Elizavèta encontrava-se sentada em um canto do sofá, toda encolhida e completamente entediada. Vestia apenas um vestido bordô de algodão bem leve, pois embora fosse inverno e nevasse do lado de fora, graças ao caro sistema de aquecimento que Áustria lhe havia pago não precisava se preocupar com o frio.

Olhou para um dos cantos da sala pequena onde haviam duas roupas penduradas ao lado da tábua de passar. Quantas lembranças lhe traziam elas... A primeira era de empregada, a mesma que costumava vestir quando ainda trabalhava para Roderich e a segunda tratava-se do uniforme militar que utilizara na Segunda Guerra Mundial.

Ela baixou a cabeça, deixando que os longos cabelos cobrissem seu rosto. Hungria sabia que era sua própria culpa o fato de estar sozinha naquele momento. Sem Prússia, sem Áustria.

O país de Mozart, por quem sempre fora apaixonada, nunca lhe amou. Ela sempre soube disso, mas preferira fingir que não. Fora apenas um casamento arranjado, apenas negócios, da parte dele. Só que ela realmente o amava e por isso sempre o protegera. No fim, ela aproveitava-se do fato dele ser demasiadamente gentil para lhe dar um fora e continuava seu pequeno faz-de-conta.

Quanto à Prússia, já fazia tempo que sabia dos sentimentos do albino por ela e, novamente, fingia que não. Ele era seu melhor amigo, daqueles que você vive brigando, mas sabe que não vive sem. Então, em algum momento da Segundo Guerra, aquilo virou amor. Ela se viu desejando os olhos púrpura de tal nação.

E quando ela pensou que pela primeira vez poderia desfrutar de um amor recíproco, eles perderam a Guerra e Gilbert foi morar com Rússia. Ela nem havia tido tempo de se declarar, no final das contas.

Ninguém tinha notícias do albino já fazia algum tempo, por sinal, ela imaginou se ele estaria bem naquele momento, o que estava fazendo. Vivo ele estava,definitivamente, e devia estar manejando a situação à sua forma também. Afinal, como o próprio costumava se gabar, era incrível demais para não suportar a situação. Mesmo que seu oponente fosse Ivan.

Pensando no albino, ela sorriu, um sorriso sarcástico, ao mesmo tempo em que uma lágrima correu pela sua face e várias outras começaram a brotar de seus olhos. Antes que percebesse, já soluçava. Ela merecia estar sozinha porque era uma fingida. Uma atriz de marca maior.

Foi neste momento que ouviu uma batida na porta. Várias, na verdade, e bem fortes. Hungria se levantou, respirando fundo a fim de se acalmar e secando as lágrimas com o pulso. Pulou então do sofá e seguiu até a entrada em pequenos saltitos com os pés descalços.

“Não devia ter ficado tanto tempo encolhida, agora estou toda tensa”.– pensou ela enquanto girava a chave e puxava a maçaneta, só para contorcer um rosto em uma careta de desgosto.

— O que você quer? – indagou irritada.

— Eu sei que você não é nenhuma “lady”, mas esperava que tivesse aprendido alguns modos básicos com o Áustria... Não vai me convidar para entrar? – indagou, com um sorriso distorcido na face. Ao que tudo indicava, ele também não estava muito feliz de ter que estar ali.

— Grrr... – ela grunhiu contrariada, mas deu passagem para ele.

Romênia adentrou o recinto, retirando o sobretudo úmido da neve, o qual jogou na cabeça de Elizavèta, revelando um terno de lã riscado bastante requintado. Ela ficou alguns segundos parada, com a roupa a cobrir sua cara, até que a jogou no chão, pisoteando-a, só para depois passar por cima da mesma e ir na direção do outro país, parando a mais ou menos um metro de distância.

— Por que você veio? Estou ocupada. – indagou rispidamente.

— Por causa da sua gente louca que mora nas MINHAS TERRAS e fica querendo independência, sendo que elas são minhas por direito, segundo nosso tratado. – Explicou, ele também irritado, embora não parecesse ter ligado especialmente para o casaco no chão, era mais como se já esperasse por isso.

— Bem, se eles são maioria, não vejo qual o problema. – respondeu simplesmente, com um sorriso desafiador.

— Mas eles NÃO SÃO maioria. – respondeu cada vez mais irritado, embora ainda sorrisse da mesma forma desafiadora que ela.

— Então não sei qual é o seu medo, morceguinho. – Ela caçoou do outro, fazendo pouco caso de seus problemas.

— Sabe de uma coisa Hungria? É por isso que nenhum dos seus vizinhos agüenta você. Quando vai se dar conta que não é mais parte do Império Austro-Húngaro? Que o nazismo já acabou? Sua cigana*...

Com esse último comentário ela petrificou. Ainda estava com o emocional relativamente abalado de minutos atrás e, ao perceber que não conseguiria se conter, virou-se de costas rapidamente, gritando com a voz mais embargada do que gostaria.

— Cigano é você!

Desta vez foi Romênia quem se surpreendeu. Ele esperava qualquer coisa da húngara, que ela lhe batesse, que o empurrasse, tirasse sua característica frigideira de sabe-se lá de onde e lhe espancasse até que sangrasse, mas não. Ela estava...

— Você esta chorando? – perguntou incrédulo.

— NÃO!!

— Esta sim.

— Não, não estou e... Mas o quê...? – Romênia havia se aproximado da jovem e agora a abraçava por trás, com o rosto afundado nas suas longas madeixas onduladas e castanhas. Primeiramente, seus dentes vampirescos roçaram a aorta em seu pescoço, causando nela um arrepio dos pés a cabeça. “Como eu nunca notei que o sangue dela cheirava tão bem? É tão... doce...”, pensou ele, logo após sussurrando em seu ouvido.

— Essa não é a Eliza que eu conheço. Ela nunca choraria. O que esta acontecendo?

Hungria piscou uma, duas vezes, sem se soltar. Era a primeira vez que ele a chamava por esse apelido, ou melhor, era a primeira vez que a chamava pelo nome humano. E o pior foi que ela descobriu que gostava muito de como esse soava na voz do romeno. Acabou, mesmo assim, por se debater e tentar livrar-se dos braços dele, sem muito sucesso.

Isso porque, ao conseguir voltar-se de frente para ele, o mesmo se aproveitou de tal movimento para a ir empurrando para trás antes que ela fosse capaz de readquirir o equilíbrio. O resultado foi que as pernas da húngara encontraram o braço de seu sofá e ela acabou caindo neste, com Romênia por cima.

— Então, qual o problema? – voltou a perguntar com o semblante sério, segurando ambos os pulsos de Elizavèta para que esta não tentasse fugir.

— Você é mesmo mais forte do que aparenta, seu filho da puta! – xingou revoltada, ainda tentando soltar-se. – Merda, sai de cima de mim! – e com isso deu uma forte joelhada nas partes baixas de Romênia, o qual se contorceu de dor, lhe soltando e caindo do sofá na seqüência.

— Aaah...- gemeu ele – Isso é mesmo bem mais a sua cara. – ele riu, uma risada distorcida devido à dor, ainda com ambas as mãos no local dolorido.

Hungria se limitou a revirar os olhos, apenas para voltar a encarar as roupas penduradas e perder o sorriso vitorioso que tinha no rosto. O romeno seguiu o olhar da garota, logo compreendendo o que se passava na mente dela. Ele era seu pior inimigo, afinal, e conhecia todos os seus pontos fracos.

— Ah, então é isso. – fechou os olhos e abriu um sorriso pequeno, um que Hungria nunca havia visto direcionado para ela, e levantou-se, fazendo enorme esforço para ignorar a dor que sentia, por fim, sentando-se ao lado da outra nação e a fitando — Esta se sentindo solitária Elizavèta?

De repente a húngara se sentiu hipnotizada pelos olhos vermelhos sangue de Romênia, que tanto a lembravam de Prússia, e os gestos leves e requintados que se assemelhavam aos de Áustria. – Não é da sua conta... – ela falou quase num sussurro, sem movimentar um músculo.

— Oh, é sim. – ele descordou, cada vez aproximando-se mais de Hungria – Por que tudo que diz respeito à minha eterna rival me interessa. Mas sabe, eu estava pensando... – e nesta pausa ele levou uma das mãos ao seu queixo, sem nunca desviar o olhar -...Que não me mataria te consolar, nem que só por essa noite.

Neste momento já estavam tão próximos que os hálitos se misturavam. O romeno então se deu ao luxo de fechar os olhos e puxá-la ainda mais para si, a beijando. A húngara, apesar de tudo, fora pega de surpresa, de forma que arregalou bem os olhos verdes e tentou se afastar. Aos poucos, porém, sua resistência foi diminuindo e, quando o loiro lhe lambeu os lábios, ela os abriu liberando a passagem de sua língua.

Ao mesmo tempo, abraçou seu pescoço, aproximando o próprio corpo do dele. Romênia a deitou novamente no sofá, desta vez sem objeções da parte dela. Separaram-se do beijo, enfim, por falta de ar. Fitaram-se.

— Seus olhos... – ele parou, como se ponderasse se devia ou não terminar a frase. – ...São bonitos. Não ficam bem com essas lágrimas. – disse finalmente, limpando o úmido da face dela com o indicador, fazendo-a corar, e então o descendo por seu pescoço alvo.

Foi neste momento que ela voltou o rosto para frente novamente, finalmente percebendo seu engano. Isso porque só de olhar para Romênia dava para saber que ele era o melhor de dois mundos. Era animado, tinha classe, um pouco esquentado, é verdade, e também meio cheio de si. Tinha íris púrpura, pele alva e cabelos loiros. Também podia ser meio reservado e ter todo aquele astral gótico de vampiro, mas, ao mesmo tempo, por ser um país latino, conseguia equilibrar com uma faceta até que alegre e não demasiadamente reservada.

E ela sorriu. E ele pensou que, para uma moleca, até que ela ficava muito bem sorrindo. E eles voltaram a se beijar, sem se preocupar com as conseqüências. Romênia consolaria Hungria durante aquela noite e então, pela manhã, provavelmente voltariam a brigar feito cão e gato.

Nada mais natural porquê, afinal, eles eram inimigos eternos. Mas agora também eram amantes.

Notas finais
*Cigano: romenos costumam chingar húngaros desta forma e vice-versa, embora ambos tenham igual problema com tal etnia xD Primeiríssima fic do casal! YAY
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!