me sentir capaz.


O dia passou de forma lenta. Tentava focar nos estudos, mas minha mente vagava até a casa do outro lado da rua. A janela do seu quarto continuava fechada, indicando que ele não tinha voltado para casa.


Relia o mesmo parágrafo pela quarta vez quando a campainha soou no andar de baixo de forma urgente.


— Oi, porquinha, graças a Deus você chegou, estava ficando doida de tanto pensar no… — a frase morreu no meio da fala. Encostado na soleira estava Sasuke Uchiha em pessoa.


— Oi — sua voz parecia cansada.


— Oi.


— Será que posso entrar?!


Me afastei da porta, dando passagem para que entrasse. Sentamos ambos no sofá, lado a lado; o clima estava desconfortável.


— Queria pedir desculpas, chiclete, sei que falhei com você hoje. Mas estava saindo do meu armário para te encontrar e a Karin apareceu precisando de ajuda com os horários de treinos. Só consegui sair de lá agora.


Karin, claro que ela estaria no meio. Uma raiva se apoderou de mim!


— Karin?? Como assim precisava de ajuda em algo que você poderia ajudar?? E que treinos??


O desespero transpareceu no seu olhar.


— Essa era a novidade que eu ia te contar, chiclete: durante as férias o treinador me ligou. Sasori, o antigo capitão, não conseguirá continuar no time esse ano — questões familiares. Então o treinador me indicou para a posição. Claro que aceitei na hora, essa era a chance para a qual eu vinha treinando a minha vida toda. É a hora de me mostrar para os olheiros da faculdade e seguir a carreira profissional que meu pai não pôde seguir.


Estava em choque com a quantidade de informações que apareceram juntas, que apenas consegui menear a cabeça em concordância.


— Claro que você era a primeira pessoa, além da minha família, para quem eu queria contar antes da notícia se espalhar. Mas acredito que o técnico tenha falado primeiro com a Karin, já que ela coordena as cheerleaders e precisa alinhar os horários das apresentações com os jogos.


— Sinto muito mesmo por não ter tido tempo de falar com você antes. Precisávamos entregar os planos de treino ainda hoje.


Suspirei derrotada!


— Eu entendo, Sasuke, entendo mesmo! Mas o que me deixou mais chateada mesmo foi a falta de informação; você poderia ter me avisado que não conseguiria sair naquela hora. Mas, ao invés disso, me deixou lá fora, esperando, sozinha, até os portões se fecharem.


— Eu sei, você está completamente certa. Me perdoa, isso não vai mais acontecer. É uma promessa.


Não queria quebrar a sua felicidade; sei o quanto a vaga era o início da realização do sonho pelo qual ele trabalhou duro todo esse tempo. Então resolvi deixar o problema de lado. Pelo menos naquela vez.


— Tudo bem, Sasuke. Está tudo bem! — tentei sorrir de forma a confirmar o que falava. — Fiquei muito feliz pela sua posição na vaga. Sei que você é mais do que capaz de assumir a função de forma brilhante. Então aproveite!


— Obrigado por entender, chiclete. Você é a melhor! — disse enquanto me dava um tapinha no ombro como agradecimento.


Homens.


— Mas e aí, o que me conta sobre as férias, chiclete?


Ele se acomodou no sofá como se não pretendesse ir embora tão cedo. Parecia querer puxar assunto, mas eu ainda não conseguia afastar o sentimento de que ele escolhera ficar com Karin e me deixara esperando sem sequer enviar uma mensagem.


— Sabe o que é, Sasuke, eu estou um pouco ocupada com os estudos agora, será que podemos nos falar melhor outra hora? Ainda tenho que preparar a janta para minha mãe, ela costuma chegar bem tarde do serviço às vezes.


Obviamente isso era uma desculpa, e, se ele chegou a perceber, não expressou em voz alta.


— Ah, sim! Claro, não quero te atrapalhar. Amanhã passo aqui para irmos juntos para a aula. Ok?


— Claro, claro!


O acompanhei até a porta.


— Até amanhã, rosada, durma bem — se despediu com um beijo em minha testa.


— Até!


Fechei a porta, ainda sem reação, e subi correndo a escada, já ligando para Ino. Precisava conversar urgentemente com ela.


«☆»


O primeiro jogo da temporada do Intramural Flag Football Tournament estava para começar.

No centro do campo os atletas aqueciam.


Na lateral as cheerleaders animavam as arquibancadas cheias de estudantes e familiares vestindo as cores cinza e preto da escola. Rostos pintados, banda tocando e expectativas lá em cima.


A noite estava perfeita!!


Desde meu último desencontro com Sasuke, nossa relação tinha evoluído para mais perto do que era na infância. Claro que as demandas dos dois ainda dificultavam certa convivência, mas tentávamos nos esforçar para não permitir que a distância aumentasse.


E era por isso que eu me encontrava sentada na arquibancada torcendo para o time. Meus conhecimentos sobre o esporte estavam muito mais avançados, e eu acompanhava todos os jogos do Dallas, meu time do coração. Mas me ver em um estádio lotado ainda me deixava incomodada.


Ino deveria estar comigo, mas infelizmente uma tia distante resolveu aparecer de surpresa para visitá-los. Seus pais haviam solicitado a sua presença no jantar. Tentei convencê-los a deixá-la vir, mas claramente, pelo fato de eu estar sozinha, podíamos perceber que essa estratégia tinha sido bem falha.


O time adversário entrava em campo quando os lugares à minha direita foram ocupados. Sasori, ex-capitão do time, apareceu para prestigiar “os seus garotos”, como gostava de chamá-los, acomodando-se junto com uma moça que nunca tinha visto na vida, mas que aparentava estar mais interessada no esmalte descascando do que no jogo em si.


— Eles vieram preparados — comentou, observando a formação adversária. — A defesa está bem montada, principalmente pelo meio. O safety está recuado, e os cornerbacks estão fechando as laterais. Se o Sasuke se apressar, vão obrigá-lo a fazer um passe curto e podem puxar a bandeira antes de alcançarmos a primeira descida.


— Pelo meio, sim — respondi, acompanhando os jogadores em campo. — Mas o lado direito deles tem uma brecha. O cornerback está jogando muito por dentro para bloquear a rota curta e deixou espaço às costas. Se o Naruto fizer uma rota curta para atrair o marcador e o Kiba cruzar pelo lado de fora, o Sasuke pode lançar a bola no espaço entre o cornerback e o safety.


Sasori virou o rosto na minha direção, surpreso.


— Desculpe! Não queria me intrometer nos seus comentários — disse, sentindo as pontas das orelhas vermelhas pela vergonha.


Eu e minha boca grande.


— Não há por que se desculpar. Na verdade, seu comentário faz muito sentido. Já pensou em se tornar jogadora? — perguntou com tom de brincadeira.


— Ah, claro! Se o técnico aceitar uma jogadora com duas pernas esquerdas que parece um pato correndo, eu seria a primeira da lista.


O clima da conversa era leve.


— Prazer Sasori Akasuna!


— Sakura Haruno!


— Ah sim, você é a famosa Sakura então! Alguns meninos não paravam de citar seu nome durante os intervalos dos treinos. Agora entendo o porquê! Bonita e inteligente.


Senti minhas bochechas coçando pela segunda vez naquela noite em pouco tempo.


— Sou apenas uma grande fã do esporte.


— Humm. Desculpe a intromissão, mas por que uma grande fã do esporte estava com cara de desespero até pouco tempo atrás? — sua pergunta veio com tom sério de brincadeira.


— Não é intromissão. Na verdade eu amo assistir o esporte pela TV, mas estádios cheios me deixam nervosa. Estava pensando se eu saísse de fininho alguém notaria. Mas ao mesmo tempo prometi a uma pessoa que assistiria a todos os jogos dessa temporada. Então cá estou eu. Assistindo o desespero.


— Eu te entendo. Apesar de ter estado no centro de tudo isso há pouco tempo, eu odiava sentir todos os olhares voltados para mim.


A garota ao lado de Sasori, que até então parecia distraída com as próprias unhas, finalmente ergueu os olhos. — Você fala como se não sentisse saudades, Sasori! Ainda consigo ouvir seus choros de saudade durante a madrugada. — A menina ao lado pareceu finalmente notar o seu derredor. — Mas agora que está na companhia de alguém que entende o que você está falando, posso me retirar. Bom jogo aos dois!


— Konan! Perdoe minha irmã, não sei a quem essa menina puxou — disse um pouco constrangido pelo comentário anterior.


— Sem problemas, não sei como é ter uma irmã, mas uma amiga minha é bem parecida com ela. Então estou acostumada!


A conversa fluía de forma tranquila. Os assuntos se engatavam um no outro e, quando percebi, o apito final do jogo soava de dentro do campo. Nosso time tinha saído vitorioso, um ótimo início para a temporada.


As arquibancadas começavam a esvaziar, com os torcedores se dirigindo à festa que se iniciava no campo, mas terminaria na casa de Kiba.


— Já sabe como vai embora? Vai na festa? — Sasori me indagou enquanto descíamos para o fim da arquibancada.


— Ah! Na verdade não decidi ainda, combinei de encontrar um amigo no final do jogo justamente para isso. — Havíamos combinado: se o time vencesse, iríamos para o jogo; caso contrário, uma excelente pizza de quatro queijos e uma Coca gelada seriam nosso rolê de fim de noite.


— Entendi, de qualquer forma, se precisar de uma carona estou à disposição, uma mensagem e te encontro — ele havia me pedido meu número com a desculpa de continuarmos a discutir sobre quem era o melhor time. Para ele nenhum era melhor do que o Kansas.


Eu estava disposta a provar que ele estava errado.


— Agradeço, Sasori! Obrigada pela companhia durante o jogo!


— Não há o que agradecer, tirando o seu péssimo gosto para time, me diverti bastante hoje. — sua risada foi a última coisa que ouvi antes dele se afastar em direção à saída do campo.


Fui em direção ao vestiário rindo comigo mesma. Lá seria o ponto de encontro com Sasuke para decidirmos o que fazer. Obviamente ele iria querer comparecer à festa, comemorar sua primeira vitória como capitão. Então já estava me preparando para tal.


Fui abordada no meio do caminho por Suigetsu, que vinha correndo em minha direção.


— Sakura, estava te procurando! Sasuke pediu para que eu te levasse à festa. Disse que ia se atrasar um pouco e não queria te deixar esperando.


— Ah, obrigada, Suigetsu, muito gentil da sua parte, mas acho que prefiro esperar por… — a frase morreu em minha boca. A poucos passos da área do vestiário um alvoroço de pessoas chamou minha atenção. No meio do círculo Karin e Sasuke protagonizavam o beijo que marcava a vitória do time. Meu estômago se revirou.


Ele mais uma vez tinha feito a escolha dele, e mais uma vez ela não era eu.


— Suigetsu, pode fazer um favor? Avise o Sasuke que fui para casa, sim! Não estou me sentindo muito bem. Prefiro ir descansar!

— Tem certeza, a festa será incrível!


— Sim, tenho certeza sim! Obrigada e parabéns pela vitória, vocês devem ir comemorar.


Saí andando em direção à saída sem prestar atenção ao que acontecia ao redor. Eu sabia que não tínhamos nada e que, em teoria, não deveria me sentir tão mal. Ainda assim, a cena se repetia em looping na minha cabeça.


Eu seguia em direção ao ponto de ônibus quando o farol de um veículo surgiu de repente ao contornar a curva próxima à saída de carros da escola. O som dos freios, acionados bruscamente a poucos centímetros de mim, arrancou-me dos pensamentos.


Só então percebi que estava parada no meio da faixa de pedestres, atravessando o acesso de veículos sem ter notado a aproximação do carro.


A porta do motorista se abriu, e Sasori desceu com uma expressão preocupada. Não esperava encontrá-lo novamente tão cedo. Sasori havia deixado a arquibancada pouco antes, mas aparentemente também saíra pela passagem que levava à rua.


— Hey, está tudo bem?


— Sasori, meu Deus, me desculpa, eu não estava com a cabeça no lugar!!


— Tenha mais cuidado ao andar à noite, Sakura. A maioria do pessoal já está indo para a festa, e nem todos estarão em condições de dirigir.


— Eu sei, eu sei. Me desculpa mesmo.


Ouvi-o suspirar!


— Claro, o importante é que você não de machucou e está tudo bem. Mas afinal de contas, o que faz aqui? Achei que no final das contas você iria à festa.


— Ah, sim, mudança de planos! Acabou que me perdi do meu amigo, estava indo até o ponto de ônibus para voltar para casa. Acho que já vivi emoções demais por hoje.


Algo em sua expressão dava a entender que ele não acreditava cem por cento em mim. Mas também não insistiu no assunto.


— Eu te levo até lá. Também estava indo para casa. Como minha irmã resolveu me deixar sozinho depois de encontrar outras pessoas, não há problema em fazer um pequeno desvio até a sua.


— Que isso, Sasori, não quero dar trabalho. Além disso, estou com uma dor de cabeça horrível, não seria uma boa companhia.


— Não será trabalho nenhum. Além disso, ainda precisamos conversar sobre esse tal time que você insiste em defender.


Um pequeno sorriso ameaçou surgir em meu rosto, embora meu coração ainda estivesse esmigalhado.


— Bom, se não for mesmo atrapalhar, agradeço a carona!


Pela primeira vez desde que vira o beijo, consegui respirar um pouco melhor.


Pouco tempo depois de Sasori me deixar em casa, eu já estava deitada na cama, usando o pijama mais confortável que encontrara.


Na tela do celular, o rosto preocupado de Ino aparecia durante a chamada de vídeo.


— Você não pode deixar isso te derrubar, testuda. Eu sei que não foi o que você imaginava, mas não deixe que ele decida como você vai seguir em frente. Você é linda, inteligente e uma das pessoas mais incríveis que conheço. Não precisa aceitar menos do que merece.


— Eu sei, porquinha. Conheço o meu valor e sei que existem outras pessoas interessadas em mim. Mas a gente não manda no coração. Não consigo deixar de gostar dele de uma hora para outra.


Ino ficou em silêncio por alguns segundos, observando-me pela tela.


— Você vai ficar bem? Quer que eu vá para aí?


— Não se preocupe, já estava preparada para ir dormir, quando me ligou.


— Qualquer coisa, por favor, me ligue. Não gosto de te ver sofrendo.


— Obrigada, porquinha! Amanhã será um novo dia.


Encerrei a chamada, apaguei a luz do abajur e me agarrei ao travesseiro, tentando pegar no sono. Não sei quanto tempo depois, o celular vibrou sobre a cômoda ao lado da cama, despertando-me.


Na tela, o nome de Sasuke aparecia.


Não consegui atender. Se ouvisse a voz dele, eu desabaria. Antes de conversar com Sasuke, precisava recuperar o controle das minhas próprias lágrimas.


O celular continuou vibrando até a ligação cair. Segundos depois, uma nova notificação apareceu na tela.


Sasuke: Cadê você? Naruto disse que não quis vir à festa. Está tudo bem? Como foi pra casa? Me liga!


Sua preocupação me deixava confusa, até onde eu era importante para ele? E foi com essa pergunta, sem resposta, em mente que peguei no sono.


«☆»


Na manhã seguinte, acordei com mais chamadas perdidas e mensagens de Sasuke na tela do celular.


Sasuke: Sakura, quando ver essa mensagem me responde, estou preocupado chiclete.


Sasuke: Vamos conversar, tenho certeza de que podemos resolver qualquer coisa que tenha acontecido.”


Fiquei alguns segundos olhando para aquelas palavras. Eu queria saber o que ele tinha a dizer, mas ainda não estava pronta para ouvir sua voz sem voltar a enxergar Karin beijando-o diante de todos.


Sakura: Bom dia bocô, está tudo bem! Vim pra casa depois do jogo, pode ficar tranquilo, Sasori me deixou na porta de casa.


Sakura: Prefiro não sair de casa hoje, estou naqueles dias de mulher 😣😣 sabe como fico. Aliás, parabéns pela vitória de ontem, quando estiver melhor prometo que saímos pra comemorar.”


Era mentira, mas naquele momento era a única resposta que eu conseguia oferecer.


Nos dias seguintes, nossas conversas se resumiram a mensagens curtas. Sasuke perguntava como eu estava; eu respondia que estava tudo bem. Ele comentava sobre os treinos; eu desejava boa sorte. Nenhum dos dois mencionava o meu sumiço repentino no início da partida.


Na sexta-feira, o cartaz do próximo jogo apareceu no mural da escola. Fiquei parada diante dele por mais tempo do que deveria. Meu nome não estava em lugar algum, mas a promessa que eu fizera a Sasuke parecia escrita entre as letras do campeonato.


Durante anos, assistir aos jogos havia sido uma forma de estar perto dele. Naquele momento, porém, comecei a me perguntar se eu ainda queria ir por amor ao esporte ou se estava apenas tentando continuar ocupando um lugar na vida de Sasuke.


Pela primeira vez, decidi não comparecer.


«☆»


O dia do jogo chegou, mas eu me sentia desanimada como há muito tempo não me sentia. A decisão de não ir parecia certa, mas ainda sentia como se estivesse quebrando a promessa que fizera a Sasuke.


Minha mãe tinha saído para aproveitar a noite com algumas amigas. E para não ficar em casa olhando para o teto, sozinha, decidi fazer algo útil com meu tempo. Correr sempre me trouxe calma. A noite estava agradável, nem muito fria nem muito quente, apenas alguns quarteirões já ajudavam a espairecer a mente.

Quando vi, estava ao lado da mercearia Akimichi, e, para minha surpresa, Sasori estava saindo pela porta carregando o que parecia ser uma sacola de papel com uma embalagem de yakisoba tamanho família, ainda quente.


— Sakura, que surpresa te encontrar aqui!


— Eu que o diga, não sabia que morava pela região.


— Na verdade não moro, mas vinha da casa de um amigo e sempre ouvi falar muito bem da comida desse lugar, resolvi passar para comprovar se é tão boa quanto dizem.


— Ah, mas com certeza esse lugar merece a fama que tem. Acho que nunca comi uma comida tão gostosa quanto a daqui.


Para comprovar minhas palavras, meu estômago roncou no pior momento possível. Levei a mão à barriga, horrorizada.


— Você já comeu? — perguntou Sasori risonho.


— Já sim!


Meu estômago roncou novamente, traindo a mentira.


— Pelo jeito, não sou o único que precisa de uma boa refeição — ele disse, rindo com mais vontade. — Comprei comida demais para uma pessoa só. Quer me acompanhar?


Naquela altura, não tinha mais como continuar mentindo. Resolvi que a companhia de um amigo seria muito melhor do que permanecer sozinha.


— Só aceito se me deixar pagar a bebida. Na verdade, minha casa fica a poucos quarteirões daqui. Podemos ir para lá e comer com mais tranquilidade. O que acha?


— Estou logo atrás de você.


Poucos minutos depois, estávamos sentados à mesa da cozinha. Sasori abriu a embalagem do yakisoba, e o cheiro quente de molho de soja e legumes tomou conta do ambiente.


— Você não estava exagerando quando disse que era a melhor comida da região.


— Eu nunca exagero quando o assunto é comida.


— Você exagera quando o assunto é o Dallas.


— Não vamos transformar esta refeição em uma discussão esportiva.


— Foi você quem começou.


O clima leve continuava enquanto terminávamos a refeição.


— Sério, ainda fico impressionado com a sua habilidade de ser boa em qualquer assunto que tocamos.


— Que isso, assim me deixa sem graça.


O momento constrangedor foi cortado pelo som da campainha.


— Fique à vontade, já volto.


Parado próximo à porta estava Sasuke, a pessoa que até então ocupava minha mente. Sua expressão não era das melhores. Pela jaqueta do time, pelo cabelo ainda úmido e pelo semblante abatido, entendi que ele tinha acabado de sair da partida.


— Nós perdemos. Você não estava lá.


Não soube o que dizer.


— Sakura, onde posso guardar os talheres?


Sasori apareceu no corredor carregando os talheres e parou assim que viu Sasuke à porta. O sorriso que ainda estava em seu rosto desapareceu aos poucos, como se finalmente percebesse que havia interrompido alguma coisa.


— Oi, Sasuke. E aí, cara? Tudo certo? — perguntou, ainda tentando manter a naturalidade. — Como foi o jogo?


— Perdemos.


— Sério? O que aconteceu?


Sasuke não respondeu. Seus olhos continuaram presos à mesa, à embalagem de yakisoba e à familiaridade com que Sasori se movia entre a cozinha e a entrada.


— Ah, Sasori, desculpa. Não quero que pareça que estou te expulsando, mas será que podemos nos falar depois? Acho que o Sasuke precisa conversar comigo.


Sasori olhou para mim, depois para Sasuke. Por um instante, pareceu avaliar se deveria insistir, mas apenas assentiu.


— Claro. Sem problemas. Obrigado pela companhia, Sakura. Depois eu te ligo.


Com a porta fechada, Sasuke finalmente falou.


— Eu não vim porque precisava que você resolvesse a derrota do time — Sasuke disse, ainda evitando olhar diretamente para mim. — Eu vim porque você não estava lá.


— Eu não tinha obrigação de estar.


— Eu sei.


— Então por que isso parece estar incomodando tanto?


Sasuke finalmente ergueu os olhos.


— Porque você prometeu! E em vez de cumprir sua palavra, eu te pego aqui, sozinha com um cara que eu mal conheço. — sua voz transmitia a raiva acumulada.


Durante anos, aquelas palavras tinham sido uma certeza. Agora pareciam uma acusação.


— Pois é, Sasuke, parece que nós dois não somos bons em cumprir com as nossas promessas.


Ele ficou imóvel. A acusação atingiu um lugar que nenhum dos dois queria mencionar.


— Além disso, ele não é um desconhecido. É um amigo que me ajudou quando eu precisei.


— E, além disso, você não tem o direito de dizer com quem eu devo ou não andar.


— É, Sakura! Você está certa. Acho que não temos mais o que falar.


A angústia em sua voz complementava a expressão de seu rosto. A conversa tinha acabado, a porta da frente fechada com força. E eu mais uma vez estava destroçada.


«☆»


Não vi Sasuke nos dias que se seguiram ao nosso desentendimento. Na escola, trocávamos apenas acenos rápidos. Ele parou de aparecer na minha casa, e eu deixei de esperar por ele na saída. Algumas semanas se passaram antes que voltássemos a trocar mais do que cumprimentos.


Eu já não sabia se ainda havia alguma relação entre nós, nem mesmo de amizade, quando esse laço foi posto à prova.


Tinha acabado de voltar para casa depois de um dia de aula normal. Minha mãe estava viajando a trabalho, portanto me vi sozinha em casa quando um estrondo veio da porta de entrada. Assustada, mantive-me atrás, usando a porta como proteção.


— Mebuki! Abre essa porta, eu sei que tem gente em casa, vadia! — a forma como a voz transmitia raiva me amedrontou. Inicialmente não consegui discernir quem estava do outro lado insultando minha mãe daquela forma horrenda.


— Mebuki!!! — a porta foi forçada para dentro.


— Não tem ninguém com esse nome, vai embora! — minha voz saiu como um miado; acreditava que a falsa informação faria a pessoa desistir e ir embora.


— Sakura! Sakura é você? — a voz veio acompanhada de outro golpe, forçando a porta a abrir. — Sou eu, Kizashi, abre essa porta agora!


O som da voz, com a informação de seu nome, trouxe à tona medos e recordações dolorosas.


— Vai embora daqui! Não temos nada que conversar!


— Abre a porta, garota! Não estou com paciência para isso! — sua voz com tom de embriaguez trouxe um quê de urgência em me proteger. A porta começou a dar sinais de que não aguentaria mais por muito tempo.


Meu primeiro ímpeto foi correr para o quarto e agarrar o celular que estava sobre a escrivaninha. O sinal chamou várias vezes até cair na caixa postal. Tentei novamente.


Nada.


Na sala, o estrondo da porta abrindo me avisou que meu tempo estava acabando. Seria a última tentativa de contato.


No terceiro toque pude ouvir sua voz.


— Sakura! Estou no meio do treino, não posso falar agora, depois te retorno…


— Sasuke, eu preciso de você, meu pai está aqui em casa! Bêbado! A porta da frente já não aguentou mais! Estou com medo. Por favor, me ajuda!


Acho que o tom de desespero em minha voz o alertou.


— Tranca a porta do quarto, eu já estou chegando! Não desliga o celular — era possível ouvir que ele corria enquanto falava.


— Sakura, eu sei que está aí, garota! Abre a porta! — o barulho da porta do meu quarto me trouxe a dura realidade: precisava me esconder.


Deitei e escorreguei meu corpo para debaixo da cama.


O barulho lá fora continuou pelo que pareceu uma eternidade.


E de repente, me vi sendo arrastada, um peso anormal sobre minhas pernas me mantinha no lugar. Um caco de vidro estava posicionado e pressionado acima da minha sobrancelha esquerda. A aparência de meu pai estava horrível, aparentava que não tomava banho havia muito tempo; o cheiro de álcool era forte em sua fala e em suas roupas.


— Te achei, patinha! Acha que pode se esconder de mim! Eu te conheço, sei onde procurar quando você se esconde.


Respingos de saliva pingavam em meu rosto banhado de lágrimas.


— Pai, por favor, não me machuque, me fale o que você quer e eu arrumo, só não me machuque.


Implorava, esperando que o pai amoroso e carinhoso que ele tinha sido um dia reflorescesse.


E deu certo.


Por pouco tempo vi seus olhos desfocando e o aperto em meus braços diminuindo.


A oportunidade parecia única. Joguei meu joelho em direção ao meio de suas pernas; enquanto ele se contorcia de dor, me coloquei de pé e fui em direção à escada. Vi à minha frente a esperança de escapar, ouvindo os urros de raiva atrás de mim.


Kizashi vinha atrás de mim como quem queria alcançar um troféu; suas mãos estavam muito próximas aos meus braços enquanto eu fitava a porta para minha liberdade bem próxima a mim.


Antes de ser alcançada, um vulto passou ao meu lado. Sasuke se jogou contra meu pai, jogando-o ao chão. Seu punho descia repetidamente sobre o rosto do ser que chamava de pai. O sangue respingava tanto de seu rosto como do corte em minha testa.


— Sasuke! — corri para abraçá-lo. — Chega, por favor, vai matá-lo, eu preciso de você!! Por favor!


O som de sirenes se fez audível. A polícia logo apareceria; não queria que Sasuke fosse considerado culpado por apenas me salvar.


Sasuke se levantou atordoado, e logo senti seus braços ao meu redor.


— Está tudo bem! — ele me acalmava ou se acalmava, acho que os dois. — Ele não vai mais encostar em você!


Eu me agarrei à sua camisa, respirando o cheiro familiar de suor e grama molhada. Pela primeira vez desde que Kizashi atravessara a porta, acreditei que estava segura.


Nós já tínhamos uma medida protetiva contra ele, ainda era pequena quando o problema com a bebida começou. Minha mãe aguentou até onde podia, mas quando ele levantou a mão pra ela pela primeira vez foi o ápice. Ela tomou uma atitude drástica de denunciar para a nossa segurança.


Desde então ele não tinha voltado a nos procurar. E agora que estava sendo levado pela polícia duvidava que um dia tentaria novamente.


«☆»


No final do dia, eu já estava no meu quarto, medicada e com um curativo na testa. Sasuke continuava comigo. Desde que havíamos voltado, ele não se afastara, e eu também não queria ficar sozinha até a chegada da minha mãe.


— Como você está? Continua com dor?


— Não, estou bem. E você?


— Sakura, não fui eu que fui atacada — replicou com um tom de riso.


— Não estou falando da testa.


Levantei os olhos para ele.


Havia um corte nos nós dos seus dedos e uma mancha escura de sangue na manga da camisa.


— Você também está machucado.


— Não é nada.


— Sasuke, você quase matou meu pai.


Ele baixou o olhar para as próprias mãos.


— Quando te vi sangrando com ele atrás de você eu não consegui parar. Eu não via mais nada.


— Ei — chamei baixinho, fazendo um gesto para que ele se sentasse ao meu lado. Sasuke hesitou, mas acabou se acomodando na cama. Segurei sua mão antes que ele pudesse afastá-la.


— Está tudo bem. Eu estou aqui. Já passou.


— Eu fiquei com muito medo, Sakura. Quando ouvi sua voz no telefone, achei que não chegaria a tempo. Achei que ia perder você… e que nunca conseguiria olhar nos seus olhos para pedir perdão.


— Fui injusto com você em vários momentos nos últimos meses.


— Você não precisa falar sobre isso.


— Preciso, sim. Achei que, por sermos amigos, minhas ações não afetariam você tanto. Achei que você sempre entenderia o meu lado. Mas eu estava errado. Quebrei promessas e acabei magoando a pessoa mais importante para mim.


Ele apertou nossas mãos entrelaçadas, como se precisasse da coragem daquele contato para continuar.


— Mas e Karin? Achei que estavam juntos.


— Karin? Não, Sakura. Nunca houve nada entre nós. Ela é impulsiva, gosta de chamar atenção e nem sempre pensa nas consequências das próprias atitudes. Eu jamais ficaria com ela. Por que você achou isso?


— Eu vi vocês dois se beijando no final do jogo. Por isso fui embora. Desculpe ter mentido para você, mas não sabia o que pensar ou sentir quando vi aquela cena. Mas também não era a primeira vez que via vocês juntos, então…


Ele virou-se para mim, espantado.


— Sakura, eu nunca correspondi a ela. Aquele dia fui pego de surpresa. Eu estava indo para o vestiário para te encontrar quando ela me abordou. Eu estava com pressa, então não dei atenção ao que ela falava, mas quando dei por mim, ela estava agarrada em meu pescoço me beijando. Na hora empurrei ela para longe.


— Espera, você foi me encontrar? Mas um pouco antes Suigetsu me abordou falando que você tinha pedido para ele me levar para a festa porque você iria demorar.


— Sakura, eu nunca pedi para ninguém falar nada para você. Porque eu pediria para outra pessoa te acompanhar? Ainda mais sendo Suigetsu?


— Sim, pior que faz sentido. Agora me sinto uma boba.


Acomodei o rosto em seu ombro de modo a esconder meu embaraço.


— Não, você não é boba. Eu deveria ter insistido, deveria ter vindo atrás de você. Eu sabia que alguma coisa tinha acontecido.


— Sim. Eu me afastei e deixei de participar da sua vida. Enquanto eu fazia isso, você conheceu outras pessoas e construiu novos vínculos. Como aquele ruivo intrometido.


— Você realmente não gosta de Sasori, não é? — achei graça da sua implicância com ele.


— Quando encontrei você aqui com ele, tão à vontade, achei que você estava se afastando de mim porque queria ficar com Sasori.


— Sasori não ocupou o seu lugar, Sasuke. Ele apenas se tornou um amigo querido. Não posso negar que ele me ajudou quando passei por momentos difíceis. Mas ele não passa disso. Um amigo.


— Além disso, eu não estava tentando encontrar outra pessoa. Eu estava tentando descobrir como seguir em frente sem depender de você.

Sasuke baixou os olhos para nossas mãos entrelaçadas.


— E conseguiu?


— De certa forma, sim. Eu não posso continuar sendo a garota que esperava por você na saída, nos jogos e nas mensagens, tentando adivinhar se ainda havia um lugar para mim.


Ele ficou em silêncio, e eu apertei sua mão.


— Mas a realidade é que ninguém jamais poderia ocupar o seu lugar na minha vida e no meu coração.


Sasuke demorou a responder. Seus dedos continuavam entrelaçados aos meus.


— Eu não quero que você pense que precisa voltar a ser quem era para continuar fazendo parte da minha vida.


— Então por que você está me dizendo isso agora? Sendo sincera, o que você quer de mim, Sasuke?


— Quero ficar com você. Quero aprender a estar ao seu lado do jeito que você é agora. Não porque você prometeu assistir aos meus jogos, nem porque somos amigos desde crianças. Quero ficar porque amo você.


— Eu também amo você.


Minha voz saiu baixa, mas, pela primeira vez, não havia dúvida nela.


— Só não quero que isso signifique voltar a ser a garota que espera por você em silêncio.


— Não vai significar.


— E como você pode ter certeza?


— Não posso. Mas posso prometer que, quando eu errar, vou conversar com você em vez de esperar que entenda sozinha.


— Não vou prometer que nunca vou errar — Sasuke disse. — Mas prometo que não vou deixar o silêncio decidir por nós.


— E eu prometo que não vou fingir que está tudo bem quando não estiver.


— Então começamos de novo?


— Não. Começamos de um jeito diferente.


Sasuke ergueu a mão, mas parou antes de tocar meu rosto.


— Posso?


Assenti.


O beijo não tinha plateia, comemoração ou necessidade de provar alguma coisa. Era apenas uma escolha feita pelos dois.


«☆»


Meses depois, cheguei ao campo vestindo a camisa do time, com o nome e o número dele gravados nas costas. Não estava ali porque uma promessa antiga me obrigava a torcer por Sasuke, nem porque eu temia perder meu lugar na vida dele. Eu estava ali porque escolhi estar.


Hoje não prometemos ser perfeitos. Prometemos conversar quando algo doesse, escolher um ao outro todos os dias e construir, juntos, o futuro que ainda nos esperava.


Notas finais
Obrigada por ter acompanhado Sakura e Sasuke até aqui. Espero que esta história tenha conseguido transmitir um pouco da importância das promessas, da amizade e da coragem necessária para conversar quando o silêncio começa a machucar. Se você gostou da história, me conta o que achou nos comentários. Eu também gostaria de saber: vocês leriam uma versão de My Quarterback’s Promises pela perspectiva do Sasuke? Seria interessante descobrir o que ele pensava enquanto Sakura enxergava tudo de uma maneira tão diferente. Obrigada por ler, comentar e fazer parte desta história.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!