*SEXTO ANO*

Era uma madrugada normal do mês de agosto.

O clima do verão deixava as noites numa temperatura agradável, enquanto uma garota de cabelos longos e negros como a noite se debruça na varanda do quarto escrevendo à luz da lua.

Seu nome era Pandora Hawking.

Aquela que poderia ser uma adolescente normal, aos dezesseis anos, já escondia muitos segredos, entre eles o fato de ser uma bruxa. Não o tipo de bruxa que os ditos "trouxas" e sua literatura retratavam, com verruga no nariz e aparência horrenda.

Pelo contrário, Pandora era conhecida e reconhecida entre seus conhecidos por sua beleza incomum e hipnotizadora – algo que ela tirava bastante proveito. Desde pequena conseguia tudo que queria com apenas um olhar. Ao mesmo tempo que seria capaz de colocar medo em qualquer um que se perdesse na imensidão verde de seus olhos.

Ainda que tenha crescido no meio de uma família bruxa extremamente conservadora, Hawking nunca foi à nenhuma escola de magia e bruxaria. Segundo seu responsável, fazer isso colocaria em risco sua própria segurança. Para ela, isso não passava de conversa fiada, mas aceitava de bom grado ser ensinada no âmbito familiar. E, mesmo não tendo esse convívio escolar foi, ao longo do tempo, se tornando uma bruxa de grande habilidade.

Um fato interessante é que, a família de Pandora não era bem sua família. Esse é um detalhe que é mantido em segredo desde sempre, pois para a comunidade bruxa em geral, Pandora Hawking era sim filha de Corban Yaxley, chefe do Departamento de Execução das Leis da Magia do Ministério Bruxo. Contudo, a verdade não podia ser mais diferente.

Mesmo não sendo sua filha de sangue, Yaxley fazia o possível e impossível para garantir um desenvolvimento saudável e prazeroso à garota. A ensinou tudo o que deveria aprender, de acordo com sua idade – mas, obviamente, se adiantou em alguns pontos. Tanto que, à idade atual, Pandora já sabia executar feitiços não-verbais e aparatação sozinha, algo que só era aprendido em idades avançadas. E, aos seus olhos, a mesma se mostrava como uma das bruxas mais inteligentes e talentosas que já conheceu.

Já devia passar das três horas da manhã quando Corban entra no quarto da adolescente. As paredes cinzas repletas de desenhos dos mais variados e revestidas de prateleiras cheias de livros. Um dos hobbies da garota era ler, pois já que suas aulas eram a noite, em decorrência do trabalho do responsável, a mesma passava boa parte do seu dia revisando os conteúdos que eram ensinados.

Yaxley sorri. Era nítido o quanto estava satisfeito com seu trabalho na educação de Pandora e, ao mesmo tempo, com o interesse existente nela.

Localiza a garota sentada na varanda e a chama. Seu nível de concentração no que faz é tão grande que, a princípio, ela se assusta com o chamado repentino.

— Me desculpe, não te escutei chegando. – O recebe, ainda se recuperando do susto. – Estava escrevendo poesia. Não tinha muito o que fazer, então... – Completa ao interpretar o olhar questionador do homem ao papel em sua mão.

— Não consegue dormir? – É a resposta do mesmo.

— Na verdade, não. – Retruca acanhada.

Aquilo era compreensível, pensou Yaxley. Afinal, no outro dia iria conhecer seu pai e todos os aliados dele. Não admirava que o sono da mesma não tivesse dado as caras naquela noite.

— Se preocupa com o dia de amanhã? – Questiona, recebendo um aceno afirmativo de cabeça em resposta. – Não precisa se preocupar, Pandora. Você está preparada! Vem se preparando para esse momento desde os onze anos, é óbvio que não ocorrerá nenhum problema.

— Mas e se ele não gostar de mim? Se algo em mim o incomodar? E se eu não corresponder às suas expectativas? – Pergunta exasperada. – Não me entenda mal, Yaxley, você é um ótimo professor, mas acho que, pelo que sempre diz, ele é uma pessoa muito exigente. Qual razão que você tem para ter tanta certeza em mim?

— Eu a conheço. – A resposta do homem veio sem nenhum segundo de intervalo. – Pandora, escute! Estaremos num meio em que você não pode exibir inseguranças. Além disso, você sabe que está pronta e não vai ser o nervosismo que vai colocar tudo a perder. Eu não vou permitir isso! E nem você! – Completou com aspereza. – Seu pai não é o homem mais fácil do mundo, isso é um fato. Mas a grandeza dele é incontestável e não vou omitir isso a você: surpreendê-lo será um desafio. – Yaxley se aproxima um passo da garota que o olha com a mais verdadeira incerteza. – Contudo, seu foco não é esse! Lembre-se de quem você é. Lembre-se do que foi ensinado. Lembre-se que, no final das contas, será você por você e mais ninguém.

Pandora analisa essas palavras. Passou a vida toda sendo treinada e, ao mesmo tempo, escondida do mundo pelo receio de terceiros com relação a sua segurança. Como se fosse uma donzela em perigo ou um objeto a ser trancado. Porém, sabia que não era isso.

Era forte.

Era destemida.

E, acima de tudo, não era covarde.

Olha nos olhos do homem com um sorriso no rosto.

— Eu estou pronta. Você me treinou. Eu aprendi. Não preciso da aprovação ou admiração de ninguém. Sei quem sou e do que sou capaz. Só isso importa! – Disse com determinação.

— Vejo você pela manhã. – Yaxley sorriu. Sabia que não era necessário nenhum comentário além daquilo. – Tente dormir. Detestaria vê-la parecendo um inferius. – E, com isso, se vai.

A garota sorri para si mesma e olha sua forma no espelho.

Realmente, precisava dormir.

*

— Pronta? – O homem com um sobretudo preto pergunta.

— Já nasci pronta. – A adolescente responde agarrando seu malão e o braço do homem estendido em sua direção. – Vamos aparatar?

— Sim, mas antes... – Ele se vira na direção da menina. Yaxley entrava, definitivamente, na categoria de bonito. Seu cabelo loiro e olhos azuis o tornavam um objeto de desejo de qualquer mulher. – Lembra-se do que falei, certo? Sobre como se portar e se dirigir a outros? – Pandora acena afirmativamente. – Sei que não teremos problemas com isso, mas é sempre bom relembrar... Chamar os homens e mulheres de senhor ou senhora/senhorita, respectivamen...

— Se dirigir às pessoas por meio de seus sobrenomes. Sempre manter a postura firme, como se isso fosse um problema pra mim... E, demonstrar respeito às figuras de autoridade que, possivelmente, estarão ali. – A garota completa. – Não precisa me lembrar disso. Acho que fui bem educada o suficiente para fazê-lo.

— Vamos só ignorar o fato de que você me interrompeu. – Yaxley disse a contragosto, enquanto Hawking revirava os olhos. – E nada dessa sua mania de revirar os olhos.

— Sim, senhor. – Respondeu se segurando para não os revirar novamente. – Esquecemos de um detalhe. Me referir ao meu progenitor como Lorde das Trevas, certo?

— Correto. E nunca, sob hipótese alguma, esqueça disso!

Depois disso, tudo o que se podia sentir, era a escuridão e a pressão vinda de todas as direções.

*

Quando a agonia passa, a adolescente abre os olhos. A primeira coisa possível de ser notada foi o fato de estarem em uma rua escura.

Assim que pousam, o homem toma a dianteira e começa a andar, obrigando Pandora a acelerar o passo, quase correndo, na tentativa de acompanha-lo.

Viram à direita, em uma larga entrada de automóveis que saía da pista, com uma grande sebe curvando-se ao lado dela. No final do caminho, avista-se um par de portões de ferro forjado. Aquele local, com certeza, abrigava membros da elite, pois era bem cuidado e exibia um ar pretensioso que só os bruxos mais ricos – e puros-sangues – faziam questão de ostentar.

— Esses portões permitem a passagem de indivíduos selecionados. – Disse Yaxley. – É necessário fazer um tipo de saudação. Observe! – Ao dizer isso, o mesmo faz um gesto com a mão e, logo depois, os dois passam pelos portões como se fossem feitos de fumaça.

— Okay, isso é impressionante! – Comenta a bruxa mais nova.

— Se você não for um de nós, o ferro se contorce num rosto, exigindo o propósito do visitante.

— E se for alguém indesejado? – Questiona, pois adoraria saber como os habitantes daquele local lidavam com visitas inesperadas.

— É melhor não saber. Por hora. – O homem responde com um sorriso que logo desaparece quando ele completa: – Agora, escute. Está lembrada do que comentei sobre a aparência do Lorde, não está?

— Sim. Você disse que não era comum e que eu não deveria encarar.

— Exato! Isso é importante. Não esqueça! – É notável uma espécie de pressa e desespero no modo como o bruxo fala.

Parecia nítido à Pandora que havia muitos detalhes que a mesma não deveria esquecer.

Enquanto continuam a andar, a garota nota um movimento à sua esquerda e, ao olhar naquela direção, vê um pássaro os observando ao longe. – Aquilo é um pavão?

— Um pavão albino, para ser mais exato. – Yaxley diz rindo, aparentemente saboreando alguma piada interna que não achou interessante dividir.

Uma bela mansão surge na escuridão ao final da estrada reta.

Chegam às portas e um homenzinho os recebe. Sua aparência era horrenda e, definitivamente, trazia a mente da garota a imagem de um rato.

— Yaxley. – Sua voz é baixa e um pouco estridente demais. – Eles estão esperando por você. – Diz olhando com muita curiosidade para a menina parada atrás do bruxo.

— Eu sei, Rabicho. Cai fora! – Corban não faz questão de ser agradável com o outro homem e nem de dirigir ao mesmo um olhar além do necessário.

A entrada do local é majestosa. Ela dá caminho a um corredor que, assim como todo o resto, aparentemente, era largo e suntuosamente decorado. Um magnífico tapete cobre o chão de pedra. As paredes, cheias de retratos, cujos olhos os seguem enquanto passam.

Estranhamente, aquele local dá à Pandora Hawking uma sensação de tranquilidade. Não, na verdade, de pertencimento. Estava prestes a ter o momento mais importante de sua vida e a única coisa que sentia era certeza.

Não era medo.

Não era ansiedade.

Certeza! Sabia quem era.

E estava a caminho de reivindicar tudo o que era seu por direito: o convívio com o mundo bruxo – que era totalmente restrito –, a ida a uma escola onde pudesse aprender e desenvolver novas habilidades...

Ao alcançarem uma porta no fim do corredor, o bruxo mais velho se vira e observa a menina. Sua postura ereta e olhar determinado deixavam sua aparência não só mais bela, mas também perigosa. Ali estava uma bruxa adolescente que muitos não ousariam mexer.

Abre a porta.

A sala de estar, com teto de trinta pés de altura, dois lustres e um órgão de tubos em uma das extremidades, tinha uma mesa comprida ornamentada, cheia de pessoas silenciosas: Comensais da Morte.

Não havia dúvidas sobre quem eram aquelas pessoas. Como uma boa aluna, Pandora lembrava de quando seu responsável falou acerca do grupo que fazia parte. A alcunha de Comensal era dada aos seguidores mais destemidos e leais do Lorde das Trevas. Bruxos e bruxas de sangue puro que praticavam as Artes das Trevas sem hesitação e com total orgulho.

E, na cabeceira da mesa, estava seu líder.

O homem com a pele mais branca que Pandora já havia visto, ela logo constatou. Seus olhos, do mais puro vermelho, a fitavam profundamente, causando um arrepio na mesma. A aura de autoridade que emanava dele era quase palpável.

Aquele era um homem que não devia ser contrariado.

— Finalmente, Yaxley. Estava começando a pensar que talvez vocês tinham se perdido. – Sua voz parecia um silvo de uma cobra, afiada e sorrateira. – Porque não se juntam a nós? – Mesmo com o tom baixo, aquilo não era um convite, mas uma ordem. Sendo assim, tanto Pandora, quanto Yaxley se sentaram a mesa, este estando ao lado de uma mulher com os cabelos rebeldes, enquanto a menina a direita de um garoto.

Durante todo o trajeto, da entrada à mesa, todos os olhos se fixaram em Pandora.

Especialmente, um par.

O Lorde das Trevas a analisa e diz, por fim: — Pandora, finalmente nos conhecemos.

Não podia se encontrar nenhum sinal de carinho ou afeto na voz dele – algo perceptível por todos, inclusive pela referida.

— Meu senhor. – Pandora responde, tomando cuidado de não expor nenhum sentimento, seja ela positivo ou negativo, embora não fosse preciso muito esforço. No momento, ela não sentia nada.

O Lorde das Trevas ri: — Consigo ver que fez um bom trabalho, Yaxley. – Diz, olhando para o homem que acena.

— Ela é uma boa aprendiz. – Responde, fazendo um leve sorriso brotar nos lábios da garota pelo reconhecimento.

— Veremos! – É a resposta. — Sua chegada foi em um ótimo momento. Estava informando a todos que tenho um trabalho para meus dois seguidores mais jovens. – Os olhos escarlates focam nos dois adolescentes, sentados lado a lado. — Como todos sabem, não sou permitido de entrar nos terrenos de Hogwarts e, por causa disso, é impossível que eu possa fazer o que tem que ser feito. – Ele se levanta e, ao fazer isso, é possível sentir toda a atmosfera da sala mudar. Enquanto ele anda, todos seguram suas respirações, temendo seu próximo movimento. O Lorde das Trevas para atrás de Pandora e coloca uma de suas mãos frias em seu ombro. – Minha... – Ele se interrompe, como se estivesse procurando a palavra certa. – Minha filha aqui, como sabem, irá para a escola esse ano. Junto a Draco... – Ele coloca a outra mão no ombro do garoto que se encolhe levemente ao toque. – Eles vão nos ajudar na missão.

Todos acenam afirmativamente, exceto um casal sentado perto do adolescente que, pelas características físicas, só poderiam ser seus pais.

— Juntos. Eles vão matar Alvo Dumbledore.

Todos os rostos ao redor da mesa ficam brancos. Ninguém se atrevendo a dizer nada.

— O diretor de Hogwarts? – Pandora questiona.

A mão em seu ombro a aperta, as unhas chegando a quase perfurar sua pele branca. Aquilo, definitivamente vai deixar marcas, pensou.

— Algum problema? – Voldemort pergunta.

— Nenhum. – A mesma responde numa velocidade digna de uma Firebolt.

— Senhor... — O aperto se intensifica.

— Nenhum, senhor. – Completa.

— Como eu ia dizendo, antes de ser interrompido, vocês dois irão mata-lo. Ninguém suspeitará e espero que tenham sucesso. Caso contrário, não preciso dizer o que vai acontecer. – A ameaça não precisa ser verbalizada para ser entendida. – Entendidos?

— Sim. – Os adolescentes respondem na mesma hora, sendo possível detectar uma centelha de medo no menino.

— Pandora, para todos os efeitos, você ainda manterá o posto de filha de Yaxley. Você não foi para a escola até agora, pois seu pai é muito conservador e preferiu ensiná-la por conta própria. – A referida acena. — Em primeiro de setembro, vocês começarão o trabalho. – Dito isto, ele senta em seu lugar novamente.

Todos esperam próximas instruções. Alguns – lê-se Draco e seus pais – aparentando querer sair dali o mais rápido possível.

— Ah, uma última coisa. – O silêncio não é quebrado nem por um segundo. E, quando o Lorde pousa seu olhar em Pandora, ela já sente o que está por vir. – Quero ver se Yaxley está certo sobre você, Pandora.

— Milorde? – O homem questiona.

— Dolohov. – Voldemort chama como se ninguém tivesse se dirigido a ele. – Duelo.

— Meu senhor... – Yaxley começa a falar, mas só basta um olhar de Voldemort para o fazer calar.

Pela segunda vez naquela noite, os olhares recaem sobre a garota de cabelos negros. Ela engole em seco e se levanta. Não estava com medo, mas também não estava tranquila.

Não esperava ser posta a prova na frente de tantas pessoas, especialmente no dia em que os conhece.

Se encaminha ao lado direito da sala, onde há um espaço relativamente livre de objetos e pormenores que possam atrapalhar o que acontecerá a seguir. O homem, chamado Dolohov, já está em posição.

Ele aguarda a menina pegar a varinha e, quando isso acontece, comenta com um sorriso satisfeito no rosto: — Isso provavelmente vai doer.

Mas não é como se Pandora nunca tivesse duelado. Ela só não duelou na frente de ninguém.

Porém, as instruções de Yaxley ainda estavam frescas em sua mente:

— Ser o primeiro a atacar nem sempre é algo bom. – Diz depois de desarmá-la. – As vezes, a cautela se mostra como a melhor e mais adequada aliada.

Por isso, ela espera.

Crucio! – Dolohov grita ao que a menina conjura um escudo protetor sem nem ao menos falar o nome do feitiço em voz alta.

O homem, claramente, não estava preparado para isso. E, tirando vantagem desse momento de surpresa, a bruxa menos experiente retruca: — Rictusempra! – Um jato de luz atinge Dolohov no rosto e ele se dobra com a respiração ofegante, enquanto cai de joelhos.

O feitiço de cócegas foi bem-sucedido!

Muitos olhares estão impressionados, incluindo o de Yaxley.

Contudo, o líder do grupo possui uma expressão indecifrável, o que deixa Pandora furiosa. O que aquele homem queria dela?

Por fim, o Lorde das Trevas decreta: — Fim da reunião.