My Favorite Darkness

6 Me arrependo de tomar um café.


POV: Nico.

Meio que não estava nos meus planos encontrar uma hidra no meu primeiro dia de viagem.

Eu, Violet e Sophie fomos levados por Argos até o centro de Nova Iorque. Quase três horas de viagem, ou melhor, três horas para dormirmos.

Era por volta de 9 horas quando chegamos. O motorista nos deixou perto de um simpático café francês (Cafétéria tante Nena, se não me engano). Então tomamos um café por ali mesmo, estávamos morrendo de fome.

O atendimento foi rápido, afinal, éramos os únicos clientes do local. Pedi um cappucino e um pão de queijo, enquanto Sophie pediu um suco de laranja e um misto quente, e Violet café forte e croissant. Sentamos do lado de dentro do café, porque estava muito frio. Tipo, estava fazendo uns 20 graus abaixo de zero lá fora. Dia perfeito para ficar em casa embaixo das cobertas, assistindo TV e vendo a neve cair pela janela. Quem dera pudéssemos.

Quando estava comendo, reparei em um leve brilho por debaixo dos trocentos casacos que Violet estava usando. Perguntei à ela o que era e ela retirou um colar delicado de prata, com o mesmo símbolo que havia aparecido em cima de sua cabeça quando ela foi reclamada.

–Desde quando você o tem?- Sophie perguntou, entrando no assunto.

–Desde meu aniversário de 4 anos, quando acordei e ele estava em meu pescoço. A partir daquele dia eu nunca o tirei, porque eu sempre tivera certeza de que quem o dera era minha mãe. Mas eu não sei se ainda devo usá-lo... Parece que Nyx não é exatamente o exemplo de mãe.

Ela mergulhou em pensamentos, e tampouco eu quanto a filha de Nice soubemos o que dizer. Então Violet, aparentemente querendo mudar de assunto, perguntou:

–Para onde vamos depois daqui?

–Para Cleveland. -eu respondi- 7 horas e 30 minutos de viagem direto de carro. Mas, como ainda vamos parar para almoçar e tal, chegaremos por volta de 19:00. O problema é que não temos dinheiro para passar a noite em um hotel, todos esses dias.

–Na verdade, Quíron sabia que teríamos de passar lá, então contatou um amigo centauro dele, que administra uma pequena pousada em Cleveland.- disse Sophie- Como é mesmo o nome...-ela parou alguns instantes- Ah é: a little piece of heaven*.

Ri internamente. O hotel tinha o mesmo nome de uma música que eu gosto muito, mas ela é um rock meio demoníaco, apesar de que, em tradução livre, signifique pedacinho do céu.

–Enfim, passaremos a noite lá- continuou Sophie- e temos de mandar mensagens de Íris ao Quíron regularmente para ver se temos de arranjar um jeito de passar a noite, ou se ele conseguiu ajuda de mais algum amigo.

–Sabe, essa missão não está sendo tão ruim-comentei- Estamos tomando um café ótimo em um restaurante francês, e não precisaremos lutar com a medusa para dormir na casa dela. Somos privilegiados.

Sophie olhou para mim e sorriu. Ela devia saber das histórias de Percy e tal. Então ela olhou para baixo e ajeitou os ruivos por debaixo da touca cinza que estava usando. Porque as garotas sempre fazem isso quando olham pra mim? Eu não sou tão horrível assim, sou?

–Bem, acho que podemos ir...-Violet disse.

Chamei a garçonete que havia nos atendido, uma senhora gordinha e baixinha, e pedi a conta à ela.

–Ah, não querido. Fique mais um pouquinho. Tome mais um café...- ela me disse.

–Ah, não obrigado- Violet respondeu.- Só queremos a conta mesmo.

–Não é um pedido mocinha.- a garçonete fez uma cara tão demoníaca, mas tão demoníaca, que eu achei que ela iria virar o meu pai.

Eu devia ter reparado antes que havia algo de estranho. Apesar de ser um dia de neve em Nova York, uma cafeteria às 9 da manhã não tem só 3 clientes.

Ouvi o som de lâminas saindo das bainhas e notei que Sophie e Violet já haviam reparado no que estava acontecendo. Desembainhei minha espada também. Então, os outros 6 funcionários do local se aproximaram da velhinha, três de cada lado. E o que aconteceu depois foi a coisa mais bizarra que eu vi, e olha que eu já vi muita coisa.

Começou com todos eles ficando verdes, como se o sangue deles tivesse sido trocado por clorofila. Depois começaram a se encher de escamas, o pescoço alongar, e a se fundirem num só corpo. As cabeças deles assemelharam-se a de dragões e quando vi, estava de frente para uma hidra de sete cabeças. Maravilhoso.

–O hálito da hidra é venenoso. Cuidem para não ficarem na mira das cabeças.- disse às meninas, e estas assentiram.

A hidra me atacou, tentando me morder. Desejei que Leo estivesse ali, resolveria todos os nossos problemas, afinal, hidras morrem queimando o toco de suas cabeças. Mas nós não tínhamos fogo, nem o Leo, então ela era realmente um problema.

Eu e as garotas nos separamos, ficando eu no centro e uma de cada lado do monstro. A cabeça do meio me atacou com o veneno, mas eu me desviei, conseguindo desferir um golpe na base do seu pescoço, o que não fez nem cócegas no bicho.

Toda a atenção da equipe do Cafétéria tante Nena, estava em mim e Sophie. Não estavam sequer tentando atacar Violet, e isso, bem lá no fundinho do meu cérebro, me intrigou. Afinal, monstros não perdem oportunidades de comer semideuses.

Violet golpeava inutilmente o dorso da hidra, enquanto eu e Sophie já estávamos exaustos de tanto ir de um lado para o outro desviando de veneno e cabeças. Até que a garota se enfezou e deu um golpe tão forte no monstro, que a lâmina se partiu.

A menina deu dois passos para trás. Ela não parecia estar com medo ou assustada. Parecia estar enraivecida. Então, ela fez a maior burrice que se pode fazer com um bicho de sete cabeças.

–EI!-ela gritou, subindo em uma mesa-PRESTE ATENÇÃO EM MIM SEU IMBECIL! AGORA!

O monstro parou de atacar a mim e Sophie para olhar com incredulidade para ela. Ela tinha toda a atenção da Hidra agora.

–Violet! O que você está fazendo?!-Sophie perguntou, olhando para a garota com a mesma expressão da hidra.

–Eu quero que ele veja o que o matou!- ela respondeu.

Então, ela desceu da mesa, segurando o pingente de seu colar e a hidra atacou, com todas as suas cabeças. A garota rolou por debaixo do monstro e quando levantou, segurava a espada mais foda que eu já havia visto na minha vida inteira. A lâmina era negra, envolta em uma névoa escura, com um cabo de prata enfeitado no punho com uma lua e uma estrela. Ela tinha uma expressão assassina no seu rosto quando pulou nas costas do monstro e cortou a cabeça da ponta.

Meu primeiro pensamento foi "Quero que ponham na minha lápide que eu morri quando a tonta da filha de Nyx resolveu que iria ferrar mais ainda com a nossa situação cortando a cabeça da hidra" . Mas dessa vez, a hidra não regenerou duas cabeças no lugar de uma. Mas eu quase preferi isso, do que o que eu iria ver em seguida.

O pescoço da hidra começou a apodrecer e ficar negro, como se estivesse se decompondo numa velocidade extrema, até que virou um pedaço de pele, músculos e tendões podre, que fedia muito. Por um momento, nem a hidra conseguiu reagir. Mas assim que se deu conta do que aquela espada podia fazer, toda a atenção dela se voltou para Violet. Eu realmente esperava ver medo nos olhos dela, mas ela apenas parecia mais raivosa, como um tigre, prestes a atacar.

O monstro investiu três cabeças de uma vez na direção da garota, que com um simples manejo de espada, cortou duas delas como se fosse manteiga, e se desviou da terceira como se fosse a coisa mais simples do mundo. Então a hidra jogou veneno em sua direção, mas ela se esquivou para o lado, cortando mais uma cabeça distraída.

Quando sobraram apenas 3 cabeças, o bicho tentou uma investida com todas, porém Violet usou uma delas para subir nas costas da aberração, e lhe cortou as últimas, fazendo com que todo o corpo murchasse e apodrecesse, dando fim à hidra.

A garota desceu do torso do animal ofegante e pálida, porém com um sorriso no rosto, do tipo "eu não acredito no que eu fiz", enquanto eu e Sophie estávamos de boca aberta, incrédulos com o que uma garota de um dia de treinamento fez.

–Sabe-comentei- Acho que você não deve se livrar desse colar tão cedo...

Notas finais
*: Música de autoria da banda Avenged Sevenfold.