My Dear Hooker
7 The Work
Notas iniciais
Mesmo assim, aqui está, sétimo capítulo! Boa leitura!
A manhã seguinte chegou preguiçosa. Thomas se revirou no sofá, nem um pouco interessado em levantar. Quem sabe ele comprasse um colchão d’água ou algo assim, porque dormir no sofá toda noite depois de um tempo traria gravíssimas consequências para sua coluna.
Sentou-se no sofá e encarou a janela, que mostrava o sol nascendo no horizonte com uma mancha de poluição do lado, e mais alguns prédios, que cercavam toda a paisagem. A mesa de centro estava bem mais bagunçada que o normal e ele se ocupou em arrumá-la enquanto esperava o sono passar.
Tinha tomado uma decisão na noite anterior, que era finalmente começar a ler seu roteiro. Apesar da preguiça ainda dominá-lo, achou melhor fazer logo aquilo. Três dias já haviam se passado e ele não tinha feito nada de útil para o filme, além de tentar ajudar o diretor em seu problema amoroso, mas isso oficialmente não entraria como indicação para um Oscar ou algo parecido.
Foi até a cozinha e começou a preparar algo. Comida pronta, melhor amiga de homens solteiros e preguiçosos. Ele simplesmente pegou um prato de comida congelado, colocou no micro-ondas e colocou alguns minutos, sentando na mesa em seguida.
Ouviu a porta do quarto abrir e imaginou qual seria o assunto da manhã. Será que ele devia perguntar uma coisa que lhe passava pela cabeça há algum tempo?
- O que você está fazendo? – ouviu a voz dela, na porta.
- Oh, bom-dia. Eu dormi perfeitamente bem, obrigado por ter perguntado.
- De nada.
Thomas encarou Katherine, que deu de ombros num meio sorriso. Ela puxou uma cadeira ao lado da dele e apoiou a cabeça na mão, encarando o nada.
- Por que você saiu de casa? – ele perguntou, baixinho.
- Não te importa.
- Eu estou te hospedando. Tenho esse direito.
- Quem disse?
- Eu, o dono da casa. Vai, conta uma versão resumida.
- Desentendimentos sobre o que eu devia fazer da minha vida. Só.
O micro-ondas apitou, sinal que estava tudo pronto. Ele se levantou e pegou o prato, pela primeira vez vendo que tinha esquentado um pedaço de lasanha. Dane-se, ele teria um mês para recuperar a forma mesmo...
- Então, foi só isso. Então vou te classificar como uma pessoa radical.
- Você não pode me rotular assim.
- Já criei até uma história de vida falsa para você – ele sorriu – Fique calma, sei o que estou fazendo.
- Não, você não sabe. Chega a ser idiota me chamar de radical... Não sabe pelo que eu passei ou aguentei – ela cruzou os braços, irritada – Pode me dar uma história falsa, mas não tente saber da verdadeira.
- Tudo bem – ele ergueu as mãos em sinal de rendição – Se acalme Kate.
- E não me chame assim.
Thomas revirou os olhos, voltando para sua lasanha. Mas o tom amargo perdurou na voz de sua hóspede até o fim do dia...
Ele passou os olhos pelas 210 folhas do roteiro. Como um romancezinho tão clichê podia ter um roteiro tão grande? Aquilo era um absurdo de texto! Pelo jeito, logo na primeira fala ele se distrairia com uma mosca voando por aí e não leria mais nada.
- O que você está fazendo? – se virou para Katherine, que estava na mesa da cozinha enquanto ele estava esparramado no sofá.
- Palavras-cruzadas que eu achei jogada nessa mesa de centro aí – ela respondeu.
- Hum... Sabia que eu tenho que ler tudo isso? – levantou o calhamaço de folhas – Não quer me ajudar?
- Não.
- Ah, por favor... Eu não consigo sozinho.
- E daí? Você é o ator, isso deve fazer parte da sua vida.
- É, e eu sei que me distraio rapidinho. Se você ler comigo, quem sabe eu vá mais rápido ou coisa assim... Vamos lá... Dez páginas só.
- Não. E pare de insistir.
- Ah, que eu tenho que fazer para você me ajudar?
- Eu não vou te ajudar. Não estou nem um pouco interessada no seu roteiro e sei que uma hora ou outra você vai ler sozinho.
Ele bufou, irritado. Começou a ler a primeira página, tendo que ler duas ou três vezes o mesmo parágrafo por simplesmente não conseguir se concentrar. E aquilo dobrava o tempo gasto para ler míseras dez páginas.
Quando Thomas se cansou de repetir e repetir linhas, jogou o roteiro na mesinha e se levantou, andando até a cozinha. Ela ainda estava fazendo palavras cruzadas, alheia ao mundo e aos problemas dele.
- O que usado para exames de pressão com doze letras? – ela perguntou, quando ele se aproximou, nem tão alheia assim ao mundo.
- Sei lá, não sou médico. Agora eu preciso mesmo da sua ajuda para um negócio...
- Ah, já sei – ela escreveu uma palavra qualquer – Se for sobre o roteiro, esqueça. Não vou te ajudar em nada, é seu trabalho.
- Mas eu preciso de alguém para ensaiar.
- Fale com o espelho.
- Ah, larga de ser chata. Por que não?
- Porque você vai vir com aquele papo de que eu deveria ser atriz e tudo mais...
- Não, eu juro que nem toco nesse assunto.
Katherine o encarou, como se o avaliasse. Thomas deu um sorriso, como para encorajá-la a aceitar a proposta. Ela soltou um suspiro e se levantou, desistindo de ir contra ele.
- Tá então, o que eu tenho que fazer?
- Pegar o roteiro e falar todas as falas não grifadas. É só ler. Simples.
Puxou ela até a sala e entregou o roteiro. Ela teve quase a mesma reação que a dele quando viu o número de páginas. Mas sentou-se no sofá e abriu na primeira página, dando uma rápida olhada para o roteiro.
- Ah, tudo bem, o que eu sou mesmo?
- Uma colegial popular – ele gesticulava, animado – Nós temos poucos diálogos no começo, mas mesmo assim leia, posso tentar fazer outro personagem.
- Por que você está tão animado droga? Está me deixando nervosa.
- Eu gosto de atuar. De verdade. Faz parte de mim. E estou prestes a passar para a parte legal da coisa, eu que devia estar nervoso.
- Nunca vi alguém dar tanta importância pra isso, mas... Vamos lá.
- Tente entrar no personagem tá?
- Cale a boca, não sou atriz.
O roteiro nem era tão difícil assim, e em menos de meia hora, dez páginas tinham se passado. Thomas estava quase insistindo para repetirem, já que até mesmo ela estava mais animada para a coisa toda.
- E você dizendo que não era boa... – ele sorriu – É ótima.
- É, bem, a personagem ajuda. Ela é fácil até...
- Sério? Achei que seria difícil pra você ou coisa assim.
- Não é não – ela deixou o roteiro em cima da mesa – Ela é tudo que um dia eu quis ser.
E Thomas concluiu muitas coisas daquela simples frase. E principalmente dos olhos tristes dela.
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