My Choice is You

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Olá, gente, tudo bem? Primeiramente, um feliz (e atrasado) ano novo para vocês! Com a estreia da nova temporada de The 100, achei legal poder escrever um college!au clexa só para levantar os ânimos e tentar esquecer o angst que vai ser assim que as duas se encontrarem novamente na série.
Espero que gostem!

A fila para entrar na boate virava a esquina, mas Lexa e Anya haviam chegado cedo e garantido os primeiros lugares. Era um lugar novo que prometia ser o novo point para os jovens da cidade. Geralmente, Lexa não era muito fã de boates, mas sua prima a convencera de que era o melhor lugar para esquecer o seu recente término de namoro.

Lexa ainda lembrava de Clarke com certo carinho e, se fosse para falar a verdade, não queria realmente esquecer a garota. A culpa do término era toda dela, isso também era verdade. Toda vez que lembrava da mulher do seu trabalho que a seduziu a um jantar quase romântico que fora desmascarado por um dos melhores amigos de Clarke, o sangue subia à cabeça de Lexa. É, era culpa sua — mesmo que um jantar não significasse uma traição assim tão explícita.

— Você vai ver! — Anya dizia em tom sonhador, observando as garotas que estavam atrás delas na fila. — Você vai arranjar uma garota linda e vai deixar para trás aquela Griffin.

— Eu nem estou no clima para festas, Anya — reclamou Lexa, mantendo o olhar em uma cabeleira morena a poucos metros dela. Parecia familiar. — Talvez eu deva ir embora e você deveria arranjar alguém.

— Não estamos há meia hora na fila por nada, Alexandra — retrucou Anya, revirando os olhos. — Não adianta se esconder.

A garota do cabelo negro os jogou dramaticamente para o lado enquanto dava uma risada, permitindo que Lexa visse seu rosto. Seu estômago deu uma volta completa. Era Octavia, uma das melhores amigas de Clarke e que também convivia um pouco com Lexa antes de as duas terminarem.

Lexa tentou se esconder atrás de Anya, mas os olhos de Octavia eram velozes e logo a viu parada ali. O rosto da garota se abriu em um sorriso animado e ela acenou para Lexa, que acenou de volta, sentindo o rosto ficar vermelho a cada minuto.

— Quem é ela? — perguntou Anya pelo canto da boca enquanto também acenava para Octavia.

— Amiga da Clarke — respondeu Lexa. Ela prendeu a respiração quando Octavia se desculpou com seu grupinho e começou a andar em sua direção. — Ela namora o Lincoln, lembra?

— Sei — murmurou Anya, abrindo um sorriso imenso para Octavia assim que ela se aproximou mais. — Olá! É Octavia, certo?

— Sim! — respondeu a garota, cumprimentando Anya com um beijo na bochecha. — Lincoln sempre fala de você.

Lexa ainda sentia as bochechas quentes por causa da vergonha que sentia ao encontrar Octavia. Ela não estava pronta para isso — nem para sair; nem para encontrar os amigos de Clarke na rua. Ela olhou para o chão na esperança de se enterrar enquanto Anya distraía Octavia.

— Quanto tempo, Lexa — disse Octavia, no mesmo tom que usara para falar com Anya. Talvez Lexa estivesse louca, ou a garota realmente parecia feliz em vê-la. Ela perdera contato com todos os amigos mais próximos que fizera através de Clarke depois que terminara.

— É... — respondeu Lexa, por fim deixando de se esconder atrás de Anya. — Eu ando muito ocupada.

— Chorando — completou Anya num murmúrio.

Lexa teve vontade de realmente cair no choro. Seguiu-se um momento de silêncio onde Octavia continuava sorrindo e Lexa olhava para o chão, ainda se perguntando porque seguira o conselho de sua prima.

— Você está aqui com quem? — Anya resolveu falar antes que a tensão pudesse ser cortada com uma faca.

— Com uma galera da Arca. — Arca era uma república da universidade onde todas as três frequentavam. Anya nunca fora muito fã do grupo. — Bellamy, Murphy, Jasper... você os conhece. Clarke e Lincoln virão mais tarde.

A garganta de Lexa secou. Ela desejou que a boate fosse grande o bastante para que jamais pudesse se deparar com Clarke. Ou que a tequila fosse muito boa para ela não se importar se estava ao lado de Clarke ou longe dela. Ou até que Clarke sofresse um acidente não muito grave que a deixasse impossibilitada de sair de casa aquela noite.

De qualquer maneira, Octavia viu que a menção de Clarke ainda trazia desconforto para Lexa e pediu desculpas. Antes que Lexa pudesse aceitá-las, no entanto, Bellamy a chamou de volta para o grupo da Arca e ela se despediu com um sorriso constrangido. Octavia tinha um bom coração acima de tudo.

— Já posso ir embora? — Lexa perguntou, se virando para Anya.

Sua prima apenas abriu um sorriso malicioso.

— Não vê que isso é perfeito?! — Anya exclamou, segurando Lexa pelos ombros. — Ficar com alguém na frente da Clarke! É a melhor vingança de todas!

— Você sabe que eu não faço esse tipo de coisa — retrucou Lexa de maneira desconfortável.

Lexa não queria de maneira nenhuma machucar Clarke, pelo menos não mais do que já havia feito. Além disso, beijar alguém na frente da sua ex parecia coisa de novela mexicana melodramática e Lexa não tinha paciência para o tipo. Ela lançou um último olhar para Octavia e seus amigos e decidiu que seria a melhor pessoa disso tudo.

— Uma pena — disse Anya, dando de ombros.

A boate finalmente abriu minutos mais tarde. O clima da Mount Weather era agradável e no momento que elas entraram na pista, um pop chiclete, de um artista adolescente que Lexa não suportava, tocava. Anya segurou na mão de Lexa e a guiou direto para o bar, onde as duas pediram duas doses de tequila e cada uma pediu mais um drink.

A tequila queimou a garganta de Lexa. Ela sorriu amargamente para Anya, se sentindo meio estúpida. Ainda achava que era um erro ter continuado ali, mas o álcool a deixara um pouco tonta. Lexa pegou seu drink e seguiu com Anya para a pista de dança, que enchia aos poucos.

Lexa não sabia se era pelo nervosismo com a possibilidade de ver Clarke novamente ou se realmente estava gostando da batida das músicas, mas o drink que pedira sumiu rapidamente do seu copo. Ela cumprimentou Octavia de novo ao vê-la na pista de dança e acenou para seus companheiros da Arca. Não sabia o que Clarke falara sobre ela, mas presumiu que pelos olhares confusos dos garotos, que boa coisa não seria.

Ela deixou Anya na pista de dança por alguns minutos para comprar outra bebida. Lexa esbarrou em uma garota bonita que lhe examinou da cabeça aos pés, o que fez com que ela corasse. A garota sorriu para ela e seu coração bateu mais forte. Lexa mordeu o lábio enquanto a garota se apresentava. Seu nome era Costia.

— E-eu, ahm, estou indo para o bar — gritou Lexa por cima da música alta.

Costia não pensou duas vezes e seguiu Lexa. Ela comprou para Lexa outra dose de tequila e, embora a garota gostasse dessa atenção constante, se sentiu constrangida. Que tipo de pessoa compra uma dose de tequila cinco minutos após se conhecerem?

Lexa tomou a tequila mesmo assim e desistiu do drink seguinte. Já sentia a cabeça zonza e uma animação que só rondava seu corpo quando estava bêbada começar. Costia lhe chamou para um canto mais reservado da boate e sentou tão perto de Lexa que parecia que logo estaria em seu colo.

As duas estavam longe do barulho da pista de dança, mas para que uma conversa acontecesse, teriam que ficar muito próximas. Os olhos de Costia eram de um castanho intenso e seus lábios pareciam chamar a atenção de Lexa para eles em todo momento. Quando Lexa estava achando difícil se concentrar no que Costia dizia sobre sua faculdade, ela colou seus lábios nos da garota e se indagou se Anya, em algum lugar daquela boate, estaria feliz por ela.

Costia aparentava surpresa pelo beijo e, sinceramente, até Lexa estava assustada com o que acabara de fazer. Ela não era de sair muito e com certeza seu hobby não era beijar garotas bonitas em festas. Se tivesse iluminação suficiente ali, Costia poderia ver o rosto de Lexa ficando gradualmente vermelho.

— Ah, desculpe — disse Lexa quase num sussurro. Ela continuava achando muito difícil encarar Costia.

— Não tem problema — respondeu Costia em voz alta, rindo. — Eu gostei.

Lexa sorriu pela primeira vez na noite. Ela e Costia passaram um tempo conversando. Costia contou que se perdera dos seus amigos e reparara em Lexa na fila do lado de fora. Lexa se lembrou de Anya, que provavelmente ainda estaria dançando na pista — ou talvez tivesse encontrado um garoto que a distraísse de procurar a prima. Ela não quis aprofundar no assunto Clarke, afinal acabara de conhecer a garota.

Costia se inclinou para beijar Lexa e dessa vez foi bem mais intenso. Lexa tinha noção dos olhares que as cercavam naquele espaço, mas ela não se importou muito. Desde que terminara com Clarke, nunca mais havia beijado uma garota. Pelo menos, não uma que fazia seu corpo sentir o que estava sentindo. Anya talvez estivesse com a razão; uma noite era tudo o que precisava.

Ela não soube dizer por quanto tempo ficou focada em beijar e satisfazer Costia da melhor maneira que podia naquele canto da boate recém-aberta, mas, quando tomou consciência do que acontecia ao seu redor, o lugar estava bem mais lotado. Lexa sabia que, apesar de ter aprontado seu cabelo com uma trança, ele estava bagunçado por causa da sessão de amassos. Costia não estava diferente.

— Ah, caramba! — Costia exclamou ao pegar o celular e olhar no relógio. — Eu tinha que pegar um colega meu no aeroporto meia hora atrás!

— O que? — indagou Lexa, confusa. Ela olhou para a tela do celular. Eram três da manhã. Como passara quase duas horas conversando e beijando Costia? Não fazia sentido.

— Foi mal — Costia se desculpou, pegando sua bolsa e arrumando o cabelo da melhor maneira que podia. Ela estendeu o celular para Lexa. — Pode me passar o seu número? Adoraria conhecer você mais.

Ainda embasbacada pela velocidade que as horas passaram, Lexa pegou o celular de Costia e digitou seu número rapidamente. Costia lhe deu um beijo na bochecha e outro selinho antes de embolsar o celular e sair do aposento, deixando uma Lexa infeliz para trás.

Lexa olhou ao redor e percebeu que era a única pessoa realmente sozinha ali. A garota identificou Murphy tentando conquistar uma garota no outro canto e falhando miseravelmente. Ela tentou esconder o sorriso, porém logo o seu rosto murchou novamente. A tontura que sentia ao terminar de beijar Costia sumira e Lexa precisava de mais álcool no sangue se quisesse continuar na festa.

Ela entrou na fila para o bar e, antes de pensar em procurar por Anya, sua prima apareceu do seu lado, sorrindo com todos os dentes. Anya a abraçou com força como se Lexa fosse uma parente que sumira por décadas.

— Garota! — O tom de Anya era arrastado e ela gritava, mesmo estando a centímetros da prima. O hálito quente dela no pescoço de Lexa provava que sua prima estava bêbada havia muito tempo. — Por onde você esteve?!

— Eu encontrei alguém e nós damos uns amassos — Lexa gritou de volta, sentindo o peso daquela frase em seus ombros.

— Eu sei! — Anya caiu na risada. — Só queria que você confirmasse o que eu tinha visto...

Lexa revirou os olhos. A sua vez chegou e ela pediu uma tequila e mais um drink. Anya, que aparentemente bebera todos os tipos de bebida que tinha no bar, pediu um refrigerante. Lexa levou Anya para sentar em uma das mesas postas na área aberta da boate e perguntou o que acontecera durante suas horas “ausente”.

— Não muito — respondeu sua prima. — Lincoln e Octavia me chamaram para ficar com eles durante um tempo. Até que, bem, Clarke chegou e eu tive que fingir ser chamada em outro lugar. Ela ainda deve estar aqui.

O sorriso de Lexa desapareceu. De repente, a garota sentiu como se todas as pessoas sentadas, rindo e conversando tranquilamente, fossem de algum jeito Clarke e que elas riam dela. Odiou Anya por ter lhe contado aquilo. Conseguira afastar Clarke de seu pensamento enquanto estava com Costia, mas a garota fora embora e as lembranças da ex voltavam a assombrar seu pensamento.

Como um fantasma, Clarke saiu para a área aberta junto de Bellamy, irmão de Octavia. A garganta de Lexa fechou por um segundo e ela quis chorar. Clarke continuava tão linda quanto era na época que as duas namoravam. Ela usava uma jaqueta azul de couro que Lexa dera. As doses de tequila que Lexa tomara durante a noite pareceram querer fazer o caminho de volta e ela quase vomitou ali mesmo.

Ao contrário de Lexa, que parecia hipnotizada pela presença de Clarke, a outra garota a ignorou completamente. Bellamy parecia tenso e lançou um olhar de aviso para Lexa, que fingiu não o vir. Droga, como Clarke era bonita. Lexa não conseguia acreditar que perdera o melhor relacionamento que já tivera em seus poucos anos de vida por uma coisa tão boba.

Lexa se levantou. Anya a observava atentamente. Clarke estava de costas para Lexa enquanto Bellamy a mantinha distraída. Fosse lá o que o garoto e sua prima estavam pensando, Lexa não iria falar com Clarke. Não agora, pelo menos. Ainda não reunira coragem suficiente para deixar de ser orgulhosa. E quem podia garantir que Clarke não arranjara outra pessoa? Lexa o fizera — ainda que por pouco mais de duas horas.

Ela foi em direção ao bar. A boate estava esvaziando por causa do horário e por isso foi mais fácil pedir três doses de tequila. O barman arregalou os olhos enquanto Lexa virava as doses rapidamente. O álcool ardeu em sua garganta, mas a garota não se importou. Se ela e Clarke iriam compartilhar o mesmo espaço, ela precisava estar preparada.

***

Bellamy estava agindo mais estranho que o normal. Clarke tentava manter uma conversa com ele, mas os olhos do garoto se mantinham em um ponto longe de Clarke e seu assunto. Ela imaginou que ele não estava interessado em mais um de seus papos sobre como Lexa a ignorara completamente enquanto passava pelo departamento de artes da universidade.

Clarke terminara o namoro dois meses antes e ainda sentia o estômago pesar toda vez que via Lexa pelo campus. A Arca não era exatamente amigável com a república de Lexa e Anya, mas enquanto as duas namoravam, houve uma trégua. Clarke sentia falta disso. Contudo, não ia dar o braço a torcer. Lexa parecia estar tranquila sem ela e Clarke preferia morrer ao invés de deixar que a garota soubesse o quanto sentia saudade dela.

A ideia de ir para a boate tinha sido de Raven. Ela nunca fora fã de Lexa e estava deveras satisfeita por não precisar colocar o pé mais na república de Anya. Octavia apoiou a ideia e, antes que Clarke pudesse pensar em dizer não, a Arca inteira já desfazia planos para que pudessem ir à Mount Weather.

— Bellamy, você está estranho — comentou Clarke, não conseguindo deixar passar o comportamento do amigo. — O que houve?

— Uh, nada — respondeu Bellamy, mas o garoto não a convenceu.

Era pouco mais das três da manhã e o drink que Clarke segurava não tinha mais o gosto de álcool e morango que ela apreciara no começo. Ao refletir sobre o assunto, percebeu que era a única bebida que tomara a noite toda e talvez fosse esse o problema: estava sóbria demais para compreender os olhares de Bellamy.

— Tem alguma garota que você está de olho? — Clarke indagou, confusa. — Se sim, pode ir. Vou achar os outros na pista.

Bellamy mordeu o lábio e apontou com a cabeça para uma das mesas. Anya era reconhecível de longe, mesmo estando com a aparência que poderia dormir a qualquer momento. Clarke engoliu em seco. Estaria Anya sozinha? Ela não estava psicologicamente pronta para ficar cara a cara com Lexa sem nenhuma das partes se ignorarem. Por fim, entendeu a preocupação do amigo.

— Ela me parece abandonada — disse Clarke, mordendo o lábio. — Talvez eu deva ajudá-la.

— Clarke... — A garota ouviu Bellamy chamar, mas já estava decidida. Anya podia ser prima da sua ex, porém não poderia deixá-la sozinha.

Clarke jogou o resto da sua bebida na primeira lixeira que encontrou e se encaminhou para Anya. Sentou-se ao seu lado e colocou a mão em seu ombro, chamando seu nome de maneira alta e clara.

— Estou bêbada, não burra — murmurou Anya em tom desafiador ao ouvir as palavras de Clarke. A garota conteve o sorriso. Anya nunca fora exatamente a pessoa mais acolhedora do mundo quando namorava Lexa. — O que está fazendo aqui, Griffin?

— Companhia — respondeu Clarke, lançando um olhar para Bellamy, que permanecia no mesmo lugar que o deixara. Ele suspirou e saiu em direção da pista de dança. — Também não estou no clima para festas.

— Ah, eu estava — retrucou Anya. — Só estou... você sabe... recuperando as energias.

Clarke sorriu. Lidar com Anya era quase o mesmo que lidar com Raven, e ela estava acostumada com as duas. Elas permaneceram em silêncio por alguns minutos, embora Clarke estivesse se segurando para perguntar se Anya viera com amigos ou acompanhada de um garoto — ou, talvez, com Lexa. Com a boate se esvaziando, as chances de se deparar com a ex-namorada eram maiores. Clarke queria fugir antes de correr esse risco.

Anya tirou um cochilo na mesa enquanto Clarke checava o celular. Chegara atrasada na boate por que tinha um trabalho importantíssimo para entregar na segunda seguinte e precisava de um feedback de um professor. Aparentemente, o professor fora dormir horas antes e só daria a ajuda no dia seguinte. Ela bufou, irritada. Nunca gostara de Dante Wallace de qualquer forma.

— Clarke Griffin! — Alguém com a voz arrastada gritou seu nome.

As pessoas abriam caminho enquanto Clarke olhou para trás e, para a sua surpresa, viu Lexa cambaleando em sua direção. Seus olhos arregalaram. Sua ex parecia aborrecida e pronta para bater na próxima pessoa que encostasse nela — o que Clarke sabia que poderia acontecer. Além disso, ela podia ver claramente que Lexa estava bêbada.

— Lexa... — sibilou Clarke, se levantando. Anya continuava adormecida. — Vamos para outro lugar, beleza? Não vale a pena fazer uma cena aqui.

Lexa riu de maneira escandalosa. Alguns já rodeavam as duas, esperando por qualquer tipo de interação mais violenta entre elas. Clarke sabia que Lexa era formada em três tipos de artes marciais, mas também sabia que a garota não se atreveria a ameaçá-la em um local público. Nem se estivesse bêbada.

— Vamos, sim! — Lexa exclamou, abrindo os braços de maneira dramática. — Se tem uma coisa que a gente vai fazer, é uma cena!

As bochechas de Lexa estavam vermelhas por causa do álcool e em outra ocasião, Clarke teria achado isso bonitinho. Naquele momento, no entanto, ela tinha noção de que seu rosto começava a ficar corado do mesmo jeito e queria por tudo sumir por alguns segundos.

— Eu queria saber... — Lexa sussurrou, se aproximando de Clarke. A garota apontou o dedo para o peito dela e continuou: — Porque nós terminamos.

Clarke franziu o cenho, mas respondeu automaticamente:

— Você saiu com outra.

Lexa deu outra risada que assustou Clarke. Agora que elas estavam mais próximas, as pessoas deixaram de prestar atenção no que acontecia. O hálito de Lexa cheirava a tequila. Clarke se perguntou quantas doses ela tomara para ter a coragem de vir falar com a ex. Ela sabia que Lexa não era lá muito boa em mostrar o que sentia para os outros.

— Murphy me falou — Clarke prosseguiu. — Ele tinha visto você com outra. Lexa, você nem se deu o trabalho de negar. Era um restaurante romântico. Nós já tínhamos ido lá!

Lexa bufou e se inclinou para mais perto de Clarke. Ela não queria deixar a garota cair em cima dela, mas ao mesmo tempo não queria se aproximar muito. O perfume de Lexa se sobressaía do cheiro do álcool e atingia Clarke como nunca antes. Ela jamais percebera o tanto que sentia falta do toque de Lexa em sua pele como naquele momento.

Clarke sacodiu a cabeça e voltou à realidade. Lexa não merecia seu amor. Lexa a traíra com outra mulher. Lexa estava bêbada e armara um escândalo ali só para chamar sua atenção! O que tivera com a ex era passado. Ela não precisava da garota na sua vida mais.

— Murphy não entendeu errado — disse Lexa, grogue. — Dois meses não é o suficiente? Você não sente minha falta?

— Nós namoramos por cinco meses, Lexa, não é como se fôssemos casar e ter três filhos.

Clarke sabia que aquilo era cruel, mas não resistiu ao impacto da frase. Na verdade, ela mesma esperava que Lexa pudesse ser a garota que faria ela parar de pensar em outras pessoas romanticamente. Clarke esperava muito de Lexa. Mais uma vez, suas decepções atingiram o ponto máximo.

— Quer dizer que você não me ama?

Clarke olhou para a expressão triste e cabisbaixa de Lexa. A garota parecia prestes a chorar. Toda a raiva e a vontade de fazer um escarcéu na boate haviam sumido. Elas estavam a centímetros de distância uma da outra. Os olhos de Lexa continuavam tão hipnotizantes quanto eram dois meses antes.

— Eu terminei porque estava com raiva de você, não porque eu parei de te amar. — Clarke engoliu em seco. A verdade do que acabara de falar caiu como um raio em sua cabeça.

Lexa semicerrou os olhos na direção de Clarke como se não compreendesse tais palavras. Clarke esperou que a garota estivesse bêbada o bastante para não se recordar de nada daquela conversa no dia seguinte.

— É uma pena, porque eu beijo muito bem — Lexa se gabou e Clarke sorriu.

— Eu sei disso.

Lexa se apoiou na ex novamente e franziu o cenho. Ela abriu a boca para falar algo, mas desistiu. O que era, Clarke jamais soube dizer. Por fim, Lexa se cansou de ficar em pé e caiu da melhor maneira que conseguiu na primeira cadeira que viu.

Clarke também se sentou, agora acompanhada pela família Woods bêbada. Anya ainda dormia e Lexa parecia ir para o mesmo caminho. Ela olhou ao redor e se perguntou onde seus amigos da Arca estavam. Bellamy não teria ido embora sem avisá-la, muito menos Octavia.

O relógio do seu celular marcava quatro e meia da manhã. Clarke fitou as duas garotas que agora cochilavam em cima da mesa e ponderou. Ninguém viera buscá-las até agora. Anya provavelmente convencera Lexa a sair de casa. As duas estavam sozinhas. Ela suspirou, se arrependendo do que faria no mesmo instante que disse:

— Vamos. — Clarke bateu de leve na mesa para acordar as garotas. — Por favor, acordem. Vou levar vocês para casa.

Anya grunhiu e não saiu do lugar. Lexa levantou com um salto e bocejou. Seus olhos mal se mantinham abertos. Clarke rolou os olhos. Enquanto as duas namoravam, Lexa nunca agira daquela maneira. Talvez tivesse que manter um olho na garota para que não bebesse tanta tequila.

Com muito esforço, Clarke conseguiu acordar Anya e Lexa a ajudou levá-la para a saída. As três passaram pela pista de dança, onde Octavia e Lincoln ainda dançavam animados. Lincoln riu da disposição de Clarke para carregar as duas para fora da boate, mas ao ver o olhar assassino da garota, logo correu para ajudá-la. Clarke chamou um táxi e pagou a conta de Lexa enquanto Lincoln cuidava de Anya. Ela tentou ignorar o fato de que ainda sabia a senha do cartão de Lexa.

Anya, levemente mais alerta, sentou no banco da frente do táxi enquanto Lexa e Clarke se acomodaram no banco de trás. O coração de Clarke bateu com força quando Lexa se aninhou em seu abraço e ela rezou para que a garota não sentisse seu nervosismo. Clarke se aconchegou em Lexa e tentou tirar um cochilo, por fim.

***

Lexa acordou na manhã seguinte com uma dor que fez sua cabeça latejar. Ela se lembrava de pouco da noite e, do que recordava, queria poder esquecer. Como ela chegarava na Grounders, por exemplo, era um mistério. Depois que Costia fora embora, ela bebera tanto quanto Anya. Lexa grunhiu, irritada. Nunca mais sairia com a prima.

Ela olhou no relógio do celular. Não passava das oito da manhã. Era cedo demais para alguém que não conseguia se lembrar de como chegara em casa. Um olhar pelo quarto que dividia com Anya foi o suficiente para saber que sua prima ainda estava em um sono profundo e não pretendia acordar tão cedo. Ela invejou Anya por seu sono e resolveu sair da cama. Sabia que não voltaria a dormir assim tão fácil.

Com um suspiro, Lexa percebeu que alguém trocara a roupa que usara na noite anterior por um moletom antigo. Duvidou que Anya tivesse feito isso, mas sua prima era a única que poderia fazê-lo, dependendo do estado que ela ficara depois de tantas tequilas. Com uma pontada na cabeça, Lexa levantou da cama e pegou uma aspirina da caixinha de remédios dentro do guarda-roupa e foi até a cozinha para tomá-la.

Ao entrar na sala de estar da república, ela quase deixou o comprimido cair com o susto de ver que alguém dormia no sofá. Às vezes algum garoto cochilava ali por ter visto filmes ou jogado demais, mas aquele rosto estranho ao local fez o estômago de Lexa querer vomitar tudo o que tomara na noite anterior.

— Clarke? — Lexa chamou, primeiro em um sussurro contido. Ao ver que a garota estava tão adormecida quanto Anya, Lexa falou mais alto: — Clarke.

O que ela estava fazendo ali? Clarke não poderia... Lexa parecia ter levado um soco no estômago. Clarke as trouxera para a república durante a madrugada, porque as duas estavam bêbadas demais para sequer pensar em ir embora. Lexa estava bêbada. Ah, Deus. Lexa engoliu em seco. Ela gritara com Clarke na frente da boate inteira depois de inúmeras doses de tequila.

Lexa correu para a cozinha para pegar um copo de água e tentar respirar com mais calma. Porque diabos fizera isso? Não era do seu feitio sair bêbada por aí gritando com suas ex-namoradas porque elas estavam certas por terminar seus relacionamentos. Porque Clarke tinha tanto efeito sobre ela?

Ao voltar à sala, Clarke sentara no sofá e olhava ao redor, confusa. Então, seu olhar encontrou o de Lexa e seu rosto exprimiu uma expressão que fez o corpo de Lexa se aquecer por dentro. Elas ficaram se encarando por tempo demais, até que Clarke desviou o olhar para o lugar vazio do sofá ao seu lado, indicando que Lexa deveria sentar ali.

Lexa mordeu o lábio, mas sentou-se ao lado de Clarke. Ela não ousava se mexer. Lexa tinha medo que Clarke fosse começar a gritar com ela por ser tão irresponsável e ter ficado bêbada quando obviamente não havia ninguém para buscá-las da boate. De fato, a garota até se encolheu um pouco quando Clarke abriu a boca e disse:

— Você está bem?

O tom calmo de Clarke surpreendeu Lexa. Clarke nem sempre era educada com pessoas que um dia a haviam feito mal. Lexa pensou na noite que tivera e se perguntou se Clarke falara algo que a deixaria constrangida também.

— Estou sim — respondeu Lexa nervosamente. — Porque dormiu aqui?

— Ah, era bem tarde quando nós chegamos. — Clarke fez uma expressão pensativa. — Ou muito cedo. Enfim, Indra deixou que eu ficasse no sofá para não precisar voltar de madrugada para o meu prédio.

Lexa franziu o cenho. Indra geralmente não era muito receptiva com os moradores da Arca, embora Clarke sempre fosse uma excessão para a regra.

— É claro — continuou Clarke —, o fato de você pedir para que eu ficasse e dormisse com você ajudou bastante.

Lexa sentiu seu rosto ficar quente. Ela olhou de soslaio para Clarke e notou que a garota sorria. O quão vergonhoso seria pedir para que voltasse com seu ex depois de várias doses de tequila? Lexa descobrira naquele exato momento.

— Não fique assim — Clarke consolou, pousando a mão no ombro de Lexa. — Eu teria ficado de qualquer maneira. Não sei se me perdoaria se não soubesse como que você estaria na manhã seguinte.

Lexa fez um gesto para seu corpo e abriu um sorriso amarelo.

— Bom, estou viva. E com uma baita dor de cabeça.

As duas ficaram em silêncio por um bom tempo. Lexa se lembrou das vezes que levara Clarke para a Grounders só para jogar Star Wars: Battlefront com ela. Clarke era muito competitiva e tinha uma tendência a xingar todos ao seu redor quando perdia. Lexa achava isso divertido de se assistir, afinal ela era a melhor da casa quando o assunto era videogames de estratégia. Às vezes, Lexa deixava Clarke ganhar apenas para que ela se sentisse feliz, mas a garota sempre percebia o que fazia e pedia para aumentar o nível do jogo. A teimosia de Clarke fazia com que Lexa se apaixonasse ainda mais por ela.

— Então... — disse Clarke, desconcertada. — O que vamos fazer?

Lexa abriu a boca para retrucar, mas não saiu nenhum som. Ela não sabia o que fazer. Depois de alguns minutos sem resposta, Clarke revirou os olhos e murmurou um “típico” que deixaria Lexa irritada, mas ela sabia que era verdade.

— Talvez... — começou Lexa, pensativa — tenha sido... a hora errada... para terminarmos?

— Talvez... — concordou Clarke, sem fitar Lexa. — Talvez... devêssemos... não sei, começar de novo?

Lexa gostou da ideia. Apesar de ter se divertido com Costia na outra noite, ela ainda sentia falta de Clarke e sabia que sua história com a garota não estava terminada. Talvez fosse para elas se reencontrarem daqui outros dois meses ou duas semanas, mas as duas iriam se encontrar. Havia... algo em Clarke que Lexa parecia estar sempre atraída. Era por isso que ela agira feito uma idiota depois da tequila. Ela queria Clarke de volta e talvez as doses fosse seu jeito de finalmente admitir isso.

— Você quer, hm, almoçar hoje comigo? — indagou Lexa. — Eu pago.

Clarke riu e assentiu. Seu olhar era o mesmo que Lexa vira pela primeira vez que se encontraram e seu coração se encheu de alegria. Clarke estava disposta a tentar de novo e era isso que importava para Lexa. Talvez dessa vez não tivesse John Murphy para atrapalhá-las. Talvez dessa vez Lexa conseguisse demonstrar o que sentisse no momento certo.

Ela esperava que sim.

Notas finais
Então, é isso! Se gostaram da fic, por favor, deixem seus comentários com xingamentos/sugestões/qualquer coisa. E obrigada por lerem a fic!
Um beijo e até a próxima :D
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!