My Heart in Your Hands
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Dégel olhava abismado para o violino estraçalhado aos seus pés. Embora seus olhos estivessem cheios de lágrimas, não derramara nenhuma. Era muito difícil para um menino de oito anos não chorar, mas a raiva simplesmente não o deixava fazê-lo. Apenas encarou com ódio o menino à sua frente, que vacilou. Desde que o Francesinho se mudara para Long Island (para a casa em frente à de Kardia, mais especificamente), mal tinham tempo para brincar juntos. Aos oito anos, Kardia era deveras impulsivo e irascível. Ao perceber que a causa de ser relegado a segundo plano era a porcaria do violino, nada lhe pareceu mais simples que quebrá-lo, ora!
– Eu quero que você morra. – a voz do aquariano, saiu assustadoramente fria para uma criança.
– Hah! Até parece! Ninguém liga para você ou para esse violino idiota! – o pequeno escorpiano saiu correndo porta afora, mas foi detido por Dégel, que, correndo atrás dele, jogou-se por cima do primo, começando uma briga. Socos e chutes foram trocados até que Kardia simplesmente parou, desmaiando. Ele estava pálido, e quieto, muito quieto.
– TIA! TIA CORINA! TIA,VEM LOGO! O KARDIA ESTÁ MORRENDO! – Enquanto sacudia o menino, Dégel pedia fervorosamente que retirassem seu desejo.Deus, por favor, era mentira... por favor, eu não quero que ele morra!!
10 Anos Depois
– Ei, Coração Gelado! – Kardia invadiu o quarto do aquariano, jogando-se na cama. Dégel, sentado com o notebook no colo, suspirou, se ajeitando ao lado do amigo. – o que é, Laurinha? Já não falei pra você não entrar sem bater?
– Laurinha é a... – foi calado por um travesseiro que voou no seu rosto, acompanhado da risada de Dégel. – Para de rir, veado!
Os cabelos do Francês caíam pelos ombros, soltando-se do rabo de cavalo mal feito. Ele simplesmente os soltou, prendendo novamente num coque firme. Apoiando o notebook no criado mudo, deitou-se ao lado do primo.
– Então, Ursinho Carinhoso, o que traz você aqui tão cedo?
– Vai à puta que te pariu, Dégel! – as raras gargalhadas do aquariano ecoavam pelo quarto.Esse filho da puta tem um senso de humor muito distorcido, cara. Não é possível que ele só consiga se divertir se for da minha cara, pensava o escorpiano, balançando a cabeça.
– Ué, se você não queria ser a Laurinha, queria que eu te chamasse de quê? Homer Simpson?
– Ainda tinha o Malvado, né? Mas, enfim... vim saber se você já mandou suas aplicações. E aí, Berklee, Juilliard¹...?
– Harvard, Yale, Darthmouth, Princeton, Stanford.
– Wow! Só a Ivy League²! Mas, cara, e Harvard lá tem curso de música? E, porra, já não basta ir pra faculdade, tem que ser longe? Eu já vou ficar na merda quando você for um músico famoso, tem que ir pra tão longe já de agora?
– E quem disse que eu vou ser músico? Não vou te deixar sozinho, idiota.
– Se não for isso, o que vai fazer da vida, idiota?
– Vou ser médico, ué!
– Não... porra, Dégel! – Sabia o que aquele francês burro estava fazendo. Jogando os sonhos fora, era isso que ele estava fazendo! Desde que o aquariano o vira passar mal quando criança, jamais saíra do seu lado. Era seu melhor amigo desde então. O grego tinha nascido com uma má formação cardíaca, que o tornava quase um “PC sem cooler ambulante”3, como ele mesmo dizia. Quando a temperatura de seu corpo subia em excesso ou muito rápido, seu coração parava. Kardia fingia que não, mas sabia que aquele nerd aprendera a fazer respiração boca-a-boca e massagem cardíaca, só por prevenção. E sabia, também, que era por isso que ele estava largando seu maior talento em troca de uma licença médica. Já podia até adivinhar a especialização.
Por seu lado, Dégel estava tranqüilo em relação à decisão que tomara. Podia tocar violino quando quisesse, mas não poderia cuidar de Kardia apropriadamente, a menos que tivesse o conhecimento e a acessibilidade de um médico. Sabia que o escorpiano se incomodava com o excesso de cuidado, mas paciência! Daria tudo, tudo para não ter que ver aquela cena de novamente: Kardia deitado e pálido no chão, sem respirar. Para o francês, era extremamente natural.
– Bobagem, grego! – abraçou o amigo, acariciando o cabelo excessivamente longo, como o seu. – você sabe que eu adoro cardiologia!
10 Anos Depois
Apoiado na parede, Dégel se permitiu suspirar de puro alívio.Esse maldito está tentando o quê, acabar comigo?Os temores mais macabros passaram pela sua cabeça quando Kardia passou mal depois da luta.Depois de tantos anos...
Estendo a mão, tocou o rosto do escorpiano adormecido na cama do hospital. Kardia tinha se tornado lutador, campeão olímpico de jiu-jitsu. Por causa da doença, precisava de seu médico particular para medicá-lo após cada luta. Essa luta fora particularmente difícil e o grego vencera quando já quase não havia esperanças, de uma maneira linda! Mas acabara forçando demais, e o Doutor Aquarius, seu médico, tivera que agir muito rápido. Embora sua equipe não tivesse percebido, Dégel estava em desespero ao levar o outro para o hospital. Era por isso que tinha que estar com ele sempre! Não podia deixar aquele maluco sozinho!
– Ei, Stradivari4! Não vai chorar, vai? – A voz baixa de Kardia se fez ouvir. Nem depois de passado pelas portas da morte pegaria leve com Dégel. Afinal, eram assim desde crianças, se amavam completamente, e esse era o melhor jeito de mostrar.
O Francês ajoelhou-se junto à cama, ficando bem perto do outro. – Nunca mais, seu filho da puta! Nunca mais você me assusta desse jeito ou eu mesmo te mato!
– Uh, que nervoso! – a risada de ambos ecoou pelo quarto, tão aliviados quanto poderiam estar.
– Você devia parar de lutar! Está te matando!
– E você quer o quê, ficar pra semente? Eu, hein... todos vamos morrer um dia, Dégel. Uns anos antes ou depois...
– Não ouse!
– Calma! Você não vai se ver livre de mim assim tão fácil.
– Acho bom, mesmo... – Sorrindo, o médico inclinou-se sobre Kardia, unindo seus lábios pela primeira vez naquele dia.
Notas finais
2 - A Ivy League (Liga de hera) é um grupo de oito universidades privadas do Nordeste dos Estados Unidos da América. Originalmente, a denominação designava uma liga desportiva formada por essas universidades, das mais antigas dos Estados Unidos. O grupo, também referido como as oito antigas, é constituído pelas instituições de maior prestígio científico nos Estados Unidos, a saber: Brown, Columbia, Cornell, Darthmouth, Harvard, Pensilvania, Princeton e Yale.
3 -Como eu não achei nenhuma explicação na medicina, inventei na cara de pau a doença do Kardia!
4 - Antonio Stradivari foi um luthier italiano que criou o violino com a melhor sonoridade ever! A fama do Stradivarius, seu violinoo, é quase lendária.
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