My Little Cat
36 36. Tic tac tic tac, Black!
Notas iniciais
“ – Black- Kun… Acorda, Black- Kuuun…”.— Murmurou uma voz feminina, no meu ouvido. Abri os olhos lentamente, observando White, com um sorriso a mostrar os caninos e as orelhas de gato em pé, animada.
“ – Que horas… São…?”.— Perguntei, ainda meio sonolento. Deixei um bocejo escapar enquanto me esticava, ainda deitado.
“ – É uma da tarde”.— Afirmou a garota gato, segundos antes de eu gritar e correr para o banheiro, para me arranjar. – “Espera, Bla-“.
“ – Estamos super atrasados!! Perdemos as aulas da manhã, White!!”.— Gritei de volta, pronto para trancar o banheiro para tomar um duche à velocidade da luz e me vestir. Porém, ao fechar, White impediu- me, prendendo a porta com o pé.
“ – Black- Kun, caramba! Me ouça!”.— Pediu White, impaciente e cruzando os braços. Abri a porta, olhando- a confuso. – “A Bell- Chan veio ver- nos para irmos para as aulas, já que estávamos demorados. Eu acordei quando ela me ligou para abrir a porta e expliquei o que aconteceu… Ontem”.— Ela fez uma pausa, olhando para o lado. Rapidamente lembrei- me do quanto chorei e do que admiti para a White, ficando vermelho e desviando o olhar para as paredes do banheiro que, de momento, pareciam interessantes. – “Não contei nada do que você me disse. Apenas expliquei que, você desabafou e precisava de descançar… Então ela falou com os professores para deixarem você faltar hoje para dormir e voltar ao normal. A Professora Juniper entendeu perfeitamente, já que é sexta e hoje não íamos dar matéria nova!”.
“ – Você… Fez isso só para eu dormir mais um pouco?”.— Perguntei, num tom baixo. White acenou positivamente com a cabeça, libertando um sorriso enorme.
“— Claro, Black- Kun! Além disso…”.— Ela perdeu o sorriso, olhando- me meia envergonhada. – “Não fique envergonhado ou… Triste por ter chorado na minha frente, okay? Eu realmente te acho forte por ter aguentado esse tempo todo sem contar para ninguém ou sem chorar. Eu não conseguia, se eu fosse você”.
Não sei porque, aquilo foi como um choque eléctrico no meu corpo. Senti- me totalmente revigorado com o que White acabara de dizer. Sentia- me bem mais forte, capaz de enfrentar qualquer coisa; Qualquer coisa por ela.
“ – Desculpe, acho que eu realmente acabei por chorar… Demais, não?”.— Admiti, libertando uma risada sem graça. Novamente, White olhou- me nos olhos, sem expressão no rosto.
“ – Os seus olhos… Ainda estão vermelhos e inchados, Black- Kun”.
Confuso, fui em direcção ao espelho, ainda meio surpreso com o meu aspecto. Não possuía olheiras, talvez porque White me deixou dormir muito hoje; Apenas os olhos um pouco vermelhos e inchados, como se tivesse chorado a noite inteira; O que era verdade.
“— Porque você me acordou agora, White?”.— Perguntei, meio confuso. Se ela queria que eu dormi- se mais, não faria sentido me acordar.
“ – Bem…”.— Ela murmurou, vermelha, até ouvir o estômago dela roncar. – “E… Eu tenho fome desde ontem à noite, afinal, nós nem jantamos nem tomamos o pequeno almoço e…”.
Interrompi- a com uma risada, descontraindo mais o clima entre nós. Ela deixou um sorriso escapar, enquanto fui em direção dela, ficando frente a frente com ela. Baixei- me ao nível dela (Só para a deixar irritada e resultou, afinal, ela era baixa) com um sorriso também.
“ – Vou apenas tomar um duche rápido, okay White? Depois vamos almoçar o que você quiser! Você escolhe, okay?”.— Disse, enquanto ela pulou de felicidade. – “Vamos comer hoje fora da escola. Vou mostrar- te a cidade!”.
“ – Okay, Black- Kun!!”.— Disse White, super animada. Mesmo antes de fechar a porta, olhei- a com um sorriso e com uma ideia louca em mente. Uma ideia que eu ia ser alvo de perguntas e muitos socos dos meus amigos. Mas eu queria.
“ – White, faça as malas. Vamos passar o final de semana fora!”.
[….]
“ – Black- Kun, onde vamos?!”.— Perguntava White super alto, animada, enquanto andava ao meu lado. Ela levava uma mala creme e rosa clara às costas, com detalhes clássicos. Vestia umas botas pretas e rosas, com meias pretas também até ao joelho. Uns short jeans com os bolsos de fora e uma Tshirt branca com um colete preto. Levava também uma outra mala ao ombro rosa mais forte, provavelmente com algumas coisas de higiene e outras roupas que não cabiam na mala normal.
“ – Já disse, White… É surpresa!”.— Respondi com um sorriso. Vestia umas calças pretas e ténis vermelhos, com uma Tshirt preta e branca com um casaco azul claro e escuro. Levava também o meu fiel cap, agora já quase todo arranjado pela Rosa (Ela sempre teve muito jeito para costura) e uma mala ao ombro preta e azul.
“ – Vamos passar férias juntos, Black- Kun!! Eu sempre quis passar umas férias junto com você, fora da escola! Nunca vi como são as coisas fora da escola, apenas fui de trem para Nimbasa City e é a melhor cidade do mundo!!”.
Libertei uma risada, ao ver White tão animada e a pular de um lado ao outro. Estavamos a andar pela Route 3, em direção a Stration City. Só de pensar que se fizesse uma jornada com a White seria assim… Sinto o meu coração a bater mais rápido e um sorriso bobo na cara.
“ – Bem, eu quero levar- te a um lugar… Mas só devemos chegar lá domingo. Depois, para voltar, teremos de apanhar um trem para conseguir chegar a tempo para as aulas de segunda, okay?”.— Perguntei, enquanto White parou de andar, olhando- me. Parei também, olhando- a nos olhos, confuso. – “O que foi, White?”.
“ – Então… Isso é como uma jornada…?!”. – Mesmo antes de responder, ela olhava para tudo onde era possível olhar. Via vários Pokémon andarem por aí, em árvores e relva, começando a correr de um lado para o outro. – “Viva!! Vamos fazer uma jornada!”.
“ – White, se acalma! Isto não é uma jornada oficial, é apenas uma viagem!”.— Afirmei entre suspiros. Ela continuava a correr de um lado ao outro, mesmo sem me escutar.
“ – Oficial ou não, estou a fazer uma jornada com o Black- Kun!! Eu sempre quis fazer isso!!”.— Gritou White pela Route 3 fora, enquanto suspirava novamente, cruzando os braços com um sorriso e a ver White tão feliz.
Eu realmente queria fazer uma jornada com ela. Queria passar o resto da minha vida assim, com uma vida ao seu lado; Seria a loucura total isto todos os dias, obviamente, mas acho que me poderia habituar.
Espera… Acho que já me habituei.
“— White, só não se afaste!”.— Gritei para a mesma, que estava um pouco afastada de mim, a olhar para todo o lado e a falar com Pokémons.
“ – Sim sim Black- Kun!!”.— Respondeu também alto, para eu ouvir.
Fomos andando assim, durante alguns bons minutos; Talvez meia hora. Não me cansava de ver o sorriso no rosto dela, enquanto eu andava sempre um pouco atrás dela, com as mãos nos bolsos.
“ – Estão a divertir- se tanto… Posso me juntar à festa?”.
Paralisei, ao ver tudo à minha volta ficar preto e branco. White estava parada, no meio do nada, assim como Pokémons e o vento. Apenas eu estava colorido. Apenas eu estava ali.
A voz que falava ao meu ouvido era distorcida, chegando até a ser macabra e assustadora. Era uma voz feminina, penso eu. Porém, era uma voz junta com um grito agonizante de dor e robótica; Como se essa voz fosse um programa de computador, a sofrer e voltado à vida após a morte.
“ – Quem…”.— Quis perguntas, mas a minha voz morreu- me na garganta, num murmúrio ao ver um vulto preto aproximar- se de White, que ainda sorria, e tocar- lhe. — “Larga- a!”.
O vulto preto parou, mostrando um sorriso branco enorme e rasgado, assustador. Parou a centímetros de a tocar, apenas abrindo a palma da mão. Rapidamente, White, que estava a preto e branco, transformou- se na minha irmã, Charlotte, mas como se tivesse a idade de White.
“ – Gray está a chegar… Tic tac tic tac, Black. Natural também vem aí… Tic tac tic tac, Black. O tempo da White esgota- se… Tic tac tic tac, Black!!”.
A voz continuava como se estivesse ao meu lado, ao meu ouvido a dizer várias frases todas terminadas da mesma forma.
“ – Os teus pais morreram… Tic tac tic tac, Black. Eles não vão voltar… Tic tac tic tac, Black!”.
Senti o meu corpo enfraquecer, ficar pesado com uma culpa enorme. Como se tudo fosse por minha culpa.
“ – Yancy está a sofrer… Tic tac tic tac, Black. Charlotte está triste… Tic tac tic tac, Black”.
…
“ – P… para”.— Pedi, num tom de voz fraco, enquanto via White a mudar de forma – Ora era uma Purrloion, ora era ela mesma, ora era Charlotte –. – “Para…”.
“ – O teu tempo esgota- se… Tic tac tic tac, Black!”.
“ – Quem és tu?!”.— Gritei, afastando- me de onde estava, a olhar para trás. Ninguém.
“ – Eu estou aqui… Tic tac tic tac, Black”.
Olhei para trás, vendo a figura preta novamente perto de White, prestes a tocar- lhe. Observei White a mudar para tantas formas e expressões no rosto diferentes – Ora a sorrir, ora triste, ora a chorar, ora a sofrer – Como se o divertimento de brincar comigo não acabasse para Gray, Natural ou quem fosse aquela sombra.
“ – Quem és tu?! Diz quem tu és ou tens medo?!”.— Tentei arranjar coragem, e até fui convincente, fazendo a voz vacilar e calar- se por momentos.
Porém, não foi o suficiente.
“ – Quem eu sou…? Tic tac tic tac, Black. Eu sou o teu tempo! Tic tac tic tac!”.
Eu estava a enlouquecer. A cada vez que a voz imitava um relógio, era como se aquele relógio fosse, na verdade, uma bomba relógio. E fosse explodir a qualquer momento, mas eu não sabia qual.
“ – Que tempo? Deixa o tempo voltar ao normal!”.— Voltei a tentar desafiar a figura preta, que sorria cada vez mais.
" — O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem! Tic tac tic tac! O tempo respondeu ao tempo que o tempo tem tanto tempo quanto o tempo tem, tic tac tic tac, Black!".
Ótimo, charadas. Pensei. Estou feito.
“— O tempo não obedece ao tempo… Ele simplesmente continua, não importa o quanto eu tente pará- lo ou coloque ao normal. Tic tac tic tac!”.
Espera… Se ele continua mesmo que o próprio tempo o pare…
“ – Natural”.— Murmurei, olhando para a figura preta com raiva. – “Foi ele que te enviou, certo?”.
“ – Tic tac tic tac tic tac….”.
“ – Foi ele que te enviou. O tempo está do lado da Team Plasma, certo?”.
“ – Tic tac tic tac…”.
Cerrei o punho com força. Aquela porcaria estava a começar a irritar- me.
“ – Quanto tempo temos até que Gray acorde?”.
“ – Tic tac tic tac tic tac…”.
“ – Se conversa fiada não funciona contigo…”.— Murmurei, pegando nas minhas três Pokébolas, prontas para as abrir e lutar. – “Talvez funcione com eles os três, não?”.
“ – Se fosse a ti não faria isso, Black”.
Olhei para trás, querendo espancar o dono da voz. Natural estava exatamente ali, atrás de mim, também a cores.
“— Acho que tens algum distúrbio mental sério e obcecação pela White. E deixar- nos viver, não? Arranja uma vida!”.— Queixei- me, cruzando os braços, ainda com as Pokébolas na minha mão direita. – “Qual é a ameaça desta vez, vamos lá começar a novela mexicana!”.
Natural começou a rir. Não o culpo, também me iria rir das minhas palavras no lugar dele.
“ – Primeiro, eu não estou obcecado por ela. Só sigo ordens da tua tão amada Team Plasma e precisamos dela para acabar com os nossos planos. Ela é a chave principal para dominar o mundo”.— Ele fez uma pausa, olhando para a minha cara. – “Bem, não é bem ela e sim a Gray. Essa mulher, com a alma presa no corpinho da tua tão querida “Neko- Chan” tem o poder de acabar com qualquer um no seu caminho. Praticamente… Uma humana com poderes de um Pokémon Noturno”.
“ – Uma humana… Com poderes de um Pokémon?”.— Murmurei, completamente chocado e desviando o olhar para White, que continuava a mudar de forma.
“ – Exatamente”.— Respondeu Natural, colocando as mãos nos bolsos e olhando para o céu acinzentado. – “Estou cansado de vos seguir também; A Team Plasma só me deixa destes trabalhos, não vêm fazer por eles próprios”.— Ele fez outra pausa, colocando a mão no queixo. – “Oh… Espera…
Eu sou o rei deles".
Senti a raiva incontrolável subir- me dos pés à cabeça. Lembro- me da minha visão ficar embaciada e de andar até ao N, segurando- lhe pela gola da sua camisa. Olhei- o nos olhos, vendo que ele iria falar mas calou- se ao olhar- me nos olhos. Senti os meus olhos arderem levemente, mas calculei que fosse a raiva.
“ – Tu… Foste tu…”.
“ – Que matei os teus pais? Hmmm, erraste. Foi o meu pai, Ghetsis”.
“ – Tu… Foste… Tu… E o Ghetsis… O... teu pai”.
Natural começou a rir, momentos antes de levar um soco no meio da cara e cair no chão. O seu nariz começou a sangrar, ficando bem vermelho tanto no nariz como a marca na cara dele. O mesmo cuspiu sangue para o chão a rir um pouco.
“ – Pelos vistos os boatos eram verdade… O descontrolo da Gray passa de humano para humano”.
Não queria ouvir mais nada. Dei um chute no estômago do esverdeado, deixando- o a abraçar o mesmo, no chão, com dor. Pisei a casa dele de lado, enquanto o olhava a sorrir.
“ – Dói, não dói? Agora multiplica por mil. Multiplica o tempo e a dor que sofro todos os dias desde que o Ghetsis matou os meus pais! Multiplica por mais mil pelo que fizeste à Yancy! À minha Yancy!!”.— Pisei a cara dele com mais força. – “Multiplica agora por um milhão a todos os que fizeste sofrer!! E por mais mil a todas as barbaridades que fizeste a White e Nate!”.
“ – Black… Kun…”.
A voz da figura preta soou atrás de mim. Olhei rapidamente para trás, vendo uma sombra com a forma da minha irmã, Charlotte.
“ – Charlotte…”.
“ – Os teus olhos estão… Verdes”.— A voz macabra fez uma pausa. – “Assustadores, Tic tac tic tac".
Olhei para a tela desligada do meu Xtransceiver, que estava no pulso e vi o meu reflexo. Os muu olhos tinham perdido o brilho e estavam tal e qual como os olhos de uma Purrloion. Rapidamente, uns segundos depois, voltaram ao normal.
“ – Mas o que…?”.— Perguntei- me em voz baixa, ouvindo vários gemidos vindo do cabeça de bosta, ao meu lado, com dor no estômago. – “Charlotte, é mesmo você?”.
“ – Enquanto Ghetsis não morrer, eu não poderei descançar… Tic tac tic tac”.— Disse a voz, mas desta vez com a voz da minha irmã, pouco alterada e chorosa. Uma lágrima caiu da figura preta e caiu no chão, sendo que no local voltava a ficar com cor.
“ – Charlotte…”.— Aproximei- me dela para a tentar abraçar, mas ela afastou- se.
“ – Cuide da White, por mim, por favor. Tenha cuidado com ela e cuide muito bem dela. Tic tac tic tac. Infelizmente não posso ser mais sua irmã, Black- Kun… Tic tac tic tac.”.
“ – Para de imitar um relógio, pelo amor de Deus, irritante até depois da vida!”. – Queixei- me, com um tom de deboche.
“ – Cala a boca, idiota! Tic tac tic tac…”.— Murmurou, fazendo um silêncio. – “Ghetsis aprisionou a minha alma num experimento dele. Só poderei ser libertada após a derrota deles, tic tac tic tac… Até lá, eu controlo o tempo que Gray irá despertar, como se fosse eu a decidir a altura que tudo acontece. E não consigo aguentar o tempo muito mais, tic tac tic tac…”.
“ – Quanto tempo, exatamente?”.— Perguntei sério, tentando tocar nela, mas ela sempre se desviava.
“ – Trinta e quatro dias, tic tac tic...”.— Respondeu a mesma, começando a mudar a voz. – “... Tac. Ghetsis vai me controlar de novo, tic tac tic tac. Vou embora antes que crie mais problemas para você, tic tac tic tac, Black. Eu te amo, Black- Kun!”.
“ – Espera!”.
E assim que gritei, o preto e branco dissolveu- se, levando Natural e Charlotte, apenas deixando para trás a White a cantarolar por aí e eu paralisado, a contar os dias que tinha até White desaparecer.
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