Music In The Dark
34 Hospital
Notas iniciais
“–Está tudo bem, Anna. Não chore. – ele sussurrou, tentando tranquilizá-la com sua voz.
–Não está tudo bem, não, Erik. Eu vou ser mãe, mas quem é o pai? – sua amada murmurou contra seu peito.
–Não importa, Anna. Mesmo que o pai seja Lui, o que eu acho pouco provável, eu vou criar a criança como se fosse minha… Se for isso o que você quiser, é claro. – o homem acariciava os cabelos negros da menina com uma mão, enquanto a outra a mantinha pressionada contra si.
Anna quis protestar, dizer que não se sentia pronta para ser mãe, mas perante tal gesto de amor e humildade por parte de Erik, foi incapaz de dizer uma palavra sequer quanto a não querer ter uma criança. Em vez disso, ela apenas deixou um sorrisinho escapar, sem que ele visse, e disse:
–Você faria isso por mim? Jura?
–Mas é claro, Anna. Por você, eu faria qualquer coisa.”
Custou até Anna se deixar convencer por Erik e concordar em ser internada. Por fim, ela acabou aceitando o combinado: ela ficaria no hospital, se ele estivesse junto o tempo todo. Não queria ficar sozinha. Assim sendo, eles trataram de arrumar suas coisas, prontos para passar no hospital o tempo que fosse preciso. Até então, o casal tinha evitado o assunto “gravidez” com vêemencia. Por mais que Erik quisesse ter um filho com Anna, saber que ela não se sentia pronta para ser mãe fazia com que sentisse culpa. No fundo, percebia que sua amada era pouco mais que uma criança, ainda com muitos traços e trejeitos infantis, e sabia que, se a gravidez não desse certo, eles deviam esperar para tentar criar uma familia até que ambos estivessem preparados. Anna, por sua vez, sentia culpa por não querer a criança, percebendo que ser pai era o desejo de seu anjo. Prometera a si mesma que faria tudo o que estivesse a seu alcance para salvar o bebê. Afinal, Erik a salvara de suas trevas, ela devia fazer o mesmo por ele.
Por fim, os dois se acomodaram no quarto de hospital que lhes for a cedido. A decoração era inteiramente branca e o cheiro de remédios e doença fazia o estômago de Anna se contorcer. Em menos de um minuto, já tinha decidido que não gostava do lugar. Mesmo assim, não disse uma palavra sequer a Erik. Só havia uma cama no quarto, mas seu amado poderia dormir num divã espaçoso, encostado na parede ao lado, embaixo da janela – isso se a menina não o convencesse a dormir junto com ela na cama, como pretendia fazer.
Anna foi submetida a uma série de exames e os médicos responsáveis por ela concluíram que o melhor jeito de fazer ela retomar sua saúde e seu peso com mais eficácia e rapidez seria tomando soro na veia até conseguir se alimentar normalmente. O soro a alimentaria e faria com que retomasse seu peso original, mas ela só se curaria da anemia quando voltasse a comer, podendo ingerir todos os nutrientes de que precisava.
Erik percebeu que Anna estava assustada quanto a ter agulhas injetando o líquido para dentro de suas veias e contou aos médicos que ela conseguira comer normalmente mais cedo, numa tentativa de fazê-los repensar a decisão. Sem obter sucesso, se viu obrigado a assistir resignado ao procedimento de perfurar a pele para a injeção de soro, segurando a mão delicada de Anna entre as suas. A menina fechava os olhos, apertando-os com força, cada vez que sentia uma picada em seus braços. Até que a situação poderia ser considerada engraçada de certa forma, pensava ela. Não há muito tempo, ela estava conformada a ser ferida de formas extremamente violentas. Não era certo que sentisse dor com as agulhadas cuidadosas em sua pele, mas ao que tudo indicava, ela tinha já tinha se acostumado com a vida boa que o Teatro e Erik a ofereciam. Depois que os médicos se foram, deixando o casal a sós, Anna fez questão de puxar seu amado para a cama consigo, abraçando-o com cuidado para não soltar os tubos cheios de soro que estavam presos em seus braços. O Fantasma secou uma lágrima que caíra teimosa dos olhos da menina por causa das agulhadas e sorriu, gentil. Fez-se um silêncio confortável. A cabeça de Anna estava apoiada no peito de Erik, que a envolvia com seus braços fortes, cheio de preocupação. Envolvida no santuário daqueles braços, a menina rapidamente caiu num sono pacífico.
Anna ouvia diversas vozes murmurando perto de si. Ainda com um sono que lhe pesava os olhos, mantendo-os fechados, reconheceu as vozes como pertencendo a Madame Giry, Meg e Lui. A voz de Erik também ressonava no recinto, o peito dele vibrando contra a bochecha da menina enquanto falava. Por alguns momentos, a sonolência impediu que ela compreendesse as palavras. Então, ela juntou coragem para abrir os olhos, lentamente, tentando acostumá-los à claridade exagerada do quarto.
–Ela está acordando. – Meg foi a primeira a notar. Erik olhou para a menina, que repousava a cabeça em seu peito, com um sorriso nos lábios e acariciou-lhe os cabelos afetuosamente.
–Como está se sentindo? – perguntou.
–Para uma pessoa cheia de agulhas nos braços, até que estou bem. – ela respondeu, a voz rouca de sono, tirando risos de seus amigos.
–Lui, Antoinette e Meg vieram ver se você está bem. Eles estavam preocupados. –Erik explicou.
–E trouxemos flores. – Antoinette mostrou o vaso de rosas vermelhas que havia sido colocado na mesinha ao lado da cama, com um sorriso que, por alguma razão, não chegou a seus olhos. A mulher parecia um pouco distante mas a menina sorriu de volta, contente, mesmo assim.
–E chocolates. – Lui entregou-lhe uma caixa de bombons. –Achamos que, como precisa se recuperar, talvez se sinta mais motivada a comer se for algo gostoso, não comida de hospital.
Anna riu.
–Muito obrigada, meus amigos.
–Anna, temos que ir voltando para o Teatro, mas prometemos voltar amanhã para te visitar, está bem? – Mme. Giry disse, obviamente preocupada com seus afazeres de professora de balé.
–Está bem. Obrigada pela visita!
Mesmo doente e preocupada, como estava, Anna não pode deixar de sentir uma felicidade intensa naquele momento. Ela agora tinha Erik, que a amava e a quem amava com uma intensidade inimaginável e também tinha a seus três amigos, que a faziam sentir como parte de uma pequena família, coisa que nunca tivera. Sentia-se completa, pela primeira vez na vida.
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