Notas iniciais
Bom diaaa! ♡ Hoje vamos ser presenteados com dois capítulos. Mais tarde teremos o outro e tá maravilhoso, cheirando a encrenca como a gente gosta! Preparem a pipoca porque é a partir desse aqui que as coisas vão se encaixar e ficar cada vez melhores! Boa leitura! ♡

POV. Michelle Jones

Estou sendo levada. E acho que vou desmaiar no processo.

— MJ! — Peter gritou, tentando me alcançar, mas era tarde demais. A magia estava me levando para longe e o poder dela era enorme, ipossível de reverter ou impedir. E é claro que o causador disso percebeu tarde demais o erro.

Vi pela última vez o olhar arregalado de todos eles: do meu Peter, do Ned, nosso melhor amigo, e até mesmo do Doutor Estranho... Me arriscando mais, o olhar dos outros Peter's da parte de cima do concreto estatalado no chão, o grande monumento de um dos heróis mais importantes e simbólicos: o Capitão América. O Peter mais velho parecia perdido, e o outro... O mais alto, o que me salvou, compartilhou do mesmo desespero do Peter da minha dimensão. A aflição estava ali, tão viva em suas retinas que cheguei a pensar que ele estava refletindo a mesma dor.

Ele pareceu entender a agonia da perda de alguém.

Antes que a famíliar escuridão me abraçasse, eu os enxerguei brilharem também. Os dois Peter's de outras dimensões. Também o Lagarto, o doutor Otto, Electro, Homem-Areia, Norman... Um brilho branco envolveu todos eles, e eu soube que a magia também os alcançou.

Uma magia diferente da minha.

A luz atingiu meu olho direito. Gemi, um tanto desorientada, me afastando da claridade, e dei uma espiada ao redor para me localizar. O sol já havia nascido, e através de um furinho na madeira da janela um raio luminoso e quente conseguia entrar no quarto, atravessar o cômodo e incidir exatamente sobre minha pálpebra direita.

Ah, certo. Vida real.

Sentando-me com alguma dificuldade, passei os dedos pelo cabelo e esfreguei o rosto. Esses sonhos tinham que parar. Eram tão agitados que eu sempre acordava mais cansada do que no momento em que caía na cama. Além disso, eu odiava a sensação que me acompanhava a cada amanhecer ao ter que acordar e deixar Peter para trás.

Depois de tantos anos, era de esperar que eu já tivesse me acostumado com aquilo. Mas eu não tinha. Era um choque a cada vez que eles se repetiam. E a dor da ausência era tão real quanto qualquer outra coisa que eu já tivesse experimentado. Fazia algum tempo que eu havia desistido de tentar entender o que o meu inconsciente andava aprontando. Eram apenas sonhos.

Pontofinal.

Meu estômago roncou e eu relanceei o relógio do celular. Já era tarde, passava das nove horas. Mas e daí? Eu não tinha nada para fazer mesmo. Por isso não me apressei no banho nem em descer para o café da manhã. Entretanto, decidi vestir uma roupa bonita e levar a bolsa. Talvez desse um pulo no banco mais tarde e tentasse conseguir mais um empréstimo até que um novo emprego aparecesse.

Deixei o quarto e estava no topo da escada quando avistei dona Lila nos degraus. A ex-atriz de rádio, com seu cabelo platinado bastante armado graças ao laquê, subia vagarosamente.

— Gayle! — cumprimentou.

— MJ, dona Lila.

— Ah, bom. Porque eu já estava começando a me perguntar se estava vendo coisas. Podia jurar que tinha acabado de ver a sua irmã lá embaixo...

Dona Lila vivia na pensão desde que eu conseguia me lembrar. Se confundir comigo e com a minha irmã era uma das provas disso. Sua visão havia piorado muito nos últimos anos, mas ela se recusava a usar óculos. Uma dama como ela usava apenas joias e peles, dizia, alegando que nenhum jornalista se interessaria em entrevistar uma velhinha cegueta. Por isso todas as manhãs ela saía da cama e se maquiava com capricho, decorava os dedos com anéis, pendurava colares de tamanhos variados ao redor do pescoço. Todos os dias ela aguardava que um repórter se lembrasse dela, de seu trabalho, e viesse vê-la. E ninguém nunca aparecia. Era de partir o coração. Mas Lila não se deixava abater.

— Eles podem demorar — dizia, todo fim de tarde. — Eu vou estar pronta para eles. Não deixo o desânimo me abalar, minha querida. É assim que se derrota o mal mesmo não tendo poderes, Michelle. Com o bem, com pensamento positivo! É a única maneira.

Essa era uma das coisas que eu amava nela. Não havia nada que abalasse sua confiança, que minguasse suas esperanças.

— Está muito bonita hoje, dona Lila — elogiei, chegando para o lado para lhe dar mais espaço.

— Não sem esforço, querida. Não sem esforço! Estou indo agora mesmo retocar a maquiagem. Minha intuição diz que os fotógrafos vão aparecer daqui a pouco.

Eu realmente torcia para que a intuição de dona Lila funcionasse melhor que seus olhos.

Assim que ela passou por mim, corri para a sala de jantar. O papel de parede verde se soltava em um dos cantos, e a risada do meu avô ainda parecia ecoar no ambiente. Gayle ocupava uma das seis cadeiras da mesa de jantar de mogno, uma fotografia pendendo da mão, o olhar perdido no pequeno jardim.

— Foi bom assim, é? — Eu me larguei no assento em frente a ela, sobressaltando-a.

— O que... Aaaah! O encontro. — Ela ficou vermelha. — Foi... normal.

— Arrã. Tenta de novo. — Belisquei um pãozinho doce e alcancei a garrafa térmica, me servindo de um pouco de leite. Café e eu nunca fomos muito chegados.

Minha irmã me espiou por entre os cílios longos e duros, graças a muitas camadas de rímel, e não conseguiu refrear a empolgação.

— Ah, MJ, foi perfeito. O Eugene foi incrível... E o beijo... — Ela suspirou, deixando o retrato na mesa para completar a xícara com mais café. — Olha pra mim. Já deu pra sacar tudo, né?

— A muitos metros de distância. O que tem aí? — Eu me estiquei para pegar a foto. Pertencia a sua coleção: o centro da cidade em um dia nublado, os guarda-chuvas coloridos quebrando a seriedade da metrópole cinza. Era uma das minhas favoritas.

Ela ergueu os ombros, tomando um golinho de sua bebida.

— Começaram as inscrições para o Clarim Diário, aquele centro de jornal novaiorquino. Um dos dois testes seria para assistência técnica de câmera digital. — Pousou a xícara no pires e começou a tamborilar as unhas pintadas de roxo na porcelana. — Vou aproveitar a decha e mostrar ao dono minhas fotos para ao menos ter uma chance de ser a outra fotógrafa. É difícil pra cacete conseguir ser chamada pelo JJJ.

— JJJ?

— John Jonah Jameson. — Explicou o nome do cara, e entendi a abreviação dos J's. — O homem é um fenômeno, mas é complicado. E eu acho que ele já tem um fotógrafo. Fiquei pensando se eu teria alguma chance, mas sei lá. Acho que vou desistir. A foto não é tão boa assim.

— Eu discordo. E, se você não tentar, Le, nunca vai saber. — Devolvi a foto a ela. — O que de pior pode acontecer? Você não ganhar? Isso você já tem.

Gayle examinou o retrato, a testa vincada, a boca contorcida daquele jeito que eu conhecia bem. Ela estava com medo.

— É. Vamos ver — acabou dizendo. — Talvez até a noite eu consiga criar coragem pra preencher o formulário. E você, o que fez ontem?

— Nada. — Mantive a atenção na xícara, examinando-a como se fosse a primeira vez que a via. — Só dormi.

Antes que eu pudesse piscar, ela se esticou sobre o tampo e enroscou os dedos na alça da minha bolsa, puxando-a.

— Gayle! Isso é particular!

Aparentemente não existe nada particular quando se tem irmãs. Ignorando-me de propósito, ela revirou minha bolsa até encontrar o caderno de capa dura, se apressando em revirar as páginas. Parou no desenho que eu fizera do herói mascarado, o mais baixo, que tinha o rosto mais quadrado e um olhar gentil.

— Peter 1 — leu minha irmã, mas da maneira errada. Pensei de primeira no Peter pan.

— Se pronuncia Piter — expliquei.

— Então esse é uma das versões do Homem-Aranha na sua cabeça. — Deu mais uma examinada no desenho. — Fofo pra cacete esse, hein?

Dei risada.

— Cala a boca e me devolve isso aí. — Tentei reaver meu caderno.

Mamãe não sabia nada a respeito daqueles sonhos, e eu queria que continuasse assim. Mas Gayle se inclinou para trás, ficando fora do meu alcance, e passou apressada pelas gravuras até se deter na que eu rabiscara na noite anterior.

— Uau! — exclamou, correndo um dedo pelos cabelos do Peter 3. Não gostei daquilo. Não queria que ela os tocasse daquela maneira.

Certo, talvez eu precisasse rever a coisa da obsessão quanto àqueles sonhos, afinal.

Mas então ela disse:

— Esse aqui é um gato, mana! Parece um modelo. E que cabelo maravilhoso!

Acabei rindo e mordi um pãozinho doce e... Caramba, mamãe havia se superado dessa vez! Ninguém fazia pãezinhos como ela.

— Sério, MJ — Gayle continuou, os olhos ainda em Peter. — Eles parecem tão reais que eu tenho a sensação de que estão me encarando. E entendo por que você se encantou. Eu mesma estou com um pouco de dificuldade pra parar de olhar para eles. — Inclinou o caderno, admirando-o de outro ângulo. — É por isso que esse cara aqui não existe. Com certeza o Homem-Aranha é um policial rebelde, barrigudinho e careca. — Bateu na página, estalando a língua. — Nenhum homem de verdade pode ser bonito desse jeito.

— Exatamente. O Homem-Aranha pode ser careca e um velho, também. Nada haver com estes. — Eu me estiquei sobre a mesa para pegar o caderno antes que ela visse o rabisco do Peter 2, a versão mais velha do herói na minha cabeça, e o guardei de volta na bolsa. — Eles são só uns caras que têm cara de nerd imaginários.

— Uns caras cara de nerd imaginários gostosos pra cacete. Mas não sei se gosto deles, no fim das contas. — Ela segurou a xícara entre as mãos e permaneceu assim por um tempo. — Às vezes escuto você chorar de madrugada. Ou gritar. — A preocupação tomou conta de seu rosto delicado. — Será que não seria melhor procurar um psicólogo pra saber por que você tem esses sonhos malucos?

— E pagar com que dinheiro, Gayle? — Dei outra dentada no pão doce. — Tô desempregada, esqueceu?

— Mas isso vai mudar! — Os lábios dela se curvaram para cima, revelando a fileira de dentes brancos perfeitos. — Hoje vai ser o seu dia de sorte!

Fiz uma careta.

— Você disse isso ontem de manhã. E eu acabei sendo demitida.

— Todo mundo se engana uma vez ou outra. — Ela esfregou a marca com pouco mais de cinco centímetros na ponta do queixo, resultado de sua primeira tentativa com os patins, quando tinha seis anos. — Mas é hoje, MJ! Eu sei que alguma coisa vai acontecer. A minha cicatriz tá coçando! Você sabe o que isso significa.

Ah. A cicatriz da Gayle. Segundo ela, a coceira era sinal de que algo importante estava prestes a acontecer. Para quem exatamente, ela nunca sabia. Jogava suas expectativas para cima de quem estivesse precisando de uma forcinha. Geralmente eu.

Minha irmã ergueu o pires, revelando um pedaço de papel rabiscado à mão.

— Adivinha o que eu tenho aqui. — Ela balançou o bilhete. Suas pulseiras tilintaram.

— Os próximos números que vão ser sorteados na Mega-Sena? Ou a cicatriz não te contou quais serão ainda?

Ela semicerrou os olhos.

— Prepare-se pra pedir desculpas para a minha cicatriz, porque eu tenho aqui uma coisa que vai mudar a sua vida pra sempre — profetizou. — Eu consegui uma entrevista pra você nesse mesmo jornal. Eles precisam de uma modelo para uma marca que eles vão lançar. Pagam muito bem. Você precisa estar lá hoje, às onze.

Com um movimento rápido, puxei o papel da mão dela e relanceei sua caligrafia redonda desenhada com caneta de glitter rosa. Havia um endereço, um telefone e o nome Clarim Diário.

— Como você conseguiu isso assim, tão depressa? — perguntei, mais embasbacada por sua velocidade do que pela entrevista em si.

— Depois do jantar com o Eugene. — Abanou a mão. — Achei que você estava deprimida demais. Acabei desabafando e ele lembrou que seu amigo trabalha lá. Falou que estavam precisando urgente de uma moça para ser modelo.

Eu quis rir. Modelo? Eu?

Só podia ser brincadeira, né?

— Gayle, você é um anjo, sério... Obrigada por tentar me ajudar, mas...

— Michelle, presta atenção! — Ela segurou minhas mãos unidas e me encarou com as pálpebras arregaladas, me passando tanta força que fiquei receosa. — Vai jogar fora essa grande oportunidade? O Clarim é um dos mais conceituados de Nova York.

— Mas modelo? — Ri de nervoso. — Olha para mim, Gayle...

— Hã! Tô olhando, e aí? Você é linda, MJ! Pelo amor de Deus, você é maravilhosa, uma das mulheres mais lindas que já vi, e ainda por cima tem o corpo de modelo. Você é alta, tem curvas e cumpre todos os quesitos pedidos. Sim, eu pesquisei.

Eu soltei uma risada nervosa outra vez. Ela pareceu muito a mamãe agora, quando há muito tempo insistiu nessa ideia louca. Sinceramente, aquilo estava fora de questão. Imagina só, me vestir com aquelas roupas extravagantes e bufantes, aparecer na capa de todos os jornais de Nova York... Aquilo era demais para mim. Além disso, eu não tinha experiência nessa área.

— Não. — Dei o ultimato.

Gayle bufou, apertando mais as minhas mãos.

— Você não disse que estamos precisando de dinheiro, Michelle? — Sua voz diminuiu umas oitavas para passar muita seriedade. Estremeci, trincando a mandíbula. — Quem lê jornal hoje em dia? Você não vai ficar conhecida por aparecer em meros papéis, ora essa... Pensa no salário, mana. No salário! Você vai ganhar muito bem e querendo ou não, vai ficar renomada e nunca mais vão humilhar você.

Ah, droga...

"Pensa no salário, mana."

Gemi com a boca fechada, sentindo meu corpo se inclinar a ideia. Dinheiro. Nós realmente precisávamos de dinheiro e naquele momento eu não podia escolher. É claro que pedir ajuda a um agiota, ou ir num prostíbulo era um absurdo total e fora de questão. Mas outra oportunidade... Cuidar das pessoas que eu mais amava nessa vida era meu principal objetivo. O restante não importava, não é? Nunca importou.

E não custa tentar, né? Como se eu fosse ser chamada...

Saquei o celular do bolso e conferi o horário. Já eram quase dez! O Clarim ficava do outro lado da cidade. Merda.

— Argh! — Eu me levantei, já pegando minhas coisas. Odiava quando minha irmã tinha razão. — Por que não me contou antes?

— Estava preparando mentalmente para te convencer! Imaginei que de primeira você ia ficar fazendo rabo doce — Acusou. — E acho melhor correr agora, senão você vai se atrasar. Ninguém consegue emprego chegando tarde na entrevista. Tenta não gaguejar. E, MJ, pelo amor de Deus, não encosta em nada!

Eu me curvei para abraçá-la, inspirando fundo. Adorava o cheirinho da minha irmã. De algodão-doce e tangerina.

— Não tenho certeza que vou conseguir, mas... Obrigada, Gayle! E desculpa, cicatriz da Gayle. Nunca mais vou duvidar. — Tratei de guardar o papelzinho precioso dentro da bolsa e a joguei no ombro.

— A cicatriz te perdoa. — Pegou seu café. — Agora vai lá e acaba com eles!

Parei, erguendo uma sobrancelha. Ela riu de novo, quase derramando a bebida na roupa.

— Tá legal. Essa frase não funciona pra você. — Deixou a xícara sobre o pires e lambeu os respingos de café no polegar. — Só vai lá e consegue essa vaga sem quebrar nada.

— Certo. Te vejo mais tarde.

Saí correndo em direção à cozinha. Mamãe estava diante da bancada, sovando a massa. Beijei o rosto dela.

— Oi, mãe. Tchau, mãe.

— MJ, espera um pouquinho, filha. — Ela se virou, produzindo uma pequena nuvem de farinha. — Aonde vai com tanta pressa?

— Tenho uma entrevista de emprego. A Gayle que conseguiu. Tô em cima da hora!

— A Gayle? — Suas sobrancelhas subiram tanto que quase se esconderam sob o lenço que prendia seus cabelos. — Ah, ela não me disse nada! Era por isso que a cicatriz dela estava coçando! Vai, querida! Se tem uma coisa que nunca falha é aquela cicatriz. — Ela me soprou um beijo.

Sorrindo, com um pouco de ânimo, deixei a pensão e fui atrás da minha grande — e não tão agradável — chance. Eu não tinha nada a perder.

Notas finais
Modelo? Sim, nossa MJ está indo fazer o teste de modelo, e não acho que ela vai ser recusada. É a Zendaya, né? Hahaha. Até daqui a pouco! ♡