My Destiny
1 This is my destiny...
Notas iniciais
Eu prometera a ela. Prometera que voltaria para seus braços após trazermos a vitória na guerra. Os tempos eram difíceis, mas éramos capazes de achar a felicidade um no outro mesmo assim. Havíamos nos casado há pouco mais de seis meses, e nosso primeiro filho já estava a caminho, a barriga de Freya já bastante evidente. Estávamos radiantes e eu esperava poder voltar antes do nascimento de nossa criança. Deixei-a no abrigo que nossa aldeia tinha para proteger as mulheres e crianças enquanto os homens estivessem nas batalhas. Eu prometera que ela permaneceria segura, sem sofrer ataques de nossos inimigos. Prometera que voltaria antes do nascimento do nosso bebê. Prometera que voltaria são e salvo para ser feliz ao seu lado. Prometera a vitória. Não cumpri nenhuma dessas promessas.
Agora estou aqui, completamente perdido, sem rumo algum. Certamente fui amaldiçoado pelos deuses para que tamanhas desgraças se abatessem sobre mim. Não tenho Freya. Não tenho nosso Frey. Não trouxe a vitória prometida. Ferimentos de guerra são visíveis por todo o meu corpo e já não tenho mais nada que torne minha existência suportável neste maldito vale de sombras e sofrimento em que vivo.
Quando chegamos ao abrigo, aqueles que conseguiram sobreviver pelo menos, o cenário que encontramos era terrível. As tendas erguidas dentro da caverna foram queimadas até o chão, corpos mutilados e carbonizados jaziam pelo local, normalmente em grupos dolorosos de se ver, onde um ou dois corpos maiores estavam abraçados a alguns pequenos. Nossas mulheres e crianças, todos mortos. Senti minhas pernas falharem e cai de joelhos em meio às cinzas no chão. Estava no local destinado a cuidar das crianças e mulheres doentes. Em um canto, um corpo adulto agarrado a um muito pequeno. Um bebê recém-nascido. Freya era a única mulher grávida na aldeia quando partimos, e àquela altura, se estivessem vivos, nosso bebê teria dois meses. Não pude me controlar, e logo o pranto era de grande intensidade. Pedia aos deuses que eles estivessem bem, e questionava o porquê de levarem-nos. No início eu gritava, fora de si, mas logo isso se transformou em um sussurro acompanhado pelas minhas lágrimas. E então eu a vi. Seu lindo sorriso e seus belos olhos azuis como a água cristalina de um rio. Via seu rosto embaçado pelas lágrimas, mas era ela, eu tinha certeza. Ela se ajoelhou à minha frente e tocou meu ombro, provocando uma sensação estranha.
— Não se culpe querido. Não poderia evitar nada, e não se preocupe, não sofremos. Eu o amo e te espero.
E então ela se foi. Lentamente desapareceu e me encontrei sozinho.
Não aguentei e sai daquele lugar. Não conseguimos acampar ali perto, então passamos a marchar lentamente. Todos haviam perdido mulheres, mães, irmãs e filhos naquele lugar. Não suportamos a ideia de permanecer no local em que morreram nem mais um minuto. Não tínhamos direção, mas continuamos a marchar. As memórias nos perseguiam. Eu via o dia em que conhecera Freya, e nosso casamento. Nosso tempo juntos e felizes.
Todo o meu futuro e tudo que eu amava acabaram em um redemoinho de fumaça, dor e cinzas. As imagens não saiam de minha cabeça, o sangue seco no chão de pedra e no gelo à entrada da caverna. As cinzas daqueles que amávamos e queríamos manter protegidos. Tudo para trás, mas que jamais sairia de nossas mentes. Ela tinha um bom dom para prever as coisas. Será que previu tudo aquilo, ou a gravidez a afetara? Será que sequer imaginou que eu teria que suportar esse destino, ou que a morte era o destino dela e de nosso filho, à espreita?
As memórias me assombram, junto com o pensamento de como ela suportou aquilo. Certa noite sonhei com o que aconteceu. Um destacamento inimigo chegou de surpresa cerca de um mês antes de nós. Todas entraram em pânico. As mais fortes tentaram atrasá-los e protegerem as outras, lutando com os homens armadas apenas com punhais. Feriram alguns, mas todas foram mortas. E então, quando eles entraram, incendiaram tudo, ateando fogo à uma ou outra mulher ou criança viva. E então eu a vi. Sentada em um canto agarrada à um menininho de cabelos tão loiros quanto os dela. Tentava proteger a criança que chorava com seu corpo. Nem uma lágrima caia dos olhos daquela mulher tão forte, embora o pavor estivesse estampado ali. Seu atacante sorriu, uma espada manchada de sangue em uma das mãos, uma tocha na outra.
— Você vai largar essa aberração e vir conosco ou prefere morrer como isso que carrega nos braços? – disse com olhos cheios de luxúria – Daria um belo brinquedo para levarmos para casa.
Então ela cuspiu em sua bota, e disse que morreria, mas não se deixaria ser tocada por criaturas nojentas como ele. O homem perdeu a cabeça e cravou a espada nas costas do bebê, atravessando seu corpo frágil do menino e atingindo o coração da mãe. Ambos morreram antes que as chamas tocassem seus corpos.
Acordei sobressaltado, e logo as lágrimas voltaram. Desconfiava que aquilo fosse o que havia acontecido, e fiquei convencido quando o sonho se repetiu por dias. Eles não foram queimados vivos pelo menos, mas a falta que sentia dela e de meu filho que nem cheguei a conhecer era imensa.
— Para onde iremos? Está ai ainda? – perdido em pensamentos, nem havia notado que era questionado. Fui nomeado líder daqueles que restaram de nós, e devia dar uma resposta aos meus companheiros.
— Seguiremos o destino. Ainda temos provisões e podemos sobreviver até chegarmos à próxima aldeia aliada. Lutaremos ao lado de seu exercito, e aniquilaremos aqueles bárbaros ou morreremos tentando. É meu destino e o de vocês.
Concordaram comigo, aliviados por terem um rumo na vida. Havia dor em cada um daqueles rostos, e feridas profundas em suas almas e corpos, mas eles lutariam até a morte para impedir que aquele sofrimento se multiplicasse.
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