My I

1 Quando eu te encontrar - Capítulo Único


Notas iniciais
Apenas um projeto que me deu na telha. Quem quiser acompanhar a história com a música ou saber mais sobre a mesma, vou deixar o link para o vídeo aqui.
https://www.youtube.com/watch?v=8ZA8PW48QTk

Boa leitura ♥

Ainda se tratava de meados de outono, contudo, aquele era o dia mais frio de toda a sua breve vida — breve, pois sabia que existiam coisas mundo afora muito mais antigas e experientes que suas sequer completadas duas décadas de vivência. Era início de tarde e a brisa soprava fresca em seus longos cabelos escuros, fazendo com que ela se perguntasse o que as pessoas estariam fazendo lá embaixo, mais especificamente dezessete andares abaixo dos seus pés. Aquele costumava ser o horário ideal para os adeptos de almoços quase matutinos; se sua querida avó ainda estivesse viva, provavelmente estaria cozinhando algum caldo extremamente saboroso naquele momento.

De repente, sentiu saudades daquela época.

Certa vez, ouviu de um professor que o tempo é como um rio que corre por debaixo de uma ponte: não importa o que tente perturbá-lo, suas águas correrão sempre para frente e jamais retornarão por aquele caminho. A ponte nunca vê a mesma água duas vezes. Naquela época acreditou se tratar de uma frase um tanto clichê, daquelas ditas especificamente pelos mais velhos, mas já não pensava mais assim. Havia, até mesmo, tentado mudar o curso do seu próprio rio, mas de nada adiantara.

Respirou fundo e deu o primeiro passo. Esticando um pouco o pescoço, já conseguia ver a movimentação na avenida lá embaixo, uma das mais famosas e frequentadas daquele bairro. Esticou os braços e, desta vez, sentiu a brisa gelada percorrer todo o seu corpo.

Estava tão cansada.

Havia passado toda a sua vida procurando por algo, porém jamais chegou a descobrir o que. Aquele sentimento agonizante do vazio, de não conseguir encontrar em lugar algum a parte que faltava em si, tinha finalmente tomado conta de sua sanidade. Ela via a névoa obscura e sabia que o que tanto buscava estava exatamente lá dentro, mas não conseguia mais perseguir o desconhecido em meio a tanta escuridão.

Outro passo. Sentia espinhos cravados em seus pés, mas muito em breve poderia livrar-se deles. Não precisava mais esticar o pescoço, pois agora conseguia ver com nitidez as pessoas que caminhavam pela calçada lá embaixo. Cada uma com sua própria vida e preocupações, nenhuma delas capaz de olhar para cima por um milésimo de segundo e encontrá-la de pé sobre o parapeito. Este, por sua vez, era um tanto largo, o que lhe custaria mais um passo para deixar-se engolir pela escuridão daquela névoa.

Respirou fundo outra vez, prestes a mover sua perna direita pela última vez. Sentia seu coração bater rapidamente, contudo, não estava nervosa.

Sentia-se eufórica.

— Não faça isso.

A voz atrás de si a fez paralisar. Queria tanto fazer aquilo sozinha que poderia jurar que realmente estava, mas a voz feminina lhe dizia o contrário.

— Vá embora! — exclamou de volta, sem se mover.

— Não posso. —a voz respondeu, parecendo mais calma do que a própria jovem sobre o parapeito. — Não até que você desça daí.

Estranhando o modo como a mulher se dirigia a ela, a jovem moça deu-se por vencida e virou-se lentamente para trás, sem realmente se importar com o fato de que apenas um pequeno passo a separava da calçada fria e movimentada lá embaixo —daquilo que acreditava ser o que lhe restava.

Quando finalmente pousou seus olhos na desconhecida, sentiu como se a mulher fosse qualquer outra coisa no mundo, de menos uma estranha. Seu coração, antes acelerado devido à sua futura queda de dezessete andares, agora batia descompassado diante de um sentimento que a preenchia por inteiro, ainda que não soubesse exatamente qual era. A mulher vestia somente peças pretas, sua calça, blusa de gola alta e também os sapatos, sendo o sobretudo cinza a única exceção. Seus cabelos eram curtos e uma fina franja bem aparada cobria sua testa, dando-lhe um ar um tanto sofisticado.

Contudo, o que mais chamou a atenção da jovem sobre o parapeito havia sido os olhos da mulher: verdes exatamente como os seus, porém cheios de compreensão.

— Nós nos conhecemos? — a jovem indagou, surpresa diante daquele sentimento avassalador que havia tomado conta de si.

Algo em seu interior gritava que sim. Era como se ela conhecesse aquela mulher há mais décadas do que as que já tinha vivido, porém também não a via há muitos anos.

— Você ainda não me conhece, apesar de nós já termos estado aqui antes. —a mulher respondeu, serena. —Mas eu conheço você. Sei sobre os seus medos, suas preocupações e angústias. E sei também que você não quer realmente fazer isso.

De repente, a ideia daquela mulher poder saber tanto sobre ela a incomodou. Era como se estivesse ali completamente nua e exposta, enquanto a outra estava coberta por um manto de segredos e mistérios.

Era como se conhecessem uma a outra, porém sem que a jovem soubesse nada sobre a que estava diante de si.

— Isso não é possível. —a jovem afirmou. — Não tem como você saber tanto sobre mim.

Ao contrário do que a jovem esperava, a mulher sorriu. Um pequeno sorriso que não exibia seus dentes, porém deixava claro o modo como se sentia. Por um breve momento, ela desviou os olhos.

— É, eu costumava pensar assim. — disse, levemente pensativa. Voltou a fitar a jovem. — Mas hoje eu a conheço muito bem, melhor até do que você jamais se conheceu.

Receosa, a jovem teve de controlar o impulso de dar um passo para trás; se o fizesse, seria o fim. Estava extremamente confusa naquele momento, disposta a confiar cegamente na estranha, ao mesmo tempo que tinha medo do que ela representava.

Ela poderia estar certa.

Por fim, a moça não aguentou mais segurar a dúvida que havia surgido em sua mente no exato mesmo instante que pusera os olhos na outra.

— Quem é você?

A mulher a fitou, agora um pouco mais séria. Havia tantas respostas possíveis para aquela pergunta, porém nenhuma delas era viável naquele momento.

Não naquele tempo.

Respirou fundo, exatamente como a jovem fazia há poucos instantes.

— Eu sou aquela que aprendeu a finalmente abrir as próprias asas. — respondeu, com cautela. — E se não mais mentir para si mesma, você também aprenderá. Não precisa viver com esse vazio lhe sufocando.

De repente, sem quaisquer explicações, a jovem sentiu suas bochechas serem molhadas por gotas mornas e salgadas — suas próprias lágrimas.

Estava chorando.

— Eu não consigo. — disse, com a voz embargada. Sentia todo aquele misto de sensações e sentimentos embolarem em sua garganta, implorando para serem colocados para fora. — Eu fecho os olhos e não consigo respirar.

Ainda tranquila, a mulher deu um par de passos para frente, aproximando-se um pouco mais do parapeito onde a jovem estava.

— Mas vai conseguir. —declarou, compreensiva. — Um dia, nós vamos nos encontrar novamente. O tempo vai ter passado para nós duas, mas você vai saber. E, quando esse dia chegar, você vai encontrar o que tanto procura.

Aquela mulher. Só poderia ser ela.

Ela mesma.

Estendeu a mão para a jovem, consistente. Não tremia e nem parecia abalada, como se já soubesse o que aconteceria a partir daquele momento.

— Desça.

Apesar da palavra não soar como uma ordem direta, também não parecia um pedido; era apenas uma afirmação. A jovem relutou durante alguns segundos, contudo, com as vistas embaçadas pelas lágrimas, ergueu sua mão trêmula para alcançar a da mulher.

Estava disposta a aceitar aquele pequeno pedaço de salvação.

A mulher a ajudou a descer do parapeito e a se sentar sobre o apoio de cimento mais próximo. Perplexa com tudo o que havia acabado de acontecer, a jovem ergueu a cabeça para poder fitar aquela que havia lhe ajudado; contudo, a mulher já não estava mais lá.

Como ela poderia ter sumido bem diante dos seus olhos?

A jovem não sabia dizer, mas também não havia a necessidade de fazê-lo. Tornando a sentir a brisa do outono em seus cabelos, ela repentinamente quis mudar algo em si.

Talvez cortá-los fosse uma boa ideia.

— Obrigada. — disse, esperando que o vento pudesse levar seu agradecimento até a mulher que havia lhe salvado.

Se eu te encontrar quando o tempo passar
Eu saberei
Você era o meu futuro
Eu saberei
Eu era o seu ontem”

Notas finais
Espero que tenham gostado!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!