My Chemical Romance
1 Capítulo 1
Notas iniciais
My Chemical Romance
Sister, I'm not much a poet, but a criminal
And you never had a chance
Love it, or leave it, you can't understand
A pretty face, but you do so carry on,
and on,
and on
— Eu sempre quis te explicar. – ele falava silenciosamente. O cabelo preto comprido escondia a sua face parcialmente. O sol pálido do fim da tarde iluminava incomodamente o seu rosto pálido. – Eu não sou o que você pensava que eu sou. Mas não. Você tinha que se “apaixonar”, seja lá que significado essa palavra tenha pra você.
— Você é bonito. – ela sorriu gentilmente. Sempre aquele sorriso gentil, inocente, ingênuo. Ele odiava a ingenuidade dela.
— Eu sou bonito? – ele a olhou, incrédulo. O vento frio do fim da tarde soprou nos seus cabelos. Com um movimento delicado ele puxou uma mecha de cabelo para trás da orelha. Ela apenas sorria. Ele queria que ela parasse de sorrir alguma vez.
Ah é, ela já tinha parado.
— Você não entende. – ele falou. Sua respiração falhou. – Você nunca entendeu.
— Talvez.- ela continuava com aquele sorriso perturbador. – Mas você me explicou uma vez, lembra? Pegar ou largar. – o olhar dela era tão inocente que chegava a ser indecente. – Eu peguei.
— Mas... – ele falou, confuso. – Você descobriu... você sabia.... porque você continuou? Porque você continuou comigo, continuou se estragando sabendo como eu sou.....
— Eu continuei. Continuei, e continuei, por sua causa.
— Não ouse me culpar!
I wouldn't front the scene if you paid me
I'm just the way that the doctor made me, on,
and on,
and on,
and on
flashback
Ele sentiu os joelhos cederem ao se deparar com a cena. Por um segundo seu coração parou de bater, seus pulmões de funcionar. Ajoelhado, ele foi até ela.
— Não, de novo não... – resmungou, começando a limpar a bagunça. Parecia até que eles se revezaram, um a cada semana. A cada vez um dos dois cuidava do outro, sem fazer perguntas, sem reclamar, porque os dois sabiam que sempre seria assim.
Ele suspirou, e o pensamento de “talvez isso deveria parar” passou pela sua cabeça. Mas a visão da garrafa meio vazia (ou meio cheia?) pegou a sua atenção e o pensamento se esvaiu.
Sempre seria assim. Ele era assim, não iria mudar. E ele a tinha feito assim. Eles não iam mudar. Aquilo não iria acabar. Só continuaria, sempre e sempre.
Love is the red of the rose on your coffin door
What's life like, bleeding on the floor,
the floor,
the floor
— Essas rosas são pra mim, Gerard? – ela falou, apontando para o buquê na mão dele.
Ele pensou por um momento. Fitou as rosas e notou no quanto o vermelho lhe era familiar.... geralmente vinha na sua memória mais líquido, escorrendo por tecido humano ou cerâmica. Ele sempre tinha visto uma beleza na morte que era altamente anormal e ultimamente, não muito saudável.
Ele a olhou, nenhuma expressão no seu rosto. Não sabia responder à pergunta.
You'll never make me leave
I wear this on my sleeve
Give me a reason to believe
— Você nunca vai embora né? – ele perguntou, com uma nota clara de súplica na voz. – Eu nunca vou conseguir me livrar de você.
Ela riu levemente, e tal riso deu arrepios na espinha dele.
— Eu já me peguei pensando a mesma coisa muitas vezes. E respondendo à sua pergunta, não. Eu não vou embora.
Em todo aquele tempo, ele sempre pediu, suplicou por uma razão para acreditar. Acreditar em qualquer coisa que o impedisse de enlouquecer completamente. Alguma razão para sair daquilo tudo, para simplesmente se afastar. Uma razão para acreditar que ele podia parar com aquilo tudo e se afastar enquanto ainda estava são. Ou não tão insano.
Preach all you want but who's gonna save me?
I keep a gun on the book you gave me, hallelujah, lock and load
Black is the kiss, the touch of the serpent sun
It ain't the mark or the scar that makes you one,
and one,
and one,
and one
Eles sempre falavam em parar com aquela loucura toda. Os seus amigos também. Mas todas as palavras do mundo não seriam suficientes para salvar nenhum dos dois. Algumas feridas simplesmente não cicatrizavam.
Depois de algum tempo não havia mais romance naquela relação. Apenas... ele riu ao pensar isso, mas era inevitável, um romance químico. Os seus beijos eram negros como as sombras nas suas mentes, e essa sombra era como uma marca.
Nenhuma das cicatrizes deles era tão profunda e infeccionada quanto as internas.
So give me all your poison
And give me all your pills
And give me all your hopeless hearts
And make me ill
You're running after something
That you'll never kill
If this is what you want
Then fire at will
— Gerard, você está flutuando de novo. – ela falou.
Ele parou de se afogar nas lembranças e a olhou. Não conseguia botar nenhuma expressão no seu rosto, por mais que tentasse. Apenas a olhava, com o buquê nos braços. Ela sorria pra ele. Porquê ela tinha que ter aquele sorriso?
— Ah. Desculpe.
— Porquê você não sorri, Gerard? – o tom dela era leve e inocente, como o de uma criança. Gerard percebeu que era isso mesmo o que ela era: uma criança.
— Porque você me fez esquecer como fazê-lo.
Ela riu, e esse riso o atingiu como uma adaga feita de gelo, mesmo apesar do riso ser alegre.
— Porquê você tá aqui? – o olhar dela era juvenil e inocente. E ele nunca tinha ficado tão imobilizado por outro olhar.
— Eu pensei que soubesse. Mas... – o ar escapou dos seus pulmões e ele a olhou, desolado. – Meu Deus...
Ela apenas o olhava e sorria. Garotas como ela não deviam sorrir daquele jeito, ele pensou. Então ela perguntou mais uma vez:
— Pra quem são essas rosas, Gerard?
Dessa vez havia um traço quase imperceptível de frieza, desprezo, sarcasmo, e todas as emoções do mundo. Ele se perguntou como ela conseguia fazer aquilo.
Ele engoliu em seco e segurou o buquê mais forte. A olhou nos olhos, e sentiu os seus arderem.
— Pra mim.
— Mesmo? – ela continuava sorrindo. Deus, aquele sorriso estava marcado a fogo na memória dele. Gerard a olhou, firme.
— É. São pra mim.
E com essas palavras ele se virou e andou na direção contrária ao túmulo, segurando o buquê firmemente nas mãos. A grama do cemitério era macia sob seus pés. Com uma brisa leve ele sentiu o perfume dela, perdido para sempre.
Para sempre e nunca mais.
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