Music In The Dark
5 Encontro
Notas iniciais
Anna e Lui estavam ansiosos por ver a ópera sobre a qual tanto se falava. Era possível perceber uma tensão no ar, como se algo terrível estivesse para acontecer. Todos pareciam muito nervosos, principalmente Christine, que mal comera o dia inteiro. Meg contou ao menino mascarado e sua amiga sobre o Anjo da Música. Lui não acreditou em nenhuma palavra que ela disse e Anna manteve-se calada, sem proferir qualquer de seus pensamentos sobre o assunto.
O grande momento chegara. Anna sentou-se com as Giry, perto do palco, extremamente incomodada de estar num ambiente com tantas pessoas, encolhendo-se em seu assento. Lui foi para o camarote da família De Chagny, convidado por Raoul. Christine participaria como protagonista, e o visconde parecia muito agitado. Sem entender o que se passava, Lui tentava acalmá-lo.
Finalmente, as luzes se apagaram, e a peça começou. Toda aquela música, aquelas cores se agitando no meio do palco, fascinava a Anna, acalmando-a um pouco. Ela nunca tinha visto algo tão grandioso! Acompanhou minuciosamente cada cena. Havia uma evidente tensão entre Aminta, personagem de Christine, e o Dom Juan.
No final da peça, no entanto, aconteceu algo que Anna tinha certeza que não estava previamente planejado. Christine tirou a máscara de Dom Juan – aquele era seu rosto de verdade? Não seria também maquiagem? Anna ficou muito curiosa -, arrancando gritos da plateia. A menina percebeu que a tensão não era entre os personagens, na história, mas entre os atores, na vida real. Parecendo furioso, Dom Juan – seria ele o Fantasma de quem Mme. Giry tinha falando, anteriormente? -´procurou algum meio de fugir dali. Com Christine bem presa em seus braços, cortou uma corda que segurava o enorme lustre de cristal que decorava o salão, causando uma grande distração e muito tumulto por parte dos espectadores, que fugiam desesperados. Quando olhou novamente para o tablado, Christine e seu Dom Juan já não estavam lá.
Raoul, que saíra correndo de seu camarote, juntando-se à Madame Giry perto do palco, saíram correndo à fim de procurar pela soprano. Meg, preocupada com Christine, sua melhor amiga, fez questão de segui-los, escondida, levando Anna consigo.
Antoinette guiara Raoul até um estranho labirinto de túneis e corredores, escondido de todos os outros habitantes da Ópera. Certamente, ninguém mais sabia sobre as passagens secretas que o escondia. Chegaram até uma espécie de caverna, com um lago subterrâneo. Logo Mme. Giry omitiu sua presença, retirando-se num canto, observando enquanto Raoul aproximava-se do portão de ferro. As meninas estavam logo atrás, escondidas e silenciosas atrás de uma pedra. Atrás do portão estavam Christine e seu Dom Juan, gritando um com o outro, mas logo a atenção do homem se voltou para Raoul. Ele puxou uma alavanca que abriu o portão, e antes que Raoul pudesse piscar, estava amarrado. Madame Giry estava apenas a alguns passos de Meg e Anna, mas era distância o suficiente para não poder ouvi-las, embora fosse difícil, para Meg, reprimir suas exclamações de horror e medo diante da situação.
—É o Fantasma. — Meg sussurrou, cobrindo a boca com a mão para abafar o ruído.
As duas garotas preferiram desviar a atenção do que se passava entre o triângulo amoroso. Raoul estava praticamente sendo sufocado até a morte, e a cena não era agradável aos olhos. Madame Giry não parecia surpresa – se ela sabia como o Fantasma era perigoso, porque tinha guiado Raoul até lá? Meg desejou jamais ter seguido sua mãe até ali. Não podiam tomar o caminho de volta sem serem vistas, o barulho de seus passos na água desviariam muita atenção.
Já se passara algum tempo e a gritaria ainda não cessara. Christine parecia desolada, o Fantasma, irado, enquanto Raoul lutava por sua vida, o pescoço cada vez mais apertado. Surpreendentemente, Christine estava se aproximando de seu Dom Juan. Aproximou-se incessantemente, até que seu rosto estivesse a centímetros do rosto desmascarado do Fantasma. Eles se beijaram! Anna não entendeu: Christine decidira ficar com o tal Fantasma, ou achava que aquele beijo poderia salvá-la, de algum modo? Parecia improvável. Mas então o homem mascarado começou a gritar e mandar que fossem embora, furioso e resignado. Christine soltou Raoul, e foi embora com ele, pelo portão agora aberto.
Anna não entendia.
Sem saber o que fazer, as meninas ficaram paradas ainda por bastante tempo em seu esconderijo. Uma multidão começou a aparecer – policiais, moradores e visitantes da Ópera. Todos queriam para si a cabeça do Fantasma. Naquela imensidão de pessoas, as meninas perderam Mme. Giry de vista.
—Vamos embora? — Anna sussurrou, em uma súplica assustada.
Meg estava relutante. Não queria estar ali, mas tinha, por algum motivo, um certo apego à figura do Fantasma. Não queria deixá-lo ali, em seu estado de tristeza.
—Não podemos. Minha mãe o conhece, precisamos tentar ajudá-lo.
Anna levantou as sobrancelhas, sem entender como ou porque deveriam ajuda-lo, mas não protestou. Elas esperaram ali até que tudo estivesse vazio novamente. Ambas agora tinham atravessado o portão, saindo da água do lago, e se sentado no chão frio de pedra, ignorando a mobília luxuosa. O Fantasma não deu as caras.
—Há quanto tempo estamos aqui? – Anna perguntou, exasperada por estar ali quando poderia estar segura com Mme. Giry e Lui.
Meg moveu os ombros, sinalizando não saber.
—Meg, se o Fantasma quisesse nossa ajuda, ele teria aparecido. Ele provavelmente esteve aqui este tempo todo e só não quis se mostrar. Devíamos ir embora.
Um breve silêncio se fez, até ambas ouvirem a Voz:
—Garota esperta. – disse, simplesmente, em seu timbre poderoso.
A Voz parecia estar vindo das paredes. As duas meninas sobressaltarem-se, assustadas.
— Será que as senhoritas não poderiam ir embora? — irritou-se.
—Mas... — Meg tentou protestar, mas foi interrompida pela Voz de trovão.
—AGORA!
Silêncio. Meg não se mexeu, paralisada pelo susto que levara. Anna levantara-se, pronta para sair. Estava irritada também. Não gostava da sensação de estar correndo perigo, e era exatamente assim que os gritos do Fantasma faziam-na sentir. O Fantasma da Ópera do qual todos falavam e temiam era só um homem, como qualquer outro. Mesmo assim, Anna assustava-se com todo o poder que parecia emanar dele. Ao mesmo tempo, porém, não podia negar que tinha uma certa curiosidade por aquele homem que parecia ter passado por coisas tão semelhantes aos horrores que ela vivera. Perguntava-se se ele era mesmo mal, como faziam-no parecer, ou se apenas era mal compreendido. Madame Giry falara dele com tanta admiração...
—Meg, vamos. – Anna chamou. Não queria incomodar ainda mais aquele homem que devia estar tão devastado. O dia havia sido difícil para todos.
A pequena Giry fez uma careta, acordando do transe em que estivera até então.
—Meg! — Anna gritou, acompanhada pela Voz.
A loira assustou-se, levantou e, no compasso de uma piscada de olhos, já havia zarpado correndo dali, deixando para trás Anna, que não a seguiu, sabendo não ser rápida nem resistente o suficiente para ir atrás de Meg naquele ritmo.
—Eu me referia a você também quando disse para irem embora. — a Voz parecia mais calma.
A respiração de Anna estava descompassada, mas ela não estava mais com medo. Lembrou-se dos olhos admirados de Madame Giry ao falar do amigo, e da expressão afetuosa, embora angustiada, de Christine, momentos antes de beijá-lo. Ele não deveria ser um homem mal, ela tinha certeza. Anna ouviu passos e então viu o Fantasma adentrar o cômodo, o que a surpreendeu. Por que ele mostraria-se para ela, e não para Meg, filha de sua melhor amiga? Ele estava com a máscara de novo, e Anna deteve-se ao perceber que olhava-o minuciosamente, atenta a cada detalhe de seu rosto, agora mascarado. Achava-o uma figura muito imponente e, sobretudo, não o achava feio de modo algum. Ele a encarava como um caçador encara a presa, seus olhos ameaçando-a em vão, pois Anna já decidira que não temeria alguém tão parecido com ela – até que lhe fossem dados motivos para fazê-lo.
—Não tenho medo de você. — a garota disse, encarando-o de volta, os olhos grandes brilhando em honestidade.
—Não? Mas devia. Posso acabar com a sua vida mais rápido do que você pode piscar.
Anna deixou um meio sorriso escapar. Ele não conseguiria assustá-la tão fácil. A cada respiração que ele dava, Anna ficava mais curiosa sobre aquele ser que era Fantasma, Anjo e homem.
—Eu não duvido disso. – falou, calma, porque entendera o que ele tentava fazer — estava tentando afastá-la. Aquela era sua verdadeira máscara: uma falsa persona.
Ele riu de volta, sarcástico. Então seu rosto ficou sério, as linhas de cansaço evidentes.
—Você não pode, por favor, ir embora?
—Eu não sei como. – a morena disse baixinho, depois de um momento de hesitação.
—Como veio parar aqui, então?
—Meg fez questão que eu viesse com ela. Seguimos Madame Giry.
O Fantasma fechou os olhos, respirando fundo. Estava exausto, física e mentalmente, mas não podia deixar aquela menina voltar sozinha sem conhecer devidamente os corredores de seu labirinto. Havia muitas armadilhas no meio do caminho, e não existiam motivos para que ela deixasse-a se machucar ou morrer tentando voltar para a superfície. Assim, agarrou a mão da garota bruscamente, ao que ela se assustou, e fez seu caminho de volta pelos túneis, deixando Anna em um dos corredores da Ópera e desaparecendo de vista. Não olho para Anna uma única vez durante todo o trajeto. Ela estremeceu, olhando para o pulso que ficara machucado pelo aperto violento do Fantasma. Hematomas começavam a se formar na pele muito branca da garota. Ela suspirou. Por mais que não devesse temer o Fantasma, chegou à conclusão de que, também, não se afeiçoava muito por ele. Talvez fosse melhor manter distância. Ela não queria se machucar.
Anna olhou em volta, verificando que nenhum estrago tinha sido feito na estrutura do Teatro em decorrência do lustre quebrado. Imaginava que no salão principal seriam necessários alguns consertos, mas nos arredores, estava tudo em sua forma usual. Então, a menina voltou para o quarto de Antoinette, um dos poucos lugares que conhecia na Ópera inteira. A velha Madame Giry não pareceu preocupada. Provavelmente ouvira de Meg o que se passara.
Com um suspiro, Anna foi deitar na cama que Giry lhe cedera, mas não pode tirar o encontro estranho de seus sonhos.
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