My Eyes
1 Capítulo 1 - Red?
Notas iniciais
Abrss.
— "Vai ser isso então? Vai desistir sem sequer..."
Uma fresta de luz passando pelas persianas me desperta depois de uma noite de insônia monótona. Enrolado em meu edredom, tento ver por cima de meu ombro o relógio que mostrava 7:54 A.M lembrando-me que da última vez que o vi, marcava 6:01 A.M. Volto à minha posição inicial, olhando para a parede pouco iluminada pelo sol matinal. Eu não conseguia nem ao menos fechar mais os olhos, nem sequer pensar em algo, no que fazer ou com quem falar. Passo novamente meus olhos por cima do ombro para rever o relógio que agora marcava 7:55 A.M. "Preciso levantar" penso, ficando de barriga para cima e vendo o ventilador que comprei em uma queima de estoque de ano novo desligado. Jogo minhas pernas para fora da cama e sento com a coluna desestruturada. Manhãs de segunda-feira são tão desanimadoras, não vejo motivo para não continuar na cama. Mas nem sempre podemos fazer o que queremos, preciso ir para meu ganha pão.
Me chamo John. Para ser mais exato, John Rozensky Buhr. Sim, sou um americano descendente de primeira geração de russos com alemães. Tenho 21 anos, estou no primeiro ano em engenharia robótica na Universidade da Califórnia em Los Angeles. Minha rotina se baseia em acordar, ir à universidade que começa às 8:30 e acaba às 17h. Chego em casa, me troco e vou para o trabalho meio período merda que encontrei numa lanchonete perto da praia. Volto para casa pelas 22h, como algo e vou para a cama, ficar me revirando infinitas vezes até dar novamente o horário de acordar. É sempre a mesma coisa, desde que aquela desgraça foi embora daquela forma.
A prata do colar que tenho no peito me faz voltar do transe que estava e olhando para o relógio novamente, já marcava 8:19. Dou um pulo, reclamando como sempre, pegando a primeira roupa que vejo. Uma calça jeans velha, uma camisa preta e um all-star sujo. Escovo meus dentes e já saio de casa. Demoro em torno de 20 a 30 minutos andando para chegar à universidade, correndo consegui chegar com um atraso apenas de 8 minutos para a primeira aula. É uma universidade até que renomada, demorei para conseguir entrar. Bancada pelos meus pais que moram fora do país, moro sozinho em um apartamento minúsculo composto por uma cozinha, sala e suíte. Minha vida é um saco: passando quase uma hora depois de chegar, não aguentava mais prestar atenção e peguei no sono. Numa sala de 130 alunos, achava difícil alguém notar um ser de cabelo prateado jogado na mesa babando como um condenado que faz trabalho braçal. Eu herdei essa cor de cabelo da minha mãe, que era albina e tinha problemas de saúde quando nasci. Apesar de ela ter conseguido sobreviver, hoje em dia não pode fazer esforço algum e fica na cama, numa mansão na Rússia. Sim, a família Rozensky é renomada economicamente, mas nunca tive influencia ou contato direto. Fui nascido e criado nos Estados Unidos depois de uma viagem de férias na qual ela conheceu meu pai. Um Alemão de geração secundária, naturalizado americano. Fui criado pelos meus avós, pais dele, nunca sequer o conheci. Dizem que voltou pra Alemanha para continuar os negócios da família Buhr, mas evitam falar sobre. Quando me tornei maior de idade, decidi continuar sozinho, porém recebo alguns mantimentos por parte da minha mãe, que vira e mexe sempre me manda uma carta. Sim, em pleno Século XXI, admito que tenho uma família arcaica.
— Mano, acorda — Disse alguém me cutucando no ombro— Você pode acabar encrencado se continuar roncando assim.
— Que? Me deixa dormir um pouco. — Tentei responder levantando a cabeça devagar e percebendo que era um colega que sentava ao meu lado.
— Não acredito... — Disse ele um pouco desacreditado, se segurando para não rir— Você esqueceu de colocar as lentes de novo.
Sem dar bola, voltei a abaixar a cabeça para dormir. Mas pensando bem, eu devia ter me lembrado de ter colocado essa merda. Eu fiquei assim pelo resto do período matutino e na hora do almoço, decidi dar um pulo de volto para casa e pegar minhas lentes. Evitando qualquer tipo de contato visual, tentei correr para fora da sala, mas antes acabei esbarrando em alguém.
— Hey, olha por onde anda! — Uma voz feminina me contraditou.
— Perdão. — Eu continuaria a andar, mas sou curioso e levantei a cabeça para ver quem era.
— Seu... Olho... — Disse a desconhecida com uma cara espantada— Você está bem?
Quando percebi a merda que fiz, apenas abaixei a cabeça novamente e continuei meu caminho o mais rápido possível. Não importa o quão rápido eu fosse, acabaria chegando atrasado no segundo período de aula, então fui alterando o ritmo da caminhada sem pretensão de me apressar. Cheguei em casa após uns 18 minutos e corri direto para meu apartamento, que ficava no 13º andar. Entrei e fui ao banheiro, onde provavelmente estariam minhas lentes. Abro o armário acima da pia e lá estavam as benditas. Fecho e me deparo diretamente ao espelho, minha imagem. Meus olhos da cor escarlate pulsando sem parar. Apesar de ser eu mesmo, aquilo ainda me amedronta, parece que eu estava pronto para assassinar alguém sem dó ou pudor. Por fim, resolvo esse meu problema e começo meu caminho de volta para a sala de aula.
Chegando de volta na universidade, sento novamente ao lado de um antigo companheiro que só olha para mim sem pretensão de perguntar se eu estava bem. Engraçado eu ter só um amigo numa sala de 130 alunos, apesar de ser o primeiro ano, ainda assim, pensei que teria uma turma. O nome dele era Yuki. Descendente de japonês, e por incrível que pareça, somos os únicos com aparência estrangeira na sala inteira.
— Vai fazer algo depois da aula? – Cochicha Yuki, se aproximando— Se quiser, vamos no boliche depois. Alguns veteranos me chamaram, falaram que poderia chamar quem eu quisesse. – Ele era o oposto de mim. Conseguia fazer amigos o quanto quisesse, era o padrão de popular.
— Não sei cara, não se esqueça que eu trabalho. – Falo me desanimando— Por mim eu ia com certeza, mas eu preciso ganhar uma grana se eu quiser continuar morando sozinho. – Eu que sou responsável de comprar alimento e produtos de lazer. Só de pensar em comida, lembrei que estou sem comer desde que acordei— V-Você tem alguma bala aí? Disfarçar minha fome seria uma boa. Não comi nada hoje. – Peço para ele.
— Você tem que se cuidar melhor cara. – Comenta pegando um snickers bolotado no estojo— Se você morrer, quem vai dar a minha parte da herança da sua família? – Como ele era meu único amigo, não achei errado contar minhas origens.
Abaixei um pouco na carteira e devorei aquela barrinha de chocolate fundida com amendoim como se fosse a última coisa que comeria. Apreciei ao máximo. Depois de disfarçar minha fome, voltei a atenção ao professor, por um breve momento. Porém, comecei me sentir estranho, como se alguém estivesse me observando. Incomodado, comecei a olhar os alunos a minha frente. Nossa sala era construída como uma arquibancada, de baixo para cima, para suportar grandes quantidades de alunos. Fui desviando o olhar para esquerda e direita, sucessivamente até que notei que a garota que eu havia esbarrado estava me encarando atenta. Quando trocamos olhares, ela se envergonhou e voltou a atenção para frente, porém inquieta. Uma ruiva, com uma mexa colorida do lado, padrão rebelde bancada pelos pais, ela não me expressa interesse algum.
Ao final do segundo período, me despeço de Yuki e vou direto para casa, caminhando. Minha barriga roncava sem parar. Chegando, vi que estava atrasado e sem tempo de muita coisa, apenas coloquei meu uniforme e fui para lanchonete que ficava poucos quilômetros dali. Pelo visto era só mais um dia comum na minha vida comum, nada de interessante ou estranho acontece. Só minha vontade de desistir de tudo que aumenta. Bocejando, chego perto da minha chefe que me encara com um olhar mortal, sem dizer nada, expressando seu desgosto de minha pessoa. E então, meu turno começa. Atendo todos e entrego seus respectivos pedidos e os sirvo, um trabalho comum, apenas com intenção de ganhar algum dinheiro.
Chegando perto do fim do expediente, vou atender uma mesa como de costume. Reparo que estão em uma turma de 6 pessoas, todas garotas. Aquilo me deixava nervoso:
— Olá, vão querer pedir algo? – Tento ser simpático.
— Gostaríamos da maior taça de sundae que você tem, por favor. – Falou a moça da ponta – O mais rápido possível, estou morrendo de fome.
— Meu Deus Alice, para de ser morta da fome. – Diz a colega ao seu lado— Traz também algum suco bem gelado, seis copos, por favor.
— Tudo certo, algo mais? – Acabando de anotar o pedido, olho por cima do caderninho e reconheço um rosto familiar. Era a menina que me encarou na sala de aula. E então percebo que possivelmente, essa é minha turma. Elas nem reconhecem. Apenas a esquisita que continuava encarando sem disfarçar— E você? Q-Quer algo? – Gaguejo, lembrando do momento embaraçoso no meio da aula.
— N-Não, tudo bem. Só isso mesmo. – Ela responde abaixando a cabeça, aparentemente também envergonhada. Todas na mesa percebem e nos encaram suspeitando de algo.
Por fim, eu saio do local suando frio. Estranhamente com receio de ter feito algo errado. Quando o pedido delas ficou pronto, entreguei de forma rápida e eficiente, me afastando após o ato. Vi elas indo embora e conscientemente, eram os últimos clientes do dia. Fui até ao vestiário e coloquei uma roupa que havia deixado ali, sem perceber a aproximação, chega minha chefe perto de mim, me pegando pelo pescoço.
— A cada dia que passa, você se torna mais útil, não é mesmo? – Exclama a jovem— Você é meu orgulho John!
— Poderia me soltar? – Peço tentando sair de perto dela.
— Mas que grosseria com sua chefe! Quem pensa que é? – Me repreende irritada.
— Para você ter me elogiado dessa forma, com certeza você apenas quer que eu feche a lanchonete para que você possa sair mais cedo com algum cliente que deu em cima de você. – Respondo sinceramente— Você vai apenas extorquir mais um cara e depois sumir da vida dele.
— Que ideia errada de mim que você tem, John. – Expressa descontente. Mas logo abre um sorriso de orelha a orelha— Bem, conto com você. – E sai saltitando.
Nem me dou o trabalho de respondê-la, isso quase sempre acontece. Não reclamo, eu gosto de ficar sozinho em lugares desse tipo. Fechando o recinto, percebo que ainda tenho a sensação de estar sendo observado. Isso é muito estranho, me sinto incomodado com alguma presença. Ignoro esse sentimento e me aproximo da areia, já descalço. Nesse horário, parece que o clima melhora, meus pés ficam gelado com uma sensação gostosa de “estar em casa”. Talvez seja meu sangue russo. Diferente da minha mãe, não sou albino, mas tenho alguns genes degenerativos que herdei dela. Felizmente, consegui tratá-los e suprimir a necessidade de medicamento na adolescência. Só de pensar de ter sobrevivido a aquela infância de bosta, nem acredito poder estar aqui agora, sentado de frente para o mar sendo banhado pela luz da lua. Me pego pensando no meu futuro, deito na areia e fecho os olhos por um momento e cochilo sem querer.
De repente, sinto uma presença acima de mim. Pensando ser algum tipo de assaltante ou algo do tipo, pego na perna que estava em cima da minha cabeça e a puxo, fazendo a pessoa cair e rapidamente subindo em cima dela, impossibilitando seus movimentos.
— Opa, t-tudo bom? – Diz espantada com o que tinha acontecido. Seu cabelo ruivo, agora estava com uma coloração diferente por conta da luz do luar. Quem diabos é essa pessoa que está me perseguindo? Com uma expressão plena, agora ela que me surpreende, sendo curta e grossa— Precisamos conversar.
Notas finais
Tudo de bom, kiss s2
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