My Magic Word
4 Cada dia vivido é triste.
Notas iniciais
Capítulo IV
Cada dia vivido é triste.
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Fani: Sem ele por perto, eu não
sentia emoções fortes.
Ele era a razão da minha própria euforia.
Mas era também o culpado pelas minhas lágrimas.
(Fazendo meu Filme 4)
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Mallory
– Pronto – Carls arrumou um cachecol que antes enfeitava o pescoço dele mesmo, em volta do meu colar, melhor dizendo, o objeto tampava todo o meu pescoço.
– Que mundo estranho. Usam roupas estranhas, comem coisas estranhas, não sei de onde tiraram um cachecol, sério. – Lauren cruzou os braços enquanto caminhava de um lado para o outro, olhando para uma greta onde se via o céu, no momento, nublado.
Era de manhã. Não me peça uma estimativa de horas, porque eu erraria com certeza. Minhas costas doíam por ter dormido numa floresta, num chão de terra e mato. Aposto que todos os outros estavam doloridos também, com exceção de Carls, diga-se de passagem.
Com o lugar claro, eu poderia ver bem os detalhes da floresta. Antes perguntara para Carls se aquilo era uma trilha, e a resposta foi que provavelmente era uma feita por animais. A trilha deveria ter sido feita por animais bem grandes, até porque eu nunca tinha visto uma enorme desse jeito.
Em cima de uma rocha, longe, mas nem tanto, Arthur e Teddy jogavam “pedra, papel ou tesoura”. E digamos que eu os entenda, pelo menos um pouco. Aliás, o que dois adolescentes sem noção, ou melhor, quatro, fariam se todos estávamos acostumados com uma tecnologia boa de um mundo onde não é todo dia que se vê uma floresta verde como aquela?
– Ela ficou fofinha. – Lauren parou perto de mim e encarou tanto que fui obrigada a olhar para o chão somente pela vergonha.
– Concordo. – Carls assentiu – E não acho que é possível sentir a presença do poder da coleira que ela está usando. Mas consigo sentir de longe porque conheço o aroma. Sinto muito, Mallory, mas você não pode nem se esconder de mim agora.
Ergui uma sobrancelha pelo comentário. Pessoa mais estranha! Por que eu me esconderia?
– Mas que diabo! Não falem de mim como se não estivesse aqui! E isso não é uma coleira! – Exclamei tudo tão rápido, com o rosto ardendo de raiva e vergonha. E claro, não comentei da última frase de Carls, aquilo era constrangedor de algum modo.
– Ora, ora. – Carls se moveu tentando colocar a mão em meus cabelos.
Como toda pessoa maravilhosa que sou, me esquivei para o lado antes que o lobo-neko terminasse o ato.
– ... O que? – ele ergueu uma sobrancelha. – Hei, você fez isso ontem! Eu quero vingança!
– Tenha sua vingança. – Lauren piscou para Carls e andou em direção aos outros dois garotos que ainda jogavam o famoso “pedra, papel ou tesoura”.
Abri a boca, indignada. A maldita Jiló me traiu? Quem teria “vingança” seria eu!
Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, o garoto já tinha passado o braço em volta do meu pescoço, apertando de leve. Hei! Ele queria me sufocar ou o que?!
Mas... Sufocar? Meus braços e pernas começaram a tremer de um jeito louco. O passado me machucava mais do que o aperto que Calrs usara.
– Acertei? – Carls perguntou soltando do aperto, mas ainda com uma “chave de braço pronta”, digamos assim.
– O... O que? – perguntei um pouco confusa quanto à pergunta, ainda tremia.
– Seu passado? – Carls disse com uma cara inocente.
– M-MAS O QUE?!! – perguntei horrorizada, como diabos...
– Acertei! – ele deu um sorriso convencido. – Agora vamos...
Me arrastou. Ainda não sei porque o maldito não tirou a mão de meu pescoço. Ele iria me matar sem que ninguém visse?!! Bobagem... É o Carls.
Espera! É o Carls! É claro que essa m*rda pode acontecer.
Esperneei, me soltando. Claro, até porque ele tinha nem ao menos tinha apertado.
– Não vou. – sentei num monte de terra e fiz uma cara emburrada.
– Não sente aí. É um formigueiro. – Carls avisou apontando para o local.
Dei um saltito para frente e olhei. Carls ria... Ria tanto que eu tinha vontade de esgoelá-lo. O maldito tinha me enganado.
Formigueiro? Não deveria ter nenhum por perto.
Voltei a sentar. Mas em um lugar diferente, mesmo vendo com meus próprios olhos que não era um formigueiro, de jeito nenhum eu voltaria a sentar muito cedo num monte de terra.
– Não vou. – repeti com uma teimosia insistente.
Ele se agachou ao meu lado.
– Não vai querer que eu pergunte aqui, vai? – um sorriso quase malicioso presenciava seu rosto.
– Perguntar o que? – levantei as duas sobrancelhas.
– Não vou contar aqui. – fez bico.
– Não vou sair daqui. – o imitei.
– Competição? – perguntamos juntos. Quem visse de longe veria duas pessoas pegando fogo. Quer dizer, literalmente.
– Pedra, papel ou tesoura. – eu disse.
– Yes! Eu vi os garotos jogando. Tenho certeza que vou ganhar!
E... Bom... É que... Eu perdi.
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– Agora vai dizer por que diabos me trouxe aqui? – perguntei emburrada. Eu nunca tinha perdido num jogo como “pedra, papel ou tesoura”. Só o que me faltava ele chegar e tirar minha alegria...
– Me diga seu passado. – ele sentou no chão e fez um gesto para que eu fizesse o mesmo.
Estremeci. Mas que pessoa má! O conheci ontem e já se mete na minha vida desse jeito! Nem morta eu contaria para ele.
– Nem pensar! É pessoal. – tentei manter a calma.
– Ótimo. Vou descobrir sozinho! – ele riu debochado.
Ergui novamente as sobrancelhas. Ele planeja o que, ler minha mente?
– Não, não planejo ler sua mente.
Mas... COMO DIABOS ELE FEZ ISSO?
– O que? – o garoto perguntou.
– Vo-você leu minha mente?! – disse de um jeito bastante alto, estava nervosa, afinal.
Ele balançou as orelhas, não acho que seja de um jeito involuntário, não.
– Como? – começou a rir.
– Seu retardado! – dei um soco nada fraco em sua cabeça.
– Ai! – ele colocou as duas mãos sobre o local onde eu acabara de bater. – Mas então? Vai contar ou não?
Eu não disse que nem morta eu contaria para ele? Pois então... Eu morri. Quer dizer, literalmente.
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“Na época eu tinha 10 anos. Uma criança bastante feliz e inocente.
“– Mamãe, o papai vai chegar logo? – eu perguntava todo dia, mesmo sabendo que ele chegava sempre pontualmente às 18h. Ele era um homem bom e trabalhador, o típico pai mandão e carinhoso.
“Naquele dia, meu pai não somente se atrasou, mas chegou em casa bêbado.
“– Mulher, eu estava te procurando. – papai chamou mamãe com uma voz rouca.
“– Onde estavas, Popo? – Minha mãe o tinha apelidado assim desde que tinham se conhecido.
“E bom, naquela noite, meu pai agrediu minha mãe.
“– Para! – eu pedia puxando meu pai pela camisa.
“– Quer apanhar também, querida? – ele virou o rosto para mim e eu vi que era a cerveja falando por ele.
“...
“Ele... Bom, ele me sufocou com aquele colar. Um colar que eu achava tão especial. Eu ganhara do meu pai quando era ainda mais nova. Mas eu sabia que a cerveja falava por ele, por isso não o culpo.
“Mamãe me salvou, claro. Mas ali todos pagaram um preço...”
– Eu não quero continuar... – estava chorando por lembrar de tudo aquilo, eu me odiava por tudo. Falando somente as partes que eu considerava importante para o garoto que me olhava com olhar triste e carinhoso, como se quisesse me ajudar de alguma forma.
– Não continue. – ele se sentou na minha frente, me abraçando.
Mesmo não falando em voz alta, eu continuei lembrando das coisas que me fizeram odiar cada dia de minha vida.
“Meu pai tinha voltado a bater em minha mãe. Como eu era pequena, aquilo me deixou furiosa e eu não estava consciente de mim mesma. Tomada pela ira, eu peguei uma faca na gaveta da cozinha.
“Eu... Matei meu pai.”
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