My Precious Treasure
1 My precious treasure
Notas iniciais
Espero que gostem! Boa leitura!
O cheiro daquele hospital já tinha se tornado insuportável. Mais do que insuportável. E não era somente aquilo que o estava enlouquecendo. Eram também os exames incessantes, a comida intragável, os medicamentos, os aparelhos que indicavam ora um “você está bem”, ora um “você não está bem”, a monotonia, a sensação de cárcere, a solidão.
Mas a cada visita dele, um majestoso sorriso se abria nos lábios do garoto de cabelos azuis. E esse mesmo garoto agora olhava pela janela, impaciente. Entrelaçou seus dedos e levou as mãos unidas até a altura de sua boca, como se fizesse uma prece. De certa forma, fazia sim uma prece. Não aguentaria mais esperar por ele.
“Você vem, não é...?”, ele pensou.
Yukimura já acabara descobrindo que devido a sua grave doença não poderia mais praticar o esporte que tanto amava – pelo menos era o que os médicos haviam comentado entre si. No dia em que ouvira isso por acidente, seu coração foi pego de surpresa, sendo invadido por uma dor indescritível, sufocante. Ficara tão frustrado que se exaltou e acabou exigindo de Sanada que saísse do quarto quando ele fora lhe visitar. Arrependeu-se depois, jamais deveria ter falado com Genichirou daquela forma, descontando sua tristeza no vice-capitão que ainda mantinha todas as esperanças, e que desejava ter seu capitão de volta.
Agora, Seiichi só queria a companhia daquele que mais gostava de ter ao seu lado.
***
Sanada caminhava cabisbaixo e a passos rápidos, como de costume. Pelo menos um costume que havia sido adquirido há algum tempo, mais especificamente depois que o hospital tornara-se o principal lugar de estada de Yukimura. Sanada queria estar ao lado dele o quanto fosse possível, como sempre fizera.
Cabisbaixo. Passos rápidos. Não podia perder tempo, precisava vê-lo. Precisava ouvir sua voz, sentir seu cheiro, ver aquele semblante tão doce e tão puro. Precisava sentir seu toque, mesmo que disfarçada e timidamente.
As nuvens já cobriam o céu, tornando o tempo nublado.
Debaixo desse enorme céu cinza,
Tudo está cheio de desejos hoje.
Estava atrasado, sabia que estava e se odiava por isso; detestava deixar Seiichi esperando. Cortava-lhe o coração imaginá-lo sozinho naquele quarto de hospital. Sendo assim, prosseguia em um discreto desespero para encontrá-lo logo.
Mas não perco o foco ou a luz entre eles,
E posso caminhar olhando para frente,
Foi quando sentiu uma gota cair sobre seu ombro que percebeu: chuva. Olhou para o céu escuro e outra gota caiu sobre seus lábios. Imediatamente demonstrou uma expressão de desgosto por ter esquecido seu guarda-chuva. A cidade escurecia conforme a água caindo se intensificava, mas o garoto continuava caminhando, focado no objetivo de tanta pressa.
No entanto, deparou-se com algo que contrastava com aquela lenta escuridão que ia se formando.
Porque você sempre me mostrou
Que existe pureza até mesmo em uma esquina dessa cidade.
Parou de repente, porquanto seus pés lhe exigiam que permanecesse ali, imóvel. Uma pequena floricultura na esquina chamou-lhe a atenção. Era impossível ver flores e não se lembrar de Yukimura Seiichi. Aos poucos era como se recuperasse os movimentos, e foi se aproximando da loja, abrigando-se sob o toldo dela. Havia muitas flores mesmo do lado de fora da floricultura, e Sanada lembrou-se das flores no terraço da Rikkaidai que ficavam sob os cuidados de seu capitão. Ah, como Seiichi adorava cultivá-las. Mas agora estava tão longe delas. Genichirou sentiu um aperto no peito, afinal, o sofrimento de Yukimura também lhe era doloroso.
“Yukimura...”, o garoto pensou, ainda encarando cada uma das flores tão delicadas quanto o garoto de cabelos azuis que certamente lhe esperava aflito.
O barulho de um trovão ao longe lhe despertou do transe, e ele não hesitou em começar a correr, mesmo que a chuva agora estivesse ainda mais forte e sua única proteção (pelo menos para o rosto) fosse o boné.
***
Estava completamente encharcado, mas essa não era sua preocupação agora. O que seu cérebro tentava processar era uma desculpa suficientemente boa e convincente que desfizesse a provável expressão de “por que você está atrasado?” de seu capitão.
Segurou a maçaneta da porta e fechou os olhos. Pior do que ter deixado Seiichi esperando, era ter deixado o garoto desapontado. Abriu a porta e de súbito disse:
– Yukimu...
Não conseguiu terminar de chamar por Seiichi. Para sua surpresa, o garoto dormia tranquilamente. Com a cabeça virada de lado, uma de suas mechas estava delicadamente posta sobre seu rosto, e suas mãos unidas, uma em cima da outra, na altura de sua bochecha. Sanada encantou-se, encarando-o por alguns segundos antes de se aproximar dele.
Respirando calmamente, eu olhei para você,
Que havia caído no sono, tão exausto.
Hesitou em tocá-lo já que suas mãos estavam úmidas e geladas. Ao contrário de Yukimura, que parecia tão quente.
Era lindo. Genichirou se sentiu privilegiado em poder estar ali tão perto daquele que tanto amava. Finalmente podia encará-lo por longos segundos sem que ficasse encabulado ou com a face completamente corada. Pôde sentir o perfume característico do garoto de cabelos azuis. Era tão bom.
Tudo em Seiichi era tão frágil, tão delicado.
Aquele rosto doce e desprotegido,
Que ninguém no mundo além de mim conhece.
Sanada decidiu colocar sua mochila no chão, próxima ao sofá. Enquanto a abria para pegar uma toalha, ouviu uma voz doce, uma voz que queria ouvir desde o momento em que levantara naquela manhã:
– Que bom que você veio, Sanada.
Estremeceu, e não fora pelo frio de sua roupa molhada.
Virou-se, mais do que pronto para se desculpar:
– Yukimura! Eu... Eu sinto mu-
Logo foi interrompido. Seiichi sorria ternamente, sua expressão ainda sonolenta estava fazendo Genichirou se derreter aos poucos.
– Não precisa se desculpar. Eu sabia que você viria, Sanada.
Ah, Yukimura Seiichi não fazia ideia do quanto chamar sempre pelo moreno ao final de cada frase poderia ser perigoso. Seu subcapitão poderia ter um ataque cardíaco ali mesmo. Pelo menos nesse caso não haveria com o que se preocupar, afinal já estavam no hospital, mesmo.
– É...
Foi tudo o que conseguiu dizer.
– E mesmo que você tivesse conseguido terminar seu pedido de desculpas, eu aceitaria mais do que depressa. Olhe só para você, está todo encharcado... E por minha causa, Sanada. – Seiichi disse com um olhar triste, a voz baixa.
– Não! Não tem problema, Yukimura! Eu tenho uma toalha aqui, não é nada de mais...
“Por favor, não olhe assim para mim...”, era o que queria ter dito em seguida, mas as palavras não saíram.
Um dia, quando a luz do sol chegou e o vento soprou gentilmente,
Como se fosse algo não tão especial,
Senti que alguma coisa estava mudando em mim,
A chuva estava passando. Por entre as nuvens, os raios de sol voltavam a aparecer, iluminando o quarto gradualmente.
Yukimura levantou-se, caminhou até Sanada e tomou-lhe gentilmente das mãos a toalha que o moreno segurava. Depositava-a sobre o rosto do subcapitão, enxugando seu rosto e seu pescoço.
Genichirou estava imóvel, encarava seu capitão sem saber o que dizer. Sentia-se aquecido por tamanha gentileza.
Lenta, firme e certamente.
– Você vai precisar trocar de roupa. Tem algumas ali no armário, são do hospital, mas é melhor do que deixar você assim. É inadmissível que o subcapitão fique doente! – ele disse, rindo de leve.
Como era bom vê-lo sorrir daquela forma.
– É... É completamente inadmissível. – sorriu, pois sorria somente na frente de Seiichi.
Depois de tirar sua gravata, o capitão desabotoou lentamente a camisa de Sanada, sentindo o tórax definido que lhe tirava o fôlego. Definitivamente, os pensamentos de Yukimura naquele momento não eram dos mais decentes. Porém, o problema não eram os pensamentos em si, mas sim ter autocontrole o suficiente para não colocá-los em prática. Ainda não.
Genichirou não sabia como reagir àquilo. Observou cada movimento das mãos do menor, tentando decifrar qual seria o próximo.
Mas Yukimura sempre fora indecifrável.
Passou a toalha sobre seu peito, de vez em quando a pressionando de leve para sentir aquela parte do corpo de Sanada que adorava tanto.
– Você... Você me perdoa, Sanada? – disse olhando fixamente nos olhos do outro, com as mãos segurando a cintura do maior.
– Perdoar? Perdoar pelo quê, Yukimura? – o garoto perguntou-lhe, confuso, e apoiou também suas mãos na cintura dele, já meio sem jeito.
– Por gritar com você... Eu sei que já faz alguns dias, e nem tocamos nesse assunto, mas eu sinto que não seria justo deixar isso passar em branco e não te pedir desculpas.
Seu olhar continuava fixo nos olhos castanhos, mas Sanada sentia algo diferente na voz do menor, como se tivesse algo preso na garganta. Como se estivesse prestes a se partir.
– Não precisa, Yukimura... Você fez aquilo porque está sofrendo, não está? – segurou a cintura de Seiichi agora com mais força, esperando que o garoto lhe confessasse de uma vez e não escondesse mais o quanto tudo aquilo doía.
– Eu não aguento mais, Sanada! Não aguento... – agarrou-se a Sanada, e chorou forte. Chorou sem medo nem vergonha, porque sabia que só poderia fazer tal coisa junto dele.
E ali, bem na sua frente, Sanada viu pela primeira vez o forte e respeitado capitão do time de tênis da Rikkaidai se fragmentar. Sua imediata reação foi abraçá-lo como se fosse a última vez que pudesse fazê-lo, abaixando a cabeça para que a apoiasse no topo da cabeça do menor. Uma de suas mãos permaneceu na cintura de Seiichi, enquanto a outra segurava-lhe a nuca, acariciando-lhe os macios fios de cabelo azuis.
Embora eu não estivesse nada triste, lágrimas rolaram,
Porque os seus sentimentos afundaram dolorosamente
Dentro da cicatriz do meu coração,
– Yukimura... – não encontrava o que dizer. Sua voz estava trêmula, os olhos preenchidos com lágrimas.
– E se nada disso der certo? – disse, agarrando-se ao moreno com mais vontade.
– Mas vai dar certo. Você tem uma força de vontade inabalável, Yukimura. Você é forte, e precisa acreditar que vai ficar tudo bem, que você vai voltar para as quadras. Nunca se esqueça de que você tem a gente, você tem a mim... Eu estou aqui, sempre estive.
Sem dizer mais nada, Seiichi beijou-lhe o peito.
E se transformaram em ternura.
Sem hesitar, Sanada segurou o queixo do menor, trazendo seu rosto junto ao dele até seus lábios se encontrarem. Logo eles entraram em um ritmo próprio cujo ambos seguiam harmoniosa e sincronizadamente. As mãos de Yukimura percorreram o corpo de Genichirou até seu pescoço, estavam quentes e isso arrancou gemidos baixos do maior. Este, por sua vez, apertava delicadamente as madeixas azuis conforme o beijava.
A temperatura de seu corpo se elevava, ele sentia os lábios doces de seu capitão contra os seus o deixarem extasiado, estava praticamente hipnotizado. Arriscou intensificar aquele ritmo usando a língua, invadindo a boca de Seiichi. Descobriu ter tido sucesso em assumir esse risco quando percebeu que o menor se mostrou muito satisfeito, pois ele o acompanhou da mesma forma.
Ao se apartarem do beijo, encararam-se por poucos segundos, e sorriram.
– Você sabe que tem a mim. – disse, depositando na testa do menor um beijo suave.
– E sempre terei?
– Sempre.
Abraçaram-se uma vez mais.
***
Depois de trocar suas roupas molhadas pelas vestes do hospital, Sanada foi alvo das risadas de seu capitão.
– Q-Qual é o problema, Yukimura? – desviou o olhar, com as bochechas já coradas.
– Nenhum. Mas é engraçado ver você assim. – tapava a boca para rir, Sanada parecia uma criança de pijama.
– Eu acho melhor colocar meu uniforme molhado mesmo. – afirmou, fazendo menção para pegar suas roupas de antes.
– Não! – Yukimura levantou-se da cama e foi até Sanada, puxando-o pelo braço.
Envolveu seus braços no pescoço do maior, aproximando seu rosto ao dele.
– Não quero você resfriado. Já pensou o quanto isso seria ruim para o time? Se bem que se você ficar doente... Eu cuido de você. Você já tá com roupa de paciente, né? – deixando a cabeça cair levemente para o lado, Seiichi sorriu inocentemente.
Com o rosto todo vermelho, aos poucos o maior processou tudo aquilo, e não se conteve em sorrir para o outro.
– Você cuidaria mesmo de mim?
– Claro! É só você deitar naquela cama ali que eu cuido direitinho d...
– Oe, Yukimura! – Sanada virou o rosto o mais rápido que pôde, ficava sempre encabulado com essas coisas (o que era um divertimento garantido para Seiichi).
Seu capitão riu mais uma vez, adorava ver o moreno naquela situação.
– Como você é bobo, Sanada! – disse sorrindo.
E mergulhou a feição no pescoço de Genichirou, dando rápidos beijos enquanto fazia carícias com o nariz, como se lhe pedisse um mimo.
O maior fechou os olhos, deixando que o outro fizesse aquilo o quanto quisesse.
– Você promete, né... Que não vai me deixar sozinho, Sanada?
Se você encontrar uma tristeza profunda,
– Prometo. Eu estou aqui, e vou cuidar de você.
Gostaria que compartilhasse sua dor comigo.
Deitaram-se na cama.
Não havia mais motivos para que Seiichi chorasse.
Farei qualquer coisa pelo seu sorriso,
Meu tesouro precioso.
Sanada não sabia ao certo que horas eram, tampouco se já precisava se despedir. Não sabia, e não queria saber.
Sabia que estava no lugar em que deveria estar. Com quem sempre deveria estar.
E Seiichi só queria a companhia daquele que mais gostava de ter ao seu lado. Sempre.
Meu tesouro precioso.
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