My Biology

22 Capítulo 22


Notas iniciais
Sem paciência pra essas notas, é a quarta vez que eu tento postar esse capítulo.Se dessa vez não for só posto quando eu estiver de bom-humor. Tchau.

FRANCESCA POV

– O que acha desse?

– Hm… Eu prefiro o roxo.

– Eu também, mas acho que esse realça mais os meus peitos… Ou não?

– Só porque o decote é maior? Que pouca vergonha!

Eu e Natalia estávamos em uma loja de vestidos, em plena terça-feira à tarde, para escolher um modelito para o baile de sábado. Isso mesmo, um vestido, o de Naty, porque eu estava disposta a cumprir com a tarefa de passar a noite comendo chocolate e vendo qualquer filme que estivesse passando na TV (e que, de preferência, tivesse várias mulheres gatas e poucos morenos no elenco). Não queria ter que assistir a mais cenas pornográficas entre Diego e Violetta, e mesmo que Camila estivesse bem para ir, preferia ficar com ela em sua casa ou algo do tipo. Qualquer plano que envolvesse distância daquele colégio me agradaria, e sinceramente, ficar longe daquele baile não era pedir demais.

– Tudo bem, eu me decidi. – Naty suspirou, atirando o vestido vermelho que havia acabado de experimentar em cima de mim, unindo-o aos outros cinquenta que ela havia provado e desaprovado logo em seguida. – Vou ficar com o roxo. É o mais barato e o mais bonito.

– Adoro quando você tem essas crises súbitas de inteligência. – sorri, sarcástica, pegando o vestido que havia caído sobre minha cabeça e colocando-o sobre a pilha de vestidos rejeitados em meu colo. – Me faz crer que realmente existe alguma coisa dentro do seu crânio, por mais inativa que ela seja.

– Que tal você levar esses vestidos pra atendente antes que meu joelho vá parar no fundo da sua garganta? – ela retrucou, cínica, e mesmo estando apenas de roupas íntimas, ela realmente me amedrontou.

– Acho que vou te esperar lá fora. – murmurei encolhida, carregando os vestidos rejeitados e deixando o cubículo. Coloquei as peças sobre o balcão da loja com um sorrisinho sem graça para a vendedora, e logo me reaproximei do provador, bem a tempo de ouvir a voz abafada de Naty falar.

– Você ainda não me contou o que aconteceu de tão sério nesse final de semana… Provavelmente estava esperando que eu me esquecesse disso, se eu ainda conheço suas técnicas falhas de fugir de mim.

Quase engasguei com minha própria saliva com aquela indireta mais do que direta e inesperada, ainda mais sendo tão cruelmente arrancada do mundo de fantasia no qual eu havia me forçado a mergulhar nas últimas 24 horas. Não pensar em Violetta (sozinha ou com Diego, tanto faz) exigia um bom esforço de minha mente, e ser forçada a me lembrar de eventos como o fim de semana me desestabilizou.

– Não faço ideia do que você tá falando. – despistei, tentando parecer o mais indiferente possível. Não adiantaria por muito tempo, mas eu precisava tentar enganá-la, se não queria compartilhar com ninguém os acontecimentos na casa de praia. Eles já eram perturbadores o suficiente pra mim, e olha que isso já era perturbação demais, acredite.

– Ah, tá. – ela resmungou, e pelo tom de sua voz, soube que seus olhos estavam cerrados em sinal de ceticismo. – E eu sou a rainha da Inglaterra.

Engoli em seco, sem saber o que responder, e comecei a admirar minhas unhas e o enorme estrago que aquele fim de semana havia provocado nelas.

– Bom, você é quem sabe se vai me falar agora ou depois. – sua voz voltou a ecoar alguns segundos depois, quando Naty saiu do provador já com suas roupas no devido lugar. – E eu tenho a vida toda pra esperar, dica.

Bufei, revirando os olhos e caminhando com ela até o balcão em silêncio. Ela pagou o vestido e rapidamente saímos da loja, chegando ao corredor vazio do shopping, devido ao pouco movimento às terças-feiras.

– Eu não quero falar, tá legal? – assumi, derrotada, quando ela me lançou um olhar intenso. – Eu já estou me sentindo mal o suficiente por isso, não quero que você me dê uma bronca e piore as coisas.

– Por que eu te daria uma bronca? – ela perguntou, dando de ombros. – O que houve, transou com as duas ao mesmo tempo?

– Fala baixo! – sussurrei, mas minha vergonha era tanta que o som foi quase o mesmo de um grito. – E não, não foi nada disso!

– A Camilannão quis nada? – ela voltou a perguntar, com a naturalidade de quem pergunta qual a minha banda favorita.

– Claro que não! Para!

Olhei ao redor, com medo de termos sido ouvidas por alguém, e assim que virei meu rosto para trás, dei de cara com um senhor andando a uma certa distância de nós. Seu olhar estava fixo em Natalia, e seu olhar era, no mínimo, horrorizado com nossa conversa. E olha que eu fui bastante educada ao utilizar um adjetivo tão leve.

– Fingiu um orgasmo? – Naty cochichou, quando voltei a olhar pra frente, quase explodindo de tanta vergonha.

– Pelo amor de Deus, cala a boca! – implorei, fincando minhas unhas em seu braço e sentindo o sangue deixar meu rosto completamente vermelho. – Qual parte do “Eu não quero falar disso” você não entendeu?

– Nossa, foi tão grave assim que você não quer contar nem pra mim? – ela ignorou minhas palavras completamente, levando uma das mãos ao queixo e olhando para frente de um jeito pensativo. – Tô começando a ficar assustada.

– E eu tô começando a me irritar com você! – rosnei, fazendo-a acordar de seus pensamentos e me olhar com uma pontada de medo. – Se eu tô falando que não quero contar, tenha um pingo de educação e respeite minha decisão! Acha que consegue fazer isso pelo menos uma vez na vida?

Ela continuou me encarando, estranhando minha súbita agressividade, e eu apenas respirei fundo, fechando os olhos por alguns segundos e tentando fazer meu estresse diminuir. Eu simplesmente não funcionava bem sob pressão, e ultimamente parecia que tudo me pressionava de certa forma.

– Desculpa, Fran. – Naty murmurou, finalmente percebendo que estava exagerando um pouco. – É que eu me preocupo demais com você, sabe que não consigo te ver com problemas e não querer ajudar. E quanto à curiosidade… Bem, é simplesmente mais forte do que eu.

Voltei a encará-la, me deparando com seus olhos arrependidos, e sorri de leve por suas palavras reconfortantes e ao mesmo tempo engraçadas.

– Eu sei,Naty. — suspirei, abraçando-a lateralmente e grudando nossas bochechas. – Me desculpe por ter sido grossa com você, sei que se preocupa demais comigo. Por acaso eu já te agradeci por existir?

Natalia soltou uma gargalhada alta, retribuindo meu abraço desajeitado e tentando se equilibrar comigo pendurada em seu pescoço enquanto andávamos.

– Acho que não. – ela respondeu, quando finalmente a soltei e voltamos a caminhar normalmente pelo shopping. – Então antes que você se arrependa de ter dito isso, só quero que me responda uma coisa, e com sinceridade, pra que eu possa ficar tranquila: está mesmo tudo bem? Não há nada que eu precise saber sobre esse fim de semana?

Devolvi o olhar prestativo dela, e um suspiro escapou novamente por entre meus lábios. Um sorriso triste ameaçou surgir em meu rosto, mas não havia firmeza suficiente para que ele se alastrasse; apesar disso, não desisti de minha resposta decisiva:

– Não precisa mesmo se preocupar, Naty. Já está tudo resolvido.

O resto da semana se arrastou com uma velocidade surpreendentemente rápida, apesar de torturante. Durante as aulas, por mais alto que os professores falassem e por mais interessante ou de fácil entendimento que fosse a matéria, tudo que meus ouvidos conseguiam captar era a voz de um certo ser que não parava de cochichar entusiasticamente com seus amigos sobre como seu terno para o baile era lindo, maravilhoso, perfeito, caro…

E sobre como ele ficaria ainda melhor no chão do quarto da Castilio depois da festa.

Não que eu estivesse ligando pra algum dos dois, pelo contrário, mas para uma mulher como Violetta, era humilhação demais se meter com um retardado, ou melhor, ser metida por um retardado como Diego. Quer dizer, ela não sentia vergonha? Será que existia algum tipo de premiação secreta por pegar o aluno mais escroto de todo o colégio? Era algum tipo de aposta que ela havia perdido? Ou então um enigma como aquele requeria um intelecto superior ao meu? É, talvez essa fosse a opção mais próxima da realidade.

A única coisa que parecia cooperar comigo (se é que posso dizer dessa forma), surpreendentemente, era quem mais deveria estar me incomodando. Violetta mal apareceu durante os outros três dias de aula, a não ser quando foi forçada a ficar presa por 50 minutos no mesmo ambiente que eu: sua aula de biologia laboratório. E mesmo assim, parecia distante, como um animal selvagem enjaulado, incomodada por não poder simplesmente sair correndo dali. Explicou breve, porém detalhadamente como a aula procederia, e se manteve sentada em sua mesa, com o olhar perdido nas dezenas de relatórios que corrigia. Vez ou outra, passava os dedos nervosamente por entre os cabelos, colocando-os para trás e deixando ainda mais visível seu comportamento subitamente claustrofóbico.

Tentei não me deixar afetar por seu jeito diferente, mas era inevitável não sentir um nó se formar em minha garganta a cada vez que eu me lembrava de suas últimas palavras, e a vulgaridade com a qual sua voz as pronunciou.

”Incrível como você está demorando a perder a graça… A cada dia, se torna ainda mais divertida, como um perigoso brinquedo que se renova constantemente… E se torna cada vez mais excitante.”

Naquele dia, ouvi o sinal tocar, anunciando o fim da aula, mas ele me pareceu incrivelmente distante. A voz de Violetta ainda reverberava em minha mente, mais alta que qualquer outro som ao meu redor e me impedindo de pensar com clareza. Somente quando o ruído dos bancos sendo arrastados pelos alunos e o murmurinho crescente de suas vozes conseguiu vencer o volume de meus pensamentos, me dei conta de que estava imóvel, encarando meu relatório já pronto, e com os olhos levemente marejados.

Por Deus, o que havia de tão errado comigo? Que droga, eu estava careca de saber que ela não merecia uma única lágrima minha! Não existia sequer sentimento suficiente em nossa relação, ou seja lá o que foi que tivemos, para que eu estivesse me sentindo triste, traída, machucada daquela maneira!

Guardei meu material depressa e deixei meu relatório ali mesmo, unindo-me apressadamente ao fluxo de alunos que se dirigiam à saída da escola. A única coisa que pude ver antes que o laboratório sumisse de meu campo de visão foi um sorrisinho discreto e sujo de Diego, conforme se aproximava da mesa de Violetta para entregar seu relatório. Se assim posso dizer, a cobra estava aproveitando a oportunidade perfeita para dar o bote perfeito. E por mais que eu soubesse que os dois se mereciam, meu coração se contorcia de ódio por não poder fazer nada contra aquilo. Só o que me restava era que ela o fizesse por mim. E eu sabia que ela não o faria.

Sexta-feira. 19:45hrs. Me vi sentada em minha cama, sozinha em casa e sem absolutamente nada para fazer. Não que eu fosse do tipo que gosta de ter tarefas o tempo todo, mas ultimamente eu estava me tornando adepta desse estilo de vida. Estar sempre ocupada impedia minha mente de vagar por terrenos proibidos… Ou pelo menos me ajudava a conter esse tipo de pensamento.

Suspirei profundamente, tentando pensar em algo para me ocupar, mas nada parecia surgir. Meus olhos passearam distraidamente pelo quarto por alguns minutos, e se fixaram no pequeno mural de fotos que se encontrava na parede oposta à cama. Observei minhas várias fotos com Naty, algumas com Maxi, outras com meus pais, e uma em especial me chamou a atenção.

Eu passava tão pouco tempo desocupada em meu quarto que mal me lembrava mais da existência daquela foto. O papel retangular exibia minha própria imagem, extremamente sorridente, e Camila ao meu lado, envolvendo meus ombros com um de seus braços e dando aquele sorriso que agora eu conhecia tão bem, mas que na época se assemelhava a um sonho inatingível para mim. A foto era de minha formatura, há cerca de dois anos atrás, quando finalizei o ensino fundamental. Camila não dava aulas para minha turma ainda, mas graças ao nosso trabalho conjunto na olimpíada de biologia daquele ano, havíamos adquirido uma certa amizade, ainda dentro dos padrões acadêmicos. Bom, pelo menos para ela, porque àquela altura, eu já estava praticamente apaixonada por aqueles olhos castanhos e sorriso encantador.

Suspirei novamente, refletindo sobre como minha vida havia mudado desde então. Naquela época, eu jamais diria que um dia teria algo além de um mero amor não correspondido por Camila; hoje, eu era nada mais, nada menos que sua namorada, mesmo que em segredo. Uma inesperada agulhada de remorso se manifestou em meu peito devido às falhas que eu cometera nesse novo papel que exercia na vida dela, e imediatamente me amaldiçoei por voltar a pensar no assunto que eu tentava evitar.

Soltei o terceiro suspiro cansado em menos de cinco minutos, me perguntando quando a passagem meteórica e inconsequente de Violetta por minha vida deixaria de ser uma ferida aberta em mim. Sacudi levemente a cabeça, tentando inutilmente colocar minhas ideias no lugar, e por incrível que pareça, o movimento pareceu servir para alguma coisa: na mesma hora, achei algo para fazer. Como eu não havia pensado naquilo antes?

Peguei o telefone, disputando espaço sobre a cama entre meus bichos de pelúcia, e digitei o número que eu já sabia de cor, apesar de nunca tê-lo chamado antes. Aguardei até que a pessoa atendesse à minha ligação, me sentindo levemente ansiosa, apesar de saber que não havia necessidade daquilo, e meus olhos voltaram a se fixar na foto em meu mural assim que obtive uma resposta.

– Amor? – a voz feminina que sempre agia como um antídoto a todo e qualquer veneno que corresse em minhas veias falou, trazendo um sorriso para meu rosto, tão grande como o que eu ostentava na foto, ou talvez até maior.

– Oi. – foi tudo que consegui responder, derretida, e levei alguns segundos para voltar a falar. – Me desculpe por ligar assim, sem motivo aparente, mas é que… A saudade apertou.

– Te desculpar? Por que eu ficaria brava com uma ligação sua?– Camila exclamou, com a voz fofa, e meu sorriso se intensificou, demonstrando o bem imediato que ela me trazia, mesmo com seus mais discretos gestos de alegria. – Eu devo é te agradecer por ter lido minha mente… Tava pensando em você agora mesmo, sabia?

– Ah, é? – eu ri baixinho, abraçando debilmente meu Garfield de pelúcia como se Camila pudesse sentir meu carinho também. – Eu também! Isso é bom… Eu acho.

A risada inconfundível dela ecoou do outro lado da linha, leve e reconfortante como uma manhã quente e ensolarada após um inverno rigoroso.

– Não, isso não é bom… Isso é ótimo. – ela disse, colocando um leve charme na voz. – É tão ótimo que eu tenho feito muito isso ultimamente, sabia? Acho até que, de tanto pensar em você, poderia te materializar bem aqui na minha frente agorinha mesmo, só com a força do pensamento… O que acha?

Dessa vez, eu soltei uma gargalhada divertida, sentindo meu corpo leve pela primeira vez naquela semana. Cami parecia aliviar o peso de todo e qualquer tipo de fardo que eu carregava com o simples som de sua voz, ainda mais quando me provocava daquele jeito despreocupado.

– Infelizmente, eu tenho que discordar. – falei, observando distraidamente o movimento esvoaçante das cortinas de meu quarto. – A senhora está de repouso sob recomendações médicas ate amanhã, e a última coisa que faríamos se eu estivesse aí seria repousar.

– Ah… Que pena. – ela gemeu, e eu pude imaginar com facilidade a expressão de bebê emburrada em seu rosto. – Odeio quando você tem razão. Promete que me recompensa semana que vem?

– Posso te recompensar amanhã mesmo, se já estiver se sentindo melhor. – murmurei, com um tom malicioso, já começando a sentir o ânimo crescer em mim quanto àquele sábado. – Teremos bastante tempo para colocar nossos assuntos em dia.

O silêncio de Camila me fez pensar que ela estava refletindo concretamente sobre a sugestão, mas pelo visto, meu poder de dedução estava um tanto quanto falho.

– Hm… Amanhã eu não vou poder te ver. – ela lamentou, mantendo sua voz desanimada. – Na verdade, eu vou viajar hoje mesmo pra Los Angeles, e provavelmente, só volto no domingo. Vou visitar minha mãe, já que amanhã é o aniversário dela.

Fiquei sem saber o que dizer por alguns segundos. Camila nunca havia mencionado nada sobre sua família antes, e o fato de não poder conhecer sua mãe me deixou levemente triste. De repente, me ocorreu a imagem de uma senhora amável e bondosa, do tipo que te oferece biscoitos com leite acompanhados de um sorriso gentil e olhos ternos. A senhora Torres deveria ser uma graça, e eu simplesmente não podia conhecê-la, tudo porque era alguns anos mais nova que Camila. Aquele tabu ridículo de diferença de idade estava começando a me dar nos nervos.

– Ahn… Eu entendo. – gaguejei, afogando minhas recém-nascidas esperanças de um sábado menos solitário. – Dê um abraço bem apertado em sua mãe por mim, mesmo que ela não saiba que eu existo.

– Pode deixar, amor. – ela sorriu, e eu senti a pena por não poder me levar transparecer em sua voz. – Tenho certeza de que ela gostaria muito de você se pudesse conhecê-la.

Não consegui responder nada, apenas sorri, sentindo-me subitamente deprimida. Eu estava fadada a passar o fim de semana inteiro dentro de casa, tomando litros de sorvete e vendo TV o dia todo, de pijamas e pantufas, enquanto minha melhor amiga reatava seu namoro, minha namorada visitava a mãe a sei lá quantos quilômetros de distância e a idiota da Castilio dava para Diego até cansar. Tamanha exclusão parecia até castigo divino pelo excesso de companhia que tive no fim de semana anterior.

– Bom, eu não vou mais te prender nessa ligação totalmente sem sentido. – suspirei desanimada, sem nem mencionar o baile de primavera, do qual Camila provavelmente havia se esquecido. – Você deve estar ocupada arrumando suas coisas para a viagem, e eu estou aqui te segurando no telefone.

– Você tem é sorte por eu não poder te dar uma bela de uma sessão de cócegas agorinha mesmo como punição a esse seu jeito bobo. – ela resmungou, brincalhona, e eu sorri fraco. – Entenda uma coisa: você não me atrapalha nunca.

Soltei uma risadinha tímida, ainda encarando as cortinas agora imóveis, e logo em seguida, ouvi o barulho da porta sendo aberta no andar de baixo, indicando que mamãe havia chegado.

– Quem precisa desligar agora sou eu, mamãe chegou. – falei, levemente apressada. – Tome cuidado na estrada, descanse, beba bastante líquido, não pegue muito sol e divirta-se, ouviu bem?

– Pode deixar. – Cami respondeu, carinhosa. — E o mesmo vale pra você, cuide-se.

– Vou tentar me manter longe de todo o perigo que minha casa pode me oferecer. – eu ri, achando graça das precauções dela e fazendo-a rir junto.

– Te amo. – ela murmurou, assim que nosso riso cessou, e eu senti meu coração se contorcer, dominado por milhares de sentimentos diferentes. Saudade, amor, felicidade… Remorso, culpa, dor.

– Eu também. – murmurei, com a voz aflita, e esperei que ela desligasse para colocar o telefone na base. Assim que o fiz, mamãe bateu à porta.

– Olá, querida. – ela sorriu, parecendo cansada após um dia cheio em seu escritório.

Após a promoção que conseguira na empresa onde trabalhava há quase dez anos, sua carga de trabalho havia aumentado consideravelmente, e era raro vê-la chegando em casa antes das dez e meia. Hoje havia sido um dia bastante atípico, mas era bom que de vez em quando ela tivesse um tempo extra para cuidar de si.

– Oi, mãe. – respondi, retribuindo como pude seu sorriso e tentando não parecer tão desanimada quanto realmente estava. – Dia cheio?

– Até demais. – mamãe suspirou, fechando os olhos lentamente e logo voltando a abri-los. – E só pra compensar, algumas amigas do escritório estão armando uma festa surpresa para nosso chefe amanhã, e precisarão de uma mãozinha com os preparativos… Então não se assuste se acordar tarde e não me encontrar.

– Boa sorte. – falei, fazendo uma careta, e ela apenas riu de leve.

– Se não se importa, vou tomar um bom e demorado banho e dormir. – ela disse, meio sem jeito, e eu apenas balancei negativamente a cabeça, demonstrando que não me importava. – Boa noite, minha querida. Qualquer coisa me chame, está bem?

– OK, boa noite, mãe. – apenas sorri fraco, vendo-a fechar novamente minha porta e desaparecer. Fiquei encarando a maçaneta da porta por alguns segundos, me preparando inconscientemente para as próximas 48 horas, que seriam provavelmente muito parecidas com aquele momento: vazias, silenciosas e solitárias. De certa forma, a solidão era tudo que eu queria para poder organizar minha mente, mas agora que ela finalmente havia chegado, após uma semana inteira aguardando-a ansiosamente, o silêncio e o frio que a acompanhavam me pareciam estranhamente terríveis.

Ajeitei-me entre meus bichinhos de pelúcia, abraçando alguns deles na tentativa de preencher o enorme vazio entre meus braços e deixando que minha cabeça pesada descansasse sobre o travesseiro macio. Respirei fundo e calmamente, mandando uma mensagem para que meus músculos relaxassem junto com o oxigênio inalado, e fechei os olhos devagar, apenas sentindo o conforto do colchão se espalhar por meu corpo e meu cansaço mental se manifestar numa leve dor de cabeça. As pálpebras pareciam mais pesadas do que o habitual, mantendo-se fechadas sem sequer pedirem permissão para isso, e a respiração foi ficando cada vez mais calma… Meu quarto agora parecia um borrão de cores e formas engraçadas, logo sendo substituídos pela escuridão do sono.

E se eu não tivesse adormecido tão rápida e inesperadamente, poderia jurar que a última coisa que senti antes de apagar por completo foi um braço envolver minha cintura e me puxar para mais perto de seu corpo, deitada ao meu lado, e seu hálito de canela sussurrar ao pé de meu ouvido.

– Boa noite, meu vício.

VIOLETTA POV

As paredes frias de meu imenso apartamento pareciam amplificar o som de meus coturnos chocando-se contra o piso de mármore. A fraca iluminação, fornecida pela tímida luz da lua, manchava de cinza as formas duras de meus móveis, talvez se unindo ao barulho de meus passos numa singela tentativa de me fazer sentir ainda mais solitária. Fora os sons que eu produzia, o silêncio dominava por completo o ambiente; não havia sequer uma outra respiração, um outro coração batendo por perto. Somente eu, somente meu próprio silêncio.

E é exatamente nessas horas que me pergunto: pra que mais do que isso? Qual é a vantagem de se ter mais alguém? Qual é a vantagem de estar acompanhada, quando não existe nada melhor que ficar sozinha? Não existe nada como a liberdade que se tem ao estar completamente só, totalmente livre dos olhares dos outros, sempre como urubus sobrevoando a carniça que são as desgraças das vidas alheias. Para mim, a solidão era nada mais que uma dádiva, da qual eu sabia fazer uso como poucos.

Parei em frente à enorme janela de meu apartamento, que consistia numa parede inteira feita de vidro, e de lá observei a cidade. Não havia muito mais do que luzes, prédios, carros e pessoas andando nas ruas iluminadas, a típica imagem de uma sexta-feira à noite. Para mim, observar o movimento das ruas era mais interessante do que ligar a televisão e assistir a todo o lixo de sempre; a espontaneidade era absurdamente contrastante. Sentindo a baixa temperatura do copo de uísque entre meus dedos espalhar-se por minha pele, soltei um suspiro baixo e bebi todo o seu conteúdo sem pressa. Um sorriso mórbido fez uma pequena curva surgir no canto de meus lábios, e eu esqueci meu olhar num ponto qualquer da rua. Ele não tinha importância naquele momento; não havia nada relevante para se ver.

Eu realmente gostava de ficar sozinha. Mas naquela noite em especial, eu preferia ter algo para por minhas mãos, ou quem sabe também meus lábios ainda umedecidos pelo álcool. Algo que não fosse duro como o vidro do copo, ou frio como a bebida que descia queimando por minha garganta. Algo que pudesse satisfazer meus sentidos e despertar o exigente interesse de minha virilidade.

Algo como uma mulher.

Uma única mulher.

Dei as costas à monotonia de Miami que minha janela me permitia ver e caminhei até a mesinha de centro. Coloquei o copo preenchido apenas por gelo sobre a superfície transparente e continuei meu caminho até o quarto. Pelo trajeto, comecei a desabotoar os primeiros botões da camisa preta que vestia. Não havia mais sentido em continuar com aquela roupa agora que eu havia optado por ficar em casa… Mais uma vez.

Ainda sorrindo daquele jeito medíocre, entrei em meu quarto com uma curva ágil. Aquela era a terceira vez na semana que eu simplesmente preferia ficar em casa a ir a um bar encher a cara, por pura falta de motivação. Não havia mais sentido nisso, já que a única droga que parecia anestesiar a agonia pulsante de minhas vias sanguíneas provavelmente repousava em seu quarto àquela hora, trancafiada e segura. A salvo de mim.

– Francesca… – esbravejei baixo, terminando de desabotoar minha camiseta e atirando-a longe. – Maldição de garota.

Cheguei ao quarto e encarei minha cama, mordendo o interior de minha boca em tom de desgosto. Como se a visão morta do cômodo já não surtisse um efeito negativo em meu humor, minha mente tinha o prazer de divagar por entre as costuras da colcha azul marinho, desenhando com elas a forma de um corpo feminino. O corpo feminino que me atormentava desde que meus olhos cismaram em decorar seu contorno, e que assombrava meus lençóis a partir de então.

– Maldição de garota. – repeti, abrindo o botão e deixando que a calça branca justa caísse aos meus pés. Chutei-a para qualquer lugar, assim como meus coturnos e meias, atirando meu corpo sobre o colchão logo em seguida. Abri meus braços, quase tocando as extremidades da cama com a ponta de meus dedos, e respirei fundo, sentindo o ar gélido me acalmar ao resfriar meus pulmões. Fechei os olhos, sentindo meu corpo se arrepiar levemente pela temperatura inadequada para minha única vestimenta: a calcinha e o sutiã. Fiquei imóvel por alguns segundos, apenas deixando meus sentidos se apurarem em meio ao silêncio denso e à brisa gelada que vinha da janela, e inevitavelmente minha mente intensificou seu raciocínio, contrariando propositalmente minhas ordens para que seguisse o caminho oposto.

Há menos de uma semana atrás, eu a tinha em meus braços. Sua respiração batia calmamente contra meu tórax, seu corpo jovem e adormecido depositava um peso confortável sobre mim, o perfume cítrico de seus cabelos confundia-se com minha respiração como uma bênção… Ela era minha.

Hoje, ali estava eu novamente. Sem nada mais do que algumas lembranças, muitos desejos e uma quantidade considerável de seu ódio para chamar de meu.

O que mais me intrigava nisso tudo era que as coisas pareciam ter efeito contrário quando se tratava dela. Quanto mais eu demonstrasse meu interesse e corresse atrás, mais ela parecia se afastar de mim, como ímãs que se repelem. Justo eu, que nunca havia perdido uma chance de me aproximar. Justo eu, que sempre lutei pelas coisas que quis. Está certo, concordo que dinheiro, homens e mulheres nunca foram problema para mim, mas há um certo momento na vida de uma mulher no qual não se tira mais vantagem de detalhes como esses. Pessoas como eu amadurecem de fora para dentro: primeiro, os desejos carnais, a luxúria, a ambição, o materialismo incontroláveis; depois, conforme o tempo passa e a experiência começa a pesar sobre nossos ombros, boa parte desse encanto se esvai, e apenas uma fraca e temporária névoa permanece, deixando-nos nada mais que o vazio. Um vazio que dói, lateja, pulsa e sangra cada vez mais, implorando por algo que o preencha.

E esse momento parecia enfim estar chegando para mim. Já era hora de reconhecer que eu estava ficando velha demais para brincadeiras. Agir como gente grande parecia uma tarefa bastante interessante aos olhos da boa apreciadora de desafios que eu era. Prêmios fáceis não aguçavam minha competitividade; nunca fui adepta de prendas baratas e sem valor algum, a não ser para preencher o tédio. Mesmo tendo a criação farta que tive, o bom senso nunca me faltou. Sempre soube investir em tarefas árduas, pois sabia que a conquista me recompensaria de maneira equivalente a todo o tempo e suor gastos para obtê-la.

Sempre soube que após algum esforço, ela seria minha. E dessa vez não seria diferente. Se ela pensava que finalmente havia me feito desistir, não conhecia o tamanho de minha obstinação. Se ela achava que eu me daria por vencida tão cedo, não conhecia nem metade da determinação que havia dentro de mim.

Virei-me de lado na cama, deparando-me com o relógio de cabeceira: meia-noite e dez. Meus olhos começaram a dar leves sinais de sonolência, e eu atribuí tal feito aos copos de uísque que havia bebido há pouco. Obrigado, álcool, meu fiel companheiro, por mais uma noite de sono. Sem demora, minhas pálpebras se fecharam confortavelmente, e eu soltei um suspiro relaxado. A sensação de decisão tomada se disseminava por meu corpo, provocando um torpor delicioso e um leve sorriso em meu rosto.

Eu a veria naquele maldito baile. E mesmo que ela tentasse me recusar de todas as formas, eu a teria novamente em minhas mãos e em minha boca, como sempre deveria tê-la.

Já disse que realmente gosto de desafios?

"Uma música ensurdecedora enchia meus ouvidos, fazendo com que minhas entranhas parecessem vibrar conforme o ritmo da batida eletrônica. A iluminação era irregular e colorida, acompanhada de uma leve névoa, e a grande quantidade de pessoas fazia com que a temperatura aumentasse dentro daquele ambiente.

Olhei brevemente ao redor, tentando me localizar, e não demorei muito tempo para reconhecer o lugar: estava no ginásio do colégio onde trabalhava, e uma enorme pista de dança havia sido injetada nele. Vultos passavam rapidamente por mim, e somente algum tempo depois, me dei conta de que eram alunos e professores rodopiando ao meu redor, envoltos em suas próprias coreografias improvisadas e empolgados demais com a música para me notarem.

Um sorriso esperto se alojou em meus lábios quando finalmente a ficha caiu dentro de meu cérebro. Eu estava no baile de primavera. Ou seja, faltava pouco para que Francesca entrasse em meu campo de visão, e não muito tempo depois, em algum banheiro ou sala vazia. Comigo.

Vasculhei discretamente a multidão de gente que dançava, mas não encontrei sinal algum da única pessoa que desejava ver. Caminhei rapidamente até o bar, que para minha surpresa, estava vazio, e pedi o drinque mais forte que o barman pudesse me dar.

Eu não planejava ficar bêbada naquela noite, mas se eu ainda teria que esperar mais por ela, que fosse com uma boa dose de álcool correndo em minhas veias. Virei o corpo de frente para a pista, sentindo uma leve adrenalina formigar em meus músculos e delatar a imensidão de minha ansiedade. Se durante a espera eu já me sentia prestes a implodir, não sei se gostaria de estar na pele dela quando finalmente a tivesse em minhas mãos.

E então, foi como uma alucinação. Meus olhos se chocaram contra a imagem inesperada, e tiveram que fazer o caminho de volta ao distanciarem-se distraidamente dela. Os cabelos volumosos, os olhos vorazes, os lábios sensuais, o colo sedutor, o busto delicioso… A cintura definida, os quadris sinuosos, as coxas fartas… Sim, era ela.

Francesca.

O desejo transbordava em meu olhar. Aquela só podia ser a visão do paraíso. Como se o simples fato de ela estar ali já não me bastasse, Francesca estava absolutamente deslumbrante. Nunca, nem sequer em meus delírios mais profundos, imaginei que a veria linda como ela estava naquele momento, aproximando-se cada vez mais de mim e tornando a possibilidade de tocá-la cada vez mais válida.

Seus cabelos estavam caídos sobre os ombros, formando perfeitas e charmosas ondas em seus fios. Seus olhos eram felinamente delineados por linhas pretas ao seu redor, deixando suas íris faiscantes e fixas nas minhas ainda mais hipnotizantes. O corpo era coberto apenas por um justo e curto vestido tomara-que-caia vermelho, que destacava toda a região de seus ombros, colo e pernas. Uma delas, inclusive, estava quase totalmente nua devido ao corte vertical que abrangia desde a barra do vestido, que ficava na metade de sua coxa, até perto de seus quadris. Os sapatos pretos de salto tornavam os contornos de seu corpo ainda mais sensuais, fazendo com que minhas mãos subitamente começassem a suar frio e meu coração parasse por alguns segundos, antes de recomeçar a bater com velocidade alucinante.

E antes que eu pudesse me conter e pensar em alguma coisa que não fosse sua beleza, seu perfume envolveu a atmosfera que me rondava, anunciando sua aproximação. Meus olhos ainda encaravam os dela, provocantes, e sua sensualidade começava a surtir efeitos físicos em mim: gradativamente, o efeito do calor que estava acontecendo no meio das minhas pernas tornava minha calça justa extremamente desconfortável, assim como todo o resto de minhas roupas, e a necessidade de sentir sua pele quente contra a minha chegava a me arrepiar por inteira. Era possível sentir o suor gelado brotar de minha testa, o sangue ser violentamente bombeado para o resto do corpo, a garganta secar em poucos segundos, as extremidades formigarem de tesão. Como ela podia ser tão maravilhosa?

Francesca me olhou de cima a baixo, assim como eu havia feito com ela há poucos segundos, e seus lábios avermelhados se retorceram num sorriso malicioso. Ou ela havia desistido de se afastar de mim, ou ela estava tirando uma com a minha cara. Não consegui me decidir, havia outros milhares de pensamentos colidindo em minha mente para que eu pudesse concluir alguma coisa. Para mim, não fazia muita diferença, eu sabia que a teria naquela noite e nenhuma dessas opções representava um obstáculo para mim. Ela virou lentamente o corpo, indicando que se afastaria, e me lançou um último olhar significativo antes de caminhar até a pista, rebolando de um jeito enlouquecedor.

Deus do céu, o que ela estava planejando para mim?

Apenas a observei se distanciar, totalmente nocauteada, até que ela parou praticamente no meio da pista de dança e voltou a me encarar. Havia menos gente ao seu redor agora, por algum motivo que eu não estava interessada em saber, tornando minha visibilidade plena. Ela voltou a sorrir, safada, e como se cada parte de seu corpo tivesse vida própria, começou a dançar de um jeito extremamente sensual, como se fosse apenas para pisar no que ainda restava de meu autocontrole fragilizado. A música parecia tocar conforme seus movimentos, e não o contrário; seus olhos mantinham-se presos aos meus, como se analisassem o efeito que sua movimentação provocava em mim. Meu corpo gritava, cada pedacinho de mim urrava, em um uníssono perfeitamente audível e impossível de ser reprimido, a minha sentença.

Eu precisava tê-la. Não havia mais forças para esperar.

Engoli em seco, sentindo dificuldade para respirar, e retomei parte do controle de minha mente. Ignorei tudo e todos ao meu redor e caminhei determinadamente em direção a ela, sentindo os joelhos tremerem e a calça apertar mais ainda meu corpo. Nossos olhares estavam tão conectados que eu mal podia enxergar outra coisa em minha frente a não ser o brilho de seus olhos. A cada passo, meu coração parecia acelerar ainda mais seus batimentos, ansiando pelo momento em que ela estaria grudada em mim e nossos corpos, prestes a se fundirem num só.

Mas esse momento parecia não chegar nunca. Na verdade, eu já estava andando há tempo demais para não a ter alcançado ainda. Franzi levemente a testa, confusa, e só então me dei conta de que ainda estava no mesmo lugar. Ela, porém, pareceu não perceber isso, porque não houve mudança alguma em seu comportamento. Angustiada, apenas apertei o passo, tentando inutilmente sair dali, mas nada mudou. Minha visão já estava um tanto turva pela falta de oxigênio, mas eu não me importava com aquilo.

Tudo que eu queria era chegar até Francesca antes que alguém o fizesse. Antes, talvez, que Camila o fizesse, se é que ela estava ali.

E não precisei de muito tempo para descobrir.

Dois segundos depois, ela surgiu de algum lugar perto de mim e simplesmente passou reto, com os olhos fixos na pista. Acompanhei seu trajeto com o olhar, e para meu pânico, ela se aproximava cada vez mais dela, que agora retribuía seu olhar com um sorriso cheio de segundas intenções. O meu sorriso – sim, ele era só meu, e nada mudaria minha opinião. Camila chegou até ela com facilidade, e envolveu sua cintura com as mãos, deixando que as dela se apossassem de seu pescoço. Um nó apertado surgiu em minha garganta, gerando uma dor lancinante; olhei ao meu redor, procurando por alguém que pudesse me ajudar a me mover, mas subitamente, todos que estavam próximos a mim pareceram sumir, deixando-me completamente a sós com minha agonia. Ou pelo menos quase, até uma voz familiar sussurrar bem ao pé de meu ouvido.

– Ah, aí está você.

Virei-me de um pulo na direção do som, e fui dominada por um horrível enjôo assim que reconheci o dono do sussurro.

– Estava te procurando há horas! – Diego Hernandez disse, com um sorriso presunçoso no rosto e, antes que eu pudesse sequer abrir a boca para dizer algo, senti sua mão agarrar minha camisa e me puxar na direção oposta à de Camila. E, como num passe de mágica, meu corpo obedeceu a seu comando e se moveu para longe da pista. Minha respiração, que já era praticamente nula, tornou-se ainda mais entrecortada conforme a imagem de Francesca e Camila ficava cada vez mais inatingível.

E então meu celular tocou. Espera aí. Meu celular tocou?"

A visão mal iluminada do ginásio deu lugar à claridade do sol, esparramando-se quarto adentro pela janela e sendo refletida nas paredes brancas. Minha respiração era ruidosa e minha boca estava seca, ao contrário de meu corpo, que parecia ter ensopado os lençóis de suor. Olhei em desespero ao meu redor, sem nem me lembrar de como havia ido parar sentada na cama, e tudo que vi foi meu quarto, exatamente como deveria estar. Nenhum móvel a menos, nenhum corpo a mais.

Soltei um suspiro aliviado, fechando pesadamente os olhos em seguida e sentindo meu corpo se acalmar gradativamente. Tudo aquilo havia sido um sonho, ou melhor, um pesadelo. Apenas, somente, nada mais do que isso. Voltei a encarar meus lençóis revirados, normalizando meus sinais vitais, e só então o barulho estridente que me despertara voltou a se apoderar de meus tímpanos. Franzi minha testa umedecida de suor e virei-me na direção da mesinha de cabeceira, fonte do som: meu celular tocava e vibrava energicamente sobre a superfície, implorando por atenção.

Revirei os olhos, irritada com a perturbação matinal, e joguei meu tronco violentamente de volta ao conforto do colchão. E somente por um único motivo, decidi atender à chamada, sem nem olhar de quem ela era para não desistir de meu ato de gratidão.

A maldita ligação havia me tirado daquele pesadelo horripilante. E isso era uma boa ação num sábado de manhã. Obrigado, estranho… Eu acho.

– Alô? – rosnei, sem fazer a menor questão de ser simpática. Fosse quem fosse, já estava com sorte demais por ter sido atendido àquela hora.

– Castilio? – uma voz melada emanou do celular, e por um segundo, me arrependi de ter sido tão piedosa. O enjôo pelo qual fui atingida em sonho retornou com força total assim que ouvi Diego pronunciar meu nome daquele jeito vulgar de sempre, me fazendo pensar que vomitaria a qualquer momento.

– Queria poder dizer que não. – grunhi, respirando fundo logo em seguida para conter a movimentação suspeita do conteúdo de meu estômago.

– Ih, pelo jeito acordou de mau humor. – ele notou, com a voz levemente ofendida, o que me causou uma súbita vontade de rir. – O que houve? Andou tendo sonhos ruins?

Ah, foi macumba sua eu ter sonhado aquelas coisas, não foi, seu babaca? Eu já devia saber que estar prestes a conviver algumas horas com você fora do calendário escolar semanal seria traumático o suficiente para me causar noites ruins.

– Meus sonhos não são da sua conta. – falei, com a voz encharcada de tédio. – Já a maneira como você os interrompe desnecessariamente devia lhe render pena de morte.

A hipótese de ver Diego recebendo uma injeção letal ou numa das câmaras de gás famosas na época de Hitler me fez divagar por técnicas de tortura bastante interessantes, distraindo-me por tempo suficiente para que eu quase perdesse sua resposta.

– Como você é estúpida às vezes, Violetta. – sua voz afetada reclamou, provocando um sorriso maldoso e satisfeito em meu rosto por ter conseguido demonstrar o efeito péssimo que ele tinha em meu humor. – E, pra sua informação, eu não liguei para falar baboseiras, tá? Só queria saber que horas você vai passar aqui hoje, pra poder estar pronto a tempo.

Ergui uma sobrancelha, adotando uma expressão horrorizada, e olhei rapidamente para o relógio: nove e cinco da manhã. Meu rosto se contorceu ainda mais, num reflexo chocado por sua atitude idiota. Quem em sã consciência acorda às nove da manhã num sábado para acordar outra pessoa e falar sobre um baile de primavera idiota?

Pois é. Diego parecia ser exatamente esse tipo de pessoa. E eu era o tipo de otária que se deixava acordar por gente como ele. Você pode até tentar me consolar dizendo que eu provavelmente não era a única mulher a ser acordada por seu acompanhante naquele dia, e eu te respondo que tal fato não me consola nem um pouco.

Aposto que Francesca ainda estava dormindo, mal se preocupando com futilidades como bailes de primavera. Pra que programar o dia todo ao redor de uma festa idiota, sendo que em pouco mais de meia hora ela já poderia estar magnífica dentro de qualquer roupa?

Soltei um suspiro levemente irritada comigo mesma por minha capacidade de desviar meus pensamentos para ela com tamanha facilidade. Calma, Castilio, desse jeito não vai sobreviver até a noite. Seu coração de trinta anos não resiste ao mesmo ritmo frenético de dez anos atrás, apesar de ser perfeitamente saudável e acostumado a situações como essa.

– Ahn… Sei lá, Diego, se vira. – respondi, retornando ao assunto com certa dificuldade de concentração e sentindo os últimos vestígios de minha bondade se esvaírem rapidamente. – Agora se me der licença, vou voltar a dormir.

– Mas Violetta… – ouvi Diego protestar, com sua típica voz de viadinho revoltado, mas não o dei chance de continuar.

– E não corra o risco de tentar me ligar de novo, porque eu vou desligar o celular. Siga meu exemplo e volte a dormir também, pelo bem da humanidade.

Com um sorriso sacana no rosto e sem ouvir mais uma palavra sequer, encerrei a ligação, colocando o aparelho no modo silencioso logo em seguida. Uma mulher sempre precisava de um pouco de paz após um diálogo tão desgastante com Diego, e eu estava prestes a ter o meu. Ou pelo menos tentar tê-lo.

Mesmo voltando a me acomodar confortavelmente entre meus lençóis, o sono já me parecia distante. Meus olhos se recusavam a fechar, e uma leve agitação havia se alojado em meu estômago, arrancando suspiros tensos de meus pulmões vez ou outra. Abracei um de meus travesseiros, com a intenção de descarregar um pouco de minha inquietação repentina na força de meu aperto. Em vão.

– Merda. – sussurrei baixo e entre dentes, quando finalmente desisti de dormir. Levantei-me de um pulo, espreguiçando-me assim que fiquei de pé, e respirei fundo antes de me dirigir ao banheiro para fazer minha higiene matinal. Dez minutos depois, saí de lá uma nova pessoa, rosto lavado, dentes escovados e hálito fresco.

Ainda esticando-me, caminhei preguiçosamente pelo corredor frio até chegar à cozinha. Revirei os armários abarrotados de besteiras e preparei um café da manhã quase adolescente: torradas com geléia e um copo enorme de achocolatado. Se a manhã não havia começado tão bem quanto eu previra, nada me impedia de tentar consertá-la, certo?

Atirei-me sobre o sofá após colocar a bandeja com minha refeição sobre a mesinha de centro, e liguei a enorme TV de LED. Noticiários matinais, programas para crianças, e toda aquela chatice de sempre. Bufei diante daquele tédio, deixando alguns pedaços da torrada que eu mastigava escaparem de minha boca, e não pude deixar de rir de meu momento infantil. Eu costumava ser sempre tão metódica, sempre tão objetiva, que às vezes minha criancice diante de alguns detalhes bobos me surpreendia, permitindo-me pensar que ainda havia algo valoroso dentro de mim.

Minha nossa… Isso foi profundo. Eu bem que devia anotar pensamentos filosóficos como esse.

Tsc, quer saber? Que se foda.

Tamanha ocupação mental às nove e meia da manhã me deu uma suave dor de cabeça, e eu resolvi desligar meu modo Platão e parasitar um pouco diante da televisão. Após alguns segundos trocando furiosamente de canal, encontrei um programa agradável: Hell’s Kitchen. Você deve estar pensando que eu sou algum tipo de moça de família enrustida por assistir programas de culinária, mas tenho dois excelentes motivos que explicam a relação entre minha imagem “mocinha prendada” e a gastronomia.

Primeiro, a arte da culinária é algo a ser muito apreciado, principalmente quando se mora sozinha e se aprende o quão difícil é preparar um almoço digno após uma manhã de trabalho árduo; segundo, Gordon Ramsay era o cara. Essa frase pode ter soado meio estranha, mas é que para mim, Hell’s Kitchen era não só um programa sobre comida, mas também sobre como ser um filho da puta de primeira categoria. E ambas as opções me atraíam de certa forma.

Fiquei assistindo, em meio a gargalhadas e lágrimas de tanto rir, aos esculachos de Gordon durante boa parte da manhã, graças à pequena maratona de Hell’s Kitchen, e assim continuei, estirada em meu sofá absurdamente confortável, pulando de canal em canal até ficar sem opções de programação. Quando enfim desisti da TV, meu estômago já estava implorando por comida, e obviamente não o contrariei.

Liguei para um restaurante chinês e pedi um yakissoba tamanho família, com tudo que minha forma atlética tinha direito. Enquanto meu almoço não chegava, tomei um banho rápido, tentando espantar os últimos rastros de preguiça. Não que eu realmente acreditasse que uma ducha gelada me daria o ânimo que eu precisava, mas não custava nada tentar. Confesso que durante o banho eu andei me lembrando da parte boa de meu sonho/pesadelo, o que estendeu minha estadia debaixo do chuveiro por alguns minutos. Ser mulher (e ainda por cima bi) tinha suas desvantagens, como a fraqueza mental diante das mulheres (e consequentemente, a física que se seguia a ela).

Exatamente quando terminei de me vestir, o interfone tocou, anunciando a chegada de minha refeição. Poucos minutos depois, já estava sentada novamente em meu sofá, saboreando as delícias da culinária chinesa (ou japonesa, pra mim é tudo igual). Devorei tudo em tempo recorde, sendo atingida em cheio pelo arrebatador sono pós almoço.

Lavei rapidamente a louça que havia usado, tentando me manter acordada, mas parecia que o sono de uma manhã desagradavelmente interrompida também começara a se manifestar. Tudo que me lembro após essa constatação foi que assim que terminei a louça, cambaleei até minha cama ainda desarrumada, e me deixei cair sobre ela, sentindo as pálpebras pesarem e a mente entrar em hibernação.

E, como se tivesse acabado de fechar os olhos, voltei a abri-los, subitamente assustada. Ao invés da claridade amena da tarde, minhas pupilas dilataram-se ao encontrarem a escuridão da noite dominar meu quarto. Eu odiava aquela sensação, fazia com que minha cabeça parecesse pesar toneladas. Instintivamente, olhei para o relógio de cabeceira, ainda um pouco zonza: 20:15hrs.

– Merda! – exclamei, quase caindo da cama ao querer me levantar depressa, embolando-me nas cobertas e levando o triplo do tempo que levaria para ficar de pé normalmente. O baile já havia começado há quinze minutos e eu mal havia separado um vestido decente! Jamais me perdoaria se Francesca chegasse e eu não estivesse lá para vê-la… Seriam quinze minutos desperdiçados de uma noite com ela, e eu me amaldiçoaria para sempre por perdê-los.

Ajeitei a cama com toda a rapidez que pude e tomei uma rápida ducha fria, somente para afastar os últimos vestígios de sono e deixar que a água gelada me trouxesse a concentração da qual eu precisaria naquela noite (não, não estava com humor nem tempo para lembrar novamente do sonho, tá legal?). Enxuguei-me depressa e enrolei a toalha em volta do meu corpo, deixando o banheiro feito um raio e pegando a primeira combinação de vestido, meia-calça, cordão, brincos e sapatos de salto que encontrei.

Meu figurino aleatório até que não ficou tão mal: uma vestido roxo, uma meia-calça preta que acabava na coxa e o resto dos acessórios de cor preta, assim como a calcinha que vesti correndo (e quase caindo ao fazê-lo). Odiava estar atrasada, odiava me arrumar correndo, sempre deixava os outros esperando e que se danem os horários, mas hoje era uma rara e necessária exceção.

Vesti o resto das roupas na mesma velocidade, e em menos de cinco minutos, já estava praticamente pronta. Me olhei rapidamente no grande espelho do banheiro para me certificar de que estava tudo certo, e ajeitei a maquiagem que ainda estava um pouco fraca.

Voltando ao assunto, escovei os dentes com todo o cuidado que alguns minutos me permitiram, e dei uma rápida bagunçada em meu cabelo, o suficiente para que ele ficasse do jeito que eu gostava. Pelo menos ele parecia estar contribuindo para o sucesso de minha noite. Peguei o vidro de perfume que aguardava sobre a pia do banheiro e borrifei nos lugares de sempre: nos pulsos e no pescoço. Saí do banheiro e fui até o quarto para pegar meu celular, minha bolsa e minha carteira, únicos itens que me faltavam, sentindo aqueles sapatos de salto me incomodarem um pouco. Nada que fosse conquistar minha atenção quando meus olhos estivessem ocupando espaço demais em minha mente, como eu sabia que estariam assim que Francesca entrasse em meu campo de visão. Após (quase) um dia inteiro sem pensar nela, o que era um tanto raro, já que a via cinco dias na semana, não pude deixar de sorrir sozinha ao visualizar o momento em que estaríamos próximas novamente.

Mas logo voltei à realidade, e revirei os olhos ao guardar o celular na bolsa. Pra que eu ia precisar daquele pedaço de tecnologia irritante? Aquilo só servia pra me estressar, afinal, sempre tem aquele energúmeno que me liga justo nos momentos mais impróprios só para torrar minha paciência. Tipo a Torres. Fiz uma careta ao me lembrar dela e de todo aquele triângulo amoroso no qual estávamos metidas; com certeza, ela era a mais desavisada do perigo que corria estando em meio ao fogo cruzado no qual se resumia minha interferência em sua relação com Francesca.

Não que eu tivesse orgulho de ser a responsável pelos chifres da minha melhor amiga. Como eu acabei de dizer, ela é minha melhor amiga — bom, pelo menos por enquanto ela é, não sei se continuará sendo por muito tempo -, mas as coisas se tornam um pouco mais complicadas quando essa amiga está com a única garota que você quer em todo o universo, entende? Se ela estivesse pegando o Diego ou qualquer outra pessoa oferecida da escola, eu mal estaria ligando pra isso. Mas não. Ela foi escolher a Francesca.Justo a Francesca. Eu vi primeiro, eu tinha mais direito do que ela, ainda mais agora que ela me correspondia, mesmo que não quisesse admitir. Certo?

Larguei o celular sobre a mesinha de cabeceira e voei até a porta, rodando a chave da Ferrari no dedo indicador de uma mão e guardando minha carteira na bolsa. Peguei o elevador e rapidamente cheguei à garagem, onde meu brinquedinho vermelho reluzia, me esperando, pronto pra me levar o mais depressa possível para aquele baile. E, consequentemente, pra Francesca. Porque, com toda a certeza do mundo, ela seria minha hoje. Toda minha.

Enquanto manobrava com facilidade e acelerava rumo à saída da garagem, me peguei pensando em como ela estaria vestida. Será que estaria de vermelho, como em meu sonho/pesadelo, só pra me provocar ainda mais antes mesmo de encostar em mim? Ou talvez estivesse de preto, escondendo por debaixo de seu vestido todas aquelas curvas que faziam meu sangue borbulhar em certas regiões e me deixavam com aquele sorriso tarado no rosto só de pensar nelas? É… Pensando assim, eu prefiro que ela esteja de preto.

Dirigi o mais depressa que pude até a escola, sentindo meu coração acelerar a cada semáforo ultrapassado. Estacionei bem na frente do colégio, abençoando quem teve a brilhante idéia de reservar as vagas privilegiadas para o corpo docente, e saí da Ferrari, respirando fundo e me preparando pra finalmente vê-la. Não seria difícil encontrá-la, era só procurar a garota mais perfeita no meio daquele monte de alunos sem graça. Contive um sorriso ao imaginá-la, quase irradiando luz própria de tão linda em meio àquele bando de gente idiota, e atravessei a rua, me esgueirando por entre a multidão que entupia a entrada da escola.

Com passos largos e rápidos, logo cheguei ao local onde havia mais gente: a pista de dança, que era basicamente a mesma que eu havia visualizado em sonho (talvez porque todo ano, a mesma decoração se repetia, a ponto de todos os professores já saberem de cor). Uma música qualquer tocava, fazendo as pessoas se moverem conforme seu ritmo, mas nenhuma dessas pessoas era quem eu procurava. Bufei, lançando olhares impacientes para todas as direções, e em poucos minutos, já tinha percorrido todos os ambientes disponíveis, sem encontrá-la em lugar nenhum. Não havia motivo para estar naquele de baile se não fosse para vê-la, então a leve irritação que começava a me dominar fazia um certo sentido. Sem contar os arrepios que se manifestavam por debaixo do tecido da roupa ao passar pelo bar praticamente idêntico ao que visualizei em sonho.

– Cadê ela? – rosnei, baixo o suficiente para ninguém escutar, e quando estava prestes a começar uma segunda ronda, ouvi uma voz pronunciar meu nome.

– Ei, Castilio! – alguns meninos do terceiro ano chamaram, e quando me virei em sua direção, vi que eles carregavam expressões confusas. – Você viu o Diego por aí?

Meus olhos se arregalaram após aquela pergunta, demonstrando meu pânico.

Eu tinha me esquecido completamente de buscar Diego.

Merda! Merda, merda, merda!

– Não. – respondi, tentando manter a calma, e graças a Deus consegui recuperar minha concentração antes que os garotos percebessem minha falha. – Ele… Ele deve estar… Por aí.

– Nós o procuramos por toda parte, e nada. – um deles disse, agravando sua expressão desconfiada. – Bom, se o vir, peça a ele para nos procurar, pode ser?

– Pode deixar. – assenti, disfarçando minha afobação para que eles fossem embora, e assim que se distanciaram, caminhei avidamente até a saída do colégio. Àquela hora, Diego deveria estar me xingando de todos os nomes feios que conhecia, e eu aposto que conhecia muitos. Não que eu ligasse para isso, pelo contrário, enfurecê-lo era algo que eu gostava de fazer, mas do jeito que era vingativo, seria capaz de qualquer coisa para me ver pagar pela gafe de tê-lo esquecido em pleno baile de primavera, ainda mais em seu último ano no colegial. E me ver metida em escândalos era a última coisa que eu queria no momento, já havia coisas demais em minha cabeça requerendo minha preocupação.

Entrei apressadamente na Ferrari, e acelerei sem demora, a caminho da casa de Diego. Estava com a cabeça tão perdida em mil pensamentos diferentes que mal me lembrei de que, incluída no caminho da escola para a mansão dos Hernandez, havia uma rua que me despertava muita curiosidade depois que descobri um interessante fato sobre ela.

Era ali que ficava a casa de Francesca.

Fazia tanto tempo que eu não dirigia por aquele trajeto que mal me recordei desse fato tão relevante. Só me dei conta desse detalhe quando meus olhos se depararam com a casa familiar, poucos metros à minha frente. Quando estive ali pela primeira e até então única vez, após a última festa de Diego à qual tinha ido, terminei num poste, com minha BMW amassada feito sucata. Senti meus pulmões se contraírem de tensão devido às sensações que aquele lugar me trazia, e não consegui conter a vontade de frear bem em frente à casa, tentando não chamar muita atenção, é claro.

Observei atentamente as janelas, buscando por alguma luz acesa, mas não encontrei nada, a não ser por um detalhe no mínimo curioso: os vidros de uma janela próxima à porta estavam abertos. Perigoso descuido, sem dúvida, apesar de aquele ser um bairro bastante famoso por seu baixo índice de criminalidade. Provavelmente, sua mãe ainda estava em algum cômodo e logo notaria a discreta abertura, por isso nem me preocupei em tomar qualquer atitude.

– Como eu sou idiota. – murmurei para mim mesma após mais alguns segundos na espreita, relaxando meus ombros e balançando negativamente a cabeça, porém sem tirar os olhos da casa. – Ela deve estar chegando ao baile enquanto você a espera aqui, feito uma mula.

Suspirei profundamente, sentindo o peso da ignorância me desanimar, e após mais alguns segundos de tola esperança, voltei a girar a chave na ignição, rindo de minha própria burrice. Lancei um último e ansioso olhar à casa escura, contendo minha curiosidade em saber como ela era por dentro, e assim que meus olhos voltaram a se afastar dela, vi algo que me pareceu uma miragem a princípio, mas depois se tornou fato.

Uma das luzes havia sido acesa no andar de cima.

Voltei a fixar meu olhar no cômodo agora iluminado, sentindo meu coração palpitar ansiosamente, e não precisei esperar muito para que o responsável por ativar aquela iluminação passasse bem em frente à janela, perto o suficiente para que eu o reconhecesse.

Perto o suficiente para que eu recebesse a melhor notícia de minha noite.

Aquele só podia ser o quarto de Francesca.

Porque era justamente ela quem estava lá dentro.

– Eu não acredito nisso. – sussurrei para mim mesma, ouvindo os batimentos eufóricos de meu coração ao constatar tais fatos, e como num piscar de olhos, todas as peças se uniram em minha mente, formando uma imagem muito mais do que clara, apesar dos riscos que me oferecia. – Então…Ela não vai ao baile?

Meus olhos foram da janela de Francesca até os vidros abertos no andar de baixo, e continuaram fazendo esse percurso vicioso por alguns segundos, buscando por possíveis falhas. Encontrei algumas, como a possibilidade de sua mãe estar em casa, mas eu estava tão boquiaberta diante daquela situação tão favorecedora que hipóteses como essa me pareceram meros detalhes.

Está tão fácil!, uma voz ecoou em minha cabeça, e eu não pude fazer nada a não ser concordar com ela. Após mais alguns poucos segundos de indecisão, respirei fundo e me desfiz do cordão, dos brincos, sentindo que precisaria de mais ar do que o normal. Minha escolha estava feita; estimulada pela exorbitante recompensa que sua presença poderia me trazer, a coragem necessária para lidar com as piores derrotas agora zunia em minhas veias.

Porque para a doce vitória, eu já estava mais do que preparada.

– Hm… – pensei alto, cerrando meus olhos agora fixos na janela do andar de baixo, e um sorriso criminoso surgiu em meu rosto. – Por que não?

Notas finais
Sem paciência pra essas notas, é a quarta vez que eu tento postar esse capítulo.Se dessa vez não for só posto quando eu estiver de bom-humor. Tchau.