My Last Confession
1 CAPÍTULO ÚNICO
Notas iniciais
Olá! Essa fic faz parte do Projeto One-shot Oculta, um amigo oculto entre autoras do fandom de Crepúsculo. Confira as regras e todas as participantes no nosso perfil oficial ?“ bit.ly/POSOnyah ?“ na aba "Favoritas” e “Estou Acompanhando”.
Essa fanfic é dedicada à minha amiga oculta vampirabrilhosa.
Espero que você goste, foi um desafio IMENSO escrever essa história ♥
My Last Confession
One Shot Oculta 2021
Edward POV
O tempo passa.
Mesmo quando isso parece impossível.
Mesmo quando cada tique do relógio faz sua cabeça doer como se fosse um fluxo de sangue passando por uma ferida.
Ele passa desigual, em estranhos solavancos e levando a calmaria embora, mas ele passa.
Mesmo pra mim*
Eu era um fodido.
Um belo de um fodido que merecia cada momento torturante que eu passava aqui dentro desse inferno.
Um inferno no qual eu mesmo me coloquei.
Me pergunto todos os dias o que eu queria com isso.
Lembro de Esme, com lágrimas nos olhos, me abraçar tão forte enquanto dizia que finalmente eu estava fazendo a coisa certa. Que isso me salvaria do fundo do poço no qual eu mesmo me coloquei ao longo dos anos.
Já Carlisle desacreditava de mim. Levou como mais uma das minhas “experiências transcendentais” que vivenciei ao longo dos meus 30 anos enquanto buscava me encontrar como pessoa e como artista.
Ele era um descrente e eu havia herdado esse traço dele.
Emmett e Alice, diferentemente do meu pai, acreditavam tanto em mim, que me irritava de uma maneira tão profunda.
Afinal de contas eu era um fodido e merecia todo esse inferno que me sujeitei a vida toda.
Me virei pro lado esquerdo da cama olhando diretamente para a parede do lado oposto que estava coberta com várias telas que pintei no tempo que estou nesse “auto exílio”.
Eu odiava cada uma das pinturas, eu queria botar fogo nelas e em mim em seguida se pudesse, se esse meu gesto não matasse minha madrasta e irmãos aos poucos, eu teria feito há anos atrás.
Não que eu nunca tivesse tentado antes...
Respirei fundo e cocei meus olhos desistindo de dormir, como todas as outras noites desde que eu me conheço como Edward Cullen.
Ou Masen, para os amantes da arte.
Me levantei da cama e andei em direção a janela e olhei o imenso jardim iluminado apenas pela luz da lua. O céu tão estrelado, diferentemente do céu de Nova York onde era impossível distinguir o que era nuvem e o que era poluição.
Respirei fundo e novamente me indaguei como nunca cogitei voltar de onde nunca deveria ter saído. Meu peito sempre gritava pela Escócia, e eu nunca o ouvia.
É porque ao voltar pra cá, você volta pra todos os seus fantasmas, seu idiota.
Sim, minha consciência é extremamente hostil comigo em todos os sentidos.
Olhei para porta do quarto, desejando poder sair e caminhar descalço até o jardim e me deitar na grama. Como eu fazia com a minha mãe quando era criança. As vezes dormíamos juntos no gramado da nossa casa e acordávamos quando o sol começava a queimar nossos rostos.
Respirei fundo novamente e olhei os comprimidos no criado mudo.
Eu evitava tomá-los, mas eu já estava há 3 dias sem dormir e precisava minimamente de um descanso, mesmo que químico.
Bufei e peguei os comprimidos colocando na boca e engolindo a seco e voltei a deitar na cama.
Pedindo ao universo, mais uma vez, que eu não acordasse no dia seguinte.
* Trecho retirado do livro Lua Nova, pag. 73
No dia seguinte
Eu estava em Nova York.
Então muito provavelmente isso era um sonho.
Estava no bar no qual passei os últimos meses antes de decidir tomar um rumo na minha vida.
Bebia de maneira descontrolada enquanto pagava uma e outra rodada a mais para aqueles que diziam ser meus “amigos”.
Até que o bar ficou escuro e senti muito frio e num passe de mágica estava na minha antiga casa onde passei minha infância na Escócia.
Mesmo sonhando, me preparei pro que viria.
Ouvi os passos dele subindo as escadas enquanto eu estava escondido embaixo da cama com minha mãe, eu sentia meu coração bater no ouvido, enquanto minha mãe apertava seus braços em volta de mim.
A porta se abriu e vi seus pés sujos de barro.
— Cadê você, seu bastardinho?
Senti uma lágrima escorrer, eu sabia o que viria.
Eu tinha o mesmo sonho há tantos e tantos anos.
Porém no momento em que ele foi se abaixar, senti uma mão leve em meu ombro, quente como se fosse o sol da manhã e meu corpo começar a se movimentar levemente, enquanto ouvia ao longe.
— Sr. Cullen? Acorde!
Abri meus olhos, que pareciam pesar uma tonelada e fiquei puto com o universo por ter acordado.
Acabo de comprovar uma coisa: Lei da atração NÃO existe.
— Sr. Cullen? Bom dia!
Uma voz, muito bonita, mas animada demais me chamou.
Não era a voz da Dra. Weber.
Me virei na cama sem muita vontade e dei de cara com dois pares de olhos cor de chocolate, que fez com que me desse água na boca. Há quanto tempo não comia um chocolate decente? Os daqui eram horríveis.
— Eu sou a Dra. Bella Swan – sorriu docemente, fazendo com que meu olhar fosse diretamente para a sua boca, pequena, rosada e carnuda, engoli seco.
— Sei que deve estar achando estranho minha presença – sorriu docemente – Mas Dra. Weber precisou deixar o estágio um mês antes do previsto, por conta do casamento, acredito que ela já vinha comentando com você sobre – assenti levemente – A partir de hoje, até o final desse um mês eu serei a médica residente responsável por você. Pode ficar tranquilo que eu estou ciente de cada detalhe do seu caso, Sr. Cullen.
Sorriu docemente e andou até o criado mudo e verificando que eu havia tomado os remédios para dormir e anotou algo na prancheta que segurava.
— Dra. Weber disse que você estava recusando os medicamentos, vejo que precisou tomar ontem, sim? – assenti.
— Preciso examiná-lo, tudo bem? – afirmei e deixei que se aproximasse.
Me sentei na beirada da cama e deixei que ela verificasse minha temperatura, aferisse pressão, auscultasse meu coração e pulmão dentre outras coisas que médicos amam fazer com a gente.
Assim que terminou anotou algumas coisas e falou com um sorriso um tanto quanto dúbio em seu rosto.
— Seus batimentos cardíacos estão um pouco acelerados – segurou um sorriso – Está tudo bem?
Engraçadinha, pensei, não vai ser hoje que vou abrir minha boca.
Sorriu largamente desta vez e disse que voltava mais tarde. Quando ela se virou para ir embora, dei uma olhada em sua bunda, bem dada.
E eu acho que provavelmente estaria fodido nesse próximo mês.
Mais tarde naquele dia
Aviso: TW Suicídio
Estava no jardim, sentado em um banco, aproveitando o tanto de vitamina D que podia absorver, quando vi Dra. Swan vindo em minha direção, com aquele sorrisinho torto que se assemelhava levemente com o que eu dei a minha vida toda, e era minha marca registrada.
— Sr. Cullen?
Apenas a olhei e a vi se sentar ao meu lado, sem ao menos pedir licença.
— Agora é a hora da terapia de grupo – revirei os olhos – Dra. Weber disse que não participa a um tempo, gostaria de me acompanhar?
Voltei meu olhar para o jardim a minha frente e respirei fundo, dando a entender que não sairia dali.
— Tudo bem – disse novamente com aquela voz muito animada pro meu gosto – Tentaremos na próxima. Ótimo banho de sol, Sr. Cullen.
E saiu me deixando ali sozinho novamente.
Hoje era terça feira, dia da tediosa terapia de grupo, onde todos ali choravam suas mágoas, colocavam tudo para fora e se sentiam a pessoa mais especial ao final dela.
Era tudo balela, apenas colocar seus demônios e misérias para fora não resolviam os demônios que sempre estavam tão pesados agarrados em minhas costas, me fazendo parecer pesar toneladas e toneladas.
Por muitas vezes me perguntava o porquê eu ainda tentava, era tão simples, era apenas tomar uma dose cavalar de remédios, pagar algum médico desesperado por grana e antiético o suficiente para aplicar uma injeção letal e acabar com o inferno que era minha vida.
Mas eu simplesmente não conseguia.
E sempre voltava ao mesmo ponto inicial, que era tentar melhorar, por mais que eu sempre falhasse.
Bufei e me levantei do banco andando em direção a um pequeno gazebo de pedra que havia por perto, coberto por heras, rodeado por árvores, num lugar mais afastado da grande casa.
Quando decidi vir para cá, o que me chamou a atenção foi o fato do lugar não possuir muros gigantescos, grades ou portões. Éramos livres para ir embora quando quiséssemos, afinal, boa parte estava aqui por vontade própria.
Caminhei até o local e assim que cheguei me deitei no banco ali dentro que havia e fiquei olhando para o teto do gazebo.
Antes que pudesse pensar em algo, comecei a sentir aquela sensação que há tempos não sentia, um ímpeto genuíno para poder desenhar ou pintar. Rapidamente tateei meus bolsos e tirei meu moleskine e meu lápis, me sentei e abri em uma página vazia.
A única coisa que vinha em minha mente era um par de olhos castanhos, quase como chocolate derretido, tão brilhantes quanto a água mais cristalina de um lago virgem e desconhecido.
Comecei a rascunhar até que em algum momento do dia, percebi que havia usado metade do moleskine para chegar no desenho perfeito. Sorri (torto) e fiquei feliz com o resultado. Agora eu só precisava passar para a tela e achar o tom de marrom perfeito.
Praticamente corri até meu quarto e peguei uma tela e meu estojo de tintas e pincéis e corri até a sala de artes da clínica. Ao virar o corredor que dava na sala, percebi uma movimentação diferente, haviam alguns médicos e algumas pessoas em volta olhando para dentro da sala.
Me aproximei, porém uma mão em meu ombro me parou assim que fui olhar para dentro da sala.
— Sr. Cullen? – Dra. Swan chamou – Vamos voltar para seu quarto, sim?
Me desvencilhei do seu toque e olhei dentro da sala, onde vi que um dos caras novos havia tirado sua própria vida.
Engoli seco e me afastei, me agarrando na tela e no meu estojo. Olhei para Dra. Swan que exalava preocupação pelo seu olhar.
Eu sabia o que ela estava pensando.
Toda vez que algum de nós cometia suicídio, era uma onda, haviam várias tentativas, pessoas iam embora, e acredito que ela acreditava que eu seria uma dessas pessoas.
Em seis meses aqui, nunca havia tentado nada, não que a ideia não passasse na minha mente de maneira frequente, mas eu nunca havia tentado.
Eu era um fraco, nem isso conseguia fazer.
Dra. Swan novamente me chamou e eu decidi segui-la. Paramos em meu quarto e ela fez menção que eu entrasse primeiro, e assim o fiz, parando no meio do quarto ainda segurando minha tela e meu estojo.
— Está tudo bem, Sr. Cullen?
Apenas assenti e continuei parado no mesmo local.
— Saiba que você pode falar... quer dizer... pode me sinalizar caso isso tenha sido muito impactante para você, ok?
Novamente sinalizei que sim e engoli seco.
Dra. Swan então olhou para minhas mãos segurando a tela e o estojo e sorriu torto.
— É a arte que te salva nos momentos mais difíceis, então.
Olhei para minhas mãos segurando com tanta força a tela e o estojo, como se fossem minha tábula de salvação, como se minha vida – e sanidade – dependessem daquilo.
Engoli seco novamente e a médica pediu licença saindo do meu quarto, porém ao chegar na porta me olhou de soslaio e disse
— Pode pintar aqui em seu quarto, Sr. Cullen. Eu me viro com a diretoria, tenha um bom restante de dia – e saiu.
E então, como o bom paciente fodido que sou, a obedeci.
Uma semana depois
Terça-feira novamente.
Novamente dia da entediante terapia de grupo.
Novamente eu pintando olhos castanhos como um louco.
Emmett teve que mandar mais cedo novas telas, pincéis e tintas. Meu quarto havia virado um santuário de olhos castanhos.
Eu ainda não havia entendido o motivo dessa minha nova obsessão, eu sempre entrava em momentos como esse onde ficava extremamente obcecado por algo a ponto de falar, ler ou pintar sobre isso. Minha antiga terapeuta vivia dizendo que isso era uma forma de eu ver o mundo, mas que não era nem um pouco saudável.
Dra. Swan ficou de voltar em algumas horas para colher meu sangue para alguns exames de rotina, então peguei uma tela menor e nova e meu estojo de tintas e saí do quarto em direção ao jardim onde havia uma grande árvore.
Me sentei, encostando minhas costas no tronco e abri o estojo tirando um lápis que usava para definir algumas coisas e depois pintar livremente. Olhei para frente procurando alguma referência, queria tentar sair um pouco dos olhos castanhos que assombravam minha mente na última semana.
Uma boa quantidade de tempo havia passado e eu não havia feito nada na tela, era como se eu não soubesse desenhar mais nada a não ser esses olhos castanhos que moravam em meus pensamentos.
Estes foram interrompidos quando vi Dra. Swan juntamente com uma outra médica, sentar em um banco um pouco afastado de onde eu estava. Ambas sorriam e conversavam sobre algo enquanto abriam um saquinho de batatinhas e um tomavam um suco de caixinha.
Aproveitei o momento para poder observar melhor minha nova médica.
Ela possuía um cabelo castanho comprido muito bonito, que agora com a luz do sol refletia umas mechas avermelhadas que combinavam muito com o tom de pele tão branquinho que ela tinha.
Seu nariz era pequeno e levemente arrebitado, dava um ar inocente ao rosto da mulher, era o equilíbrio perfeito no seu rosto.
Porém sua boca era... Eu não sabia descrever. Eu mal conseguia pensar ao ver sua boca tão bonita e carnuda pintada do mais vermelho carmim.
Eu era um homem pouco exigente quando se tratava de mulher, eu gostava de mulher e ponto. Sua forma física, cor de cabelo ou dos olhos pouco me importava. Mas a Dra. Swan parecia ter saído diretamente dos meus sonhos mais profundos, como se cada coisa nela tivesse sido projetado para chamar minha atenção.
Eu sabia que era errado, eu era um paciente, um louco assim por dizer, ou melhor, um pintor mundialmente famoso e internado numa clínica psiquiátrica por vontade própria para me curar dessa depressão eterna que me assolava desde que eu me conhecia como Edward Anthony Masen Cullen.
Ela era minha médica, pelo o menos pelos próximos quinze dias, eu sei que haviam tramites éticos que permeavam nossa relação durante esse período. Além de tudo, demonstrava ser uma mulher tão incrível, tão maravilhosa. E eu era apenas um fodido que tinha um passado mais fodido ainda.
Eu pesava uma tonelada.
Eu era uma tonelada de problemas e traumas.
Você é um fodido mesmo, Masen— minha mente acusava – Você é tão fodido que está imaginando uma vida feliz e plena ao lado da sua MÉDICA, sendo que você não consegue nem FALAR! Quem dirá ter algo com essa beldade...
Respirei fundo enquanto deixava minha mente me acusar.
Eu era, literalmente, um fodido.
Olhei novamente para onde minha médica estava e ela me encarava, uma ruguinha se formava no meio da sua testa, sorri torto e olhei para minha tela, deixando minha mão fluir livremente desenhando, dessa vez, lábios vermelhos sorrindo torto.
É, eu estava muito fodido mesmo.
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Mais tarde no mesmo dia, Dra. Swan recolheu minhas amostras de sangue e novamente me convidou para a terapia de grupo, novamente recusei e fiquei em meu quarto olhando pela janela e imaginando uma vida feliz e plena ao lado da minha médica.
Meu antigo analista provavelmente diria que eu sofria de algum tipo de “transferência” com ela. Dizendo que eu via nela uma espécie de tábua de salvação e que por isso estava tão obcecado. Mas eu já havia tido outras médicas outras vezes, e nada disso tinha acontecido.
Era como se ela fosse criada exatamente pra chamar minha atenção em todos os sentidos, como uma heroína feita especialmente para um viciado. Era bizarro, mas era uma sensação deliciosamente boa.
Perto das 21h, estava deitado em minha cama cogitando tomar meus remédios para dormir, quando recebi a visita novamente da Dra. Swan. Seu olhar era cansado, ela tinha olheiras significativas, mas que combinavam com ela – como tudo combinava com ela.
Entrou no meu quarto e fechou a porta atrás de si e se encostou, fechou os olhos e respirou fundo, ao abri-los estavam cheios de lágrimas prestes a cair.
— Eu posso ficar um pouquinho aqui? – me perguntou com a voz embargada, apenas sinalizei um sim e me sentei na cama, fazendo um gesto com a mão para ela sentar ao meu lado.
Porém foi se deslizando na porta até sentar no chão, enquanto as lágrimas traiçoeiras começavam a cair. Rapidamente me levantei e me agachei a sua frente.
Ela escondeu seu rosto nas mãos e eu, audaciosamente, tirei-as dos seus belos olhos. Senti a mesma sensação de calor da primeira vez que ela me tocou naquela manhã, quando me acordou a primeira vez.
— Eu tô tão cansada – começou a falar – Tão cansada de dar o meu melhor e me ferrar. Aqui era pra ser o sonho da minha vida e tá sendo o pior pesadelo – e ao terminar me abraçou, me fazendo cair de bunda com a força do impacto. A abracei, sem entender nem um pouco a sua atitude, e ficamos ali o que poderia ter sido por horas.
Passava minhas mãos por suas costas, enquanto ela soluçava de tanto chorar. Queria poder cantar, modéstia à parte, eu cantava muito bem e minha madrasta dizia que eu poderia acalmar um show de metal com a minha voz.
Mas como eu era um belo de um fodido e mal falar conseguia, apenas a apertei mais em meus braços tentando acalmá-la.
O seu choro foi cessando aos poucos até que ela fez menção de se afastar, e muito relutante, eu a deixei se afrouxar dos meus braços. Percebi que ela escondia seu rosto e vi um leve rubor.
— Me desculpe, Sr. Cullen – eu queria muito conseguir falar e pedir pra ela me chamar de Edward, mas eu era um grande de um fodido.
Tentei com minha expressão dizer que estava tudo bem, o que acho que foi entendido, já que Dra. Swan se encostou na minha porta enquanto enxugava as suas lágrimas.
— Isso é um comportamento inaceitável da minha parte – falou enquanto fungava seu narizinho lindo – Mas, pelo o visto, eu só estou errando, então o que é esse comportamento perto de todo o resto? – bateu sua cabeça na porta.
“Eu tinha um trabalho – continuou – cuidar de você até Angela voltar – franzi minha testa – E eu estava fazendo exatamente o que ela pediu, até que aquela... aquela... insuportável da Stanley questionou minha conduta sobre não forçar você a ir pra terapia de grupo, e desde então minha vida tem sido um inferno aqui – respirou fundo – Eu não sei o que se passa na sua cabeça, Sr. Cullen. Você não fala, você tem uma depressão aparentemente incurável, mas se você não fala como eu vou te ajudar? Melhor... Como você vai se ajudar se você não fala absolutamente nada? Sabia que Freud denominava a associação livre como “Talking Cure”*, porque, em tese, as palavras curam...”
Engoli seco enquanto ela continuava seu monólogo sobre Freud e sua teoria e como eu “deveria” falar algo para “ajuda-la” em seu trabalho.
Fui sentindo uma fúria dentro de mim, como ela podia ser tão egoísta?
Até onde eu saiba, cada um tem seu processo de lidar com seus traumas e suas questões, mas como ela vinha aqui, no quarto do paciente dela pra falar esse tipo de coisa? Como se a culpa fosse minha pelas coisas dela darem errado?
Não terminei de ouvir o que quer que ela estivesse falando e abri a porta assim que ela deu um espaço e saí andando pela clínica. Não éramos autorizados, mas eu estava pouco me fodendo pras regras agora.
Andei rápido ouvindo Dra. Swan atrás de mim sussurrando/gritando meu nome e eu apressei meu passo até entrar no banheiro masculino e trancar a porta trás de mim. Em seguida, me encostei na mesma, respirando fundo tentando controlar minha raiva crescente.
— Sr. Cullen? – Dra. Swan dizia baixinho do outro lado – Por favor, me desculpe... Quer dizer... não precisa me desculpar, mas precisamos voltar pro seu quarto.
Fechei meus olhos e contei mentalmente até cem tentando me acalmar, quando percebi que eu não faria nada demais, abri a porta de uma vez, fazendo minha médica quase cair em cima de mim.
— Sr. Cul... – não a deixei terminar e andei rapidamente até meu quarto, onde ao entrar tomei o dobro de remédios que deveria e me deitei na cama esperando o sono me tomar e tentar aplacar um pouco da raiva que eu sentia.
Ou tentar aplacar a minha vida.
*Talking Cure: Talking Cure ou Cura pelas Palavras foi a técnica desenvolvida por Sigmund Freud para a cura da neurose através da fala.
xxx
O restante da semana passou de uma maneira estranha.
Quando não estava dormindo, estava me dopando de remédios.
Eu havia guardado todos os comprimidos que eram me dado durante os dias num esconderijo embaixo do meu criado-mudo, ninguém achava. Então quando tomava os remédios necessários, tomava mais dois ou três do mesmo, chegando a ser uma dose cavalar.
Emmett foi chamado (já que era meu contato de emergência), não sei ao certo o que conversaram com ele, só me lembro dele entrando no meu quarto e me avisando que eu deveria ficar na enfermaria para ser cuidado por um tempo e depois tudo foi um borrão.
Me lembro de Dra. Swan me visitando na enfermaria (e também nos meus sonhos), não sabia ao certo dizer se o que eu a ouvia me dizer era real ou fruto da minha imaginação, mas ela dizia quase como um mantra “me desculpe, por favor, me desculpe”.
Poderiam ter sido dias, ou semanas, eu nunca saberia (na verdade eu soube ao acordar, passei cerca de 4 dias entre a consciência e a inconsciência), mas quando fui retornando à normalidade soube que estava muito encrencado.
Reviraram meu quarto e acharam as pílulas, Emmett foi chamado e autorizou que “medidas de contingência” fossem tomadas nesse momento, algo como aplicarem medidas de correção, não solitária ou algo do tipo, mas retirarem de mim algumas poucas regalias que eu possuo aqui.
No final do quarto dia, mais conhecido como sábado, voltei para outro quarto que não o meu, mas todas minhas coisas estavam lá, incluindo minhas telas em branco e meus outros materiais de trabalho.
Antes que pudesse me situar no meu novo quarto, Dra. Swan entrou com uma prancheta e com o olhar carregado de culpa. Fechei minha cara e comecei mentalmente a contar até cem. Essa técnica ajudava a me acalmar desde que eu era criança.
— Sr. Cullen – sua voz estava trêmula – eu preciso passar algumas regras pro senhor.
Bufei e caminhei até meu cavalete e coloquei a maior tela em branco que tinha, em seguida comecei procurar alguma tinta pra poder tentar expressar a fúria que eu estava sentindo dentro de mim.
— Pois bem – continuou atrás de mim – Seus remédios não ficarão mais a disposição, eles serão 100% controlados pela equipe médica e farmacêutica – continuei procurando as tintas – Você tomará seu banho de sol junto com os outros, ou seja, sob supervisão da equipe.
Abri uma caixa e dentro tinham outros pincéis e nada das minhas tintas, bufei e taquei a caixa no chão, ouvi minha médica ofegar de surpresa e continuei procurando nas caixas seguintes.
— Hmm... suas tintas estão sob supervisão também.
Me virei, vendo tudo vermelho.
Eles não tinham o direito de tirar minha arte de mim.
Dei dois passos que me deixaram a menos de um palmo de distância da Dra. Swan.
Ela era bem baixa, precisava levantar seu rosto para me encarar. A encarei e recebi um olhar furioso.
Seus olhos eram muito bonitos, como eu devo ter dito e pensado milhares de vezes, mesmo agora, com tanta raiva estampados nele, ainda parecia como um rio do chocolate mais caro derretido olhando direto pra mim.
— As tintas que o senhor usa são tóxicas e precisam ser observadas de perto – ao terminar de falar molhou seus lábios e meu olhar caiu diretamente pra aquela boca tão linda que ela tinha, percebi que ela parou de respirar e ficou um tanto vesga enquanto olhava pra mim, mas retomou sua respiração em seguida retornou a dizer – Essas tintas podem causar alguns efeitos, então estamos investigando e, até lá, elas ficam sob minha supervisão.
Comecei novamente a tentar contar, mas eu não conseguia, tudo o que eu via era vermelho, vermelho sangue, vermelho carmim, vermelho ódio.
Vermelho tal qual os lábios da minha médica naquela tarde de terça-feira da entediante terapia de grupo.
— Sr. Cullen? – falou enquanto estralava os dedos na minha frente – Eu disse que suas tintas estão comigo, quando quiser só me sinalizar.
Assim que terminou de falar, estendi minha mão impacientemente que tirou um sorrisinho torto sacana da minha médica.
Ela deu alguns passos pra trás, sem parar de me olhar e pegou uma sacola que estava estrategicamente escondida. Engraçadinha.
— Aqui – me entregou – divirta-se.
Rapidamente abri e peguei algumas tintas, encontrando alguns tons de vermelho, joguei a sacola no chão e abri os tubos e coloquei um pouco de tinta na tela em branco, peguei um dos meus pincéis favoritos e comecei a pintar a tela, a preenchendo do mais profundo vermelho, tentando colocar na tela um pouco da minha raiva e de todo esse sentimento esquisito que eu sentia dentro de mim.
Eu sentia raiva pela minha médica ter sido uma bela de uma egoísta dias atrás, sentia raiva pela minha situação, por ser um homem que não consegue lidar com suas merdas sozinho, sentia raiva por não poder mais me expressar quando eu queria nesse inferno de lugar.
Entrei numa espécie de transe, que sempre entrava quando pintava alguma coisa, e poderiam ter passado dias que eu não saberia.
Mas eu era um belo de um dramático, provavelmente foram algumas horas, ou dependendo, minutos.
Ao terminar, ouvi alguém ofegar atrás de mim, ao me virar vi Dra. Swan sentada na minha cama, me encarando boquiaberta. Arqueei minha sobrancelha como quem dizia “o que foi?”.
— Você pintou isso em meia hora? – indagou incrédula.
Dei de ombros e olhei pra pintura, ela era em vermelho e alguns tons de amarelo ao fundo. Não sabia ao certo o que significava. Mas era o misto de sentimentos que eu estava sentindo naquele momento.
— Uau – falou enquanto se aproximava de mim e olhava para a tela com certa admiração – não estou entendendo nada, eu sou meio burra pra arte em geral. Mas parece que você apenas colocou sua raiva nessa tela... Transformou algo tão visceral em arte. Isso é muito bonito, Sr. Cullen.
Sorri timidamente enquanto olhava pra tela. De fato, eu era um bom pintor e sabia disso, e agradeço muito meu pai e minha madrasta por me incentivarem desde novo.
Me apresentaram inúmeras referências, das mais simples as mais complexas. Eu me apaixonei pelo movimento barroco, mas quando me foram apresentados o surrealismo e o impressionismo, eu me encontrei.
Eu era muito elogiado por conseguir misturar um pouco dos três movimentos nas minhas obras, havia ganho prêmios e mais prêmios (além do dinheiro). Eu era reconhecido internacionalmente.
Mas aqui, eu era um fodido, com mutismo seletivo* , encantado e morrendo de ódio da minha atual médica.
— Me desculpe, Sr. Cullen – Dra. Swan disse do nada – Pela minha conduta aquela noite. Eu me culpo todos os dias pela sua piora. Apenas me desculpe – como se quisesse reforçar, levou sua mão ao meu ombro, onde deu uma leve apertada e fez com que um arrepio se passasse pelo meu corpo e, em seguida, saiu do meu quarto.
Passei o restante daquele dia pintando diversas telas, onde o vermelho era predominante.
E eu mal conseguia entender o porquê.
*Mutismo Seletivo: Mutismo seletivo é uma fobia muito característica em crianças em período escolar, porém pode aparecer na vida adulta (o que é raro) e se dá por um trauma ou diversos outros fatores, tais como emocionais, ambientais e etc.
Alguns dias depois
Hoje era o dia que Dra. Weber voltaria.
Eu gostava dela.
Mas gostava mais da Dra. Swan.
Os dias após o episódio no meu quarto, minha médica apenas falava o necessário. Eu sentia falta da irreverencia dela, do jeito feliz demais de ser, das piadas sem graça com o meu mutismo, ou dela tentando decifrar minhas pinturas de maneira discreta, porém não tão discreta.
Meus pensamentos foram interrompidos por uma Dra. Weber sorridente – e bronzeada – entrando no meu quarto. Ela rapidamente deu uma olhada em volta e viu as pinturas e franziu sua testa e seu sorriso diminuiu consideravelmente.
— Bom dia, Edward! – falou intimamente – Vejo que as coisas foram produtivas por aqui – sorri de volta e ela sentou-se na minha cama, sem pedir licença – Precisamos conversar algumas coisas, quer dizer... você entendeu.
Dra. Swan era muito mais legal nas piadas.
— Soube do seu último episódio. Bella, quer dizer, Dra. Swan me atualizou do que aconteceu, mas saiba que era algo que esperávamos. Você é tipo uma bomba relógio, como já conversamos algumas vezes, se lembra? – assenti – Pelo o menos, não foi tão grave como imaginávamos. Acredito que Dra. Swan fez um bom trabalho – sorriu novamente, mas este não chegou aos seus olhos.
Franzi meu cenho, algo não estava certo.
— Apesar do que aconteceu, como conversamos antes da minha licença, o feriado de ação de graças está chegando, você poderá passar com a sua família ou ficar por aqui, a clínica dará um jantar especial para os que ficarem – ela abriu uma pasta e me entregou dois papéis – você pode pensar um pouco e decidir o que irá fazer e-
Antes que ela pudesse continuar, peguei a caneta do bolso do seu jaleco e assinei o papel no qual eu recusava sair no dia de ação de graças.
— Oook – falou enquanto pegava o papel – Vou avisar seus familiares. Quer que eu fale algo pra eles?
Assenti e abri minha gaveta do criado mudo e entreguei uma lista com algumas coisas que precisava, como telas, tintas e algumas outras coisas.
— Tudo bem. Falarei para Emmett – se levantou e andou até minhas telas onde ficou olhando, ao olhar para as dos olhos castanhos, virou-se para mim novamente segurando um risinho sacana – Esses olhos parecem os olhos da Bella.
Engoli seco.
Era tão perceptível assim?
— Vou fingir que não percebi isso. Só digo para terem cuidado. Tenha um bom dia, Edward – e saiu do quarto me deixando sozinho com meus pensamentos.
No começo da minha obsessão, eu não havia entendido o porquê eu pintava tantos olhos castanhos, até um dia me dar conta de que eram os olhos da minha médica. Era tão nítido e mesmo assim eu não havia me dado conta. Eu entrava num modo onde tudo ficava extremamente difícil de focar a não ser o que eu pintava incontrolavelmente.
“Só digo para terem cuidado”, pobre Dra. Weber.
Eu era um fodido, como conseguiria ao menos tentar algo com Dra. Swan?
Ela seria apenas uma excelente memória do inferno ao qual me condenei. Tal qual a Beatrice de Dante.
Ação de Graças
Chegou o dia de Ação de Graças, com ele uma alegria fora do comum ambientava a clínica, os médicos que estavam de plantão (inclusive Dra. Swan) estavam com uma cara melhor do que o normal.
Quando eu disse que me internaria, Esme ficou preocupada achando que o lugar seria como aquelas clínicas ou hospitais de filmes.
Aqui se assemelhava com uma grande casa, onde tínhamos uma rotina e cuidados médicos, não haviam pacientes tão graves. Eram pessoas como eu, fodidas da vida que precisavam de um tempo pra si.
Pela manhã chegou um pacote da minha família, com roupas novas para o jantar de ação de graças e uma carta de cada um.
Alice desejava que eu voltasse logo pra casa e me contou que estava grávida do seu primeiro filho, confesso que chorei ao ler, ela tentava ter um bebê há cerca de dois anos e não tinham sucesso. Disse que Jasper, seu marido, também desejava minha volta.
Emmett dizia em sua carta que me esperava ansiosamente, mas que eu poderia levar o tempo que eu quisesse para que pudesse voltar para minha vida. Disse que ninguém sabia que eu estava internado e que não tinha nenhum alarde sobre meu “sumiço”, tendo em vista que sempre fazia isso entre uma exposição e outra.
Meu pai e Esme estavam morrendo de saudades, apesar de Carlisle ser um durão e sempre acabar sendo o menos compassivo dos dois, eu sabia que ele se preocupava comigo e sentia muito minha falta. Nós éramos muito parecidos, e sei que ele sentia falta dos momentos que tínhamos como pai e filho.
Esms cuidou de mim como um filho desde o momento que cheguei a casa dos dois, nunca me diferenciou dos outros, e embora eu seja o filho mais velho de Carlisle, sempre me tratou muito bem, cuidado de mim e aguentando meus surtos como uma mãe faria.
Como minha mãe faria.
Terminei de ler as cartas e fiquei o dia todo na minha cama, pensando no quanto sentia falta da minha família. Eles eram os meus verdadeiros amigos. Sempre cuidando de mim nos melhores e nos piores momentos.
Fui tirado dos meus devaneios quando um enfermeiro veio avisar que deveríamos começar a nos arrumar para o jantar que seria servido as 19h no refeitório. Olhei no pequeno relógio e vi que eram 18h.
Tomei um banho rápido e me vesti com as roupas que minha mãe havia mandado. Era uma calça jeans escura, um par de sapato social preto, uma camisa branca e um suéter vermelho. Ao ver este revirei os olhos, o destino parecia o tempo inteiro me testar e me fazer lembrar da Dra. Swan.
Fui até o espelho que era embutido na parede (para impedir que alguém quebrasse e tentasse se ferir) e tentei arrumar meu cabelo sem sucesso algum, ele era uma bagunça eterna, tal qual minha vida.
As 19h00 saí do quarto e fui em direção ao refeitório, ao chegar fomos informados que deveríamos escolher um lugar na grande mesa que foi colocada e esperar as próximas orientações.
Me sentei ao lado de uma mulher loira, algumas vezes nos esbarramos seja na sala de artes ou no banho de sol. Sabia que se chamava Kate e que estava internada ali por conta do seu vício em opioides.
— Olha só! – disse assim que me sentei – O Grande Masen está sentado ao meu lado, que honra!
Segurei a respiração, ninguém ali, a não ser Dra. Weber e Dra. Swan sabiam que eu era um pintor conhecido. Kate deveria ser da alta sociedade – como qualquer outro aqui.
— Meu marido ama sua arte – sorriu enquanto tomava a sua taça de água com gás – compramos alguns quadros da sua última exposição. Você é ótimo.
Apenas sorri torto enquanto ela continuava a tagarelar sobre como eu era um excelente artista e outras milhares de bajulações que eu estou cansado de ouvir.
— É uma pena que nos conhecemos nessas circunstancias tão cruéis – disse teatralmente – mas o importante é que estamos aqui para cuidarmos da nossa saúde mental – Assenti levemente enquanto me serviam um pouco de suco de uva.
— Será que estamos fazendo algo errado? Dra. Swan está nos olhando com um olhar matador – franzi minha testa e ela discretamente apontou com seu queixo para onde a médica se encontrava.
E eu não estava preparado para a cena que vi.
Dra. Swan usava um vestido vermelho que ia até seus joelhos, ele era justo até a cintura e se abria levemente. Nos pés usava uma sapatilha preta. O vestido era de alças finas e com um decote discreto. Seus cabelos estavam soltos e caiam até o meio das suas costas em grandes ondas. Seu rosto estava com uma maquiagem leve, mas seus lábios... Seus lábios estavam com aquele batom vermelho que acabava com a minha sanidade.
Sorri torto ao ver como ela estava bela e isso parece ter feito com que ela saísse do seu estado de raiva, Dra. Swan balançou a cabeça levemente e sorriu torto levemente de volta.
Meus pensamentos foram interrompidos quando foi anunciado que o jantar seria servido.
Como se o destino continuasse tirando com a minha cara, Dra. Swan se sentou bem a minha frente. Por mais que a mesa estivesse totalmente arrumada e com um vaso bem a minha frente, eu ainda conseguia vê-la, e ficava sem ar cada vez que ela me olhava timidamente.
O jantar foi melhor do que eu esperava, todos comeram e conversaram por muito tempo, não tínhamos toque de recolher no dia de hoje e estávamos livres para perambular pela clínica o tanto que quiséssemos.
Nesse momento eu estava numa pequena roda com Kate e mais dois pacientes dali, eles conversavam sobre algum lugar paradisíaco que haviam visitado e que gostariam de ir novamente. Eu apenas ouvia enquanto bebericava meu suco (agora de laranja).
Até que em um determinado momento, Dra. Swan chegou na nossa roda e Kate começou a rasgar elogios de como ela era atenciosa e uma excelente médica. Todos ali concordaram e eu também acenei positivamente com a cabeça, o que fez que uma mecha do meu cabelo caísse em meus olhos.
— Licença, Sr. Cullen – a médica disse e passou a mão no meu cabelo, tirando dos meus olhos, ao terminar de fazer, corou violentamente e pediu licença.
Eu e Kate ficamos parados ali e os outros dois pacientes também saíram em seguida. Continuei bebendo meu suco de laranja tentando aplacar a secura que apareceu em minha garganta.
— Vocês são bonitinhos juntos, apesar dos pesares – Kate disse enquanto olhava para onde Dra. Swan tinha ido, arqueei minha sobrancelha – Não dê uma de desentendido, Masen. Você tá caidinho por ela e ela por você – piscou – garanto que o cara que tirou a foto ali pode provar – ao terminar de falar, andou até um funcionário que estava com uma câmera polaroid e pegou a foto me trazendo.
— Aqui, olha como vocês são fofos juntos – e me entregou a foto.
Ao olhar, vi que era a foto do exato momento em que ela arrumava meu cabelo e de fato éramos bonitos juntos. Parecíamos um casal com roupas combinando numa festa de família.
— Se eu fosse você, não perdia a oportunidade. Ela não é mais sua médica mesmo e você merece ser feliz, Masen – Kate falava num tom compreensivo – Aproveita que ela está indo embora agora e não perde a chance de ficar um pouco sozinho com ela – piscou e saiu do meu campo de visão.
Olhei rapidamente ao redor e vi que Dra. Swan estava se despedindo de algumas pessoas, ela então atravessou a sala e entrou em uma porta que eu sabia que dava pros fundos.
Andei furtivamente até a mesma porta e saí de fininho, haviam alguns pacientes ali, que não ligariam a minha falta. Olhei pra frente e a vi virando a direita, andei rapidamente e virei na mesma direção.
Vi que a médica pegou um casaco e abriu uma porta ao fundo com seu crachá, ao sair a porta foi fechando devagar, corri um pouco e consegui pegá-la ainda aberta, e então eu saí.
Estava frio, afinal era novembro, arrepiei um pouco ao sentir o vento leve em minha pele e olhei em volta procurando pela minha médica, até que a vi um pouco distante, acionando o alarme de um Maserati preto.
Andei rapidamente, mas falhei miseravelmente em ir em silêncio, pois pisei em um graveto que estalou consideravelmente alto, fazendo que a médica pulasse de susto e virasse na direção do som.
— Sr. Cullen? – falou assustada – O que está fazendo aqui?
Andei até ela e parei a sua frente.
O que eu estava fazendo lá?
Eu queria poder conseguir dizer algo, queria poder expressar todos esses sentimentos insanos dentro de mim, mas eu simplesmente não conseguia.
Fiquei olhando para a morena a minha frente, tentando passar com meu olhar tudo o que eu queria dizer, mas fomos interrompidos quando a porta dos fundos abriu novamente.
A médica abriu a porta de trás e praticamente me jogou dentro de seu carro, fechando a porta em seguida. A ouvi falar com alguém e em seguida entrou no lado do motorista e me olhou pelo retrovisor.
— Vamos esperar eles irem embora.
Ficamos alguns momentos em silêncio, até que Dra. Swan pegou sua bolsa e mexeu dentro dela, tirou um maço de cigarros e um isqueiro.
— Eu sei que não poderia fazer isso perto de um paciente, mas como eu já estou indo para o inferno mesmo... – e ao terminar de falar acendeu o mesmo.
Abriu um pouco a janela ao seu lado e soprou a fumaça para fora, eu a cutuquei e sinalizei pro maço, sem pestanejar ela me deu o maço e eu peguei um cigarro, acendendo em seguida.
Ficamos ali fumando até o cigarro acabar, ambos jogamos as bitucas do lado de fora e permanecemos em silêncio.
Quando percebi, fazia uma hora que estávamos ali em silêncio, as pessoas do estacionamento haviam ido embora e tinham poucos carros ali. Uma hora ou outra eu teria que voltar.
Mas eu não queria.
— Sabe, Sr. Cullen – começou a falar do nada – Eu nunca tive uma vida fácil, desde que nasci tudo foi muito difícil. Eu não sei porque achei que vir pra cá seria o melhor momento da minha vida – riu sem humor – eu estou no meu próprio inferno particular.
Ri silenciosamente, ambos estávamos no inferno, então.
Ela nunca poderia ser a minha Beatrice.
— Desde que eu cheguei aqui eu só tenho sido perseguida, cobrada, humilhada entre outras coisas. Eu não sou daqui, sou de um lugar no meio do nada chamado Forks no estado do Washington. Quando consegui a bolsa pra residência aqui, me disseram que seria difícil por conta da convivência, mas fiquei iludida com a ideia de conseguir estudar na Escócia. Eu sempre fui apaixonada por esse lugar, desde criança.
“Mas eu nunca imaginei que eu viveria o pior momento da minha vida fazendo o que eu amo. Eu sou perseguida aqui simplesmente por fazer meu trabalho. Nada está bom, tudo está errado. O seu episódio confirmou a teoria deles e rolou até uma reunião no qual eles estavam pensando em me demitir. Mas Angela me salvou dizendo que isso era algo previsível, que você em algum momento teria uma recaída. Eu devo muito a ela.
Eu queria que uma coisinha desse certo, sabe Sr. Cullen. Mas tudo sempre dá errado, eu perdi minha mãe pra depressão, minha melhor amiga caiu no mundo das drogas, o cara que eu tô afim é inalcançável... Minha vida é toda fodida”.
Engoli seco quando ela disse que era afim de alguém, e meu coração falhou uma batida.
— Segunda-feira vou pedir demissão. Prefiro passar fome do que ser humilhada aqui mas um dia – quando percebi, ela estava secando lágrimas dos seus olhos que eu não vi caírem – Não fui criada com tanto amor pelo meu pai pra passar por isso.
A possibilidade de nunca mais ver Dra. Swan me deixou extremamente desesperado, senti uma urgência dentro de mim que me consumiu por inteiro, aquela sensação e os sentimentos intensos que eu sentia pela médica tomaram conta do meu ser, me dando uma força que eu não imaginava ter.
Até que.
— Não vá, por favor— saíram, fracamente, as palavras da minha boca.
Dra. Swan se virou para trás, seria cômico se não fosse trágico.
— Você falou? – perguntou incrédula.
— Acho que sim? — falei fracamente.
Antes que pudesse falar mais alguma coisa, ela pediu um segundo e saiu do carro entrando novamente na clínica, um tempo depois voltou e entrou na parte de trás do carro comigo, em suas mãos tinham uma maçã e uma garrafinha de água.
— Toma, bebe a água e come a maçã, pra ajudar a hidratar.
Fiz o que ela pediu sem pensar duas vezes e assim que acabei ficamos nos encarando por um momento.
— Fala de novo – a morena me pediu.
— O quê?
— Qualquer coisa.
Olhei pro seu rosto e vi seus olhos me encarando, tão brilhantes e tão vivos como eu não via há dias, e novamente falei sem pensar.
— Seus olhos são lindos.
Ao me dar conta do que tinha falado, senti meu rosto enrubescer e o seu ficar da mesma forma.
— Obrigada – respondeu timidamente.
Ficamos novamente em silêncio, até que ela o quebrou.
— Eu só não saí ainda, porque quero ver a sua melhora. Quero ver você sair daqui bem – levantou sua mão e passou em meu rosto – Você é muito especial pra ficar tão doente assim, não sei se você se dá conta disso.
Inclinei meu rosto em sua mão e fechei meus olhos, seu toque era reconfortante, como foi desde a primeira vez que ela me acordou aqui neste inferno, como uma luz em meio a escuridão, clarificando meus sentimentos e minha memória.
— Tão bom – falei baixinho enquanto abria meus olhos.
— Você é bonito demais pro seu próprio bem – falou em seguida – por dentro e por fora.
— Como você sabe, Dra. Swan? Eu sou tão fodido por dentro – falei baixinho.
— Bella – me corrigiu – me chame de Bella, por favor. E não precisa de muito pra saber e ter certeza, suas pinturas revelam sua beleza, Sr. Cullen.
— Edward – a corrigi também.
— Edward – falou num sussurro enquanto sorria.
Senti uma felicidade imensa ao ouvir sua voz me chamando pelo meu primeiro nome, era como se eu tivesse sendo abraçado e acolhido.
Bella retribuiu meu sorriso com outro tão lindo e sincero que tudo o que eu queria era poder pintar aquele sorriso, me lembrava o sorriso do Gato de Alice no País das maravilhas, mas de uma maneira suave e acolhedora.
Quando dei por mim, tinha levado uma de minhas mãos até seu rosto e passava meu polegar em sua boca pintada de carmim, Bella fechou os olhos e senti sua respiração pesar um pouco.
Desci minha mão pelo seu pescoço, fazendo um carinho leve no mesmo e senti a mulher sob meu toque estremecer um pouco, prendi minha respiração e continuei o movimento até descer ao seu colo, onde já podia sentir o seu coração bater freneticamente sob minha palma.
— Seus batimentos cardíacos estão um pouco acelerados – falei repetindo a frase que ela me disse na primeira vez que nos vimos – Está tudo bem? – segurei um riso.
— Engraçadinho – falou enquanto corava.
Subi novamente minha mão até parar em sua nuca, então sem esperar mais um segundo me aproximei do seu rosto.
— Edward... – sussurrou.
Então colei meus lábios nos dela.
Ficamos algum tempo assim, eu não sei o que ela estava sentindo, mas eu sentia como se estivesse vivo novamente. Como se eu finalmente tivesse encontrado uma chama dentro de mim que me permitisse querer continuar mais um pouquinho.
Bella abriu os lábios e eu entendi como uma permissão para que eu aprofundasse o beijo, sem esperar minha língua adentrou sua boca e encontrou a sua. A explosão de sensações provavelmente não foi sentida apenas por mim, já que Bella intensificou o beijo no momento em que nossas línguas se encontraram.
Nos beijávamos loucamente, ela puxava meu cabelo enquanto eu apertava sua nuca com uma mão e sua cintura com a outra mão. Em determinado momento, subiu em meu colo aprofundando mais ainda o beijo, se assim era possível.
O beijo começou a tomar outro sentido, Bella rebolava lentamente em meu colo e meu membro estava pedindo por uma libertação de dentro das minhas roupas. Ela deve ter sentido, pois gemeu em meus lábios.
— Edward... por favor – sussurrou em meus lábios.
— Bella, não... Eu não quero isso aqui, você merece uma cama confortável, merece ser adorada – falei enquanto me afastava e olhava em seus olhos.
Ela suspirou fundo e saiu de cima do meu colo, mas deitou sua cabeça em meu ombro.
— Me desculpa, eu tenho pensado nisso por tanto tempo. E não, não vou falar sobre isso agora.
Ri de leve e ficamos ali por mais um tempo.
Porém eu precisava voltar para a clínica, era de madrugada e tanto eu como Bella poderíamos nos encrencar. Então discretamente saímos do carro e voltamos para clínica. Ao chegar no corredor quieto e escuro, andei rapidamente até meu quarto, abri a porta e puxei Bella para dentro.
— Edward, o qu-
Não deixei que terminasse a frase e a beijei, a pressionando levemente na porta atrás dela. Bella subiu suas mãos e passou seus braços em torno do meu pescoço me puxando mais pra perto de si.
Seus lábios eram mais deliciosos do que eu imaginava, eles já eram lindos de se ver, mas ao prova-los eu sabia que nunca mais encontraria nada igual em nenhuma outra boca.
Diminuímos o ritmo do beijo e Bella disse que precisava ir embora, tendo em vista que ela teria que voltar em cerca de 3 horas para a clínica. Relutantemente a deixei se desvencilhar de mim e ir embora.
Mas antes de sair ela disse algo que ficou matutando em minha mente pelos dias seguintes.
— Você não precisa quase perder as coisas para poder melhorar, você consegue fazer isso sem perder nada, nem ninguém, nem você mesmo.
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As semanas seguintes foram o contrário do que os outros 6 meses haviam sido.
Eu estava no céu.
No meio do inferno.
Bella e eu nos aproximamos significativamente.
Mas ninguém sabia.
Quase todas as noites ela ia até meu quarto e ficávamos conversando sobre nossa vida, nos conhecendo melhor. Pude conhece-la melhor e perceber o quão incrível ela era e o quão batalhadora também era.
Além disso, eu também comecei a frequentar a terapia de grupo, eu ainda não falava nada, mas percebi que não era tão ruim quanto achei que era.
Dra. Weber sentia-se feliz com meu progresso, e principalmente por eu ter voltado a falar, mas Bella se preocupava dizendo que tinha medo que eu tivesse criado algum tipo de dependência emocional com ela. Mas eu a garanti que não, eu nunca fui dependente emocionalmente de ninguém, eu sentia por ela algo que nunca senti por nenhuma mulher e isso bastava.
Então hoje era terça-feira, dia da terapia de grupo.
Entrei na sala (que estava um pouco vazia, pois estávamos próximos do natal e algumas pessoas estavam indo para as suas casas) e me sentei no lugar de sempre. Do outro lado estava Dra. Weber e Bella que estava extremamente concentrada em seu celular olhando alguma coisa.
Passado o tempo, Dra. Weber deu inicio ao grupo e perguntou se alguém gostaria de começar, ela sempre perguntava isso.
Todos ali ficaram quietos, hoje estávamos em 8, geralmente estávamos em um número bem maior e alguém sempre se dispunha a falar, mas hoje não era o caso.
Tinha se passado cerca de 10 minutos e ninguém havia falado nada, Dra. Weber pacientemente esperava com sua cara blasé, e Bella seguia a mesma linha, ambas eram muito boas em sustentar o silêncio.
E por falar nisso, pela primeira vez o silêncio estava me incomodando, eu sentia uma inquietação que perpassava meu corpo. Toda hora eu me remexia na cadeira, chamando a atenção de Dra. Weber por alguns instantes.
Até que quando dei por mim, soltei sem pensar.
— Minha mãe foi morta na minha frente.
Todos ali me olharam incrédulos, principalmente Dra. Weber, mas mesmo assim me incentivou.
— Ok, Sr. Cullen. Gostaria de continuar?
Assenti e mesmo com medo e sentindo minhas mãos suadas decidi continuar.
Era hora de falar e confessar para mim mesmo o que eu nunca, até hoje consegui encarar.
— Minha mãe foi morta na minha frente quando eu tinha 6 anos pelo me padrasto – engoli seco – E isso é algo que eu não consigo esquecer. Sempre volta a minha mente e me leva pra um lugar que eu não quero mais estar, mas eu sempre estou lá, seja inteiramente ou um pouquinho.
“Eu morava aqui na Escócia, cresci e fiquei até meus 6 anos aqui. Minha mãe trabalhava em um escritório que prestava alguns serviços para um hospital e foi lá que conheceu meu pai, Carlisle, que é médico. Eles tiveram um caso, coisa rápida que resultou na minha concepção, a única coisa é que minha mãe já era casada com... com... – respirei fundo, eu precisava falar o nome dele, precisava me libertar disso – James. Ele era um cara horrível, bebia muito e usava algumas coisas, ele batia na minha mãe, em mim... E piorou depois que descobriu que eu não era filho dele e sim de um caso que minha mãe teve em uma das viagens dele a trabalho”.
Respirei fundo e tomei um gole de água da garrafinha que havia trazido comigo.
— Até que um dia... – senti meu corpo começar a tremer – Ele jurou que quando voltasse de viagem mataria a nós dois. Então minha mãe mandou uma carta pro meu pai dizendo que tinha tido um filho dele, mas que estávamos bem. Passou minhas informações e disse que se algo acontecesse com ela, que contaria com a ajuda dele para me criar, mas que por hora estávamos bem e não precisávamos de nada.
“Ela fez isso propositalmente, para que Carlisle tivesse os dados e meu endereço caso algo acontecesse – outro gole de água – Até que chegou o fatídico dia.
Estávamos em casa e minha mãe passou o dia tensa, não consigo lembrar exatamente o que aconteceu naquele dia, eu só lembro do pior momento que foi quando ele chegou em casa e... e...”
— Tudo bem, Sr. Cullen, não precisa falar tudo hoje – Bella disse mantendo a pose profissional.
— Eu preciso, Dra. Swan – a olhei e meus olhos encheram de lágrimas – Se não for hoje não é nunca mais.
“Ele entrou gritando minha mãe e me chamando também, então nos escondemos embaixo da cama. Ele então foi subindo, os passos pesados, me lembro de sentir o coração bater nos meus ouvidos e eu sentia muito frio, mas muito frio mesmo. Então ele abriu a porta e me chamou ‘Cadê você, seu bastardinho?’ ele então se abaixou e encontrou eu e minha mãe escondidos ali embaixo. E... – respirei fundo novamente – puxou minha mãe pelos cabelos e... – comecei a chorar copiosamente – e a matou ali na minha frente, enforcada, com as próprias mãos...”
Todos ali estavam boquiabertos, com exceção da Dr. Weber que ainda sustentava a mesma face inexpressiva. Bella estava vermelha, como se segurasse o choro, além disso segurava com força sua prancheta.
— Eu só me lembro de começar a gritar e correr dentro de casa e consegui escapar por uma janela. Então corri até a casa da vizinha que me acolheu e chamou o restante da vizinhança para caçar meu padrasto que, aquela altura, já deveria ter fugido. Tudo o que eu sei depois disso é que ele foi preso e morreu anos depois na prisão.
— E como foi sua chegada nos Cullen? – Dra. Weber indagou.
— Eu fui muito bem recebido, meu pai cuidou de mim muito bem, como Esme também. Ela me acolheu e me criou como seu filho. Meus irmãos eram menores, mas também se acostumaram logo comigo.
— Então o que te prende nessa história? Pelo seu histórico, você sempre recebeu apoio psicológico ao longo dos anos... O que acontece com você, Sr. Cullen?
Não precisei pensar muito, a resposta sempre foi clara.
— Eu me sinto muito culpado por não ter salvado minha mãe – falei enquanto sentia novamente lágrimas.
— Sr. Cullen, você tinha 6 anos de idade – Dra. Weber falou olhando nos meus olhos – Você fez o que conseguia fazer.
Eu apenas assenti e voltei a chorar copiosamente, apoiei meu rosto nas minhas mãos e soluçava. O ar começou a me faltar, até que senti braços em volta de mim e a voz de Kate dizendo que tudo ia ficar bem.
A terapia de grupo foi encerrada naquele dia e voltamos para o quarto. Dra. Weber liberou alguns remédios para caso eu precisasse para me acalmar, mas disse que estava disponível se eu precisasse conversar sobre algo.
Passei o restante do meu dia no meu quarto, me sentindo mais leve e não tão pesado como das outras vezes.
Acho que no final das contas, dividir o fardo e falar sobre essas coisas na terapia de grupo não era tão balela como eu achava que era.
Na mesma noite, Bella veio ao meu quarto e ao entrar pulou em meus braços e começou a chorar. Me pediu desculpas por ter me forçado da outra vez a falar qualquer coisa, disse que se sentia horrível por aquilo.
E eu a agradeci, afinal, se não fosse aquilo, eu nunca teria tomado as decisões seguintes.
E eu não estaria aqui, pesando menos do eu pesava no começo do dia.
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Dois dias antes do natal
Bella estava de folga há alguns dias e ficaria até o ano novo sem vir para a clínica.
Estava difícil a saudade, ela me fazia muita falta. Sentia saudades dos seus beijos, das nossas conversas, do carinho que ela tinha por mim e todo o cuidado.
Mas eu aproveitei os dias que estava sozinho para reavaliar minha situação, e decidi que conseguiria voltar para casa e continuar meu tratamento com o meu antigo terapeuta.
Só tinha um problema:
Eu precisava ir embora agora no período do natal, pois em janeiro era o único mês que não podíamos ir embora quando quiséssemos, por alguma questão burocrática da clínica. Só em caso de morte de parentes e outras causas.
Então pedi que avisassem meu irmão e que ele viesse me buscar. E ele chegava hoje.
Eu havia conversado com Bella ontem pelo telefone, mas não tive coragem de dizer que estava indo embora. Eu pediria pra alguém entregar meus contatos para ela e torcer que ela não me odiasse tanto a ponto de nunca mais me procurar.
Porque eu não saberia viver sem ela.
Além disso, no dia anterior havia pintado uma tela enquanto ouvia o iPod (que era de Bella), ela havia deixado comigo, pois eu sentia muita falta de ouvir música, e uma das músicas havia chamado muito a minha atenção, dizia muito de como eu me sentia com o mundo e com ela.
A pintura havia ficado muito bonita, eu provavelmente conseguiria uns bons milhares de dólares, mas ela merecia ser entregue para a única pessoa que merecia.
Então, como uma maneira de amenizar a possível raiva de Bella, escrevi uma carta onde anexei meus contatos e a agradeci por todo o cuidado durante o tempo que estava aqui.
Emmett chegou no dia seguinte, deixei a tela embalada junto com a carta e o iPod e saí da clínica sem olhar pra trás.
Apenas para a frente e imaginando um novo e leve futuro.
E eu pedia aos céus que Bella estivesse nele.
POV Terceira Pessoa
Bella encontrava-se sentada no banco do jardim com a carta de Edward em suas mãos, sem acreditar que ele a havia deixado apenas com uma carta. Ela não havia lido, não tinha coragem, ela estava tão triste que sentia que poderia ficar ali sentada pra sempre se consumindo em sua tristeza.
Mas sua miséria foi interrompida por Angela.
— Soube que Edward foi embora?
A morena apenas assentiu.
Angela sentou-se ao lado da amiga e ao ver a carta em sua mão e o estado da mulher, deduziu tudo.
— Vocês estavam muito envolvidos?
Bella poderia mentir, seria fácil, mas estava estampado o quanto aquilo havia mexido com a mulher.
— Sim – falou fracamente.
A mulher abraçou Bella, e ela retribuiu, deixando algumas lágrimas escorrerem por seu rosto.
— Bella, saiba que isso foi muito importante pra ele. E ele só precisou ir embora por conta dessa regra ridícula do fim de ano – sorriu carinhosamente – Mas ele deve ter sentido muito por ter que fazer isso assim, se até deixou uma carta – e apontou com o queixo para a carta.
Ao terminar de falar, deu um beijo na testa da amiga e a deixou ali sozinha.
E sem esperar mais um minuto, Bella abriu a carta.
“Bella,
Primeiramente lhe peço desculpas,
Nós conversamos ontem a noite, mas eu fui um covarde em não dizer que eu iria embora no dia seguinte, você estava tão feliz e contando os dias para estar de volta que senti vergonha de dizer que eu não estaria aqui quando voltasse.
Novamente eu fui um fraco, me perdoe.
E segundamente, eu gostaria de te agradecer por tudo.
Por todo cuidado enquanto minha médica e enquanto minha... amante? Mulher? Amiga? Nenhuma dessas palavras parece chegar aos pés do que você significa pra mim. E quando digo significa, no presente, é porque você continua tendo esse significado tão grandioso.
Eu não gostaria de ter você como uma parte do céu no meio do meu inferno que vivi aí, eu não gostaria que você fosse apenas uma memória, eu quero muito você na minha vida e na minha história, principalmente agora que ela está tomando outros rumos.
Mas eu sei que posso te magoar agora, já que precisei ir embora antes de você voltar, mas saiba que se eu pudesse, ainda estaria aqui. Te esperando em meu quarto para que passássemos a noite conversando e trocando carinhos até o amanhecer.
Eu ainda quero tudo isso com você, se você ainda me quiser.
Abaixo segue meus contatos e do meu irmão, se eu não tiver uma resposta, eu entenderei.
Mas saiba, Bella, que você será a única mulher que tocou meu coração.
A única que eu amo.
Com amor e sempre seu,
Edward”.
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SEIS MESES DEPOIS
Nova York, terça-feira, 19h32
Edward estava terminando de se arrumar em sua casa para ir até sua nova exposição.
Ele havia decidido fazê-la com as pinturas que pintou durante seu período internado na Escócia, e no mesmo dia onde pode finalmente começar a se libertar do seu passado, além de reverter metade do que arrecadasse para a clínica.
Emmett havia ligado avisando que o motorista iria buscá-lo as 19h40 e que era para estar pronto e esperando na frente de sua casa. Então assim o fez.
Arrumou novamente seu cabelo, sem sucesso, e desistiu. Saiu do seu quarto apagando a luz e desceu as escadas indo até a porta da frente. Antes de abri-la, Edward ouviu o motorista buzinar do lado de fora.
Pegou seu casaco e sua carteira, apagou a luz do hall, abrindo a porta em seguida e saiu da sua casa, fechou a porta atrás de si e virou-se para andar em direção ao carro. Mas parou no meio do caminho ao ver quem estava encostado no capô do Maserati Preto.
Bella Swan, a mulher que viveu nos seus sonhos pelos últimos seis meses.
— Vai ficar parado aí? – falou com uma voz divertida, porém trêmula – Boatos que alguém tem uma exposição hoje.
Ainda sem acreditar, Edward permaneceu parado.
— Edward? – Bella perguntou – Tudo bem?
Ele apenas assentiu e começou a andar em direção a morena, que vestia a mesma roupa da noite em que se beijaram pela primeira vez.
Bella encurtou o espaço, parando a sua frente com o olhar culpado e preocupado.
— Ei – falou.
— Como? – Edward disse baixinho.
— Emmett e Alice, inclusive, estou surpresa que ela não te contou nada – sorriu timidamente – Ela estava bem animada.
Edward subiu sua mão até o rosto de sua amada e fez um carinho, arrancando um suspiro.
— Me desculpe, Edward – falou – Eu não deveria ter ficado sem contato por meses.
— Shh Bella, eu entendo. Eu também ficaria bravo se você fizesse isso.
— Eu não fiquei brava – olhou profundamente para o homem – mas podemos conversar sobre isso depois, você tem uma exposição e eu estou louca para ver o que você produziu na clínica e depois dela.
Ele assentiu timidamente e pegou na mão da mulher, arrancando um sorriso dela.
— Eu preciso te confessar uma coisa – Bella disse baixinho.
— Sim?
Sentiu seu rosto enrubescer e mordeu seus lábios pintados de carmim.
— Eu senti muito sua falta, e eu te amo muito.
Edward sorriu torto, tal qual ela, e depois abriu um sorriso imenso.
— Eu também preciso fazer uma confissão, mas será a última.
Bella assentiu nervosamente.
— Eu também senti muito sua falta, e sou eu que te amo e te amo muito mais.
A morena sorriu largamente.
— Eu duvido.
— Tudo bem, temos uma vida toda pra eu te provar o contrário – Edward arqueou sua sobrancelha.
— A vida toda?
Edward abaixou-se ficando com seu rosto na altura do da morena.
— Toda a eternidade.
E então beijaram-se, deixando todo o passado pesado para trás, e visando um futuro leve, sem traumas onde um poderia contar com o outro.
Para sempre.
FIM
Notas finais
O plot apareceu desse jeitinho, sei que a história foi um pouco pesada (estava mais, tirei algumas coisas rs), mas eu tentei fazer dentro daquilo que as vozes da minha cabeça foram criando.
Desculpa qualquer errinho, eu revisei correndo por conta do horário, vou revisar com mais calma amanhã.
Também gostaria de agradecer a minha beta Lara (arroba)samerudegirl que comprou essa ideia e foi comigo até o fim. Muito obrigada amiga.
E sobre a POSO, nos vemos no ano que vem!
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