My Blood: a Draco Malfoy story
6 Festa de natal de Slughorn
O ânimo entre os alunos estava nas alturas. O que mais se via era gente pra cima e pra baixo, alguns correndo numa pressa sem igual, pois no dia seguinte todos estariam voltando às suas famílias para passar as férias de natal, então a correria era basicamente dos retardatários que deixaram pra arrumar suas coisas de última hora.
Ao mesmo tempo, a euforia de alguns se justificava pela festa promovida pelo professor de Poções que aconteceria naquele dia.
Conhecida por gerações de estudantes, as festividades eram bem elogiadas por aqueles que já tiveram o prazer de participar e, por isso, muitos não-membros do Clube do Slug ainda tentavam cair nas graças dos convidados da festança, mas todos já estavam com seus acompanhantes.
Pra Pandora aquilo não passava de uma perda de tempo, pois já sabia que tudo não passava de uma oportunidade de Slug se vangloriar de seus antigos e novos alunos. Será que aquilo era enquadrado como abuso?, ela se perguntava constantemente.
Estava saindo da sala de Feitiços quando Blásio a chama. Ao se aproximar do menino, ela nota que ele está visivelmente nervoso, evitando olhá-la por muito tempo.
— O que houve, Zabini? – ela questiona, pois nunca o tinha visto daquela forma.
Ele alisa os braços num claro gesto de desconforto. – Me mataria se eu furasse com você? – ele pergunta baixinho.
— Não irá à festa de Slughorn? – sabia que Blásio odiava tudo aquilo, mas ele sempre participava das reuniões, mesmo a contragosto.
— Vou, é só que... – ele para e respira fundo, arrumando coragem para falar o que precisava. – Criei coragem e convidei Tracey Davis pra ir comigo!
— Caramba, Zabini! Nunca imaginei que eu fosse tão descartável assim pra você. – Pandora diz enquanto cruzava os braços e o olhava com reprovação. Ele abre a boca para se explicar, mas é interrompido pela garota: — Ela é a garota que você gosta? – questiona.
— Não! É só que...
— Zabini, saiba que se mentir pra mim eu vou atrás da Davis agora mesmo e digo o quão cafajeste é por ter convidado nós duas. – ela o interrompe novamente.
Ele arregala os olhos. – Não faria isso!
— Experimente. – o desafia.
Blásio pondera a ameaça da garota e escolhe não colocar aquilo à prova. – Tudo bem. Eu gosto dela. Estava esse tempo todo tentando criar coragem para convidá-la, mas não consegui. – eles começam a andar na direção das masmorras, já que as aulas do dia haviam terminado. – No final das contas, a atividade em dupla de Flitwick ajudou e perguntei enquanto conversávamos. Ela aceitou na hora, acredita?
— É claro que acredito, Zabini. – ela diz, dando um soco leve no ombro do garoto. – Você é um partidão. Exceto pelo fato de ter me deixado totalmente na mão. – completa. – Como vou arrumar um par em menos de duas horas?
— Muita gente que não faz do Clube adoraria ir não só pra festa, mas adoraria acompanhar você especialmente. – de resposta ele recebe um empurrão da menina. – Ai! – exclama. – Tudo bem! Não está mais aqui quem falou... Obviamente ir com qualquer um não é uma opção, então você poderia ir com Draco. – ele sugere. – Sei que não foi convidado por ninguém e também não faz parte do Clube, é uma possibilidade...
Pandora jura a si mesma que prefere ir sozinha do que com aquele a quem Blásio sugeriu. Desde o que havia acontecido no Três Vassouras, Draco tinha se afastado surrealmente da garota e não só isso, evitava a todo momento cruzar com ela em qualquer situação.
Ao perceber que ficaria sem resposta, Blásio acrescenta: — Bom, sempre existe Goyle... – ele solta uma gargalhada que ressoa em todo o corredor ao ver a careta que Hawking faz para aquele comentário.
— Engraçado. Mais um desse e eu estuporo você. – diz, por fim, tentando convencer a si mesma que ir à festa sozinha talvez não fosse algo tão ruim.
*
— Caramba, Daph! Desse jeito você vai matar o Nott do coração. – Pandora exclama ao ver a amiga pronta.
Daphne, devidamente trajada com um vestido vermelho de gola alta e que ressaltavam suas curvas, passava o gloss nos lábios e, no final, se analisava no espelho com seus saltos bege fazendo barulho no assoalho do quarto.
Tinham decidido se organizar no aposento da novata, pois lá seria possível a Grengrass ter um pouco mais de privacidade.
— Não acha que é demais? – pergunta, insegura.
— Pelo amor de Merlin, mulher! Componha-se. – a morena diz. – Você está linda, Daph. – nesse momento, ela sai do banheiro já pronta.
— Olha só quem fala! – A Grengrass exclama.
O vestido verde de Pandora Hawking tinha um decote bem revelador e o cetim do tecido se adequava ao corpo da garota revelando só o que deveria revelar e o salto preto que usava era tão alto quanto o de Daphne. No pulso, uma pulseira prata que ganhara de Yaxley em seu aniversário de quinze anos e argolas, também pratas, pendiam de suas orelhas.
O cabelo jazia solto, pois a mesma não gostava de prendê-lo. A liberdade dos cachos lhe parecia uma opção melhor sempre.
— Gostou? – pergunta, dando uma volta completa em seu próprio eixo.
— Adorei! Especialmente a pulseira e o decote. – diz, dando uma última olhada no espelho. – Estamos prontas? Blásio combinou de nos encontrar na entrada da Sala Comunal e nos acompanhar até lá. Davis também!
Pandora checa sua imagem uma última vez. Fazia muito tempo desde a última vez que se sentia tão bem consigo mesmo.
Sorriu para o reflexo e deu uma retocada no batom vermelho, dizendo em seguida: — Vamos!
Antes que alcançasse a porta, porém, Daphne a pergunta: — Tem certeza que não vai chamar ninguém?
A outra garota só revira os olhos e sai do quarto em direção à Sala Comunal que estava estranhamente vazia, pois os alunos que não iriam pra festa já tinham se recolhido. Somente três pessoas se encontravam sentadas perto da lareira: Blásio, Tracey e, surpreendentemente, Draco. Esse último se atrapalhou com o que quer que estivesse comentando com Zabini quando pôs os olhos nas recém-chegadas.
Além disso, não conseguiu evitar que seu olhar se demorasse no decote da Hawking.
— Poxa meninas, vocês estão lindas! – Blásio as cumprimenta, se levantando. – Acredito que vocês conheçam a Tracey...
— Oi! – as três se saúdam.
— Acho melhor irmos. Não queremos chegar atrasados, certo? – ele diz. – Te vejo mais tarde, Draco. – acena na direção do loiro que retribui o gesto.
Hawking e Malfoy trocam um olhar demorado, mas não dizem nada um pro outro. A garota apressa o passo, na medida do possível, devido aos saltos altos, pra alcançar seus companheiros, evitando olhar para trás.
*
A sala do professor Slughorn estava idiotamente decorada. Inúmeros panos pendiam das paredes formando triângulos entre as colunas. O painel com fotos de seus estudantes mais famosos jazia numa região de fácil acesso a todos que entrassem no local. Mesas repletas de comidas e bebidas.
O clima era, como dissera no bilhete, de interação. Alunos e professores lado a lado aproveitando a noite.
— Onde disse que ia encontrar Nott? – Pandora pergunta à Daphne, pois sabia que assim que o sonserino chegasse, a possibilidade de ficar sozinha era alta. Blásio inclusive já tinha se distanciado das duas, procurando um lugar para ficar a sós com Davis.
Não o culpavam, pois a atmosfera daquele local era bem propício pra se estreitar laços, queira-se dizer assim...
— Acho que ele deve chegar a qualquer minuto. – afirma.
De fato, não demora muito até sua chegada e, como temia, Pandora fica sozinha. Isso é praticamente um convite para que o professor Slughorn se aproximasse e saudasse a garota.
— Senhorita Hawking! – exclama. – Que bom vê-la.
— Boa noite, professor. – diz com um sorriso no rosto. – É bom vê-lo também.
— Está gostando da festa? – é notável que havia algo além da euforia na voz dele. Provavelmente álcool. – Sabe, tenho amigos que estão bem ansiosos em conhecer a filha do famoso Yaxley. – diz, tocando o ombro da garota e a levando na direção de dois homens e uma mulher um pouco afastados.
— Na verdade, professor, marquei de me encontrar com meu par próximo da mesa de bebidas. – ela inventa uma desculpa na tentativa de contornar aquela situação. – Como ele ainda não chegou, seria melhor continuar no local que combinamos.
Ele pondera sobre o que ela fala. – Tudo bem. Mas me procure assim que ele chegar, okay? – ela confirma com a cabeça e se afasta.
Pandora avista, ao longe, o professor Snape e resolve se aproximar.
— Professor. – o cumprimenta assim que chega ao local.
— Senhorita Hawking. – responde. – Vejo que é uma das alunas que caiu nas graças de Slughorn. Não me admira, em pouco tempo de estudo se mostrou um pouco além das expectativas. – ela decide tomar aquilo como um elogio.
— Como o senhor sabe que não estou aqui de acompanhante? – questiona.
— Pelo fato de estar sozinha e de se esgueirar dos amigos de seu anfitrião. – atesta. A garota se mexe, um pouco desconfortável por estar tão explicitamente deslocada e ele completa: — Não é algo ruim ser ou estar sozinho, sabe? – a olha de lado. – No final, isso não significa muita coisa. Sequer muda alguma coisa...
Ela pensa um pouco sobre o que ele diz e se sente uma idiota por sequer ter sentido vergonha de não estar acompanhada. – Desculpe pelo que eu disse no outro dia. – ela diz, de repente. Snape se vira na direção da menina com uma dúvida no olhar. – Quando me ofereceu ajuda. Eu não sabia naquela época e posso ter parecido um pouco grossa, pra ser sincera. – completa. – Juro que não foi minha intenção.
Ele a analisa atentamente e, depois de alguns segundos diz: — Não deve pedir desculpas por isso, senhorita. Mas devo alertá-la que, a cada dia que passa, vocês dois tem menos tempo. – ela entende o recado. Cada minuto que desperdiçavam, cada dia sem avançar no plano, era um passo mais próximo para a morte de ambos e dos pais de Draco, por extensão. – Agora se me der licença. – com isso, o professor se afasta na direção contrária.
Pandora aproveita um dos garçons passando na hora e se serve de uma das taças dispostas na bandeja. Aquela conversa a deixou nervosa e, justo na hora que achava que ia relaxar, os detalhes da bendita missão surgiam martelando em sua cabeça. Bem, os detalhes e o fracasso que ela estava sendo.
Seus pensamentos são interrompidos quando uma garota ruiva para ao seu lado. – Também veio sozinha? – pergunta.
A sonserina a olha atentamente, pois não se lembrava de tê-la visto antes. Provavelmente era de outra Casa...
— Na verdade, sim. – responde, por fim. – Acho que não nos conhecemos. Sou Pandora Hawking.
— Eu sei! – ela diz, recebendo um olhar questionador. – Digamos que no início do ano você era o assunto principal entre todas as Casas. – esclarece. – De toda forma, sou Gina. Gina Weasley.
— Você por acaso é irmã de Rony Weasley?
— Conhece o idiota do Rony? – ela pergunta.
— Esbarrei com ele na minha primeira aula de Poções. Como ele e com Harry Potter, no caso. – ela consegue notar que, à menção desse último, um leve rubor sobe às bochechas de Gina. – E então, qual a sua história sobre estar aqui desacompanhada?
As duas garotas conversam durante um bom tempo. Pandora gosta da companhia dela, principalmente por sua personalidade. Sarcástica, mas bem divertida. Fica sabendo que o par da Weasley era seu namorado, mas haviam brigado às vésperas da festa e, por isso, ela preferiu aparecer sozinha.
Foi um bom momento. A sonserina nunca tinha tido muita interação com ninguém de outras Casas e poder escutar um pouco dos detalhes de Hogwarts do ponto de vista de uma grifinória era bem interessante.
Porém, quando a conversa começava a girar em torno do conhecido "Trio de Ouro" algo que não esperava acontece em seguida, chocando a todos: Draco estava sendo escoltado para dentro da festa por Filch que o segurava pelo colarinho do terno preto que usava.
— Peguei esse garoto andando pelos corredores, professor. – diz na direção de Slughorn. – Ele diz que foi convidado...
Pandora precisava pensar rápido. Sabia que Draco tinha sido pego, possivelmente, ao sair da Sala Precisa e isso a fazia se questionar o quanto aquilo poderia colocar, mais ainda, o plano em risco. – Você me dá licença, Gina? – pede e vai na direção do zelador e do professor de Poções, dizendo: — Na verdade, senhor Filch. – diz transparecendo certeza na voz e olhando na direção do tutor responsável pela festa. – Ele é meu acompanhante. Como bem disse ao senhor, professor, combinamos de nos encontrarmos aqui. – ela se volta na direção de Malfoy lhe lançando um olhar de raiva. – Ele deve ter se perdido. – completa.
— Ah, mais do que bem! Pode deixa-lo, senhor Filch, ele é muito bem-vindo aqui! – Slughorn afirma.
A contragosto, o zelador solta as vestes de Malfoy que, por sua vez, o olha de cara feia. Pandora se aproxima lançando ao homem mais velho um sorriso simpático e puxa Draco pela mão. O leva até uma parte da sala coberta por alguns panos, afim de garantir privacidade aos dois.
— Ficou doido, Malfoy? Como que você se deixa ser pego? – pergunta, irada.
— Crabbe e Goyle vacilaram. Abandonaram seus postos antes do tempo previsto e, quando saí da Sala Precisa, esbarrei com o imbecil do Filch. – esclarece.
— Disse que não podíamos confiar nesses dois. – Pandora rebate. – Pelo amor de Merlin, Malfoy, os dois combinados têm a inteligência de um trasgo! – respira fundo. – Da próxima vez, tome mais cuidado.
Ele acena em concordância. – Sim, senhora. Não acontecerá novamente! – brinca, fazendo a garota revirar os olhos. – A propósito, foi um raciocínio rápido o seu. Principalmente se levar em conta que estava gastando tempo e saliva com aquela traidora do sangue. – a garota franze a testa, pois não tinha escutado aquela expressão antes. Faz uma nota mental de perguntar ao garoto depois. – E, cá entre nós, que sorte a minha ser o acompanhante da menina mais bonita da noite. – acrescenta, a olhando de cima a baixo.
— Tentando me ganhar com elogios, Malfoy? – ela retruca. – Saiba que só vai funcionar um pouco dessa vez, pois estou de bom humor. – Draco sorri com a resposta, enquanto ela sai do local onde estão.
— Então, algo interessante pra fazer nessa festa? – ele pergunta, analisando o local.
— Nada. Até porque você não vai ficar até o final. – esclarece.
— Como assim?
— Em primeiro lugar, nem deveria estar aqui. Você vai passar no máximo quinze minutos e depois vai embora. – ele faz menção de falar algo, mas ela coloca um dedo em cima de seus lábios. – Não quero ouvir objeções. Além disso, quero que me espere no meu quarto. Precisamos falar sobre a nova estratégia que vai usar quando for para você-sabe-onde, já que a opção Crabbe e Goyle está completa e irredutivelmente fora do catálogo.
Draco fica visivelmente desanimado com aquilo, mas Pandora não liga. Tinha que fazer com que ele arcasse com as consequências da burrada que fez. Ainda estava sendo boazinha o deixando ficar alguns minutos ali.
— Algum avanço? – pergunta, sabendo que Malfoy iria entender.
— Mesma coisa. Estou começando a achar que não vamos conseguir. – diz.
— Não me diga... – ela responde, pegando duas taças da bandeja do garçom. Entrega uma para o menino e a outra fica pra si. – Vamos usar o tempo depois daqui também pra pensar numa forma de acelerar isso.
Ele assente. – Acho que já passou do tempo de fazermos isso.
Não demora muito até os outros sonserinos se juntarem a eles, todos muito surpresos com o fato da Hawking ter, no fim das contas, convidado o garoto. Esse último se vangloria e passa boa parte de seu tempo disponível inventando uma história mirabolante e, insuportavelmente, romântica sobre como havia sido o convite. A garota, por sua vez, está entretida demais na taça em sua mão, enquanto Daphne parece estar nas nuvens ouvindo tudo aquilo de braço dado com Theodore Nott.
Quando os quinze minutos acabam, ela pousa a mão no antebraço de Draco e o aperta. Já sabendo do que se tratava, ele entende o sinal e a acompanha até próximo da porta, se despedindo de todos e dizendo que estava cansado demais para continuar ali.
— Entendeu o que eu disse, né? – Pandora pergunta, assim que estão a uma boa distância. – Me espere no quarto. Não vou demorar. – ele se abaixa e dá um beijo na bochecha da garota que se afasta, intensificando tanto o aperto que suas unhas chegam a quase perfurar a pele do menino. O que ela não diria a ninguém era que, mesmo odiando toques ou qualquer coisa parecida, aquele em especial despertou algumas borboletas em seu estômago.
— Vou esperar ansiosamente. – diz, por fim.
Ela volta pra junto de seus amigos e olha pra bebida em sua mão, resolvendo coloca-la de lado.
Merlin, o que será que tinha nesse vinho..., pensa e decide não beber mais nada naquela noite.
*
Pandora se despede de Theodore e Daphne, pois eram os únicos do grupo, além dela, que permaneciam lá. Blásio e Tracey tinham desaparecido misteriosamente há algumas horas.
A garota se dirige até as masmorras, já arrependida de ter combinado de discutir qualquer coisa com qualquer pessoa. Estava imensamente cansada! Tinha passado quase uma hora e meia conversando com Slughorn e três de seus ex-alunos que trabalhavam atualmente pro Profeta Diário, todos muito interessados em saber todos os detalhes de sua vida.
Os corredores vazios do castelo davam a impressão de que ele tinha saído de um velho filme de terror e, a julgar pela presença de certos fantasmas aqui e ali, a definição era bem merecida.
— Araramboia. – diz a senha para entrar na Sala Comunal se dirigindo diretamente ao seu quarto. Como prometido, Draco a está esperando, mas não da forma que ela imaginava. – Confortável? – questiona. O garoto estava totalmente deitado em sua cama, enquanto lia um de seus livros de Transfiguração.
— Você tem muitos desses, sabia? – ele pergunta levantando o objeto em sua mão e a mostrando.
— E você é bem enxerido... – rebate, arrancando-o de sua mão. Ele ri. – E então, o que vai fazer sobre Crabbe e Goyle?
— Crabbe e Goyle estão fora. – diz com convicção. – Assim que saí da festa fui no quarto nos dois e disse que não iriam mais ajudar.
— Ótimo. E garantiu que eles não falassem nada sobre isso pra ninguém? – Pandora pergunta empurrando os pés dele de cima da cama e fazendo com que se sentasse. Pega um moletom do lado da cama e o coloca por cima do vestido.
— Gostava mais do visual anterior. – o garoto diz.
— Malfoy!
— Eles podem ser idiotas, mas sabem guardar segredo. – afirma. – Não é a primeira coisa ilegal que fazemos e nunca tive problema com o fato de dedurarem nada, então estamos bem! – completa. A garota, por não conhecer os outros dois bruxos tão bem, ainda tinha dúvidas, mas pensava que Draco os conhecia a mais tempo e decide lhe dar um voto de confiança. – Penso que devemos deixar de lado os turnos individuais e fazermos tudo juntos. – Hawking o olha sem entender. – Estava pensando que, talvez, nossa demora seja pelo fato do esforço não estar sendo feito de forma coletiva. Acho que conseguiremos concertar o Armário juntos e não separados.
Pandora reflete sobre aquilo. Precisava admitir que tinha certa lógica naquilo e, sinceramente, achava que não seria nada de outro mundo utilizarem aquela estratégia. Afinal, não estavam avançando mesmo... Por isso, concorda.
— Tem uma coisa que precisa saber, porém. – Draco diz. – É sobre Snape...
— O que tem Snape? – ela pergunta.
— Quando eu estava saindo da festa de Slughorn ele me parou. Na verdade, ele me interceptou de uma forma não tão agradável e até um pouco agressiva. Queria saber meus planos e o que estávamos fazendo... – responde. – Disse que poderia ajudar. – diz por fim, encarando a menina nos olhos.
— E o que você disse? – questiona.
— Disse que não. Que faria o que tivesse que fazer sozinho e que o Lorde das Trevas tinha confiado a tarefa a mim. – afirma. – Mas não é só isso... Ele disse que fez um Voto Perpétuo.
— Um Voto Perpétuo? – Pandora pergunta exasperada. Podia não estar naquele meio a muito tempo, mas Yaxley a havia ensinado sobre aquela magia e sabia que não era algo a ser feito de maneira leviana.
Draco assente, concordando: — Um Voto Perpétuo de que iria me ajudar na tarefa e não me deixaria falhar.
— Você acha que devemos confiar nele?
— E isso importa? Não será Snape que morrerá caso tudo dê errado. – responde. – Iremos continuar a manter isso entre nós. Mais ninguém.
— Bem, entre nós, exceto por Crabbe e Goyle. – ela diz a contragosto.
— Acha que sou mesmo um idiota, não é? – ele pergunta assustado. – A única coisa que sabem é que tenho um trabalho designado por Você-Sabe-Quem e que tem relação com algo presente na Sala Precisa, nada mais! Os pais deles são Comensais, então eles não são loucos de contestar...
— Tudo bem! – ela diz, levantando os braços em um gesto de rendição. – Já que resolvemos essas questões mais urgentes, tenho umas perguntas a lhe fazer. A primeira é: por qual motivo chamou Gina Weasley de traidora do sangue?
Ele revira os olhos. – A família dela nem parece ser sangue-puro... Se juntam com todo tipo de gente, desde nascidos trouxas até lobisomens. Digo traidora do sangue por isso. Por traírem o sangue se juntando com sujeitos desses grupos.
— Não acha que isso é ser um pouco radical? – ela diz. – Quero dizer, o valor de uma pessoa não é medido por causa do sangue, é?
— Meu pai sempre disse... – ele começa, mas é interrompido por Pandora.
— Seu pai sempre disse! Você não é capaz de construir uma opinião própria? Ou de ter uma diferente da que seu pai tem? – questiona. – A Granger, por exemplo, até onde eu sei é nascida trouxa e é uma das melhores alunas de nosso ano. Ela inclusive é do Clube do Slug e você não. Mesmo um pouco irritante, não há como negar a inteligência dela. – afirma. – Eu mesma não sei em qual das categorias me encaixo, então posso ser qualquer uma delas e, digamos que eu seja mestiça, ainda assim também posso me colocar nesse mesmo patamar, de acordo com palavras suas... Realmente ainda acha que a qualidade dos outros é medida dessa forma?
Draco fica calado. Ninguém nunca o havia questionado sobre aquilo, até porque todo o seu meio familiar e social corroborava com aquela ideia. E, de fato, mesmo não admitindo e não gostando de pessoas como Hermione Granger, era notável o desempenho da mesma em magia. Até o próprio Potter que, mesmo intragável, não era tão ruim.
— Bom saber que deixei Draco Malfoy sem resposta. – ela diz, sorrindo genuinamente.
Tentando ignorar a sensação de escutar seu nome saindo da boca dela pela primeira vez, ele diz: — Ah, cala a boca!
A próxima coisa que ele sente é o chão. Ela simplesmente o jogou pro lado, o derrubando. – Ai!! – ele exclama.
— Se me mandar calar a boca novamente, garanto que o resultado vai ser bem pior. – disse se posicionando da mesma forma que o garoto estava segundos atrás. – Já que resolvemos tudo, pode sair. — fala enquanto deitava na cama, fazendo um gesto de dispensa com a mão.
Ele levanta, passando a mão pelo braço que estava doendo um pouco pela queda e diz: — Vou ficar aqui mais um pouco.
— Perdão? – Pandora questiona, acreditando não ter escutado direito.
— Digamos que meu quarto está sendo utilizado por outras pessoas. – responde. Ela semicerra os olhos ameaçadoramente e ele se apressa em explicar. – Blásio e Tracey estão no quarto.
— Ah! – a garota exclama. Agora fazia sentido o sumiço dos dois na festa. Aqueles dois safados!
— Então, posso ficar aqui? – ele pergunta, por fim, depois dela demorar a responder.
— Pode. – responde, depois de pensar um pouco. – Mas só até eles terminarem.
— Vai demorar um pouco pra isso. – ele diz em tom baixo.
Temendo ser mais uma vez chutado da cama, Malfoy toma a poltrona em frente à janela, contemplando a visão do Lago Negro.
A iluminação quase fantasmagórica do local fazia com que a pele dos dois parecesse mais branca do que era de fato. Os cabelos do garoto, quase brancos, se destacavam na pouca luz. Pandora tinha que admitir pra si mesma, provavelmente pela milésima vez, que Draco Malfoy era imensamente bonito. Até naquela posição de perfil era bonito!
— Posso te perguntar uma coisa? – ele fala abruptamente, fazendo a menina se assustar. Não tinha notado que o estava encarando. Acena, por fim. – Como você encarou a situação em Hogsmeade? – ele questiona.
— Situação em Hogsmeade? – pergunta sem entender.
— Eu me derramando em lágrimas no meio de uma quase crise de ansiedade. – ele esclarece a olhando.
Pandora ri. – Malfoy, não é pecado chorar ou demonstrar fraqueza. Sabe disso, não sabe?
— É, mas não deixa de ser menos humilhante... – comenta.
— Humilhante? – ela questiona. – Isso só mostra o que você é: humano. Sinceramente você me parecia bem inalcançável antes daquilo. – é a vez dele não a entender. – Não que eu goste do estereótipo de "menino quebrado", mas você se mostrar um pouco menos robotizado me pareceu algo bem tranquilizador. Especialmente agora! – esclarece. – Não me leve a mal, mas você sempre me pareceu uma pessoa extremamente fria e pouco receptiva. – Pandora percebe que ele leva um tempo pra internalizar aquelas palavras e pergunta: — Foi por isso que estava me evitando depois daquilo? Temia o que eu iria pensar de você?
— Temia que me achasse um covarde, sim. – ele confessa.
— Malfoy, você pode ser tudo, menos covarde. – ela afirma e volta sua atenção ao livro.
Os dois ficam em silêncio durante um bom tempo, apenas assimilando tudo que havia sido dito.
*
Pandora acorda com sons no corredor. Aparentemente as pessoas estavam agilizando os últimos preparativos para as férias de natal.
Ela se senta na cama, notando que ainda vestia a roupa da festa junto ao moletom e sente um cobertor deslizar sobre seu corpo. Engraçado, não lembrava do momento em que pegou no sono e muito menos de se cobrir. Sacode a cabeça, se apressa na organização de seus pertences, toma um banho e se arruma para deixar o quarto.
Está quase se retirando quando percebe um pedaço de papel na escrivaninha ao lado da cama. Um bilhete! O pega e lê:
Estava tão exausta que pegou no sono. Blásio me avisou quando o quarto estava "liberado". Isso foi poucos minutos depois de você adormecer.
Não queria que passasse frio.
D.M.
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