A primeira semana de férias passava de maneira tranquila na Mansão dos Malfoy. Os integrantes da referida família e Pandora eram os únicos bruxos ali, visto que Voldemort não estava e, obviamente, havia deixado os residentes sem mais explicações. O quase invisível Rabicho também os tinha deixado, pois estava sendo "emprestado" a Snape.

A atmosfera do local, mesmo continuando sinistra e sem muita vida, parecia um pouco mais leve. Obviamente todos tentavam estar preparados para o retorno do Lorde que poderia acontecer a qualquer momento. Mas só o fato de estarem ali sozinhos já garantia um sentimento quase de paz. Quase.

A maior parte dos primeiros dias de Pandora foram dedicados a exploração da propriedade. O grande jardim já a atraia desde a primeira vez que visitara o local e, como não conseguiu ter a chance de conhece-lo tão a fundo antes das aulas, pensou que seria uma boa ideia fazer isso agora.

Mesmo grande, só foi preciso dois dias para que ela conhecesse tudo. Os animais que estavam ali, em especial os pavões albinos que eram um show a parte, ficavam sempre retraídos e isolados. É como se soubessem que a melhor coisa a se fazer seria ficar longe da Mansão, Pandora pensava. Não podia culpa-los. Ela mesma gostaria de estar o mais longe dali. De preferência na casa em que cresceu.

Podia não ser muito sentimental e apegada a coisas meramente materiais, mas pelo menos em sua antiga casa não se sentia tão desconfortável. Não se sentia tão estranha e não querida. Era surreal pensar que sentiria mais conforto estando com seu "pai" de consideração do que o seu verdadeiro. De fato, não era capaz de sentir nenhum tipo de sentimento pelo seu progenitor, seja ele bom ou ruim. Na realidade, a única coisa próxima de sentimento nela com relação a ele era medo. Um medo irracional que tomava suas entranhas todas as vezes que estava na presença dele.

Foi uma surpresa agradável para a garota achar um lago nos fundos da propriedade. Não se aventurou a conhece-lo de perto, devido a baixa temperatura da época do ano em que estavam, mas aproveitou o espaço de outra maneira: nos próximos dias, se dedicou a leitura de livros sempre naquele lugar. Descobriu ser um local de total tranquilidade, onde os únicos sons que se ouviam eram dos animais aqui e ali.

Era bom.

Como se ali fosse possível fugir de tudo que a assombrava, fosse do presente ou do passado.

Numa das manhãs (a quarta manhã para ser exata), depois do café, Pandora estava deitada em cima de um lençol que conjurara, lendo uma obra trouxa que falava sobre criaturas fantásticas. Elfos, anões, cavaleiros brandindo espadas e lutando em busca da liberdade de todo o povo de seu mundo, se rebelando contra um regime opressor e sombrio. Achava engraçada a forma como os trouxas, mesmo sem saber de nada de mundos além do seu, tinham a imensa capacidade de criar histórias sobre realidade mágicas. A imaginação deles não tinha limites na opinião da garota e isso era uma das muitas coisas que admirava neles.

Yaxley não fazia ideia do conhecimento de Pandora sobre os não-mágicos. Muito menos sabia como ela os adquirira. Sabe, caro leitor, a garota, se aproveitando da solidão que encontrava em seus dias, aproveitava alguns momentos para conhecer a Londres "normal". Passara vários dias explorando territórios desconhecidos, se apropriando e admirando tudo o que via. Chegou a, inclusive, conhecer alguns trouxas (ora, seu primeiro beijo havia sido com um). E nem por isso se sentia menos bruxa ou suja, como alguns gostavam de pensar. Pelo contrário, achou que todo esse conhecimento só viria a agregar. Afinal, ninguém é, em essência, melhor que os outros. Nem mesmo bruxos.

Obviamente aquele era um pensamento e um segredo só seu. O meio em que estava não permitia que ela expusesse essas ideias. Merlin! Se ela falasse qualquer coisa do tipo uma Maldição Cruciatus seria a menor das consequências. Porém, mesmo sem expor, não deixaria sua visão de mundo ser afetada por outros. Disso tinha certeza: suas convicções não seriam mudadas por causa de A ou B.

Estava perdida em pensamentos, não tão relacionados ao livro em mãos, quando um corpo bateu no chão ao seu lado, a assustando. Antes mesmo de ver de quem se tratava, procurou esconder o objeto que segurava debaixo do lençol. Ia arrumar um problema enorme sendo vista com um livro de contos trouxa.

— Porque está escondendo seu livro? – perguntou a pessoa.

— Você é sempre tão curioso assim? – rebateu com uma pergunta, finalmente olhando na direção do garoto deitado ao seu lado.

— Só com coisas que me interessam. – a olhou com uma clara mensagem por trás daquelas palavras. Mensagem que Pandora resolveu ignorar.

— O que está fazendo aqui? – questionou.

— Não tinha nada pra fazer. Estou entediado. Resolvi vir procurar você e importuná-la na tentativa de discutirmos algumas coisas. – esclarece.

— Como por exemplo?

— Nossa estratégia para o dia em que Dumbledore... – ele para, engolindo em seco. – Bem, você sabe.

Ela pondera. Talvez discutir aquilo antes da volta de Você-Sabe-Quem era realmente uma boa ideia, pois poderia dá-los total propriedade para responder quaisquer perguntas que pudessem surgir. Por isso, acena em concordância. – Sua mente brilhante já pensou em alguma coisa?

— Pra falar a verdade, sim. – responde Draco, percebendo a ironia implícita na frase da garota. – Poderíamos usar alguma parte do castelo como chamariz. Assim teremos controle de onde ele vai estar no momento. – ela acena. Era, de fato, uma estratégia muito boa. – Precisamos decidir qual...

Ela pensa por um momento. – Seria preferível algum lugar com boa visibilidade até pra ser mais fácil atraí-lo. Mas, ao mesmo tempo, precisa nos dar certa privacidade. Existe algum lugar que se encaixe nessa descrição? – questiona, pois obviamente ele conhecia o castelo melhor que ela.

— Na verdade, tem. – ele diz quase que instantaneamente. – Quando as aulas voltarem, te levarei lá.

— Não vai me dizer onde é? – ela pergunta, revoltada. Não podia acreditar que o loiro ia deixa-la na dúvida até o retorno das aulas.

— Não. – Pandora abre a boca para protestar, mas é interrompida por ele. – Relaxe! Não precisa ficar castelando sobre isso. Pelo menos, não por hora.

A garota, mesmo não convencida, decide ficar calada. Esperava que ele, no fundo, tivesse alguma boa razão para a deixar no escuro durante tanto tempo.

Passa-se vários minutos até que ele retome a conversa. – Tem outra coisa que quero falar com você. – diz, relutante.

— Nada bom, aparentemente. – ela supõe. Draco continua calado. Seus olhos, repentinamente, se tornam tristes e é como se uma nuvem estivesse pairando sobre ele. Como se o peso em seus ombros estivesse insuportável. – Malfoy, o que aconteceu? – Pandora pergunta preocupada e, mesmo odiando contato, coloca uma das mãos sobre o ombro dele num gesto de conforto.

Ele respira fundo e diz: — Sou eu quem deve matar Dumbledore.

— O quê? – Pandora pergunta assustada.

— Um de nós dois deve lançar a maldição. – ele a olha profundamente. Determinação marca seus olhos, ainda tristes. – Devo ser eu.

— Acha que não sou capaz de lança-la? – a garota questiona, claramente ofendida.

— Por Merlin, não! Sei que é capaz de qualquer coisa que quiser. – ele se apressa em explicar.

— Então o que é? – ela pressiona.

— Não vai gostar do que vou dizer. – Pandora o olha com uma ponta de raiva, já se preparando para o absurdo que, possivelmente, iria escutar. – Acho que, sabendo ser inevitável, se um de nós for sair dessa com o peso do ato, é melhor que seja eu. Não gostaria de saber que, mesmo eu podendo ter evitado, você estaria com sangue nas mãos para sempre. – ele a olha com um claro pedido de desculpas nos olhos.

A adolescente fica chocada. Era mesmo possível que ele pensou que ela se ofenderia em ouvir aquilo, sendo que a única coisa que sentiu foi uma empatia (e até um carinho) imenso por ele?

— É sério que você achou que eu não gostaria de ouvir isso? – ela questiona.

Draco fica claramente confuso. Seria possível que ela não havia ficado ofendida? – Achei que você pensaria nisso como uma fraqueza ou como um insulto.

— Fraqueza? Insulto? Malfoy, isso não é nada além de um ato de humanidade. – esclarece. – Não concordo, pois também não gostaria de o deixar na mesma posição, mas eu realmente penso que não conseguiria matar alguém. Não depois de... – ela para de falar abruptamente, sabendo que havia falado demais.

Ele percebe. – Depois de?

Ela fecha os olhos. Não devia ter deixado aquilo escapar. Flashes da noite em questão invadem sua mente: crianças implicando com ela no meio do parque; uma menina pequena a empurrando; ela caindo de costas, extremamente assustada; vozes gritando em sua direção; uma explosão potente de energia; sirenes tocando a todo lugar; ela escondida em arbustos e uma mão tocando em seu ombro e depois, escuridão.

— Hawking. – a voz de Draco a chama de repente, trazendo-a de volta ao presente. – Depois de o quê?

— Nada, Malfoy. – ela diz com a voz afetada. Seus maiores temores voltando a tona, a impedindo de respirar e pensar racionalmente.

— Você está bem? – ele pergunta.

— Eu preciso... – ela não termina a frase, simplesmente levanta e vai embora, deixando Draco sentado, totalmente aturdido, na beira do lago.

Leva um tempo até ele se recuperar de toda a situação e, ao fazê-lo, lembra do objeto alvo de sua curiosidade primeira e que, na pressa de deixar aquele lugar, Pandora havia esquecido embaixo do lençol.

*

A garota de cabelos negros não foi vista pela mansão o resto do dia. Havia se retirado ao seu quarto e evitado qualquer tipo de contato social com os moradores da casa.

No fundo, Draco sabia que ela só tentava evitar apenas um deles.

Passara a tarde folheando o livro de Pandora. Tal foi sua surpresa ao ver o livro trouxa da garota. Não sabia que ela gostava desse tipo de entretenimento e não se admirava pelo susto que levou ao ser pega com ele em mãos. Se fosse qualquer outra pessoa dali, as consequências podiam ser gravíssimas, ele não tinha a menor dúvida daquilo. Contudo, o único sentimento que o tomou foi, de fato, a curiosidade. Queria saber o que tinha de tão especial naquela história que despertava o interesse da menina.

Mesmo sendo um conto totalmente imaginário e fantasioso (muito bem escrito, ele tinha que admitir), ele podia identificar algumas características que podiam ou não podiam ter certa relação com a realidade. Lembrava-se das aulas de Estudo dos Trouxas, mais precisamente, sobre as guerras e do que eles chamavam de regimes totalitários. Era nítido que aquela obra se espelhara nisso. O próprio título, A Sociedade do Anel, passava uma ideia de resistência de alguma das partes.

Não conseguiu segurar o riso, pensando na ironia que era aquilo. Se fosse adaptar aquela história para a sua vida, era óbvio que ele estaria no lado dos vilões. Sempre esteve, quisesse ele ou não.

E, de certa forma, Pandora também.

Perguntava-se se ela tinha noção disso ou, pior, se ela se culpava por isso. Ele, com certeza, o fazia. Culpava-se por estar naquela situação. Por ser quem era. Sempre soube que não era uma boa pessoa, mas nunca almejou chegar onde chegara: o Comensal da Morte mais novo de todos os tempos.

Pelo menos até a Hawking aparecer. Foi aí que as coisas mudaram um pouco.

Não era mais o mais novo aliciado de Voldemort. Do mesmo jeito que não estava mais sozinho na missão suicida e impossível que lhe foi dada.

Aquilo era bom.

Poder compartilhar aquele fardo com alguém era um alívio. Era mais fácil tendo uma pessoa com quem contar caso as coisas dessem errado. Mesmo sabendo que elas não podiam ir nessa direção. Tinha que cumprir aquela tarefa ou seus pais morreriam (e ele, logo em seguida). E era justamente por saber disso que os pesadelos não o deixavam sossegar. Sabia que, toda noite, ao fechar os olhos, eles o alcançariam. Perdera as contas de quantas vezes, no meio da madrugada de Hogwarts, havia se dirigido até a Torre de Astronomia pela falta de sono e, ao chegar lá, ser atentado não só pelas lembranças dos sonhos, mas também pela ideia tentadora de atingir o chão aos pés do local, pois seria tudo mais fácil acabar com todo aquele sofrimento.

Sacode a cabeça na tentativa de afastar aqueles pensamentos e decide esperar até tarde da noite para entregar o pertence da garota, afim de evitar qualquer risco de alguém os pegar com algo de natureza trouxa em mãos.

*

Fazia um bom tempo que não se martirizava tanto por aquele erro. Sempre demorava a se perder em devaneios relacionado aquilo, mas quando acontecia, era um verdadeiro horror. Horas e mais horas revivendo tudo. Ah, se todos soubessem o monstro que eu sou, pensou. Tinha certeza que, se esse fosse o caso, Draco nem ao menos teria feito a oferta daquela manhã. Era óbvio que não sentiria empatia por ela. Afinal, ela não era merecedora de receber tal sentimento.

A batida rápida na porta a despertou. Quem poderia ser aquela hora? Todos estavam, em teoria, dormindo.

Pandora respira fundo várias vezes, tentando se recompor antes de abrir a entrada do aposento. Dá um checada em sua imagem no espelho do banheiro e conclui que está, no mínimo, apresentável.

Abre a porta e a cena que encontra do outro lado é, por falta de palavra melhor, inusitada. Draco se encontrava parado na soleira segurando uma bandeja contendo uma tigela que, a julgar pelo cheiro, estava cheia de sopa e com o que, a garota reconheceu, seu livro na outra mão.

— Vim trazer algo já que não desceu para comer o dia todo. – ele diz, um pouco envergonhado. Pensava que poderia haver uma possibilidade daquilo ser visto com muito sentimentalismo pela menina.

— Obrigada, Malfoy. – ela diz. Não estava com fome, mas não faria a desfeita de ignorar aquele gesto. – Vejo que pegou meu livro.

— Percebi que esqueceu dele quando saiu correndo lá do lago. – esclarece, enquanto o objeto é arrancado de sua mão. – Pensei que seria melhor entrega-la quando todos estivessem dormindo, para evitar... Você sabe...

— Sim. – Pandora concorda, enquanto pousa a bandeja e o livro em cima da cama. Estava estranhamente séria e formal. – Provavelmente você pensou certo.

Sem esperar convite, Draco entra no aposento. A garota levanta as sobrancelhas pelo ato, mas não se opõe. Ele julga isso como um bom sinal.

Dá uma boa olhada ao redor. O ambiente estava impecável. Totalmente organizado e limpo. Não que esse fato o surpreendesse. Já tinha estado no quarto da mesma ocupante em Hogwarts e ele era imaculado.

— Sobre a cena que rolou lá embaixo... – ele começa.

— Não vou falar sobre isso, Malfoy. – ela o corta, com firmeza. Não estava com o emocional forte o suficiente pra enfrentar qualquer interrogatório sobre aquilo. – Se veio aqui na intenção de saber algo sobre, é melhor ir embora.

— Calma! Na verdade, vim saber como estava. – a menina o olha com desconfiança, sem saber se deveria acreditar ou não nele. Ele revira os olhos e, a muito contragosto, revela algo que preferia manter para si: — Fiquei preocupado.

Ela mantêm a desconfiança, mas decide que não tem motivo nenhum para acreditar que ele estaria mentindo, por isso diz: — Estou bem. Sempre fico um pouco abalada quando lembro sobre, mas estou bem.

É a vez de Draco desconfiar e, diferente de Pandora, ele não compra aquelas palavras. Era nítido que aquele assunto a aborrecia e atormentava. Até porque, se fosse o contrário, ela não teria o evitado e parado de se alimentar durante o dia todo. Ele sabia os sinais que as pessoas davam quando não estavam bem, pois ele mesmo os transmitia desde que recebera a notícia de sua missão.

— Pode sentar aí na cadeira se for ficar aqui dentro. — a garota diz e ele obedece. — Você tem dormido, Malfoy? – Pandora pergunta, de repente.

— Sim. Qual o motivo da pergunta? – ele questiona.

— Está com a aparência cansada. Notei isso desde manhã, mas não achei um jeito muito educado de perguntar. – diz tomando um bocado da sopa. – Então, vai do jeito mal educado mesmo...

Ele ri. – Tenho tido alguns problemas, mas logo logo vai passar. Pelo menos eu espero!

— Problemas do tipo pesadelos? – ela pergunta sabiamente. Ele assente, concordando. Não tinha vergonha de admitir aquilo. Não para ela, pelo menos. – Tudo bem, eu acho... Os tenho também.

Faz-se um silêncio entre os dois, ambos entretidos demais em seus próprios temores para falar qualquer coisa. Mas Draco tinha uma curiosidade que nem mesmo seus maiores medos iriam conseguir afastar.

— Então quer dizer que você gosta de literatura trouxa? – pergunta. Ela ri, agradecida pela mudança de assunto.

— Pra ser sincera, sim. – admite, olhando com ternura para o livro ao seu lado. – Sei que talvez não entenda, mas acho que eles possuem uma capacidade que, muitas vezes, nós bruxos não temos.

— E qual seria? – ele questiona, querendo saber como a cabeça dela funcionava.

— A capacidade de criar por si mesmos. De pensar fora da caixinha e viver em mundos que, mesmo que não sejam reais, podem ser alcançados somente com a palma da mão. – ela diz. – Sabe, durante muito tempo, os livros foram minhas únicas companhias. Saber que eu poderia viajar e visitar um mundo completamente novo sem nem sair de casa era um alento.

— Mas porque literatura trouxa?

— Eu os admiro, Malfoy. – ele se assusta com aquele afirmação, ao passo que ela ri da reação dele. – Eu realmente não espero que entenda, mas não acho que somos melhores que eles em nada. Só diferentes.

— Sério?

— Você não? – ela rebate.

— Nunca parei para pensar sobre isso. Fui ensinado, desde sempre, que famílias bruxas são superiores e que qualquer um que tenha uma origem diferente dessa não passa de um ser indigno. – diz. Não tinha necessidade de esconder aquilo, todo mundo sabia que sua família (e, consequentemente, sua criação) era pautada no preconceito e discriminação. Que o sangue vinha antes de tudo e a linhagem pura era a melhor.

— Talvez seja a hora de você pensar sobre isso. Talvez você devesse sair um pouco da caixinha como os trouxas. – ela diz, de forma suave. Ele entendeu o motivo dela usar aquele tom: não queria que ele entendesse aquilo como uma crítica, mas como um gesto de cuidado e um conselho. E Draco agradeceu internamente por isso.

— É. Talvez seja! – diz, por fim.

Pela segunda vez naquela noite, faz-se silêncio entre os dois. Mas, surpreendentemente, não um desconfortável. Mesmo não conhecendo um ao outro tão profundamente, se sentem estranhamente próximos. Como se houvesse ali uma ligação. Talvez fosse por tudo que, agora, compartilhavam.

Talvez algo mais.

— Malfoy. – Pandora fala depois de um longo tempo, quando Draco faz menção de levantar e deixar o aposento.

— Sim? – ele pergunta.

— Não me leve a mal, mas... – a garota hesita. O que quer que tivesse a dizer, estava demandando muito dela. Um certo receio era perceptível em sua voz. – Você se importaria de dormir aqui hoje a noite?

Ele pisca diversas vezes, tal qual é sua surpresa. – Como é?

— Não estou implicando nada. Não quero transar com você ou coisa parecida. – ela balança as mãos nervosamente, enquanto as palavras saem emboladas de sua boca, como consequência de seu nervosismo. – É só que, pensar no que pensei hoje pela manhã me desestabilizou e... – ela para. A dor em seu ser é perceptível. Seus ombros caídos, as mãos trêmulas e os olhos marejados em nada parecem a garota confiante que sempre aparenta. – Tenho certeza que meus pesadelos de hoje serão horríveis. Então, se você pudesse só... Me fazer companhia... Eu adoraria. – termina, sem jeito.

Draco não precisa pensar nem um segundo e responde, de imediato: — Não tem problema. Eu posso sim.

— Obrigada. – ela diz. Ambos se dirigem a cama, um pouco acanhados por toda a situação. Pandora levanta o lençol e deita do lado esquerdo, enquanto o menino toma o outro lado, evitando fazer qualquer movimento arriscado.

— Espero que isso ajude nós dois em algo, caso contrário, isso terá servido de nada. – diz, tentando fazer graça, o que funciona, pois ela sorri.

— Também espero. – a garota se ajeita no seu lugar, somente para segundos depois virar o rosto, ameaçadoramente para ele, dizendo: – Se tentar qualquer coisa, arranco sua mão.

— Mais fácil você tentar, afinal foi você que me fez o convite para dormir aqui! – brinca, fazendo-a revirar os olhos e voltar a sua posição inicial.

Quando ambos estão a ponto de adormecer, Draco escuta Pandora dizer: — Talvez um dia eu te conte sobre meu passado, Malfoy. – ela diz, a voz abafada pelo rosto grudado ao travesseiro. – Mas não vai ser hoje.

Ele sorri e vira para o outro lado, ficando de costas para ela. Em seu âmago, torcia desesperadamente para a chegada daquele dia.