My Heart Is Yours
11 Capítulo 9 - Your love is my drug
Notas iniciais
Meu segundo dia de aula foi digamos assim... um inferno. A boa notícia é que as pessoas pararam de comentar minha pequena briga com Megan e Josh no dia em que cheguei. A má notícia é que isso deu lugar às notícias sobre Demi. Todos olhavam e apontavam para ela, sem a menor preocupação de serem discretos, nos corredores. Alguns até procuravam machucados e arranhões da briga, mas Demi foi sensata. Usou calça jeans e camiseta de manga comprida, para esconder os arranhões e principalmente os cortes, que também já eram motivo de conversa à essa altura.
– Eu não acredito nisso. É você que é a novata, mas todos estão agindo como se não me conhecessem. – ela disse depois que uma garota loira passou por nós e inclinou a cabeça para tentar ver por detrás da manga branca.
– Mas meu cabelo ajuda, né? Todos devem saber que onde eu vou estar, você vai estar ao lado. É como se eu fosse um cone sinalizador laranja. – eu disse.
As aulas passaram ainda mais rápido que no dia anterior. Quando me dei conta já estava no refeitório novamente, sentando à mesma mesa de sempre com as mesmas pessoas de sempre.
– Como foi seu dia? – perguntou Taylor York.
– Péssimo – disse Demi desanimada – tive duas aulas de geografia, coisa que eu odeio e não entendo. E pra piorar nós falamos sobre alguma coisa que tem a ver com sangue na aula de ciências. E o assunto sempre voltava curiosamente para cortes e sangue, sangue, sangue, um pouquinho mais de corte e mais uma pitada de sangue.
– Parece bastante ruim. – disse Taylor York. – E o seu, Hayley?
– Mesma coisa. Tive quatro aulas com Demi e duas com Jeremy. E está cada vez mais difícil suportar os cochichos por aí.
– É, mas parece que logo logo vão deixar de ser cochichos. – disse Taylor Swift se inclinando para falar com a gente – Olhem quem vem aí.
Nós olhamos todos ao mesmo tempo. Megan entrava pela porta com Josh e seus seguidores e sorria como se tivesse ganhado na loteria.
Como se já fosse ruim o bastante Megan estar feliz, ela puxou uma cadeira na mesa ao lado e se sentou atrás de Demi.
– Nossa, por que a menininha resolveu colocar blusa de mangas em pleno verão? Está com alguma doença, Demi querida? – Megan disse em tom de falsa preocupação.
– Não. – respondeu Demi friamente.
– Saiba que se você precisar, eu vou estar aqui, tudo bem? – Megan passou a mão pelo braço esquerdo de Demi, onde estavam os cortes, em um falso gesto de consolo.
– O que você quer? – perguntei.
– Nossa, Hayley – disse Megan se fingindo de ofendida – eu só quero ajudar a Demi caso ela tenha algum problema psicológico ou coisa parecida.
– Mas, ela não precisa da sua ajuda, então nos deixe em paz. – eu disse.
– É claro que precisa. Eu conheço um ótimo psicólogo que pode cuidar dos problemas dela, para que ela não se mutile mais, afinal é comum sofrer um pouqinho de bullyng.
– Hayley já disse que Demi não precisa de ajuda. – disse Zac – Deixe a gente em paz.
– Não precisa de ajuda? – disse Megan deixando toda a falsidade de lado. – Mas, todo mundo que se corta precisa de ajuda. O que é então? Quer dizer que tudo isso foi mentira? Quer dizer que essa aí não se corta coisa nenhuma e só fingiu que apanhou pra chamar atenção? Porque é o que eu acho que ela fez, afinal é fácil se machucar sozinha e colocar a culpa em líderes de torcida perfeitas e magras.
Taylor York se levantou, mas Demi também tinha perdido a paciência e estava segurando uma faca. Por um instante pensei que ela fosse cravá-la no peito de Megan, e acho que ela também porque ficou assustada. Mas, Demi fez algo surpreendente. Ela levantou a manga esquerda e se cortou com a faca.
As cicatrizes ficaram mais visíveis com o sangue que escorria pelo braço dela. Taylor sufocou um “Demi”, mas ela tinha lágrimas nos olhos e já falava:
– Você acha isso de mentira? Acha que eu saí por aí falando que me cortava pra chamar atenção? Eu nem sequer mencionei para ninguém desse refeitório, exceto as pessoas dessa mesa. Por que eu ia querer chamar atenção? Eu já estou em um internato por fazer algo que me fazia mal no passado, assim como a maioria. Acha que eu me corto porque eu acho bonitinho? Não. As pessoas têm problemas, e também têm aqueles idiotas que tentam fazer você se sentir como se não fosse nada, e quer saber, funciona. Está vendo isso? – ela se cortou mais uma vez – Te faz melhor ver o quanto eu sangro? Espero que faça, porque da próxima vez que você disser alguma coisa sobre mim, é o seu sangue que vai rolar.
Ela jogou a faca no colo de Megan e saiu decidida do refeitório. Me levantei pra ir atrás, mas Taylor York segurou meu braço:
– Deixa. Eu falo com ela.
Ele saiu correndo atrás de Demi, mas quando passou pela mesa da frente, parou e falou com Josh:
– Por você não ter feito nada, quanto à isso, esqueça que algum dia nós fomos amigos. – e saiu decidido.
Todos que estavam no refeitório e tinham visto a cena, agora olhavam para Josh, que tentava manter uma expressão indiferente, mas era quase impossível. Mal sabiam eles que Josh já tinha prometido se vingar, e que eu fazia parte disso.
Pov Demi
Cansei. Perdi o controle, eu sei, mas não aguentava mais Megan dizendo em alto e bom som para todos os fofoqueiros que eu era uma aberração da natureza. Ela nunca iria me deixar em paz, mesmo que eu cortasse minha garganta e sangrasse até a morte. Aliás, a ideia não parece muito ruim no momento.
Saí correndo pelas escadas e corredores, com lágrimas nos olhos e o braço ardendo. Eu tentava inultimente secar as lágrimas e cobrir o corte com a manga, mas o sangue manchava o tecido branco. Mais uma vez, senti os olhares das pessoas que não estavam no refeitório e as perguntas e sussurros. Eu só precisava fugir de tudo isso por um tempo.
Entrei no meu dormitório e tranquei a porta. Sentei no chão, me encostei na cama e comecei a chorar. Por que tudo estava assim? Ano passado nada disso tinha acontecido, as pessoas nem sabiam quem eu era. E hoje? Hoje é apenas o segundo dia de aula, e eu já sou tratada como um lixo por todas as pessoas.
Talvez elas tenham razão em me chamar de aberração. Talvez eu não esteja fazendo o certo, me cortando, mas eu não vejo outra alternativa. Eu preciso tirar essa dor toda de dentro de mim. Mas, eu prometi. Prometi que nunca mais me cortaria. Já faz quase um ano que eu não me corto, mas dessa vez eu precisei. Foi muita raiva. Muita.
O sangue e as lágrimas manchavam completamente minha manga esquerda, agora. Olhei para a marca do novo corte e percebi que agora, eu já tinha quebrado minha promessa.
Sequei as lágrimas e fui para o banheiro. Abri a segunda gaveta, onde tinha uma lâmina, que eu tinha deixado lá, só pra garantir. Levantei a manga esquerda, peguei a lâmina, olhei para o meu reflexo no espelho e coloquei ela no braço.
O rastro de lágrimas, marcava meu rosto e novas delas começavam a se formar em meus olhos. Pressionei mais forte a lâmina, mas antes de puxar alguém bateu na porta.
– Vai embora. – eu gritei.
– Demi, sou eu.
Era a voz de Taylor York, a única pessoa pra quem eu abriria a porta no momento. Joguei a lâmina na pia, tentei tirar a marca das lágrimas do rosto, abaixei a manga e abri a porta.
– O que foi?
– Demi, você sabe muito bem porque eu estou aqui.
É, eu sabia. Taylor é meu melhor amigo, é impossível esconder algo dele, ele me conhece muito bem. Melhor do que ninguém.
– Posso entrar?
Abri a porta e fui para o lado, dando passagem pra ele. Voltei a girar a chave na fechadura e me virei.
Taylor me olhava com um olhar preocupado e ao mesmo tempo magoado. Me arrependi amargamente do que tinha feito:
– Você mentiu. – ele disse sério. – Disse que nunca mais se cortaria.
– Eu sei. Taylor, eu tentei. Tentei mesmo. Mas, eu estava com raiva e... não sabia o que fazer. E-eu não sabia como mostrar pra Megan que não é uma brincadeira.
– Demi, você sabe que eu odeio quando você faz isso. Sabe que eu me preocupo com você.
– Se preocupa mesmo, Taylor? De verdade? Você sabe porque eu comecei a me cortar, não sabe? Por todas as pessoas que disseram se importar e depois me viraram as costas e me humilharam como se eu não fosse nada. Todas as pessoas que me disseram “Eu te amo”, me fizeram acreditar, me fizeram corresponder, e depois viraram as costas e agiram como se nunca tivessem me visto. – eu virei de costas pra que ele não visse que eu chorava de novo. – Eu aprendi a desconfiar de qualquer coisa que me digam. Até mesmo do meu melhor amigo.
Deixei as lágrimas rolarem pelo rosto e caírem no meu peito. Lembrando de tudo que havia acontecido antes de eu vir pra cá, eu sentia ainda mais vontade de me cortar.
Taylor se aproximou e me virou de frente pra ele. Estava muito perto de mim, não consegui olhar nos olhos dele, eu tinha acabado de falar que não confiava no meu melhor amigo. Ele segurou minha mão e disse:
– Olhe pra mim.
Não tive outra escolha, senão olhar para os olhos castanhos de Taylor. E eu vi sinceridade em cada palavra que ele disse a seguir:
– Eu me importo com você, e isso não é mentira. Eu odeio o fato de você se cortar e de ter todos esses problemas, toda essa desconfiança. Eu não vou te culpar por não acreditar em mim. Quando você acredita em muitas mentiras, fica difícil saber o que é verdade. Mas, eu quero que você acredite, porque eu nunca vou te magoar, te humilhar, ou deixar de amar você em nenhum momento. Você é minha melhor amiga, Demi. E eu te amo, você se cortando ou não. Só que... eu não gosto de te ver sofrendo. Se eu pudesse, eu te daria o meu braço para você cortar, eu pegaria os seus problemas pra mim. Mas, eu não posso, então eu quero que você se lembre que pode me contar tudo que você está sentindo sempre. Talvez eu não possa te consolar ou te fazer melhorar, mas eu posso ser um bom travesseiro para as suas lágrimas. Eu não malho o peitoral a toa não, minha filha. – eu sorri fracamente entre o choro – Eu te amo, e eu não quero que você duvide disso, nenhum minuto da sua vida.
Eu abracei Taylor o mais forte que pude. Ele era a única pessoa que podia me fazer bem, no momento e para sempre.
– Desculpa, Taylor – eu disse ainda abraçada com ele – Eu não queria duvidar de você, eu também te amo. E eu agradeço por tudo que você me disse, por tudo que você está fazendo por mim. Eu não sei o que eu seria sem você, Taylor. Eu amo você.
Nós nos separamos e nos olhamos novamente. Ele secou minhas lágrimas e disse com a voz rouca:
– Eu te amo mais.
Nos sentamos no chão, encostamos na cama da Hayley e eu deitei minha cabeça no ombro dele. Taylor pegou meu braço esquerdo, levantou a manga e passou a mão pelas cicatrizes. Respirou fundo e disse:
– Precisamos parar esse sangramento. Vou buscar curativos pra você.
Ele se levantou e foi até o banheiro, me deixando a olhar para o corte feito à faca. Estava maior e mais profundo que os outros, portanto doía ainda mais. Taylor se sentou ao meu lado alguns minutos depois com uma caixa de primeiros-socorros:
– Encontrou o que procurava? – eu perguntei.
– Sim, e também encontrei isso. – ele ergueu a lâmina que eu tinha deixado na pia, gelei por dentro.
– Taylor, me desculpa... isso foi antes de você chegar, mas eu não me cortei, eu juro.
– Eu sei que não, mas ia. Se cortar para dar uma lição na Megan, eu até entendo, mas fazer isso porque quer me machuca ainda mais, Demi. Eu não vou brigar com você, não vai resolver. Vamos cuidar disso aqui, ta?
Ele pegou meu braço, limpou o ferimento e colocou um curativo. Depois, abaixou a manga e eu deitei no peito dele. Taylor tinha razão, ele não malhava a toa.
– E a propósito, foi um ótimo discurso. Você tinha que ter visto a cara dela, quando você jogou aquela faca na calça branca. As pessoas vão pensar que ela não checou certos dias femininos.
Eu sorri. Não por Megan ter ficado com raiva, mas por Taylor ter gostado. Ficamos conversando e rindo por um tempo, até que Hayley bateu na porta. Eu abri e Taylor se levantou:
– Desculpe incomodá-los – disse Hayley – Mas, eu preciso dormir, entende? Vocês ficaram aqui a tarde inteira. Eu estava na Taylor, mas a colega de quarto dela chegou e eu tive que sair.
– Tudo bem. – disse Taylor York – Eu já disse o que tinha pra dizer à Demi. Vou deixar vocês descansarem.
Ele pegou minha mão e me deu um selinho rápido:
– Boa noite.
E saiu pela porta, me deixando com uma Hayley visivelmente se esforçando para não rir.
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