Notas iniciais
kkkkkkkkk(=x)

Terça feira:P

10:00

Faltam seis dias para o colégio e o tempo está voando. Eu gostaria que minha mãe fosse uma mulher emancipada, uma feminista, uma mãe que trabalhasse fora etc., mas que também conseguisse passar minhas roupas. Pensei em usar minha saia riscada no primeiro dia de aula, com meias de elástico e minhas botinhas curtas. Ainda não me resolvi direito sobre o assunto maquiagem porque se eu topar com a Olho de Águia ela me fará removê-la na hora, se notar algo. Aí ficarei com aquela cara vermelha e brilhante que é tão popular entres os professores de Educação Física. Por outro lado, não posso de jeito nenhum me arriscar a ir para o colégio sem maquiagem. Por mais que eu passe pelas ruas secundárias, mais cedo ou mais tarde estarei fadada a encontrar os garotos de Foxwood. Minha maior preocupação é a porra da boina. Preciso consultar a turma sobre qual será nosso plano para ela.

17:00

Vamos fazer nossa reunião de emergência sobre a Boina e Outras Formas de Tortura amanhã, aqui em casa, de novo. Eu agora estou com sobrancelhas, mas elas ainda parecem duas centopéias espantadas.

19:00
Depois do chá, quando o meu pai estava lavando a louça, perguntei casualmente:
— Por que você não usa seu avental especial, pai?
Ele ficou

,0uma fera e disse que eu não devia bisbilhotar as gavetas dele.
— Acho que tenho o direito de saber se meu pai é travesti -disse eu.
Minha mãe riu, o que o fez ficar ainda mais irritado.
— Você está dando corda para ela, Connie. Você não demonstra nenhum respeito por mim, então como esperar que ela me respeite?
Ela tentou tranqüilizá-lo:
— Calma, Bob, é claro que eu respeito você. Só que é engraçado te imaginar como um travesti. — E começou a rir de novo.
Meu pai resolveu ir para o bar, graças a Deus.
Foi então que minha mãe me explicou:
— Aquele é o avental maçônico dele. Sabe, a roupa daquela turma que fica dizendo tipo uma mão lava a outra, coça minhas costas que eu coço a sua, esse tipo de coisa.
Eu sorri e concordei com a cabeça, mas não faço a mínima idéia sobre o que ela estava falando.

23:30
Por que eu não posso ser adotada? Será que é tarde demais? Será que estou muito
velha para ligar para o disque-adoção? Talvez eu arranjasse uma mãe ainda mais perua do que a minha. Deus me livre.

Quarta-Feira, 2 de setembro

cinco dias pra o purgatório

10:00
Ah, não. Ele já chegou. Numa \"oferta\" especial, meu primo James vai dormir hoje à noite aqui em casa.
Quero dizer, eu gostava dele e éramos muito íntimos quando criança e tudo o mais, mas ele agora ficou tão bobão. Sua voz é toda esquisita e ele cheira mal. Não é cheiro de hamster como o de Libby, e sim um odor que parece uma mistura de fedor de
queijo com morrinha de cachorro. Não acho que todos os garotos cheirem assim, talvez isso aconteça porque ele é meu primo.

14:00
Na verdade, James não deixa de ser divertido. Ele parece muito mais novo que eu e ainda gosta de dançar loucamente ao som de discos velhos, como a gente costumava fazer. Nós elaboramos umas coreografias baseadas em velhos discos de soul da minha mãe. \"Reach Out 1\'11Be There\" dos Four Tops, foi bastante dramático. Eram dois passos muito legais: a gente colocava uma mão no coração, a outra na cabeça, dava um bamboleio e um giro completo. Infelizmente não tem muito espaço no meu quarto e James pisou em Angus, que, como de costume, endoidou. Na verdade, o que seria estranho era dizer \"Angus ficou calmo\". De qualquer forma, ele subiu pelas cortinas e finalmente se encarapitou em cima da porta, onde ficou agachado, sibilando (isto é, estou falando de Angus, não de James). Tentamos fazê-Io descer e também tentamos ir ao banheiro, mas ele não nos deixava ir. Se tentássemos passar pela porta, ele nos golpeava com sua enorme pata. Acho que ele é metade gato, metade cobra. No fim, minha mãe conseguiu fazê-lo descer com algumas sardinhas.

19:00
Depois do \"chá\", James e eu estávamos ouvindo discos e falando sobre o que faríamos
quando a gente se livrasse dos velhos (que é como nós chamamos nossos pais). Eu vou ser uma atriz de filmes de comédia ou alguém como aquelas garotas badaladas que na verdade nada fazem além de badalar. Os jornais as seguem o dia inteiro e as manchetes dizem: Ah, olhem só Tara Tuaila saindo para comprar biscoitos!! ou Tetê Phanardzis esquiando num biquíni de pele. E elas simplesmente ganham dinheiro com isso. Isso tem tudo a ver comigo. James quer fazer algo eletrônico (seja lá o que isso quer dizer. Eu não o animei a explicar porque senti a ameaça de um coma chegando). Ele quer viajar primeiro, contudo. Eu perguntei para onde ele queria ir, pensando em lugares como o Himalaia, com manteiga de iaque, casas de ópio e todas essas coisas, e ele disse:
— Bem, queria ir para as Ilhas Scilly, especialmente.

13:00
Aconteceu algo meio estranho. Fomos para cama — James dormia num saco de dormir
em cima de umas almofadas no chão, e a gente estava conversando sobre o Pulp e coisa e tal, e aí eu senti uma pressão na minha perna. Ele tinha estendido o braço e segurado a minha perna. Eu não sabia o que fazer, por isso fiquei quietinha, para
que ele pensasse que estava segurando um pedaço da cama ou algo assim. Fiquei quieta durante séculos, mas acho que devo ter
caído no sono.

Quinta-feira, 3 de setembro

9:00

Até que enfim minhas sobrancelhas estão começando a parecer normais.

14:00
James foi para casa. O incidente com a \"perna\" não foi mencionado. Os garotos
são realmente esquisitos.

17:00
Libby ficou gripada. Estava toda pálida e se sentindo mal. Deixei que ela dormisse na
minha cama e ela estava toda entupida, coitadinha. Eu amo minha irmã de verdade.

20:00
Levei leite quente para Libby e achei que ela gostaria que eu lesse The Magic Faraway
Tree. Ela disse:
— Quero sim, agora, mais por favor. — E se sentou toda retinha na minha cama. Aí, quando abri o livro ela pegou meu edredom e assoou o nariz nele. Ficou todo cheio de catarro verde. Quem haveria de pensar que uma menininha tão pequena pudesse
produzir um balde de catarro?

22:00
Eu tive de dormir no saco de dormir. Que vida.

Sexta-Feira, 4 se setembro

11:00
A reunião de emergência sobre a Boina e Outras Formas de Tortura será realizada
esta tarde. Resolvi que minhas sobrancelhas já se recuperaram o suficiente para sair de casa (obviamente não sozinhas). Eu me sinto como um desses caras que andou preso numa solitária no porão da penitenciária e, depois de solto, fica piscando por causada luz do sol. Vamos ao Costa Riccos tomar cappuccinos. Detesto cappuccino, mas todo o mundo toma, então não tinha como recusar. Não saio há semanas — bem, cinco dias. A cidade parece ótima. Como Nova York... mas sem os arranha-céus e os americanos. A gente decidiu fazer a reunião e vamos dar uma olhada no garoto que
Jas gosta, Tom. Ele trabalha no Jenning\'s. — O quê? Ele trabalha na mercearia? — perguntei. Jas me corrigiu:
— É uma quitanda e delicatessen.
— Ah, sim, eles vendem pasta de grão-de-bico lá — disse eu.
— E iogurte — lembrou ela.
— Que dommage, eu me esqueci do iogurte. É verdade, entrar naquela loja é como ir a Paris, não fossem os nabos. Jas ficou meio vermelha, por isso achei melhor calar a boca. Jas não fica zangada com muita freqüência, mas tem um chute potente. Jools deu início à reunião:
— Vamos conversar sobre o plano da boina?

No nosso colégio idiota, a gente é obrigada a usar uma boina como parte do nosso uniforme. É um verdadeiro porre porque, como é de conhecimento geral, todo o mundo — e especialmente os franceses, que inventaram o troço — fica parecido com uma bunda idiota quando usa boina. E elas achatam o cabelo. No último trimestre, a gente aperfeiçoou um método para usá-las como se fossem uma panqueca. Você achata o troço e em seguida o prende com grampos de cabelo na parte de trás da cabeça. Ainda um saco, mas não dá para ver de frente. Ellen disse que inventara um método alternativo, chamado \"a salsicha\". Ela nos mostrou como fazer. Enrolou sua boina bem apertada, como uma pequena salsicha e a seguir prendeu-a atrás, bem no centro da cabeça. Mal dava para ver. Brilhante. Decidimos lançar a \"Operação Salsicha\" no início do trimestre. Essa questão das boinas tem sido uma batalha constante. Os assim chamados adultos não querem negociar com a gente. Mandamos uma comissão até a sala da diretora Fininha (assim chamada porque pesa cento e quinze quilos ... pelo menos. Os pés dela chegam a escapar dos sapatos). A comissão perguntou por que a gente era obrigada a usar boinas. Ela disse que era para manter um alto nível, e para realçar a imagem do colégio diante da comunidade. E eu disse que os garotos da Foxwood gritavam \"cadê as baguetes?\", chamando a gente de balconistas de padaria
quando passávamos por eles e, por isso, achava que eles não nos respeitavam. Pelo contrário. Achava que eles nos gozavam e nos faziam passar vergonha.

Fininha se sacudiu. Era uma espécie de cacoete que ela tinha quando ficava irritada com a gente (i.e., o tempo todo). E que a fazia parecer uma gelatina de sapatos.
— Georgia, essa é minha palavra definitiva sobre esse assunto. Boinas devem ser usadas a caminho da escola e de volta para casa. Por que não pensa em algo mais importante, como por exemplo não tirar nota baixa em comportamento no próximo trimestre? Ah, está certo, o mesmo disco arranhado de novo. Só porque
eu sou garota empolgada. Fizemos outra campanha no ano passado, cujo título era: \"Se

vocês querem que usemos nossas boinas, vamos usá-las para valer.\" Isso consistiu em toda a nossa turma puxando suas boinas para baixo na cabeça, até ficar só com as orelhas de fora. Era muito chocante ver cem meninas no ponto de ônibus só com as
orelhas aparecendo. Finalmente paramos (apesar de termos deixado a Fininha e a Olho de Águia superirritadas) porque fazia um calor tremendo, a gente não conseguia ver direito para onde ia, e nosso cabelo ficava todo bagunçado.

Acabou a reunião e é hora de dar uma olhada nos garotos. Jas ficou um pouco nervosa de nós todas entrarmos na loja. Na verdade, ela ainda não trocou nem uma frase com Tom — bem, pelo menos nem uma frase diferente de \"um quilo de verduras\".
Resolvemos ficar de bobeira do lado de fora e aí, quando ela entrasse, a gente casualmente a reconheceria e entraria na loja dizendo \"oi\", Tudo isso seria casual e nos daria a oportunidade de passar os olhos nele e também dar a impressão (errada) de que Jas é uma pessoa superpopular. Jas foi ao banheiro para passar um pouco de corretivo para manter o aspecto \"natural\" e depois entrou no Jenning\'s. Dei
cinco minutos de intervalo e fui a primeira a entrar pela porta da loja.

Jas estava falando com um garoto alto e moreno de jeans. Ele sorria ao entregar cebolas. Jas estava um pouco vermelha e mexia na sua franja. Esse cacoete é muito irritante. De qualquer forma, eu dei uma parada e disse num tom de alegria e espanto
(que chegou até a me convencer):
— Jas! ... Oi! O que você está fazendo aí? — E lhe dei um abraço muito caloroso (conseguindo dizer no ouvido dela: \"Pára de mexer nessa porra de franja!\").
Quando parei de abraçá-la, ela disse:
— Oi, Gegê, eu estava comprando umas cebolas.
Eu ri:
— Bem, cebolas são com você mesma, não é, Jas?
Aí entraram Ellen e Jools de braços abertos, dando guinchos de excitação:
— Jas! Jas! Que ótimo! Puxa, a gente não te vê há séculos. Como estão as coisas?
Nesse meio tempo o garoto, Tom, ficou ali parado. Jas disse para ele:
— Ah, me desculpe por fazer você esperar. — E ele falou apenas um \"sem problema\", e Jas perguntou a ele quanto devia e depois se despediu:
— Então até mais, obrigada. — E ele lhe respondeu com um \"até mais\". Nós saímos depois disso e, quando chegamos a alguns metros de distância, não dissemos nada. Meio que espontaneamente começamos todas a correr o mais depressa possível, rindo.

Acabei de falar com Jas no telefone. Ela acha Tom ainda mais espetacular, mas não sabe se ele gosta dela, de modo que a gente precisa passar por tudo aquilo de novo.
Dava para ouvir O pai de Jas ao fundo, gritando:
— Se vocês vão se ver amanhã, não dá para esperar e ter dó da minha conta telefônica?
Os pais são todos iguais — todos miseráveis. Bem, deixa para lá. Jas continuou falando:
— Ele disse \"até mais\".
Concordei, mas acrescentei pensativamente:
— Mas ele pode dizer isso para todo mundo, pode ser tipo um \"até logo\".
Isso a aborreceu:
— Você quer dizer que acha que ele não gosta de mim?
— Não falei isso. Talvez ele nunca diga até mais, a não ser que queira dizer, \"te vejo depois\".
Ela ficou animada:
— Então você acha que ele quis dizer \"te vejo mais tarde\"?
— É.
Ela ficou calada durante algum tempo. Dava para ouvi-Ia mastigando o chiclete. Então, ela começou de novo:
— Mas \"depois\" será quando?
Francamente, assim a gente ia ficar a noite inteira ali.
— Jas, EU NÃO SEI. Por que não resolve você quando será esse \"depois\"?
Ela parou de mastigar.
— Você quer dizer que eu devo convidá-la para sair?

Sábado, 5 de setembro

10:00
Mesma bat hora. Mesmo bat lugar.

10:15
Jas ligou. Ela quer lançar a \"Operação Agarre Tom\". Vamos ao \"Costa\" para um planejamento mais detalhado.

10:30
Lalalalalá. A vida é tão formidável. Lalá. Cheguei até a por delineador sem enfiar o
pincel no meu olho. Também experimentei meu lápis de boca novo e acho que fez com que meu nariz parecesse definitivamente menor. Num raro momento, compartilhei minha ansiedade nasal com a minha mãe.
— A gente costumava usar leves toques de tons mais claros e mais escuros para criar um efeito sombreado. Você podia pôr uma leve linha de base no meio e depois escurecer alguns pontos do lado para estreitá-lo — disse ela.
Resposta errada, mãe. A resposta certa seria: \"Você é linda, Georgia, e não tem nada de errado com seu nariz.\"
Eu não disse isso a ela, não lhe dei essa satisfação. Em vez disso, falei, com a boca cheia de torrada, para depois poder negar se fosse preciso:
— Mãe, eu não quero ficar como você e suas amigas eram. Eu vi as fotos e ninguém quer mais parecer com as cantoras do Abba.

11:00
A Sra. Vizinha reclamou de novo de Angus. Ele anda aterrorizando o poodle dela. Ela diz que Angus o espreita. Expliquei que ele era um gato selvagem escocês, e é isso que eles fazem, espreitam suas presas.
— Então, nesse caso, eu não acho que ele deveria ser um animal
de estimação — comentou ela.
— Ele não é um animal de estimação, acredite em mim. Tentei
domesticá-Io, mas ele comeu a coleira. Há pouca coisa a ser feita no caso de Angus.
Sinceramente, será realmente meu carma ter que lidar com vizinhas histéricas? Por que ela não arranja um cachorro maior? Aquela coisa burra e esganiçada irrita Angus.

13:00
Apesar de tudo, é melhor eu ser simpática, senão serei acusada de ser mais uma \"adolescente tempera mental\" e o próximo passo será um \"toe toe toe\" na nossa porta e minha mãe perguntando se eu estou precisando conversar. Os adultos são tão enxeridos!

13:30
Fui até o vizinho e perguntei à Sra. Chatinha Bestinha se ela queria alguma coisa
do comércio, já que ia fazer compras. Ela meio que se escondeu atrás da porta. Preciso ser mais legal. Começo a ser simpática e aí é como se outra pessoa tomasse o controle. Será que além de lésbica eu sou esquizofrênica?

14:00
Jas ligou. Ela quer que eu a ajude com a segunda parte de seu plano de agarrar
Tom. O plano é sutil. Jas e eu vamos até o Jenning\'s e, ao passarmos pela porta, darei uma paradinha e direi: \"Ah, Jas, acabei de lembrar que tenho que comprar maçãs. Espere um instante.\" Em seguida, entro na loja e compro as frutas. Jas fica atrás de mim, com um jeitinho displicentemente atraente. Eu sorrio quando
Tom me entrega as frutas e aí — esse é o golpe de mestre (ou, na verdade, como a idéia foi minha, o golpe de mestra) — eu digo:
\"As aulas começam dentro de dois dias. De volta ao Stalag 14. Qual o centro de tortura e chatura que você freqüenta?\" (Significando, qual o seu colégio, compreenderam?) Aí ele me diz e ficamos sabendo como encontrar com ele por acaso.

Bem, chegamos ao Jennings e lá estava Tom — Jas ficou meio tonta. Ele é um gato, devo dizer, com cabelos meio encaracolados e um ombro que é tudo de bom. Eu disse meu \"Espera aí, Jas, eu preciso comprar umas maçãs\", e entramos, de maneira que ela pudesse ficar atraentemente recuada em relação a mim, conforme planejado.
Quando ele a viu, Tom olhou e sorriu. Pedi minhas maçãs e ele disse:
— E aí, estão ansiosas para voltar para o colégio? (Espera aí um instante, essa era a minha fala. Mas, como estudei teatro durante quatro anos, pude fazer um improviso):
— Será que o papa detesta os católicos?
Ele sorriu. Na realidade eu não quis dizer nada sobre o papa, a coisa simplesmente escapuliu.
— Qual o colégio de vocês? — Tom continuou.
Eu estava a ponto de contar para ele quando um Deus do Sexo emergiu do quarto dos fundos. Juro que ele era tão espetacular que fazia a gente piscar e abrir a boca como um peixinho de aquário. Era muito alto, tinha cabelos escuros compridos, olhos azul-escuros de uma tremenda intensidade, lábios grossos e estava vestido todo de preto. (E isso é tudo de que eu me lembro!) Ele aproximou-se de Tom e lhe entregou
um xícara de chá. Tom agradeceu e o Deus do Sexo falou:
— Não posso deixar meu irmãozinho aí ralando, servindo
maçãs para garotas bonitas, sem nem uma xícara de chá. — Aí,
ele PISCOU O OLHO para Tom, SORRIU para mim e saiu pelos fundos. Eu fiquei só ali, olhando para o espaço onde o DS estivera, agarrada a minhas maçãs.
— São quarenta pence. Vocês me disseram qual o colégio de vocês? — perguntou Tom.

Saí de meu transe e torci para que não estivesse babando.
— Eh... Eu... — E não consegui me lembrar.
Jas olhou para mim como se eu tivesse enlouquecido e disse:
— Ah, estudamos na mesma escola há quatro anos, a Latimer and Ridgley. Qual o seu?

10:00
Ainda estou em estado de choque. Acabei de encontrar a Maravilha. E ele é irmão de
Tom. E ele é espetacular. Ele me viu de boca aberta. Mas felizmente, de sobrancelhas. Ah, meu Deus! Enfermeira, rápido, o biombo!!

19:05
Tentei abrir minha boca no espelho tal como imaginei ter feito na loja. Não me dá
um aspecto muito inteligente mas também não aumenta meu nariz nem um pouquinho, o que é uma vantagem (de certa forma).

1:00
Quantos anos ele deve ter? Preciso amadurecer mais rápido. Começarei amanhã.

Domingo, 6 de setembro

8:00

Quando entrei na cozinha, o meu pai deixou cair sua xícara numa demonstração (não) hilária de espanto pelo fato de eu ter acordado tão cedo.
— O que aconteceu, Gegê, sua cama pegou fogo? Está febril?
Ainda não é meio-dia, por que levantou?
— Desci para tomar um copo de água morna, se isso não for ofender ninguém. (Beber um copo de água morna faz uma limpeza gigante no organismo, preciso evitar um ataque de espinhas a todo custo.)
Minha mãe estava se despedindo:
— Bem, lá vamos nós. Libby, dê um beijo na sua irmã mais velha antes de sairmos. — Libby me deu um grande beijo estalado, muito legal só que meio lambuzado de mingau. Contudo, preciso perseverar.

8:00
Terminei o programa de ioga da Nova para se obter paz interior e auto-segurança. Juro me levantar uma hora antes da hora do colégio e fazer as doze posições da \"Saudação ao Sol\". Me sinto ótima e quase um metro mais alta. O Deus do Sexo não será capaz de resistir à minha nova, radiante e feminina personalidade.

16:00
Acabei de descobrir que Libby usou meu último absorvente para fazer uma rede para suas bonecas.

16:30
Ela também usou toda a minha base cremosa Starkers no seu panda, cuja cabeça está toda bege agora.

17:00
Não tenho outra base nem dinheiro para comprar uma nova. Talvez tenha que matar minha irmã.

17:15
Não. Paz. Ohm. Paz Interior.

20:00
Aahhh. Quem cedo dorme cedo madruga.

21:30
Acordei com um susto. Achei que já fosse hora de levantar.

Meia-Noite
Deveria ou não usar minha saia lápis amanhã?

Segunda-Feira, 7 de setembro

8:30

Dormi demais e tive de correr para pegar uma carona com papai até a casa de Jas.
Não tive tempo para a ioga nem para a maquiagem. Ah, começo amanhã. Só Deus sabe como o Dalai Lama se vira no dia-a-dia. Ele deve acordar ao amanhecer. Na verdade, li em algum lugar que ele acorda mesmo ao amanhecer.

8:45
Jas e eu corremos feito umas loucas ladeira acima até o portão do colégio. Achei que
minha cabeça fosse explodir, meu rosto estava todo vermelho, e também lembrei na hora que não estava com minha boina. Dava para perceber a Olho de Águia no portão do colégio, de forma que não havia tempo para o método da salsicha. Eu simplesmente
enterrei-a na cabeça. Merda, merda, ufa, ufa. Enquanto eu corria até o portão, esbarrei de repente no Deus do Sexo. Ele estava DIVINO no seu uniforme. Estava com seus colegas, dando risadas e andando todo descolado por ali. Ele me olhou e disse:
— Você é esforçada. — Tive vontade de morrer.

9:00
Minha única esperança é que a) ele não tenha me reconhecido e b) se o OS me reconheceu, que ele goste de garotas que têm um visual \"encharcado, estúpido e idiota\".

9:35
Depois da assembléia, corri para o banheiro e me olhei no espelho. Meus piores
receios foram confirmados: eu sou uma monstrenga! Olhos pequenos e inchados, cabelo tão emplastado que parece estar grudado no crânio. Um nariz vermelho IMENSO. Pareço um tomate vestido com o uniforme da escola. Bem, fazer o quê...

16:00
O sinal acabou de tocar. Que ótimo, agora posso ir para casa e me matar.

19:00
Na cama. Tio Eddie disse que há uma força invisível e inexplicável agindo aqui dentro
do quarto ... Bem, se esse negócio for mesmo verdade, por que escolheu logo a mim como vítima?

Terça-Feira, 8 de setembro

8:00
Mais uma vez sem tempo para a minha ioga. Não que isso ainda importe. Consegui pôr a minha boina-salsicha e passar gloss e corretivo. Nada melhor do que dar uma enfeitada no pavão, mesmo que tudo já esteja perdido.

8:20
Estou ficando muito comportada! Logo cedo já estava na Jas. Dessa vez, nós duas
estávamos prontas na hora certa. Subimos a ladeira batendo o maior papo e morrendo de tanto rir. Dávamos tchauzinho para os amigos (bem, na verdade, a gente dava tchauzinho para qualquer um que passasse na rua para dar a impressão de que éramos muito populares). Andamos mais devagar quando estávamos perto do portão e, apesar de a mesma turma de garotos da Foxwood estar lá comendo as meninas com os olhos, não havia nem sinal do Tom e do DS.

9:30
Eu tinha esquecido a grande merda que é o colégio. Na aula inaugural houve um pouco
de conversa antes de Fininha assumir o palco. Sabe o que ela disse? \"Sosseguem garotas, sosseguem.\" Como se a gente fosse um bando de pombas, de pássaros, ou sei lá o quê. Já começou estabelecendo seu regime fascista quando disse que soube que
algumas meninas não estavam usando suas boinas quando chegaram ao colégio. Ela gostaria que as meninas mais velhas dessem o exemplo para as mais novas, em vez de o inverso. Será que minha vida se resume a isso agora? Falar sobre boinas? Enquanto
um Deus do Sexo perambula por aí? Deu vontade de gritar na frente de toda a escola: \"Vá lamber sabão, Fininha!!! Vá lamber o diabo ... Já estou cheia de você!!\" Mas a Olho de Águia não parava de me encarar. Sei que ela estava pensando nos gafanhotos. Ela vive me observando. Parece uma ave de rapina. Não acho que vou conseguir suportar mais esse negócio, e são apenas nove e meia.

17:00
Que pesadelo! Jas, Ellen, Jools e eu NÃO PODEMOS MAIS sentar juntas atrás da
sala. NÃO DÁ PARA ACREDITAR. Pelo contrário, me puseram ao lado da Pamela \"Lesada\" Green. É mais do que um ser humano pode suportar. A nauseabunda P. \"Lesada\" Green é tão chata que dá vontade de cortar os pulsos só de olhar para ela. Além do mais, a Olho de Águia é a professora da nossa turma. Quelle horreur e três vezes merda. E tem física na última aula de sexta à tarde. Como assim?

Quarta-feira, 9 de setembro

8:40

Aperfeiçoei uma maneira de botar delineador sem que ninguém perceba que estou
usando delineador. Nenhum sinal dos garotos.

13:00
Depois do almoço Alison Peters e Jackie Mathews apareceram. Estavam fumando e
devo dizer que elas são garotas vulgares, mas evidentemente não posso dizer isso para elas já que não quero levar uma surra, ou que ponham chiclete nos meus tênis.
— Vamos fazer uma coisa nova amanhã, é um negócio tipo Aleister Crowley, por isso vocês podem encontrar com a gente na sala 5C amanhã, depois do último lanche — disse Jackie. Que beleza, valeu mesmo. Boa noite. É claro que é estritamente proibido permanecer no colégio depois do último lanche. Pressinto algo... o que será? Ah sim, minha primeira nota vermelha por indisciplina que vem aí.

18:00
Será que minha vida acabou? Foi só isso? Lá embaixo meus pais estão rindo de alguma coisa e no outro quarto Libby está brincando com suas bonecas, dá para ouvi-Ia falando com elas. É tão triste que ela seja tão nova e não perceba a tristeza que a espera mais tarde. É por isso que é tão triste, dá para ouvir sua vozinha murmurando... o que está dizendo...?
Ah, é \"pobre Georgia, pobre Georgia\".

Quinta-Feira, 10 de setembro

17:00

Dia chato no colégio, e aí vou para minha vida ainda mais chata em casa. Eu queria
bater papo com a Jas, mas ela teve que ir ao dentista. A palhaçada tipo Aleister Crowley de Jackie e Alison foi adiada nessa hora do lanche, graças a Deus. Passaram uma mensagem na aula inaugural que Jackie tinha faltado porque estava doente. Ela começou a usar dispensas por motivo de doença muito cedo no trimestre. De qualquer modo, estamos livres por alguns dias de seja lá o que for que elas tinham em mente. Acho que elas usam drogas. Tranqüilizantes para cavalos, provavelmente.

Terça-Feira, 15 de setembro

16:30

Absolutamente nenhum sinal do DS. No entanto, descobri alguns fuxicos porque os pais de Katie Steadman conhecem os pais do DS de algum clube de carteado
brega freqüentado por gente velha. Parece que ele se chama Robbie Jennings — seus pais, o Sr. e a Sra. Jennings são os donos da loja — a assim chamada mercearia-delicatassen, segundo Jas. Normalmente eu não vou muito com a cara de Katie Steadman. Ela é legal, mas me dá a impressão de me achar meio superficial. Ela é superalta, posso afirmar, e o cabelo dela é bonito, mas ela é do tipo esforçada demais. Vive levantando a mão durante a aula, por exemplo. E ela faz isso porque quer. Katie não levanta a mão de qualquer jeito, deixando os dedos pendurados, o que é sinal de alguém que está sendo obrigado a levantar a mão porque essa é
uma imposição fascista, mas, na realidade, faria de tudo para não ter de estar ali, com a mão erguida. Dei para levantar minha mão apontando um dedo para frente — sabe, como quando uma pessoa escorrega na rua e todo o mundo aponta e ri. Mas como acontece sempre, qualquer sinal de humor é reprimido ferozmente nesse
lugar. A Olho de Águia logo resolveu me dar uma bronca:
— Georgia, se você está cansada demais para levantar a mão direito, talvez fosse melhor ir dormir mais cedo... ou será que talvez escrever alguns milhares de linhas não fortaleceria seu punho?

Talvez eu experimente a coisa em Herr Kamyer — ele é nosso professor de alemão e física, e o único ponto de luz nesse inferno. Ele possui o duplo valor hilário de ser alemão e o único professor homem num colégio só de meninas.

20:00
Achei que ouvir música clássica talvez fosse calmante, mas na verdade isso me
deixa irritada. Esse tipo de música não tem nenhuma melodia de verdade.

20:05
Adoro a vida!!! Jas acabou de ligar para dizer que fomos convidadas para uma festa
na casa de Katie Steadman e... Katie convidou Tom e Robbie. SSSSIM!!!! Devo ter me saído muito bem sendo simpática com Katie. QUE DROGA DE ROUPA DEVO USAR??? Emergência, emergência! Só faltam umas duas semanas.

20:10
É melhor fazer minha ioga.

20:15
É melhor começar a aplicar máscaras faciais agora.

20:20
Será que se eu dormir com um grampo no nariz, como Amy em Adoráveis mulheres,
ele ficará menor? Por que a minha mãe não escolheu um marido com uma tromba menor?

20:30
Perguntei à minha mãe por que ela se casou com o meu pai (ele estava jogando boliche com tio Eddie — veja só). Ela pensou um pouco e respondeu:
— Ele me faz rir.
Ele a faz rir! Bem, Bart Simpson me faz rir, mas não vou casar com ele.

Meia-Noite
Hahahahahahahahaha.

Segunda-Feira, 21 de setembro

8:00

Faltam onze dias para a festa.

Terça-Feira, 22 de setembro

9:30

Alguém peidou durante a assembléia da escola esta manhã (desconfio da P. \"Lesada\"
Green). Seja lá quem foi, foi muito alto e durante o momento de silêncio em que tínhamos de meditar sobre todos os pobres. E não foi nem um rapidinho, e sim um daqueles de fazer tremer os joelhos. Jas, Ellen, Júlia e eu quase morremos de tanto rir, aliás a maioria das pessoas também. Ri a maior parte do dia e agora
estou com a barriga doendo.

Quinta-Feira, 24 de setembro

17:30

Na cama. Definitivamente congelada. Devo estar com tuberculose. Estou falando
sério. Está claro que a Srta. Stamp, além de ser obviamente lésbica, é uma pervertida sexual. Por que outra razão uma pessoa iria obrigar garotas vestindo shorts de ginástica a perseguirem bolas com tacos? Ela chama isso de hóquei — já eu chamo esse negócio de viagem doente de uma mente mais doente ainda. Se eu perder essa festa por causa daquela vadia lésbica da Srta. Stamp, EU MATO!!! EU MATO AQUELA SAPATONA!!!

Sexta-Feira, 25 de setembro

10:00
Uma visão, afinal!! A caminho para o colégio, avistamos Tom. Chegou até mesmo a
parar para conversar.
— Oi, estão alegres? — disse ele.
— Sim, que maior alegria a gente podia ter do que passar oito horas todo dia junto com um bando de sádicas piradas? — eu respondi. Ele riu e disse diretamente para Jas:
— Você vai à festa de Katie?
Jas ficou toda branca e vermelha, depois a cara dela ficou tipo rosa-branca, exceto pela ponta de seu nariz, que continuou vermelha. Preciso me lembrar do seu aspecto para depois contar a ela.Jas finalmente conseguiu responder e ele disse:
— Bem, estou doido para te encontrar lá.
Jas entrou em êxtase.
— Você ouviu o que ele disse?
-Sim.
— Ele disse: \"Você vai à festa de Katie?\"
-Sim.
— Ele disse: \"Bem, estou doido para te ver lá.\"
— A gente já lembrou isso.
— Ele disse \"Estou doido para te ver tá\".; para mim! Ele disse \"você\" querendo significar que era eu.
— Eh, Jas.
-Sim.
— Quer calar a boca agora?

17:00
Ela não calou, no entanto. Herr Kamyer não deu aula de física porque estava gripado. Merda, merda. Quando é que vou poder me divertir? Sacré bleu.

Sábado, 26 de setembro

10:00
Fui dar um passeio melancólico e outonal com Libby no seu carrinho. Ela cantava:
\"Sou a rainha. Ah, sou a rainha.\" Não quis tirar as asas de fada que eu fiz para ela. Foi um pesadelo conseguir que ela entrasse no carrinho. As nuvens corriam pelo céu mas fazia bastante sol e estava friozinho. Eu me animei o suficiente para engrossar a cantoria de Libby. Ambas gritavam \"sou a rainha, ah, sou a rainha!\" e foi então que ele saiu de um carro vermelho. Robbie. O OS. Ele me viu e disse:
— Ah, oi, a gente se conhece de antes, não é? Eu dei um sorriso radiante, tentando não deixar que meu nariz se esparramasse por todo o meu rosto. É uma questão de
relaxar a boca, botar a língua por trás dos dentes posteriores, porém dilatando ligeiramente as narinas para que elas não saiam de controle. Ele me olhou de modo meio estranho.
— Maçãs — respondi de forma espirituosa.
— Ah, sim — lembrou-se ele -, a loja, você e sua amiga.
Ele sorriu de novo. Tinha um ar sonhador quando sorria. Aí ele se inclinou para Libby, que, fiel a si mesma, lhe lançou um de seus terríveis olhares do tipo \"sou uma criança louca\". Ela contou:
— Sou a rainha.

- É? — Robbie perguntou (ohhhh, ele é tão adorável com crianças).
— É, eu sou a rainha e Georgia fez um cocozão esta manhã.
Eu não conseguia acreditar. Ele não conseguia acreditar. Ninguém conseguia acreditar. Era inacreditável, eis o motivo. Ele se levantou depressa e eu me despedi:
— Eh, bem, eu vou indo.
— Sim, a gente se vê.
E pensei: \"Lembre-se de Sharon Stone, lembre-se de Sharon Stone.\" Por isso, eu disse:
— Tudo bem. É provável que a gente se veja na festa da Katie.
— Não, eu não vou, vou fazer outra coisa na noite dessa festa — ele informou.

19:00
\"Não, eu não vou, vou fazer outra coisa na noite da festa.

19:05
Não, eu não vou, vou fazer outra coisa na noite dessa festa.\"

19:06
Será que a vida pode ser pior?

20:00
Pode sim. Meu pai acabou de meter a cabeça pelo vão da porta e disse:
— James vem aqui amanhã. Pensamos em ir passar o dia no Stanmer Park.

Domingo, 27 de setembro

22:00

James tentou me beijar!!! Que nojento. Ele é meu primo. Isso é incesto. Não consigo nem pensar senão vou enjoar. Bleaarg bleaarg.

22:05
Aconteceu no meu quarto depois de um dia horriblement desperdiçado andando de bobeira pela porra de um parque. Que idade eles pensam que eu tenho? Me obrigaram a ir numa gangorra. Eu, é claro, puxei o fio da minha meia-calça nova. Então, vamos a um resumo de minha adorável saída ... Puxei o fio da minha meia-calça, depois fui atacada pelo meu primo. Perfeitamente. No meu quarto!!!

22:07
Quando voltamos, James e eu estávamos ouvindo discos e lendo velhos livros de piadas e de repente ele desligou a luz e disse:
— Vamos brincar de ursinhos coceguentos? Ursinhos coceguentos!! A gente costumava brincar disso quando tínhamos cerca de cinco anos. Uma pessoa era o ursinho coceguento, perseguia a outra e fazia cócegas nela e eh ... era isso. Eu fiquei tão chocada (e também não conseguia ver xongas no escuro) que fiz um som tipo \"Hummmm\", e então ele disse:
— Ahã, te peguei! — E começou a fazer cócegas em mim. Foi o maior mico. Mas não terminou por aí. De repente, uma coisa meio molhada tocou no meu rosto, perto do nariz. Eu pulei como um salmão e cambaleei até a luz. James se endireitou mais ou menos, pegou um livro de piadas e começou a ler. Por isso eu fiz o mesmo. Em seguida, meu pai levou ele para casa. O incidente da coisa molhada no nariz jamais foi mencionado. Tal como a perna. Eu acho que não conseguirei suportar isso tudo por muito mais tempo.

Segunda-Feira, 28 de setembro

11:00

Durante o recreio contei tudo a Jas e Jools. Elas disseram:
— Bleaarg, isso é realmente nojento. Seu primo? Que tristeza. Jools contou que ela já vira o \"bilau\" do irmão dela várias vezes. Ela comentou que o troço era bem bonitinho, mas que, na verdade, parecia um camundongo. Ela vive num mundo próprio
(graças a Deus).
— Bem, nos abençoe a todas, pequeno Tim, todas sem exceção — acabo dizendo

16:15
No caminho para casa tive vontade de matar Jas. Ela está toda empolgada com a
festa e talvez eu agora não vá mesmo. Jackie e Alison nos pegaram no caminho para casa. Jackie estava maquiada demais e o cabelo dela estava todo penteado. Quando passamos pelos banheiros no parque ela nos fez vigiar enquanto trocava o uniforme
do colégio.
— Vou sair para as boates — disse ela de dentro do banheiro,
me confundindo com alguém que tinha algum interesse no que ela fazia.
— Eu nunca soube de boates que abrissem às quatro e meia da tarde — disse eu.
Ela gritou lá de dentro:
— Não seja tapada! — (Eu a detesto, detesto.) — Vou para a casa de uma amiga minha para me arrumar, me maquiar e tudo mais. Se maquiar? Se ela se maquiar mais, mal poderá agüentar o peso da cabeça.
Ela surgiu numa espécie de top de cetim e calças apertadas; parecia ter vinte e cinco anos mais ou menos.
— Tenho um encontro marcado com o DJ da Loveculture — ele é tão descolado. Acho que deve ter uns trinta anos, mas gosto de homens maduros.
Depois delas terem ido eu continuei a andar com Jas.
— Você acha que Jackie já transou? — perguntei.
— Olha coloque a coisa da seguinte forma ... Será que a Rainha Mãe era muito velha quando morreu? — Às vezes Jas é excepcionalmente pirada. Para comprovar minha afimação ela continuou — Gemma Crawford estava me contando que ela conhece um garoto que dá aulas de beijar. Você acha que a gente devia ir a ele antes da festa?

Eu simplesmente olhei para ela.
— Jas você está sugerindo que a gente vá a um prostituto?
— Ele só pratica o beijo e não custa nada — Jas prosseguiu.
Eu apenas suspirei.

22:00
Deitei em cima de meu braço até ele ficar dormente e aí levantei ele (com o braço não
dormente) até meus seios. Eu queria ver como era a sensação de ter uma mão estranha em cima deles. Era bastante agradável, mas que sei eu? Estou tão cheia de impulsos estranhos que é difícil pensar direito. Será que eu devia usar meu sutiã na festa?

22:05
Argh, é horrível quando a sensação começa a voltar no seu braço depois de ter estado
dormente.

23:07
Beijar a parte de cima da mão não adiantanada porque você não consegue destinguir
uma coisa da outra — o que são os lábios e o que é a mão -, de forma que você não consegue ter uma sensação decente de qualquer dos dois. Será que os garotos têm esse problema ou simplesmente sabem fazer o troço?

23:15
\"Não\" é a resposta, se o incidente do \"urso coceguento\" serve para indicar alguma coisa.

Terça-feira, 29 de setembro

8:30
Biologia. Aula dupla de matemática. Francês e geografia. Ninguém merece!

no meu quarto

18:00
Que fiasco. Jackie e Alison decidiram que hoje era o dia para o lance do Aleister 18:00
Crowley na sala 5C. É espantoso como são poucas as pessoas que resistem a
elas, inclusive as professoras. Todos nós nos dirigimos a 5C depois do último lanche. Isso em si já dá o maior trabalho — você precisa ficar um tempão perto da porta principal até a barra estar limpa, depois correr até o banheiro de baixo, verificar se também está tudo limpo ali e finalmente subir um andar igual a uma bala, e assim por diante, até o quinto pavimento. Eu estava morta quando cheguei lá. Havia sete de nós em condições físicas excepcionais — i.e., tossindo e arfando violentamente.
Jackie disse que íamos fazer um ato de levitação por meio de magia negra, convocando a ajuda das forças negras. Ah, que bom, vamos invocar o demônio. Que irado.

O que estou fazendo, pensei, ah, o que estou fazendo aqui? Talvez se a gente for forçada a se comunicar com o demônio eu pudesse fazer uma barganha com ele, trocar a alma do meu pai por seios maiores para a festa na sexta-feira. Abby Nicols \"se ofereceu\" para ser a sacrificada e teve de se deitar em cima de uma mesa. Jackie cuidou de sua cabeça e Alison de seus pés e aí o restante de nós se espalhou por igual em
volta dela. Jackie pediu:
— Por favor fiquem muito quietas e se concentrem, estamos invocando forças negras. Ponham um dedo de cada mão sob o corpo de Abby e aí começaremos. ) Todas fizemos conforme nos disseram para fazer. Então Jackie fechou seus olhos e começou a cantar numa voz baixa e rouca.
— Ela está com uma má aparência. Ela está com uma má aparência ... — E todas nós tivemos de repetir o que ela dissera, uma a uma em volta da mesa, até que Jackie continuou. — Ela está com uma aparência pior. Ela está com uma aparência pior.
Ela está com uma aparência pior.
Na verdade, ela estava com uma aparência meio ruim a essa altura. Isso continuou por uns cinco minutos enquanto o estado de saúde de Abby piorava. Finalmente Jackie sussurrou:
— Ela está morrendo. Ela está morrendo ... — Todas nós repetimos.
— Ela está morta. Ela está morta. — Com certeza ela não parecia nada bem e estava rígida como uma tábua. Eu não conseguia ouvir a respiração dela. Então, Jackie disse:
— Ajude-nos, oh senhor, a fazer Abby Nicols subir. — E ordenou para nós: — Levantem ela. — E foi realmente fantástico , extraordinário, porque eu levantei ligeiramente meus dois dedos e ela tipo se ergueu com facilidade mesmo, como se fosse realmente leve como uma pena. Ela subiu acima de nossas cabeças. Foi estranho.

Depois de uns poucos minutos todas nós ficamos simultaneamente
apavoradas e a deixamos voltar pesadamente para mesa. Isso pareceu despertá-Ia um pouco, porque, quando saímos correndo, a ouvi dizendo:
— Acho que quebrei minha bunda.

23:00
Acordei assustada porque ouvi a porta do quarto se abrir. Simplesmente se abriu
sozinha...

Quarta-feira, 30 de setembro

7:30
Não consigo mexer com minha cabeçapara os lados porque fiquei sentada a noite inteira na cama e agora dei um jeito no pescoço.

13:00
Gemma disse que seu amigo Peter Dyer, o beijoqueiro profissional, vai estar lá pelo
colégio amanhã, depois das aulas. Basta a gente ir na casa dele e bater à sua porta, depois de quatro e meia e antes das seis e meia, que é quando seus pais chegam em casa. Parece que quem aparece primeiro recebe o serviço primeiro. Como será que
chegamos a esse ponto?

21:00
Tive que discutir de novo com Jas o que ela vai vestir na sexta. Ela pode ir pelada se
quiser, pois estou me lixando.