My Favorite Ghost
1 prólogo ⋆ um encontro
Naquela noite, o barulho estava extremamente irritante. Na verdade, a rua toda estava silenciosa, como em todas as madrugadas. O que incomodava era apenas o barulho de vento. Que assobiava, rodopiava, parecia invadir o quarto de Emma Grace; o mesmo vento que fazia com que os galhos pontudos da árvore ao lado da janela batessem insistentemente no vidro, como se estivessem chamando a garota. E ela, com toda a certeza do mundo, não atenderia àquele pedido.
Emma Grace enfiou a cabeça embaixo do travesseiro, frustrada, e puxou o pesado edredom até que a cobrisse toda. Suspirou, percebendo que nem mesmo a já conhecida roupa de cama seria reconfortante naquele momento. Ela simplesmente odiava aquela casa e, principalmente, odiava aquele quarto.
Sabia que talvez estivesse sendo infantil, o que já não era mais aceitável naquela idade, mas ela simplesmente não se conformava. Ainda estudava no mesmo lugar, seu pai mantinha o escritório no mesmo lugar e sua mãe mantinha a clínica no mesmo lugar. Emma Grace simplesmente não entendia o motivo para terem se mudado para o outro lado de Londres, longe de tudo que fazia parte da rotina da família. Longe de seus amigos, de sua biblioteca favorita e longe da casa de sua tia, onde ela adorava passar as noites. Precisaria de dois trens para chegar à casa da tia! E o pior de tudo? Para morar em uma casa velha, escura, sem vida. Em um quarto que não combinava com ela e cheirava a mofo. Não acreditava que havia sido obrigada a deixar seu quarto perfeito para morar no que poderia, tranquilamente, ter sido parte de um castelo medieval.
Emma estendeu a mão até a mesinha de cabeceira, procurando pelo celular. Levou o aparelho até debaixo das cobertas e bufou ao ver o horário. Já passavam das cinco da madrugada. A garota se remexeu na cama, ainda desconfortável. Estava ali outra coisa que ela odiava. Aquela nem era sua cama! Seus pais haviam jurado que ela poderia levar sua cama para a casa nova e, no entanto, ali estava ela dormindo – ou tentando, em uma cama desconhecida e velha. E mofada. Em um ato de pura rebeldia, Emma Grace jogou todas as cobertas para o chão, arremessando o travesseiro em seguida. Pelo menos o tapete era dela. Novo, limpo e livre de causar quaisquer problemas respiratórios. Sentindo-se com sete anos, ela se jogou pesadamente no chão, rolando com as cobertas sob o tapete. Muito mais confortável, sem dúvidas. Emma apoiou-se no cotovelo, para alcançar o celular na cama, e nesse movimento, algo prendeu sua atenção. A claridade que entrava pela janela era pouca e não a permitia enxergar, por isso ela rapidamente pulou do tapete, acendendo o abajur. Abaixou-se novamente no chão, enfiou a cabeça embaixo da cama e procurou o que havia atraído seu olhar. Preso à uma das madeiras velhas da enorme cama, Emma o achou. Um pequeno caderno, que mais parecia um diário, com uma capa de couro desbotado que esfarelou nos dedos da garota. Estava preso por uma cordinha que Emma nem precisou desamarrar; ela também se desmanchou. Abriu cuidadosamente o caderno, surpresa ao notar que as folhas não eram tão velhas quanto ela achou que seriam. Como boa conhecedora dos livros, sabia que o amarelado daquelas páginas era recente. E nada de cheiro de mofo por ali. Com o coração batendo forte em expectativa, Emma Grace virou a primeira página.
Sentiu a expectativa a abandonar e a irritação tomar seu lugar ao perceber que o diário estava em branco.
— Sem graça, como tudo nesse quarto — a garota resmungou. Mesmo que estivesse frustrada, não foi capaz de jogar o diário para o outro lado do quarto, como bem queria. Ela posicionou o caderninho ao lado do seu travesseiro, cuidadosamente. E foi nesse momento que notou, rabiscado várias vezes na capa esfarelada, um nome. — Oliver. — Emma Grace disse em voz alta, e no mesmo instante, sentiu seu corpo arrepiar.
Ela imediatamente sacudiu a mão que ainda tocava o diário; tinha a impressão de que alguém segurava seu braço. Emma Grace sentou-se no tapete, notando que o barulho que escutava não era mais apenas do vento. Um zumbido alto tomava conta do quarto. Ou de sua cabeça? A garota notou que a temperatura antes fria, agora estava congelante. Ela mal podia mexer os dedos dos pés dentro da meia de lã. Estava prestes a acender a luz quando o abajur piscou e apagou, fazendo o coração de Emma Grace acelerar. E então, aconteceu.
Sua visão foi completamente tomada por uma luz branca, como se alguém tivesse acendido uma lanterna bem à frente de seus olhos. Antes que ela pudesse sequer piscar ou pensar no que estava acontecendo, a luz se foi. Emma Grace piscou, acostumando-se à escuridão. Então o barulho sumiu, a luz do abajur se acendeu e o arrepio no corpo da garota cessou. E ali, sentado aos pés da cama que agora era de Emma Grace, estava um rapaz que ela nunca havia visto na vida.
Ele encarava a garota, sem saber como agir. Ele não... Ele...
Ele nunca havia visto ninguém, desde que... Desde que se fora. Ele nem sequer sabia que podia ver alguém. E sabia menos ainda que podia ser visto. Ele também não sabia como havia aparecido ali. Ele nem sequer sabia que poderia saber de alguma coisa, oras! Desde quando tinha consciência?
Mas ela podia vê-lo. Sim, com certeza. A expressão chocada em seu rosto era a prova daquilo. A expressão chocada, a boca aberta e o cabelo bagunçado, além das mãos que pairavam no ar, numa falha tentativa de apontar para ele. Ele teria dado risada, mas percebeu que a garota estava prestes a gritar. Não seria nada bom. E também... Ele ficou com pena. Ela parecia realmente assustada. Ele não sabia o que estava acontecendo, e ela menos ainda.
— Fale alguma coisa — ela sussurrou de repente, nervosa, fazendo-o dar um pulo na cama. Ele estivera sentado?! Como poderia?! — Eu não vou gritar. — ela respirou fundo. — Por favor... Você... Como você entrou aqui?
Ele percebeu pela expressão desconfiada no rosto da garota que aquela não era exatamente a pergunta que ela gostaria de fazer. Até pensou em respondê-la, mas... Nem ele sabia. E também não sabia se seria capaz. Ele podia falar? Não queria descobrir daquela forma. Então, ele se sentiu extremamente irritado. Frustrado. Não deveria estar ali! Não deveria estar vendo alguém e não deveria estar sendo visto. A curiosidade e o interesse que ardiam naqueles lindos olhos que o encaravam, além do medo, foram o suficiente para que a raiva tomasse conta do garoto. Ele quis desaparecer.
E então, desapareceu. Não soube como, apenas o fez. Permaneceu imóvel na cama, encarando aquela garota. Ele soube que ela não o via mais quando ela saiu de seu transe, piscando várias vezes. Fechou a boca, passou as mãos pelos cabelos compridos e piscou os olhos várias vezes, olhando ao redor. Enquanto ela fazia isso, ele nem respirava. Ele podia respirar?!
Ela caminhou lentamente por todo o quarto, procurando alguma coisa, apenas à luz do abajur. Enquanto acompanhava os passos da garota, ele pôde perceber que conhecia aquele lugar, só não foi capaz de se lembrar de onde. Ele queria lembrar.
A garota o chamou algumas vezes, frustrada, e ele se limitou a encara-la. Quando ela sentou no tapete e sussurrou o nome Oliver, ele sentiu os batimentos cardíacos – que ele nem sabia ter – acelerando. Muito. Ele soube que Oliver era ele. Também soube que aquele quarto havia sido dele. E pôde apenas secar as lágrimas de raiva que caíam ao ver a garota se aninhar na cama que havia sido sua antes dele... Antes dele morrer.
Notas finais
O que acharam???
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