My Last Hope

2 Capítulo 1- Give me Hope


Notas iniciais
Desculpa a demora.
[Gerard´s Pov]

Give Me Hope. “Me de esperança.”

Atrasado. É a única palavra que pode expressar o estado em que eu me encontro. O dia mais importante da minha vida. O dia em que eu finalmente conseguiria entrar na faculdade dos meus sonhos. Conseguiria desafundar a minha família onde as únicas duas pessoas que a compõe são minha mãe e meu irmão. Sim, minha família é só minha mãe e meu irmão, e já é o bastante pra mim.

Minha vida não era nem um pouco brilhante. Eu não era daqueles que a aproveitavam ao máximo. Eu apenas a vivia, ia levando, não esperava muito de mim mesmo, apenas queria sentir que alguém se sentia orgulhoso por mim, e essa pessoa era a minha mãe. Eu nunca fui popular, nunca joguei no time de futebol da escola, muito menos tive muitas garotas. Creio que eu nunca amei perdidamente alguém. E não reclamo, não acho que amar alguém faria diferença na minha vida.Convenhamos que amor seja apenas uma desculpa para machucar e ser machucado.

E sim, eu sou uma pessoa fria e arrogante, mastodos nós somos um pouco, não?

Eu ainda tentava pensar em como alguma coisa podia ser tão lenta como aquele ônibus (provavelmente eu só o estava achando lento porque eu precisava ir mais rápido.). Em outras situações eu já estaria desesperado. Mas eu não podia me desesperar, porque se não eu não iria conseguir me concentrar para a prova que eu faria em poucos minutos. Estava sentado bem à frente, balançando meus pés freneticamente. Eu iria entrar na faculdade, iria não, estava tentando entrar. Jornalismo. Eu queria fazer literatura, mas as pessoas não achavam que eu tinha muita capacidade para escrever um livro. Talento. diziam que para um escritor, eu era um ótimo cantor. Sim, eu cantava bem.Que pessoas tolas, não? Elas diziam que eu não tinha sensibilidade o bastante. Como se hoje em dia alguém pudesse falar em sensibilidade. Poupe-me. Tá, eu concordo que eu não seja tão sensível assim, que eu não me importe muito com os outros. Eu apenas não era tão dramático e sentimental.Mas não pense que eu sou um monstro.

Encostei minha cabeça no vidro, encarando o céu cinzento lá fora. Estávamos no inverno, a estação do ano que eu mais gostava. Eu não era muito fã de regatas, chinelos de dedo e pessoas suando.Convenhamos que pessoas fedem no verão, e isso não é lá uma coisa muito agradável. Eu havia desenvolvido uma técnica, creio que um tanto criativa, e que funcionava em ocasiões como aquelas. Desligava-me completamente, pensava em outra coisa, apenas para fugir um pouco da realidade. Parece tolice, talvez idiotice ou criancice, mas o que importava era que aquilo realmente funcionava. Então ele finalmente parou e a multidão de pessoas saiu ao mesmo tempo daquele lugar não muito amplo e arejado, onde às vezes eu até me sentia um tanto sufocado, nada que eu não pudesse suportar.

Por mais que estivesse atrasado, não me levantei, esperei as pessoas saírem, inclusive a velhinha um tanto quanto lenta ao meu lado. Encarei-me no retrovisor do ônibus. Era branco, muito branco na verdade. Talvez um dia eu devesse tomar um sol, creio que não ficaria bonito, porque ao invés de ficar moreno, ficaria vermelho. Meus cabelos, que eram um pouco compridos, mais ou menos na altura do ombro, eram pretos. Minha mãe vivia dizendo para eu cortá-lo, não que eu me importasse muito. Diziam que contrastava perfeitamente com a cor da minha pele e o verde dos meus olhos. Michael, meu irmão, sempre dizia que meus olhos eram profundos, talvez até intrigantes, mas eu nunca entendi muito bem o que ele queria dizer. Michael e eu costumávamos ter uma relação bem “aberta”. Talvez nós não nos víssemos como apenas irmãos. E você me ouviu dizer que eu nunca me apaixonei por ninguém, certo? Engano meu. Michael é a pessoa mais encantadora que eu já conheci em toda a minha vida.Sim, eu me apaixonei pelo meu próprio irmão. Um tanto estranho, não? Deve ser por isso que eu me tornei tão egoísta e frio nesses últimos tempos. Não pense que eu sempre fui assim. Nós nos afastamos há algum tempo. Ele dizia que eu havia mudado muito. Dizia que essa minha obsessão por dinheiro havia se tornado insuportável. Doeu ouvi-lo dizer isso. Mas não importa, afinal, ninguém quer me ouvir contando sobre a minha vida completamente desinteressante e deprimente.

Caminhei com passos largos e apressados pela calçada molhada. A tempestade de algumas horas antes havia tornado quase impossível andar na rua sem se molhar. Incrivelmente irritante ficar com o pé molhado. Arrumei meu casaco, fechando-o, impedindo que o vento frio tomasse conta do meu corpo quente. Carregava alguns cadernos embaixo do meu braço, para no caso de dar tempo de estudar antes da prova. Mas eu deveria saber que não daria tempo. Eu tinha uma vida bem corrida: trabalhava em um ateliê no centro da cidade, onde não ganhava muito dinheiro, mas mesmo assim, adorava desenhar coisas que eu queria e gostava, porque quase nunca eu fazia as coisas de acordo com a minha vontade. Ajudava minha mãe em seu restaurante bastante freqüentado por estudantes ricos, completamente mesquinhos e arrogantes, por ser perto de uma das maiores e mais caras faculdades do país.

Havia estudado muito pra tentar passar nessa faculdade, e ganhar uma bolsa. Porque certamente minha mãe não conseguiria pagar uma coisa daquelas.Sai correndo do ateliê no qual eu apenas conseguia pagar o aluguel do meu apartamento com meu mísero salário, peguei o ônibus, e, como sempre, meus planos de pontualidade nunca funcionam. Seria bem mais fácil se eu estivesse trabalhando no restaurante de minha mãe naquele dia. Atravessei a rua e me deparei com a grande universidade, sentindo meu estômago afundar levemente de ansiedade. Apressei-me, praticamente corri. Algumas pessoas passaram por mim, provavelmente se perguntando o porquê da correria.

Sempre fui uma pessoa desastrada, destrambelhada e tudo que é capaz de destruir, derrubar coisas e pessoas com muita facilidade. Com a pressa acabei trombando com uma mulher, derrubando os cadernos que eu carregava de baixo dos meus braços. Ela parecia bem mais velha que eu, bem mais alta. Muito bonita por sinal. Olhos cor-de-mel, tão brilhantes que chegava a chamar a atenção de qualquer pessoa que os olhasse por alguns segundos. Sim, eu me apaixonei por aqueles olhos.

— Me desculpe, é que eu estou com pressa, estou atrasado para uma prova importante. – eu disse, constrangido por ter derrubado todo o seu café em sua blusa extremamente branca e aparentemente nova. Ela me encarou pela primeira vez, e eu sorri. Não que eu tivesse algum motivo para isso. Ela se abaixou ao mesmo tempo em que eu, me ajudando a pegar meus cadernos, tocando minha mão. Sua pele era branca como a minha e incrivelmente macia. – Obrigado. – agradeci.

- Tudo bem, mas olhe por onde anda, ou vai acabar matando alguém. – nos levantamos, não quebrando o contato de olhares.

- Quer comer alguma coisa? Digo, quer ir a um restaurante para se limpar? – eu perguntei, fazendo-a rir, não entendendo o motivo de sua risada.

- Mas você não estava atrasado para a uma prova?

Corei. Pelo menos eu acho que corei. Havia me esquecido completamente da prova. Detalhe que eu estava completamente obcecado por aquela prova e aquela faculdade há meses. Mas foi apenas um lapso de memória. Manti minha postura, apesar de estar envergonhado. Ela sorriu ao perceber o constrangimento que havia me causado àquela pergunta. E ver o quão confuso eu havia ficado com aquilo.

— Estou. Havia me esquecido brevemente dela. Desculpe-me mais uma vez, se houver qualquer coisa que eu possa fazer pela sua blusa, por favor, me avise. – eu a encarei por mais alguns segundos, tentando guardar o brilho de seus olhos, logo depois sorri, e meu sorriso foi logo correspondido.

- Não tem problema, é apenas mais uma blusa branca qualquer, não se preocupe. Boa sorte com a prova. – ela disse, deixando claro que estava partindo.

Agradeci. Ela se virou, e recomeçou a andar apressadamente. Logo depois acordei do meu transe quando não conseguia a ver mais, e segui para a minha prova. Entrei na sala, onde me senti mais confortável por poder tirar meu casado e ainda assim continuar aquecido. A sala estava completamente cheia. Odiava lugares com muitas pessoas, principalmente quando essas pessoas eram estranhas. O professor já havia entregado as provas, e me encarou sério quando eu entrei. Desculpei-me pelo atraso, e ele me entregou a prova.

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Estava escurecendo, me sentia completamente feliz comigo mesmo. O céu estava ficando escuro e nebuloso, como nos dias anteriores, a única diferença que notava era a fina e branca névoa que impedia a visão ampla da cidade. Estava sentado no parapeito da janela do meu quarto, em meu pequeno, porém aconchegante, apartamento. Ainda não havia me acostumado com a idéia de morar sozinho. Há algum tempo atrás, morava com Michael, em um apartamento que era o dobro do que eu moro agora, mas não reclamo. Ainda cogitava na possibilidade de Michael voltar a morar comigo por livre e espontânea vontade.

Havia se passado dois meses desde o dia em que fiz a prova para entrar na faculdade. Cheguei, como sempre, muito cansado por ter trabalhado o dia inteiro no restaurante, peguei a correspondência que estava em cima do tapete de entrada, pensando que seriam apenas propagandas, contas para pagar e tudo de mais chato e estressante que se recebe todo mês em uma casa qualquer. No meio de toda essa correspondência, avistei um envelope com o nome da faculdade, sentindo meu coração acelerar repentinamente. Abri o envelope, quase rasgando a carta que estava dentro.

Pude sentir meus olhos marejando ao ler a frase sublinhada: “Seu pedido de bolsa foi aceito.”Sorri comigo mesmo, correndo para o telefone, discando para meu irmão. Meu entusiasmo logo se esvaiu ao me lembrar que eu e Michael não estávamos nos falando, me senti quase que deprimido.

Voltei para a mesa onde havia deixado a carta da faculdade, lendo tudo que havia escrito nela. Começaria as aulas em dois dias, tão longos dias.

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Andei apressadamente pelas longas escadas que separavam a rua da faculdade, carregando todo o material pedido em baixo dos meus braços. Estava atrasado. Talvez fosse se tornar uma rotina já que agora tinha que trabalhar de manhã no restaurante para compensar o horário da tarde que estaria na faculdade. Minha mãe ficou muito orgulhosa de mim, até meu irmão abriu um largo sorriso quando eu os contei a novidade, apesar de ter sumido logo depois de perceber que eu estava o encarando. Mas mesmo assim, sabia que ele havia ficado feliz por mim.

Sabia que acabaria derrubando tudo aquilo dos meus braços, sempre acontecia algo desse tipo quando eu mais precisava que não acontecesse. Passei pelo grande estacionamento, e parei abruptamente, encarado uma das coisas mais bonitas que já vi na minha vida.Era um garoto, aparentemente tinha a mesma idade que eu, sentado no banco do passageiro de um carro extremamente grande, e aparentemente caro. Estava com seus fones no ouvido tão alto que eu conseguia ouvir, mesmo estando um tanto longe. Ele se encarava atento no retrovisor, tentando nervosamente tirar a comprida franja de seus olhos.

Aqueles olhos.

Tinha certeza que já havia os visto antes, aquele brilho que poderia ser percebido de longe. Então meus olhos se encontraram com os dele pelo espelho, e ele me encarou por alguns segundos, parecendo completamente interessado e intrigado por eu estar parado cheio de coisas em baixo do braço apenas o olhando. Então ele desviou o olhar de mim, parecendo ter avistado alguém que vinha em sua direção, tirando seus fones do ouvido para poder conversar com a pessoa. E eu, manti meus olhos nele.

- Mãe, por favor, venha logo porque eu tenho compromissos mais importantes do que ficar esperando você nesse lugar completamente inútil. – ele disse rudemente, sua voz era bonita, como o resto. Ele parecia o tipo de garoto rico e metido, odeio esse tipo de pessoa. — Não é inútil, você que não é uma pessoa normal e não quer ter futuro nenhum. Que compromissos você tem? Ficar o dia inteiro agarrado com sua namorada e trancado em seu quarto? – uma voz feminina respondeu sarcasticamente.

- E isso não pode ser chamado de importante? – ele perguntou, no mesmo tom.

Decidi que talvez fosse melhor parar de ouvir a conversa dos outros, apesar de estar curioso para ver com quem ele estava conversando. Tinha certeza que já havia ouvido aquela doce voz antes. Virei-me, voltando a andar, colidindo com a pessoa que estava conversando com o garoto. Sorri abertamente, era a mesma mulher que havia esbarrado no dia da minha prova, ela sorriu de volta.

— Desculpe, dessa vez a culpa foi minha. Nós vivemos nos esbarrando, não? – ela disse amigavelmente. Seu filho a chamou de novo, começando a ficar realmente impaciente.

-Pois é, deve ter algum significado pra isso. Ou nós somos apenas duas pessoas desastradas. Acho melhor você ir, ou seu filho terá um ataque histérico e eu não quero ser culpado por isso. – abaixei minha voz para o garoto não ouvir, temia que se ele ouvisse, saísse do carro furioso, pronto para me bater. Ela riu.

- Não ligue pra ele. Ele é apenas um adolescente sofrendo uma passageira crise de identidade. E, eu sei, ele não tem mais idade para esse tipo de coisa, mas eu apenas não consigo o fazer mudar. Muito prazer. Me chamo Dalilah. – nos levantamos, ela me ajudou a pegar os livros caídos.

— Gerard. – ofereci minha mão, e ela aceitou meu cumprimento.

— Mãe! – o garoto choramingou, e a mulher o encarou impaciente como se dissesse para esperar.

- Agora eu devo ir. Creio que você esta começando suas aulas, não? – eu assenti — Então pelo jeito nós vamos nos encontrar bastante. – queria perguntar por que iríamos nos encontrar, mas decidi que seria melhor encurtar a conversa.

Apenas sorri enquanto ela entrou no carro e acenou com a mão e eu fiz o mesmo. Logo depois ela partiu.

Segui para a minha aula pensando naqueles olhos. Não nos olhos da mãe, mas sim, nos olhos do filho.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.