My Amazing Spider-Man
9 Primeiro dia
POV. Michelle Jones
— Chegamos — anunciou o homem de olhos puxados e sorriso fácil atrás do volante.
Oswaldo, um dos funcionários do Clarim, embicou o sedã em direção ao muro coberto de trepadeiras, entre os portões duplos e altos. O prédio começou a surgir, imponente, numa área que mais parecia uma chácara.
— Tá de brincadeira comigo? — resmunguei.
A construção de dois andares em estilo clássico branca se destacava ainda mais graças ao pequeno gramado que a cercava. As dezenas de janelas pareciam espelhos de tão limpas. Do lado esquerdo, no andar superior, alguns pombos se empoleiravam na balaustrada do balcão. Bem na entrada, um belo jardim e uma fonte davam as boas-vindas.
Sério, quem tem uma fonte na frente de uma empresa? Uma polo, inclusive?
Eu sabia que o Clarim Diário era o jornal mais renomado e conhecido da cidade, pelas notícias serem as mais vistas de acordo com as pesquisas mais recentes da Oxford New Jornals. Isso era possível mesmo com o perfil um pouco... anti-heroico que ela tem. Ela era rica. Pelos carros da empresa dava para ver isso também. Peter tinha me informado que aconteceu um imprevisto e ele não conseguiria me buscar em casa a tempo, mas mandou que um outro colega e assistente viesse fazer isso por ele. E que carro, olha... O BMW que Oswaldo dirigia devia custar uma fábula. Mas aquele centro jornalístico? Mesmo sendo um polo, era maior que o bairro onde eu morava. Aquilo ia além de ser conhecido. Era ser... muito, muito, muito conhecido!
— O Clarim deve ter muitos funcionários, né? — comentei. E esse pensamento me deixou inquieta. Eu ia ser o centro das atenções desse povo. Eu estava curiosa apenas porque lidar com o público era um desafio muito grande pra mim. Eu era bastante paciente...
— Pelo contrário, srta. Michelle — rebateu o motorista com certa melancolia, estacionando em frente à entrada principal. — Não conheço uma emprensa tão grande, mas tão restrita quanto essa. A maioria das pessoas torcem pela permanência de heróis, não o contrário. Isso faz com que ela diminua mais e mais. E o JJ é muito exigente.
Pode diminuir nos funcionários, mas na estrutura... Caramba! Levaria uns cinco anos para reduzir.
Conforme o carro adentrava na propriedade, eu pensei em como me comportaria naquele primeiro dia. Eu ensaiei a semana toda. Eu precisava manter a calma e agir como se nada tivesse acontecido. Era o melhor a se fazer, por mais que na minha cabeça estivesse cogitando a ideia de me consultar com um psiquiatra. Porque ter poderes... Não, essa opção era o menos provável.
Quatro dias, MJ. Quatro dias para colocar meus parafusos no lugar e parar de me preocupar com minha sanidade. O certo era ignorar. Ignorar e ponto! Peter Parker era um cara que existia, tinha seu emprego, sua vida na qual eu não tinha nada haver, e por alguma razão meu subconsciente captou seu rosto e decidiu produzir uma série de ação e intensa na minha cabeça antes de dormir todas as noites.
Está tudo bem, garanti para mim mesma. Está tudo bem agora. Segue com sua vida normalmente.
Eu estava sendo preparada para posar para a empresa. Agora eu estar preparada para isso era outra história.
Eu estava pronta? Lógico... Que não.
— O sr. Parker a espera no escritório — informou Oswaldo, se virando no banco. — Primeira porta à esquerda.
— Ok. — Mas a tensão me assaltou. O assunto “minha má sorte” me atormentava desde que Peter Parker me ajudou com emprego. Jonah, graças a pequena sorte que se compadeceu de mim, aceitou a recomendação dele a meu respeito. Eu tinha passado a última semana repetindo mentalmente “por favor, não me deixe estragar tudo”, porque talvez, quem sabe, o azar sentiria ciúmes de mim, para variar.
Nervosa, porém decidida a esconder isso, desci do carro e arrumei minhas roupas novas enquanto inspirava fundo. Se tinha uma coisa na qual Gayle era boa era em criar um guardaroupa gastando pouca grana. E graças a ela eu agora tinha duas saias, um vestido preto, três calças, cinco blusas, duas camisas e um paletó, além de um par de sapatos novos e uma bolsa. Acabei comprando aquela saia de contas para ela e uma blusa com estampa de unicórnios que achei a cara dela.
Eu havia prendido o cabelo em uma trança lateral — para evitar que, sei lá, uma mecha se enroscasse em alguma coisa e eu tacasse fogo em tudo sem querer — e escolhera a saia creme, combinando com a blusa verde de mangas longas com alguns recortes. Dizem que verde é a cor da sorte. Não custava nada arriscar. A bota imobilizadora não me deixava muito elegante, mas pelo menos eu havia me livrado das muletas. Embora o tornozelo não doesse mais, como abri mão do remédio pela hipoteca, optei por usar a tala mais uma semana.
Devagar, subi meio atrapalhada os seis degraus antes de parar diante da porta branca tão larga quanto meu armário do quarto. Ajeitei a alça da bolsa no ombro e bati. No momento em que minha mão tocou o painel de madeira, porém, ele se abriu de leve, revelando um hall espaçoso. Fui entrando até acabar em uma sala gigantesca, sem ninguém à vista.
Se eu tinha achado aquele jornal incrível por fora, agora estava completamente embasbacada. Nem tanto pela construção em si — que, sim, era linda —, mas a decoração me tirou o fôlego. Minimalista, em tons claros, tapetes e obras de arte dando colorido ao ambiente. E as pessoas bem vestidas e afoitas em volta eram o toque final.
Cruzando os braços atrás das costas — minha posição de segurança dentro de lojas ou empresas (ainda mais uma sofisticada como aquela, que exigia de mim a postura de uma popstar) —, eu me abaixei em frente ao aparador para examinar um vaso de ferro com alguns entalhes em vórtices. Um trabalho celta, com certeza. No processo, um jornalista esbarrou em mim e eu gemi, desviando-me como pude para evitar que a escultura fosse ao chão.
— Desculpa, moça — ele pediu, estendendo uma pasta cheia de papéis. Eu assenti, tremendo um pouco.
Na verdade, tremendo igual uma vara verde.
— Tudo bem — garanti, e ele saiu correndo junto com mais três pessoas.
O vaso ainda estava aqui. Inteiro. Graças a Deus.
Como eu não estava ali para admirar a beleza dos acessórios, tratei de ir para o escritório, seguindo as instruções de Oswaldo. Eu o encontrei aberto, e também estava vazio.
Humm... Talvez fosse melhor eu esperar na sala. Ou deveria esperar ali, no escritório? O que Oswaldo tinha dito mesmo?
Estava tentando recordar suas palavras exatas, mas os raios de sol da manhã que se infiltravam pela vidraça incidiram sobre um objeto pendurado na parede. Todos os pensamentos foram banidos da minha cabeça, e eu estava diante daquela peça antes que me desse conta. Pela visão periférica, assimilei diversas notícias antigas e jornais disputando espaço na estante, um sofá (marrom, mas que surpresa!) num canto, uma mesa larga de madeira amendoada ao fundo. Mas minha atenção total estava naquele uniforme fundido a um quadro transparente.
Era vermelho, com linhas azuis escuras contornando todo seu formato, dando o aspecto de teias por todo comprimento, a aranha no centro do peito fina e grande. As lentes pareciam terem sido feitas com partes de algum... óculos escuro, talvez?
Meu Deus, que criatividade maravilhosa a desse cara que tinha uma vida normal e, de repente, se tornava um herói nas horas que era preciso... Esse uniforme foi do seu início, com certeza, quando ele começou a salvar, a dar as caras. Era de um vermelho tão aceso, lindo e tão parecido com os que eu via em meus sonhos que um arrepio me subiu pela coluna.
Estendi o braço, desejando sentir sua textura na ponta dos dedos, mesmo que isso não fosse possível graças ao vidro. Estava tão absorta que o suave clique da porta me sobressaltou. Virei-me de imediato, dando de cara com o rapaz diante da porta do escritório, agora fechada.
— Desculpe, modelo mirim. Não pretendia te assustar — a voz grave de Peter 3 trovejou pelo escritório.
De Peter Parker.
A voz de Peter Parker!
Parker. Parker. Parker!
Que, aparentemente, continuava fora dos meus sonhos e charmoso em um sobretudo preto, o primeiro botão da camisa polo aberto, os cabelos castanhos úmidos. Seu cheiro, de sabonete me chegou ao nariz, e tive que me apoiar no encosto de uma poltrona que nem havia notado antes para manter o equilíbrio. Um pouco atrapalhada, bati a tala no pé da mobília.
É só manter Peter Parker fora dos meus surtos e divergi-lo dos meus sonhos e tudo vai ficar bem.
E eu tentei. Realmente me esforcei para isso. Mas não estava conseguindo evitar que todo o sangue se refugiasse para meu rosto ao estar em sua presença. Era impossível não lembrar dos sonhos! Ele podia não ser Peter 3, mas o efeito que tinha era o mesmo.
Ok. Talvez eu não tivesse tudo sob controle, afinal.
Ele me observou por um instante e eu tive a impressão de que aquelas íris castanhas cintilaram, mas pode ter sido apenas um reflexo do vidro do quadro.
— Você parece bem melhor — comentou, e eu fiz um agradecimento silencioso a minha irmã, que me ajudara a esconder minhas imperfeições naturais com maquiagem. — Como está o seu tornozelo?
— Bem. Já não dói mais.
— Fico mais tranquilo. — Ele caminhou pelo escritório a passos lentos e se acomodou no sofá. — Está com fome?
Sacudi a cabeça, embora estivesse faminta. Ficara tão ansiosa para começar aquele dia que mal conseguira engolir o suco que mamãe me obrigara a tomar antes de sair de casa para esperar Oswaldo chegar.
— Por que não se senta para começarmos? — Indicou com o braço a poltrona negra na qual eu ainda me apoiava.
Segui sua recomendação. O tecido da minha saia escorregou um pouco no couro, e eu me segurei nos braços do móvel para não acabar de bunda no chão logo no primeiro dia de emprego. Esperei que ele dissesse alguma coisa, mas, como tudo o que fez foi ficar me encarando, vasculhei a cabeça em busca de alguma coisa inteligente para quebrar o silêncio. O que se deve dizer ao ficar cara a cara com seu salvador imaginário, que na verdade não é seu salvador imaginário, mas seu... parceiro de trabalho e instrutor?
É, eu também não tinha ideia. Em desespero de causa, disse a primeira coisa que me veio à mente.
— De quando é?
— De quando é o quê? — Ele arqueou uma sobrancelha.
— Aquela fantasia.
— Ah! — Seu olhar vagou para o uniforme às minhas costas, um meio sorriso despontando em seus lábios. — Há quatro anos atrás. Foi o primeiro traje que ele usou.
— Foi você quem conseguiu, não é? Digo... Achar esse uniforme do Homem-Aranha.
A surpresa trouxe um pouco de cor a seu rosto. Ele se inclinou para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos entreabertos. Uma mecha úmida lhe caiu na testa.
— Por que você acha que fui eu que consegui esse traje, Michelle?
Eu e a minha boca grande.
— Você mesmo deu a entender que era colega dele. — Forcei um sorriso.
— Não, eu não dei a entender. — Seus olhos se estreitaram quase imperceptivelmente, mas os cantinhos da boca estavam curvados para cima. — Não para você.
Posso pegar aquele uniforme que parecia mais ser feito de borracha com tanto elastano que tinha e enrolar no meu pescoço? Pensei de perguntar.
— Seu celular tava muito alto. Não estava no alto-falante?
— Não.
— Ah, mas eu escutei. E aí, vai me bater? — Chutei o balde e o contemplei com uma das sobrancelhas levantadas. Tentei desviar o foco do fato de ter sido a fofoqueira da história por ter escutado a conversa dele com a mulher de voz Sou a Barbie Girl. — E também acho que por você ser o fotógrafo da empresa, tem mais acesso ao amigo da vizinhança. — Ou talvez porque Peter 3, por quem a minha cabeça insistiu em repetir em sonhos, seja o próprio Homem-Aranha. Já mencionei que você é a cara dele? — Você não tem?
Ele manteve o sorriso de lado, me estudando. Com um movimento rápido, Peter comprimiu os lábios numa linha fina.
— Só pra te avisar... — Debruçou sobre os cotovelos, sem desviar os olhos dos meus. — ...Escutar conversas alheias não é uma coisa... muito educada de fazer, Michelle Jones. — Apesar do semblante se esforçar a se manter sério, notei a brincadeira e a provocação bastantes acentuadas em sua voz.
Lutei para conter o tremor.
— É MJ. — Corrigi, estreitando o olhar.
— Michelle Jones, MJ... Os dois são seu nome, certo?
Eu engoli em seco e quis muito, muito, estrangular aquele sorrisinho maroto. Mas só dei de ombros. Eu era a errada, no fim das contas, mas nunca vou admitir isso em voz alta. Nunquinha.
Peter clareou a garganta, permanecendo em meus olhos.
— E respondendo sua pergunta, não. Não fui eu que encontrei o uniforme, foi o próprio cara que jogou fora. — Ele explicou, cruzando os braços em frente ao peito, uma sombra densa nublando suas feições. Ele desviou o olhar para a mesinha de centro. — Robertson encontrou no lixo perto do Clarim. — Ficou brevemente quieto. — Até o Homem-Aranha passa por problemas.
O clima ficou pesado, tenso a ponto de ser palpável. Tanto que tive dificuldade para respirar e, bom, tentar mudar o assunto.
Me lembrei que houvera uma época em que o Homem-Aranha ficou desaparecido durante um tempo. Bom, eu não tinha dado tanta importância, já que eu estava muito focada em conseguir minha faculdade de psicologia em NYU, mas ouvia por alto o desaparecimento do herói mascarado por muitos e muitos meses. Ninguém soube com precisão a razão de seu sumiço, mas houvera muitas teorias... Algo do tipo "ele não queria mais ser o vigilante", ou "luto por um ente querido"... Foram tempos sombrios, onde o crime estava à solta, sem escrúpulos. Lembro-me bem de quando minha irmã esperava louca pelo seu retorno. Não apenas ela, mas todo o povo de Nova York. Querendo ou não, mesmo sabendo que eles nunca vão admitir, até mesmo a polícia e a imprensa sentiram falta.
Quando a cidade confirmou sua volta, todos ficaram alvoroçados. Pareciam eu quando recebi a confirmação da minha inscrição e entrei na NYU. Bons tempos, aqueles.
— Então... Esse traje está aqui como uma conquista do Clarim Diário — especulei, dando uma olhada nos outros objetos esparramados pelo escritório vazio. Jornais e mais jornais espalhados...
Peter se levantou e chegou mais perto, as mãos nos bolsos da calça cinza, a postura relaxada. Fiquei de pé também, e, mesmo sendo alta, o homem diante de mim era mais, por isso tive que erguer a cabeça para poder olhar em seu rosto.
— De certa forma — ele disse, fitando o traje com ar sonhador. — Uma foto exatamente assim — apontou para o quadro — foi revelado num jornal que anunciou a ausência do Homem-Aranha. A Clarim ainda especulou que ele acovardou e abandonou aqueles que mais o admiram... — Seu tom ficou sombrio, como se guardasse rancor da manchete que o jornal fizera. E eu me lembrava perfeitamente dela. Foi uma merda. — Ele retornou depois com um uniforme novo, nunca fez questão de... — Coçou os cabelos da nuca. — ...Pegar esse de volta. E eu fiquei satisfeito. Assim posso olhar para ele e perceber que antiguidades nos fazem pensar em tempos que a vida foi melhor e mais sossegada. Porque essa roupa aí é bem antiga. Tanto que ele até se livrou, não?
Relanceei a peça na parede. Se havia uma coisa que aquele período parecia não ter sido, a julgar pela rachadura que havia nas luvas e numa parte do peitoral bem em cima da aranha, era sossegado.
Depois de um instante, Peter fez a volta, foi até a mesa maciça totalmente organizada e abriu uma gaveta. De lá tirou um tablet reluzindo de novo.
— Tudo o que você precisa saber sobre as primeiras fotos do nosso projeto está aqui dentro — contou. Atravessei o escritório, parando diante da mesa para pegar o aparelho. Ele continuou: — As minhas instruções são mínimas, não vou atacar você como JJ faria. Fui anestesiado a muito tempo e seria uma maldade fazer isso com você. Não sou malvado. — Colocou a mão no peito, melodramático, e eu bufei, meio rindo. Ele tornou a seriedade. — Só se ligue nas recomendações, beleza? Você precisa ter uma postura que...
Peter continuou falando sobre posturas, tranquilidade, sem aparentar nervosismo, e muitas outras coisas de desenvoltura na frente da sua câmera que, sinceramente, não fiz muita questão de decorar aquela chatice, mas tentei mesmo assim. Era um cara bem diferente do que eu havia conhecido na semana anterior. Mais seco e distante.
— Vou deixar você se familiarizar com tudo enquanto termino o relatório que preciso entregar. Esse aqui vai ser o nosso primeiro estúdio a princípio — avisou, já indo para a porta. — Tenho uma reunião mais tarde. Você deve me acompanhar. — Antes que eu pudesse abrir a boca, ele saiu.
E eu fiquei ali, segurando o tablet e todas as perguntas que pipocavam em minha mente. Por exemplo: O que ele esperava que eu fizesse nessa reunião? O que seria discutido? Seria na empresa? No polo? Em um restaurante?
Tentei descobrir algumas informações no tablet, como ele sugerira. Havia centenas de e-mails, pdf's, telefones, planilhas e só.
— Bem, Peter Parker — resmunguei para o nada —, parece que sua ajuda não foi lá essas coisas...
Continuei investigando e, depois de um tempinho, encontrei em alguns e-mails informações sobre as tais propostas que o Clarim Diário planejava fazer para crescer. Algo relacionado à perfumes, empresas parceiras e jóias relíquias. Nada sobre a reunião iminente.
Já estava entrando em pânico quando, graças aos céus, um homem negro de cabelo baixo e algumas cicatrizes finas e longas no lado esquerdo do rosto passou pelo batente. Seu terno claro contrastou com sua pele.
— Bom dia. Você deve ser a nova modelo da empresa, certo?
— Se eu conseguir descobrir como — confessei. — Michelle Jones.
— Prazer, Michelle. Joseph Robertson. — Ergueu sua mão para que eu apertasse. — Parker me pediu para auxiliá-la.
— Ah, graças a Deus. — Soltei um suspiro ruidoso, me segurando na beirada da mesa para não cair. — Eu já estava quase tendo um troço, tentando adivinhar o que ele espera de mim e sobre essa reunião que vai ter.
Ele abriu um largo sorriso contagiante, um tantinho sedutor — fosse sua intenção ou não —, e contornou a mesa, se sentando na larga poltrona imponente.
— Não se preocupe. O que ele espera de você ele sempre vai dizer. E é importante que anote tudo o que acontecer nas reuniões — prosseguiu. — JJ não tolera repetições, e por mais que Parker seja um jovem brincalhão, ele também não suporta. Como primeiro passo seu da empresa, é necessário enviar um e-mail confirmando sua aceitação.
Depois de me inteirar sobre esse tal e-mail de confirmação, Joseph me deu mais algumas dicas. Comecei a ficar ainda mais nervosa. O trabalho como modelo parecia fácil, mas aparentemente isso era propaganda engosa. E como meu chefe e meu subchefe não admitia erros, o meu histórico então... Ferrava tudo.
Assim que terminou, ele me acompanhou até a entrada da empresa, onde o carro e Oswaldo já esperavam a postos. Os dois homens e um outro funcionário começaram a conversar enquanto eu conferia se tinha papel e caneta na bolsa. Gayle colocara uma caneta rosa com glitter e um bloco de notas em formato de muffin com uma carinha sorridente.
Acabei rindo. Eu não merecia uma irmã como ela. Não merecia mesmo.
— A sorte é que ele chegou bem a tempo da morte da menina! — fofocava Joseph para Oswaldo e outro jornalista. — Vou pra lá noticiar daqui a pouco. O bom é que Peter registrou. Nunca vi alguém com tanta sorte quanto ele para tirar foto no exato momento do resgate. — Ele estalou a língua. — E mesmo assim, ele não fica satisfeito quando JJ o reconhece como antes. É isso que eu não entendo! Quer dizer, ele me contou sobre a perda que sofreu da namorada, e como se sente infeliz sem ela, mas isso já tem tempo.
Eu me detive ao ouvir aquilo, a bolsa balançando em meu cotovelo.
Peter teve uma namorada?
E... E ela tinha morrido?
Meu Deus do céu.
Ok. Está bem. A verdade era que por mais que essa coincidência com meu sonho fosse verdadeira, eu não gostava de imaginá-lo de coração partido.
Antes que eu surtasse, consegui me recompor bem a tempo de ver Peter passar pela porta, com a alça da câmera profissional atravessando o peito e ombro, que mais parecia uma aljava.
— O Joseph explicou tudo? — me perguntou.
— Sim — falei, para lembrar meu cérebro que era melhor deixar tudo no âmbito profissional.
— Ótimo.
Gentilmente, Peter abriu a porta do carro para que eu entrasse. Assim que me acomodei, ele ocupou o lugar vago ao meu lado, no banco traseiro do sedã, ajeitando a câmera entre nós.
— Boa sorte, Michelle Jones. — A cara de Joseph surgiu em minha janela. — Mais tarde eu passo para ver como está se saindo.
Não pude definir se aquilo havia sido uma ameaça ou apenas um gesto amigável, então apenas fiz que sim, ao mesmo tempo em que Oswaldo engatava a marcha e acelerava. Nem bem tínhamos passado pelos portões e Peter se virou para mim, pronto para começar.
— Joseph preparou alguns memorandos. Basta enviar.
— Ok. — Onde? Onde ele deixara os memorandos? Liguei o tablet e comecei a vasculhar os aplicativos com dedos trêmulos.
— Também preciso que você envie um e-mail para a embaixada — prosseguiu, sem parar para respirar. — O endereço está na memória. Comece com “Prezado John Jonah e equipe, venho lhe informar que estou apta para tirar as fotos do...”
— Peraí. Só um segundo — interrompi, aguardando que o programa de e-mail abrisse. Quando ele se expandiu na tela e começou a baixar as mensagens, procurei o contato do JJ. Por sorte, era um dos primeiros da lista. — Tudo bem. Pode começar de novo.
Como tudo o que ouvi dele foi silêncio, ergui a cabeça para entender o que tinha acontecido.
Peter tinha uma expressão engraçada na cara. Incredulidade ou coisa assim.
Aaaaah...
— Quer d-dizer... — gaguejei, me encolhendo. — Estou pronta se você... se você quiser fazer isso agora... —tentei consertar.
Ele apenas continuou me encarando como se não acreditasse, o que era bastante provável. Eu imaginava que todos ao redor dele fossem competentes e rápidos, não uma pateta como eu. Por outro lado, ele havia dito pouco antes de me ajudar que estava de saco cheio de entrevistas ou alguma coisa do tipo. Ele não perderia seu precioso tempo em dar um chute na minha bunda e tentar uma outra candidata, né? Abri a boca para lembrá-lo desse detalhe, mas ele pigarreou, desviando a atenção para a janela, e recomeçou, ditando os e-mails a uma velocidade impressionante. Mesmo que meus dedos fossem rápidos, eu não conseguiria acompanhá-lo.
No momento em que minha cabeça começou a latejar, o celular dele — graças a Deus! — tocou. Enquanto ele atendia a chamada, aproveitei a pausa para dar uma conferida no e-mail que eu estava digitando.
Ao sr. Chefe do réptil de Admiração
Caríssimo sr. Amedronta
•Assunto: Seminário sobre o uso de posições alternativas (...)
Sr. Amedronta?!
Nem me dei o trabalho de ler o restante para não entrar em pânico. Em minha pressa para não perder nenhuma palavra, não percebi que o corretor ortográfico havia trocado diversas palavras que tentei abreviar, e agora eu não conseguia lembrar o que tinha escrito inicialmente.
E eu que tive esperanças de não ser demitida antes do fim daquele dia. Eu teria sorte se durasse até chegarmos à empresa.
Quando, por fim, encerrou a chamada, Peter massageou a testa e murmurou uma quantidade de expressões que, claro, pelo tom, só podiam ser palavrões. Recostou a cabeça no apoio do banco e cerrou as pálpebras. Parecia tão desanimado que meu coração se apertou até ficar do tamanho de um grão de arroz.
— Peter? — chamei baixinho.
— Sim? — Seus olhos ainda estavam fechados.
— Posso fazer alguma coisa por você?
Esfregando o rosto com as duas mãos, ele se aprumou no banco e se virou para mim. Parecia de volta aos negócios, não fosse por aquela sombra que, por mais que tentasse, ele não conseguia ocultar.
— Não, não. Obrigado. Terminamos o e-mail do Amadeu?
Sr. Amadeu!
— Acho que sim. — Corri o dedo pela lateral do aparelho. — Mas... humm... talvez... você queira repassar comigo antes de enviar — arrisquei. — Apenas para que eu possa ter certeza de que não deixei nada escapar.
Ele me observou por um instante interminável.
— Você não conseguiu pegar tudo, não é? — Arqueou as sobrancelhas.
Enrubescendo como nunca e sem coragem de admitir a verdade, entreguei o iPad a ele. Peter analisou o e-mail das seriguelas brevemente e então explodiu. Eu me encolhi no banco, esperando que ele dissesse as palavras que eu já estava tão habituada a ouvir. Só que... o banco começou a chacoalhar.
Na verdade, o carro todo parecia sacudir.
Eu dei uma espiada e... ele estava gargalhando?
Sim, estava! Com tanto entusiasmo que seus ombros balançavam e sacolejavam o veículo inteiro. E desse jeito descontraído ele se parecia tão mais com o cara engraçado e despojado que me levara para o bar na semana anterior do que com o homem de negócios que me recebera naquela manhã em seu escritório. Eu gostava mais desse cara.
— É por isso que eu odeio essas porcarias de e-mail's. — Peter me devolveu o tablet. — Muito bem, vamos começar de novo. Faça o favor de avisar se eu estiver indo rápido demais.
Pelo retrovisor, vi a testa de Oswaldo se enrugar. Eu mesma devia ter uma expressão muito parecida. Sobretudo depois do alerta de Joseph a respeito de JJ e Peter odiarem se repetir.
Talvez... minha sorte estivesse começando a mudar, como Gayle tinha sugerido, pensei, esperançosa. No entanto, não tive tempo para conjecturas, já que Peter Parker começou a ditar o texto da sua proposta de fotografia de novo. Eu tinha escapado dessa vez, mas não dava para contar com a “minha sorte”. Precisava me concentrar no que era realmente importante: fazer tudo direitinho a partir daquele instante e descobrir como não ser demitida logo no primeiro dia.
Fale com o autor