My Angel

1 Único Capítulo


Iniciou seu ritual de todos os domingos. Saiu de manhã cedinho vestindo a jaqueta cor de café de sempre, tão bem cuidada que quem o visse pela primeira vez, não acertaria a idade da jaqueta. Exatos cinco anos, ele sempre lembraria.

Caminhou pelas ruas cobertas pela leve neblina gelada do horário tão madrugo e foi até a mesma floricultura de sempre. O vendedor já acostumado com o rapaz fez seu grande buquê de lírios enlaçados com um brilhante, bem feito e enorme laço vermelho, a cor preferida dele. As flores estavam lindas como sempre, chegava a pensar que o simpático vendedor lhe reservava os melhores lírios para que seu buquê sempre fosse extremamente lindo e cheiroso. Como adorava os lírios, o cheiro doce que aquelas pétalas exalavam lhe trazia uma calma sem igual, sentia que ali, com as flores nas mãos, com o aroma adocicado em seus pulmões finalmente dava bom dia a mais um domingo, a mais uma manhã cheia de relatos sobre a semana.

Seguia seu caminho cantarolando a mesma música de sempre, a música de sua lua-de-mel. Ouvia tanto as pessoas reclamarem que enjoavam das canções quando as ouviam várias vezes e não conseguia entender! Há anos todos os domingos ele cantava a mesma canção, sem desafinar ou errar a letra, também pudera, era tempo suficiente para saber a letra até de trás pra frente! E que não duvidassem dele, pois ele seria capaz de aprendê-la com muito amor. Mas o domingo era o dia mais importante de sua semana e ele não estragaria aquela bela manhã cinzenta com tais pensamentos.

Sua caminhada tranqüila durou o tempo costumeiro, encontrando ao final da mesma, o grande e medieval portão de ferro branco – que guardava todos aqueles sentimentos, já aberto.

Aquele jardim todo era lindo, dava ao lugar um belo ar de santuário. A grama tão verdinha, tudo milimetricamente coberto das mais belas flores que a natureza já criou. Tudo tão bonito e tão bem cuidado. Ficava feliz por ter colocado parte de si em um lugar tão sagrado. Por que as pessoas tinham tanto medo de cemitério? Um lugar tão perfeito e sereno quanto aquele deveria ser aclamado, não temido.

Foi lendo cada uma das lápides, sorrindo contente a encontrar a grande mármore negra onde o nome que procurava estava cravado.

Daniel Alan David Jones, ele leu.

Seu sorriso triplicando de tamanho. Sentou-se ao lado da lápide, podendo ainda ler ali aquele belo nome.

– Bom dia Dan. – Alisou a lateral do mármore com delicadeza, quase como se tocasse a face do amado. – Como está nessa manhã? Tem feito muito frio não é? Espero que Loren esteja regando direitinho o seu gramado, não quero que fique desprivilegiado. Por falar em privilégios, eu te trouxe flores, adivinhe quais... – Esperou por um momento, sorrindo no final de alguns poucos segundos. – Isso mesmo meu amor, suas favoritas, lírios. Estão belíssimos e com o seu cheirinho, sinta. – Tom colocou o grande buquê sobre o túmulo, aproveitando para afagar a bela grama verdinha. – Viu, eu lhe disse que estão com o seu cheiro. Ai ai, estou um pouco cansado. Essa semana foi meio corrida, nossa Mellody está muito crescida, fez seis aninhos e aprendeu a escrever todo o seu nome e não para de escrevê-lo pela casa inteira! Foi tão linda a festinha dela, você tinha que ver, ela virou a princesinha que você tanto sonhou. – Uma lágrima escorreu de seu olho esquerdo e deslizou por toda sua bochecha, passando até por sua covinha e finalmente Tom a secou. – Não meu amor, não precisa se preocupar. Estou bem. Só estava pensando em como ela está parecidíssima com você. Ela tem seu sorriso inconfundível, nem parece que nós a adotamos. Ela é você de saia e blusinhas de unicórnios cor de rosa. Estou ficando velho sabia? Encontrei cabelos brancos em minha escova e olha que estou mantendo o loiro dourado que você gosta! A menos que mamãe tenha ido lá em casa, aqueles cabelos são meus. – Uma leve e cheirosa brisa o tomou, podia senti-la afagar sua bochecha, assim como um carinho de Danny. Era uma brisa tão majestosa e delicada, que o lembrava a minuciosa delicadeza com a qual Danny o tocava. – Você não muda mesmo amor, sempre gentil comigo. Tão encantador... Bom, eu já vou indo, antes que Mel acorde e dê falta de mim. Vou ajudá-la a ensaiar para uma peça que vai fazer no colégio, ela está muito animada. Ah, você conhece sua filha. Descanse meu amor, você é tão atencioso cuidando de nós pela semana, é quase um anjo. Descanse pelo menos hoje, deixe tudo comigo ok? Eu te amo minha vida, fique bem.

Thomas respirou pela última vez o aroma dos lírios e então seguiu seu caminho de volta para sua casa. Desde que Danny falecera por causa de um câncer, era assim que Tom passava todas as suas manhãs de domingo. Contando ao seu eterno amado sobre sua semana, sobre sua filha, sobre sua vida. Danny entrara na vida do rapaz e Tom sabia que era pra nunca mais sair.

Estava prestes a entrar em casa quando uma brisa gélida com um cheiro adocicado de lírios o embalou. Respirou profundamente, deixando que as lágrimas cheias de saudade contrastassem com seu largo sorriso. – Seja bem vindo ao nosso lar meu amor.

Um sussurro era o suficiente para que seu anjo o ouvisse.

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