Music In The Dark
26 Confissão
Notas iniciais
“ -Erik, vá embora. Eu quero ficar sozinha. – Anna falou, tentando controlar sua raiva.
–Não, Anna, me escuta – o lado violento de Erik começava a aparecer, o lado que ele deixava aparecer quando se sentia ameaçado ou machucado. Ele agarrou o braço da menina com força–Foi um erro, eu sei, eu admito. Mas eu estava carente! É assim que eu fico quando não posso te ver, absolutamente carente, largado. Homens tem suas necessidades... Eu fui fraco, mas isso não diminui os meus sentimentos por você.
–Sim, Erik, isso diminui seus sentimentos por mim. – a menina disse, e aproximou seu rosto da face mascarada do homem a sua frente. –Vamos só lembrar- ela falava baixinho em seu ouvido – que enquanto você transava com Christine, eu estava bem aqui, nesse quarto mesmo, lamentando por não poder te ver e sendo praticamente estuprada pelo meu melhor amigo. E lembre-se também que você estava carente por que ela queria que fosse assim. Ela quis te manter afastado de mim. Esse deve ter sido o plano dela o tempo inteiro, te manter tão solitário que você teria que ficar com ela. E você caiu nesse plano como uma criancinha. Sinceramente, Erik, eu esperava mais de você. Nunca imaginei que você fosse capaz de ceder à sua carcereira. – Anna não se sentia maldosa daquele jeito desde que cometera o assassinato no circo, mas admitia que não se arrependia de agir daquele modo. Ele merecia. Ela aumentou o tom da voz, se afastando dele. – Eu tenho nojo de você, Erik. De verdade. Eu nunca mais quero te ver na minha frente. Larga o meu braço e vai embora.
Surpreso e tremendamente aflito perante a ideia de causar repulsa à única pessoa que tinha significância em sua vida, o Fantasma deu meia-volta e foi embora, deixando as lágrimas jorrarem livremente.”
Anna tinha sido dura com Erik, mas não era feita de ferro. A briga havia mexido muito com suas emoções, que agora estavam completamente embaralhadas. Na manhã seguinte à briga, ela ouviu duas batidinhas em sua porta e seu coração se apertou ao ver a mala que havia preparado, com quase todos os seus pertences, para fugir com ele – dali em diante, a menina começou a se arrastar cada vez mais para o fundo do poço.
Muitas semanas se passaram num borrão de lágrimas. Anna mal deixava seu quarto, não comia e não falava com ninguém. Ela se sentia péssima – seu rosto estava sempre banhado por lágrimas frescas, os olhos ardiam e ela ficava até enjoada de tanto chorar, o vômito arranhando as paredes da garganta. Lui batia freneticamente a sua porta todos os dias, mas ela nunca o deixava entrar. Mentia que estava tremendamente doente e não queria que sua doença o contagiasse. Lui tinha lá suas dúvidas, mas só cerca de dois meses depois que resolveu ir buscar auxílio na sabedoria de Madame Giry.
Procurou a exímia professora de dança, chamando-a assim que pôs os olhos nela, o vestido escuro contrastando com as paredes cor de creme dos corredores.
–Madame Giry, eu preciso de ajuda.
–O que aconteceu, meu garoto? – Antoinette perguntou, procurando entender as emoções que contorciam o rosto de Lui (ou a parte do rosto que não estava escondida pela máscara).
–É Anna. Eu não entendo o que se passa com ela. Há semanas que ela não sai do quarto, diz que está doente, que não quer me contagiar... Mas eu não tenho tanta certeza de que ela está enferma, Madame. Se ela realmente estivesse adoecida, não iria querer ajuda, em vez de isolamento?
–Sim, é verdade. Eu também estou preocupada com Anna. Se ela estiver doente, então tem que nos deixar ajudar, o médico do teatro está a disposição todos os dias da semana, seria uma grande irresponsabilidade não usarmos seus serviços para curar nossa menina. – Mme. Giry pensava em voz alta.
–Mas, Madame – o jovem interrompeu -, e se ela não estiver realmente doente? E se houver alguma outra coisa atormentando-a?
–Por que ela mentiria, Lui? Você sabe de alguma coisa que possa estar aborrecendo a mente de nossa Anna?
Ele hesitou. Abriu a boca para falar, tentou murmurar, sussurrar, balbuciar... Nada. Respirou fundo – sabia que tinha que admitir seu erro de uma vez por todas, não queria ser a causa do tormento de sua amada
–Bem, Madame Giry – gaguejou algumas vezes, mas as palavras saíram de seus lábios de forma compreensível -, eu cometi um erro. Saí com os irmãos de Chagny uma noite qualquer, e bebi um pouco mais do que deveria... Bem mais do que deveria, na verdade. Quando voltei para o Ópera Populaire, bati à porta de Anna, e ela estava tão linda; a camisola deixava tanto de sua pele macia à mostra... Eu fui fraco, Madame. Eu não me contive, e sinto que posso ter magoado minha amada com essa falta de autocontrole. – embora difícil, a confissão mostrara-se capaz de aliviar um pouco a consciência pesada do rapaz.
Antoinette já tinha testemunhado algumas situações parecidas ao longo de sua vida, mas não sabia como agir. Os olhos castanhos de Lui olhavam, aflitos, para dentro de sua alma, e ela não conseguia raciocinar muito bem com toda aquela pressão.
–Entendo, meu rapaz. – sussurrou, após um prolongado momento de silêncio. –Vamos ver Anna.
E sem mais palavra alguma, tomou do braço do menino e o arrastou junto a ela pelos corredores que levariam ao quarto de Anna.
–Anna! – ela bateu na porta –Me deixe entrar. – Madame Giry bateu incessantemente, por vários minutos seguidos, até que a menina finalmente abriu a porta.
Tanto Lui quanto Madame Giry fizeram silêncio perante a imagem que se mostrava diante deles. Anna estava esquálida – pele e osso apenas, pálida, círculos negros se formando embaixo dos olhos vermelhos.
–Anna! – Lui exclamou, abraçando a menina com preocupação. Ele podia sentir os ossos do quadril dela batendo em suas coxas, seus braços certamente dar mais de duas voltas em sua cintura.
–Por Deus, Anna, quando foi a última vez que você comeu? – Mme. Giry questionou. Não houve resposta. Anna não pronunciou nenhuma palavra. Ela só queria que Lui a soltasse logo, para que ela pudesse voltar à paz de ficar sozinha. -Anna? – ela os encarava, olhos agitados, mas de seus lábios não saia som algum.
Anna tinha chorado tanto nos últimos dias que sua garganta ardia intensamente, tal como seus olhos. E tinha estado tão sozinha, pensara tanto... Não queria dizer coisa alguma, pois agora sabia que pouco importava o que ela sentia, o que ela achava. Tanto fazia.
Madame Giry e Lui trocaram um olhar desesperado perante o silêncio obstinado de Anna.
Fale com o autor