Music In The Dark
1 Prólogo
Notas iniciais
(Editado em 13/10/2016)
A escuridão tomava o recinto. Puro breu – não era possível enxergar nada, nem um vulto, nem uma silhueta. Nada. Ouvia-se apenas aos ratos e à bagunça que se fazia do lado de fora. O chão de pedra, frio, enregelava-lhe as pernas desnudas. Os trapos que usava – certamente teriam, algum dia, sido um vestido – já não prestavam a aquecê-la havia muito tempo. A palha velha –se ainda havia — que cobria o pavimento servia de cama para os roedores e para ela.
Ela nada sabia de sua identidade – não tinha nome e não era capaz de imaginar, exatamente, qual seria a sua idade, restando-lhe apenas vagas estimativas, quase impossibilitadas pela dificuldade de se calcular a passagem do tempo naquele lugar tão escuro, tão frio, tão nada. Tudo o que sabia é que estava ali, presa por aquelas mesmas grades, dentro daquele mesmo recinto escuro, desde que podia se lembrar. Eram ciganos, viajantes, que ganhavam dinheiro graças ao horrendo espetáculo que haviam montado. A maior parte do lucro era ganho às custas dela – ou melhor, de seu rosto. Todos os dias, o dia todo, tudo sempre igual. O terror diário iniciava-se sempre com as mesmas palavras.
“Come, come, come inside. Come and see the Devil's Child.”
Filha do diabo. Esse fora o único nome que conhecera, sempre pronunciado em alto e bom som por Giuseppe, um velho italiano que trabalhava para os ciganos, na tentativa de atrair sempre mais pessoas para vê-la. No entanto, ela já não estava mais só naquela jaula. Agora, todos os socos, chutes e chicotadas dispensados pelos ciganos, todos os tomates e ovos podres que voavam da audiência para dentro das grades, eram divididos com outro alguém. Era um garoto, Lui, que permanecia imóvel, encolhido contra as grades da jaula em que se encontravam, a máscara quase caindo do rosto. Não fazia muito tempo que ele estava ali – um mês, talvez mais um pouco -, mas por compartilhar de tanta dor, de tanto sofrimento, os dois desenvolveram um vínculo muito forte. Ela sentia pena por Lui, pois sabia que ele costumava ter uma família que o amava e protegia de todo o mal. Devia ser horrível passar por todo aquele terror para alguém que, antes, conhecera o carinho e o conforto de uma família amorosa. Talvez fosse pior do que para ela, que só conhecera aquela vida dentro das grades.
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