Barry's POV
Me levantei da cama em um susto. Olhei ao redor tentando reconhecer onde estava, e ao ver o aquário e brinquedos me dei conta de ser meu quarto quando criança. Franzi a sobrancelha tentando entender o porque de estar aqui. Me lembro de sentir minha pele queimando enquanto tudo ficava branco.
Desci as escadas em passos silenciosos. Um sorriso apareceu no meu rosto ao ver como tudo estava da forma que me lembrava. Ouvi um barulho e sui até a sala, encontrando fitas amarelas na porta e Joe encarando sua caderneta.
— Joe?
— Bom te ver, Barry. Mas não sou o Joe. — Ele disse sorrindo.
— Não? — Ele negou, atravessando as fitas, parando na minha frente.
— Como se sente estar aqui?
— Me sinto péssimo. — Senti uma dor no meu pai ao me lembrar da minha mãe.
— Nós pensamos que seria melhor você conversar com alguém familiar em um lugar que conhece.
— "Nós"?
— É um pouco difícil de explicar. Sente-se. — Ele apontou para a mesa e se sentou na poltrona. O obedeci encarando o meu redor. — O quanto você sabe sobre a força de aceleração?
— A fonte do meu poder. O que me torna um velocista.
— Sim. E não. Quando a primeira partícula subatômica saiu do Big Bang para criar a realidade que você conhece agora, nós estávamos lá. Quando o ultimo próton cair, parar de vibrar e mergulhar o mundo na morte térmica, também estaremos lá.
— Estou conversando com a força de aceleração? — Ele assentiu. — Não é igual ter uma conversa com a luz, ou gravidade, ou... — Ele sorriu me deixando ainda mais surpreso. Me levantei tentando respirar.
— Precisa de um tempo? Tudo bem, é muito para digerir.
— Estou conversando com a fonte do meu poder, que por algum acaso, tem a mesma aparência que meu pai adotivo? Isso é loucura.
— Nós praticamente inventamos a loucura aqui.
— Não sei porquê me trouxe, mas precisa me mandar de volta, meu amigos estão em perigo com o Zoom-. — Parei ao ouvir um som estranho do lado de fora, e ver uma sombra corre pela janela. — Você viu isso?
— Você não vai voltar. — Joe disse com um sorriso no rosto. — Não antes de... — Ele se levantou, parando do meu lado. — De pegar aquilo. — Sem pensar, corri para fora, atras da sombra.
***
Parei ofegante no parque de Central City. Já não conseguia mais ver a sombra. Olhei ao redor e um sorriso apareceu no meu rosto ao ver a ruiva outra vez.
— Sophie! — Corri até ela, que sorriu colocando suas mãos nos bolsos da jaqueta vermelha.
— Estamos felizes que conseguiu.
— Não é a Sophie.
— Sente-se, Barry, sente-se. Você sempre está de pé. — Ela disse apontando para o banco, e se sentando no mesmo. Obedeci. — Se lembra deste lugar? — Ela encarou o parquinho na nossa frente. — Cheio de lembranças das nossas brincadeiras.
— Mas não era você.
— Pensamos que seria melhor ver lugares que conhece e pessoas que gosta, mas você parece perturbado.
— Minha cidade, meus amigos... Minha Sophie está perigo. Zoom está criando caos com o poder que roubou de mim e vocês estão me mantendo aqui.
— Você recebeu um dom raro e precioso. E você o rejeitou.
— Não rejeitei! Eu desisti deles para te salvar... Salvar Sophie.
— E funcionou? Ainda estou nas mãos do Zoom. — Suspirei abaixando minha cabeça. — Desistiu por nada.
— Eu quase me matei para conseguir eles de volta! E então vocês me trouxeram aqui, seja lá que aqui for.
— Não era o que queríamos.
— Se queriam dar os poderes para outra pessoa, então por que deram para mim?
— Porque você é Flash, Barry.
— Não estou entendo. Se eu sou o Flash, então por que estão fazendo isso? Por que tenho que pegar essa coisa antes de me deixarem voltar? Por favor, faço o que você quiser. Só deixe eu voltar agora para ajudar meus amigos.
— Barry! — Ouvi a voz de Cisco e então um tipo de tornado apareceu na minha frente.
— O que é isso? — Me levantei, encarando aquela coisa.
— Seus amigos. Querem que você volte. — Ela se levantou, parando do meu lado.
— Eu posso?
— Claro. Mas se for, será sem seus poderes. — Encarei o tornado, e então a sombra correu atras de mim. Me virei e encarei aquela coisa. Não posso voltar agora.
— Eu confio em você, Barry. — Ela disse e sorri.
— Esta frase é minha fraqueza.
— Não. — Ela sorriu, me encarando com seus olhos azuis. — Esta frase é a fonte da sua coragem.
— Obrigado. — O tornado desapareceu, e então corri atrás da sombra.
***
Parei ofegante outra vez, perdendo ela de vista. Olhei ao redor encarando os túmulos. Vi um homem de costas e me aproximei.
— Quem está fingindo ser agora? — Ele se virou, mostrando o rosto do meu pai. — Não tenho tempo para isso.
— Sim, você tem, Barry. Você tem todo o tempo do universo, literalmente.
— Não, não tenho. E como você pode me julgar de rejeitar meus poderes? Você tem ideia de tudo o que passei desde que fui atingido, quantas pessoas ajudei com o poder que me deu, o que eu sacrifiquei?
— Claro que sabemos. Você salvou muitas vidas, e agora, você é a unica coisa entre o mundo e o mal inominável. — Ele andou, e o segui. — E mesmo assim, nunca veio aqui. — Ele parou na frente de uma das lápides. A encarei sentindo aquele aperto no coração. Me abaixei colocando a mão na minha boca, tentando segurar minhas lágrimas.
"Amada esposa e mãe"
"Nora Allen"
— Por que me trouxe aqui?
— A morte de sua mãe mexeu com você, Barry. Fez quem você é hoje. Mas você aceitou perdê-la? Talvez seja por isso que não podia vir aqui, porque isso faria ser real.
— Eu sei que é real. Sei disso todos os dias. Tive a chance de salvá-la. Viu o que eu escolhi.
— E está em paz com essa decisão?
— Em paz? Como alguém poderia ficar em paz deixando sua mãe morrer... Decidindo que sua vida é mais valiosa que a vida dela? — Comecei a chorar, e então ele andou até o meu lado, se agachando também.
— Acha que sua mãe gostaria que morresse por ela? E as pessoas que o Flash salvou como resultado dessa decisão. E eles? A vida deles tem valor? — Olhei para cima vendo a sombra outra vez. Me levantei enxugando minhas lágrimas.
— Não tenho tempo para ouvir isso agora. Preciso voltar para casa.
***
A sombra voltar para minha casa, outra vez. Entrei tentando recuperar meu fôlego, imaginando quem eu veria agora. Me surpreendi ao ver ela sentada na mesa de jantar.
— Mãe?
— Oi Barry.
— Você não é minha mãe. Por que está fazendo isso comigo?
— Não estamos fazendo nada com você. Você está tão cansado. Sente, Barry, sente. — Ela disse apontando para a cadeira na sua frente. A obedeci, abaixando a cabeça, não conseguindo encará-la.
— Você estava certa, eu não aceitei. Nem por um segundo, e acho que nunca irei aceitar.
— Meu lindo garoto. — Ela segurou minha mão, me fazendo olhar para o seu rosto. — Você tem que achar um jeito.
— Como?
— Eu não sei. Mas sei disso. O que você se tornou é maravilhoso. Um milagre. Mas não evita que coisas ruins aconteça com você. Nem o Flash pode fugir das tragédias que o universo manda. Precisa aceitar isso. E aí poderá correr livre.
— Eu sei. — Comecei a chorar outra vez, concordando. — Só sinto falta dela. Eu sinto tanto a sua falta. — Ela se agachou na minha frente, segurando minhas duas mãos.
— E se eu dissesse que ela tem orgulho de você. Do homem que se tornou.
— Quem está dizendo isso? A força de aceleração ou minha mãe.
— Ambos. — Ela colocou a mão no meu rosto, enxugando minhas lágrimas. Eu sorri abaixando minha cabeça, deixando ela beijar minha testa e me abraçar.
***
— Lembra desse livro? Era seu favorito. — Ela me mostrou um dos livros infantis que amava. — "Havia um dinossauro chamado Maiassauro, que morava com a mãe. Um dia ele disse à mãe que queria ser especial como os outros dinossauros. Se eu fosse um dinossauro, podia destruir com meus dentes!"
— "Mas se fosse um tiranossauro, disse a mãe, como você me abraçaria com seus pequenos braços?" — Ela sorriu. — "Eu queria ser um Apatossauro, disse o pequeno dinossauro, para poder ver acima das copas das árvores com meu longo pescoço. Mas se fosse um Apatossauro, disse a mãe, como poderia, lá de cima, ouvir eu dizer que eu te amo? O que lhe faz especial, pequeno Maiassauro, disse a mãe, não são os dentes ferozes, o pescoço longo ou o bico pontudo. O que te faz tão especial, é que de todos os dinossauros desse mundo grande, você tem a mãe perfeita para você. E que sempre irá...
— "Amá-lo"
— "Amá-lo"
Dissemos juntos, e ela sorriu.
— Você está pronto. — Assenti e me levantei, estendendo minha mão e segurando a sombra. Fechei meus olhos, e assim que o abri me vi na sombra. Vi o Flash. Ele sorriu, e então em um piscar de olhos me tornei ele. Me despedi da minha mãe, agradecendo a força de velocidade por tudo o que me fez passar. Me senti confiante outra vez, pronto para enfrentar qualquer um. O tornado apareceu outra vez, e fui até ele. Encarei minha mãe outra vez que me olhava orgulhosa. — Corra, Barry, corra. — Me virei estendendo minha mão, e andando na direção dele. Vi Iris que sorria tentando me segurar. Assim que tocamos nossas mãos, dei um pulo ao ver Joe na minha frente.
— Barry! — Olhei ao redor vendo todos outra vez. Sorri. Abracei meu pai que me encarava assustado. Assim que sai de seus braços Iris pulou nos meus. Ela me checou para ver se eu estava bem abrindo um sorriso enorme no seu rosto.
— Estou tão feliz que tenha volta. — Cisco disse com um sorriso. — Por que estávamos prestes a morrer.
— O que?
— Então, o Viga voltou a vida e agora ele só reconhece a Iris por ser sua ex, então atraímos ele até a oficina para desmagnetiza-lo. Mas a máquina pifou, e agora esta vindo nos esmagar até virarmos molho e provavelmente comer nossos cérebros, por ser um zumbi. — Caitlin revirou os olhos.
— Já entendi — Disse antes que Harry o impedisse de falar mais. — Vou atrair ele até a sua oficina, e damos um jeito de ligar máquina, certo?
— Plano H.
— Plano H.
Cisco e Harry disse juntos. Tony quebrou a porta e pude ver que ele só tinha olhos para a Iris. A segurei pela cintura e corri até a porta, atras dele.
— Ei, Tony. — Ela gritou chamando sua atenção. Fui pelo caminho longo para dar tempo de consertar a máquina. Entrei na oficina, soltando Iris e andando até eles.
— Espero que tenham conseguindo, porque ele está vindo.
— Não esta pronto.
— Precisamos de um cabo maior bem mais longo! — Cisco gritou, e concordei.
— Certo, vou ver o que posso fazer. — Tony entrou pela porta, vindo na minha direção, tentando me aceitar. Ele estava bem mais lento que antes, então conseguia desviar sem dificuldade. Ele viu Iris, andou na sua direção. Bati nas suas costas, mas ele se virou e me acertou, jogando meu corpo contra a parede, senti uma dor insuportável nas costas. Me levantei antes dele chegar em mim. — Olha, Tony, você nunca foi minha pessoa favorita. Mas vamos acabar logo com isso, para que possa finalmente descansar. — Comecei a correr em volta dele, carregando os ímãs, esperando que funcionassem. Os imãs o desmagnetizou, e ele caiu no chão. — Me desculpem, eu me perdi. — Iris segurou meu braço com um sorriso.
— Tudo bem, te encontramos.
***
Fui até a enfermaria, vendo Jesse em um coma. Me lembrei de quando fiquei, torcendo para que ela acordasse. Toquei sua mão e senti um leve choque. Ela abriu os olhos confusa, e sorriu ao me ver.
— Oi. — Sua voz estava rouca e a recebi com um sorriso.
— Bem vinda de volta. — Harry correu até ela, a abraçando.
— Como fez isso? — Caitlin perguntou.
— É mágico agora? — Cisco disse brincando.
— Sabia que isso iria acontecer? — Iris perguntou, no qual neguei.
— Eu não sei.
— É a força de aceleração. — Harry disse sorrindo.
***
Depois de vários testes e exames da Caitlin e do meu pai, estava livre para sair. Precisava ver um lugar que não visitava a anos. Iris veio comigo, segurando o guarda-chuva para nós dois. Coloquei um buque de flores, e o livro.
— Você conhece este livro?
— Sim, não gosto muito dele. — Iris respondeu, no qual me levantei.
— Por que?
— Conta sobre uma mãe que sempre esteve presente. Essa não era a minha mãe, ou a sua. Não tínhamos alguém sempre ali para nos.
— Não tínhamos? — Disse colocando as mãos nos meus bolso. — Estou vendo as coisas de forma diferente agora. —Ela sorriu e então andamos de volta para o seu carro. —Iris, sobre o que me disse antes... Sobre o que sentia. — Ela me encarou, no qual tentei procurar as palavras certas. — Se tivesse me dito a alguns anos, eu seria o homem mais feliz do mundo, mas agora... — Parei, ficando cara a cara com ela. — Não sei o que tem entre a gente, sobre o futuro. Não sei o que vai acontecer, mas Sophie...
— Entendi. E não importa o tempo, Barry, sempre estarei aqui por você.
Sophie's POV
Encarei o chão, sentada na cadeira. Não conseguia pensar em nada além de Barry. Ele morreu. Encarei a comida que Hunter me trouxe de manhã, mas já estava fria e não tinha vontade de comer.
— Você não come a dias, Soph.
— Não chame assim.
— Sophie. — Ele corrigiu, andando até mim. — Você esta se machucando dessa forma. — Ele se abaixou, segurando minha mão. Retirei com força, tentando não olhar para o seu rosto. Ele suspirou e se agachou na minha frente. — Não possa continuar fazendo isso com você. Não posso ver você morrer lentamente. Barry morreu, mas não precisa ir junto dele.
— Eu perdi tudo o que tinha. Não me importo se morrer.
— Ainda tem a mim.
— Você? Eu te perdi no momento em que descobri que tudo foi uma mentira.
— Não era, Soph.
— Para.
— Sophie. Me desculpe. — Engoli seco, estava com tanta sede, mas não conseguia por nada na boca. — Preciso saber. Você está do meu lado ou não? — Ele colocou o dedo na minha boca, impedindo que respondesse. — Não responda agora. Vou passar um tempo conversando com meus novos amigos, e quando voltar, vou querer a resposta. Se ainda estiver aqui, saberei que está comigo. Mas se não, saberei que escolheu seus amigos. E quando nos encontrarmos novamente, vou mostrar a mesma misericórdia que mostrarei ao seus amigos... Com você. — Ele tocou meus cabelos e encarou o colar no meu pescoço. — Eu realmente desejo que você esteja aqui. — Ele disse pegando sua máscara e desaparecendo. Abaixei minha cabeça sabendo que não tinha mais o Barry, que não tinha mais ninguém. Uma parte de mim me dizia para ficar, mas a outra que deveria ir. Encarei a porta por instantes, estava tão fraca para me mover, para pensar. Sinto muito.
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