Music In My Heart
2 Capitulo 2 – And You Are…?
Notas iniciais
Dizer que a minha primeira impressão de Nova Iorque foi má, é um mal intendido. Agora, se disser que foi extremamente horrível e decadente, já estamos a chegar lá.
Embora atribuísse essa culpa, em parte, à cansativa viagem de mais de 6 horas e à hora e meia em que estive no aeroporto à espera da bagagem, e, a outra parte, ao facto de nenhum táxi nos apanhar, estava de tal forma exausta, que saltar para a frente de um dos vários carros amarelos, parecia uma opção razoável.
Foi quando Annabeth assobiou. Isso mesmo — assobiou. Um puto de um grande assobio que quase me furou os tímpanos e que fez um táxi, aquele que tentava tão desesperadamente chamar, encostar.
– O que raios foi isso? – perguntei, chocada, sentidos os olhos arregalarem – Quem diabos és tu?
Annie revirou os olhos cinza aço nas órbitras, mas continuou sorrindo, enquanto ajudava o taxista a colocar as malas na bagageira do carro. Era a primeira vez dela em Nova Iorque, e, mesmo que não o demostrasse, eu sabia o quão excitada estava. Eu sentia o mesmo.
A última vez que cá estivera, tinha nove anos. Não era como se me lembrasse de muito, principalmente porque a maior parte do tempo fui confinada a um espaço de quatro paredes no escritório do meu pai.
Na verdade, era a ele que estávamos a vir visitar, mas não eramos próximos ou algo assim. Víamo-nos cerca de duas ou três vezes por ano, por pouco mais que uma hora. Eu consegui-lhe ouvir a admiração na voz, quando pedi o seu apartamento em Manhattan para ficarmos estas férias. Papai avisou-me logo que nas primeiras duas semanas estaria para fora em trabalho, mas não me importei realmente. Antes pelo contrário.
– Não sejas dramática, Thals – pediu-me finalmente Annabeth, enquanto empurrava-me para dentro do carro.
O taxista deveria estar na casa dos 40. Usava um boné dos New York Yankees, as sobrancelhas eram pretas, cheias e reviradas, e sustentava um brilho desconfiado nos olhos castanhos, que me irritou profundamente.
Durante toda a viagem, olhou-nos pelo espelho, como para confirmar que não fossemos nos atirar do carro em andamento e deixar as nossas bagagens com ele.
– Qual é o seu problema? – perguntei irritada, sentindo todo o meu corpo tremer.
Ele permaneceu calado, continuando a olhar-me pelo espelho ocasionalmente. Franzi o cenho zangada, enquanto me recostava no assento, e cruzei os braços à frente do peito.
Annabeth lançou-me um olhar reprovador. Ao meu lado, ela era uma princesa, com os cachos doirados, as roupas alegres e as boas maneiras. Ela era uma menina encantadora.
Eu era rancorosa. E estou a tentar não ser, juro que sim… Só que… Olhá-la era um lembrete constante de tudo o que não era. Eu sabia agora, que todos sempre a escolheriam em vez de mim. Luke fê-lo. E certamente, ele não seria o único.
Aquele beijo que partilharam, mesmo que não tenha sido correspondido por ela, continuava gravado a fogo na minha memória, ardendo no meu peito e me fazendo curvar diante de si. O amor não tem misericórdia.
Desviei o olhar do seu. Não ia pensar nisso. Não aqui, não agora. Ela era a minha melhor amiga, e tudo o que alguma vez sentira por esse rapaz estava a dissipar-se.
– Wow – gemeu Annabeth, com os olhos arregalados em admiração.
– O quê? – indaguei, distraída. Ela apontou com a cabeça para o edifício alto, que se erguia mesmo em nossa frente e percebi o que ela queria dizer.
– Wow — concordei. Este era totalmente feito de vidro, e subia cerca de 30 pisos em direção ao céu, tendo direito a um porteiro. O meu primeiro pensamento, foi que havíamo-nos enganado na morada, mas eu sabia que não. O meu pai tinha muito dinheiro.
O taxista pigarreou.
– São cinquenta dólares – informou
Olhei para lá do vidro por mais alguns instantes
– Tem a certeza que é esta a morada?
– Absoluta – confirmou
Acenei lentamente com a cabeça, dei-lhe o dinheiro que lhe devia e mais alguma gorjeta.
Andamos em silêncio até ao elevador e, consequentemente, o apartamento, não querendo estragar o momento. Quando entrámos estacámos imediatamente na entrada.
Eu poderia dizer que o apartamento era lindo, o que até era verdade, já que tudo combinava perfeitamente e parecia ter sido estudado ao pormenor. Do teto caia um enorme lustre, daquele género que é esperado ver em palácios, de um tom rosa pálido, e os dois sofás que se encontravam de frente um para o outro, eram de um branco imaculado, assim como a sala de jantar. Os detalhes em preto, como as portas, candeeiros e cabeceiras completavam o ambiente, mas o que realmente me cativou foi a paisagem.
Através das vidraças que emolduravam pelo menos 3 das 4 paredes, poderíamos ver toda Manhattan, como uma espécie de panorama.
Depois de uns 10 segundos, Annabeth começou a correr. E eu, sendo a criança que sou, comecei a correr atrás dela. O resultado foi um salto partido, a minha pessoa estirada no chão, e Annabeth a rir loucamente, antes de se atirar para cima de mim e começar a fazer cosquinhas.
Quando não podia mais respirar, deixou-me sozinha para a minha morte e foi procurar um quarto que gostasse. No final, acabámos por decidir partilhar um, e desempacotámos as nossas coisas.
– Tenho fome – comentei, me deixando cair numa das duas camas do quarto. – E esta cama é minha. – Adicionei, me levantado ligeiramente para ver a cara de Annie.
A rapariga sorriu, revirando os olhos:
– Não ia mesmo dormir nela, agora que está contaminada com os teus germes Thalia – disse
– Não fale assim comigo Annie, feres os meus sentimentos – falei, pondo uma mão sobre o peito, para sinalizar que estava doendo.
– Oh, lamento querida, sabes que tudo o que te digo é porque não consigo controlar o ciúme – explicou, me mandando um beijo pelo ar.
– Eu te perdoo, meu amor. — assegurei-lhe, e então caímos na gargalhada, até o meu estômago roncar em protesto e fiz beicinho para Annie.
– Por favor, por favor, podemos ir comer? – pedi-lhe, piscando os olhos exageradamente.
Ela suspirou
– Certo, vou só buscar uma mala – depois olhou-me – e tu, arranjar um novo par de sapatos.
Levantei as mãos em rendição, e rapidamente enfiei um par de All Star completamente negras nos pés.
No balcão da cozinha, estava a chave de um carro, exatamente como o meu pai disse que estaria. E mesmo que agora soubesse que Annabeth sabia, ouçam bem, assobiar, e chamar um táxi sempre que precisássemos, sentia-me bem melhor com um carro só nosso.
Uma vez que ela tinha um fascínio por carros que, por mais que tentasse, nunca saberia explicar, deixei-a conduzir. Isso, e porque tínhamos o GPS a indicar o caminho.
Acabámos por dar em uma avenida cheia de lojas e restaurantes de ambos os lados. Ao fundo consegui distinguir uma pizaria e um Starbucks, mas não era como se fosse jantar café e algum bolo, e certamente não seria piza. Eu odiava piza. Era gordurenta e… Eu não gostava simplesmente.
Por isso, entrámos num restaurante de ar rústico e acolhedor. A luz do final da tarde atravessava as janelas de forma preguiçosa, e eu senti-me atraída pelo ambiente. Como se não fosse uma turista, e estivesse em casa. Muito agradável.
Fomos rapidamente atendidas, e escolhi algumas das coisas do cardápio. Era certamente, mais do que conseguiria comer, mas pedi na mesma. A minha única refeição do dia havia sido os minúsculos lanches do avião.
Enquanto estávamos à espera da comida e Annabeth jogava no meu celular, e tinha a certeza que ela tinha exatamente o mesmo jogo no seu, este tocou. Uma música de um extremo bom gosto, devo acrescentar.
– Sua mãe – informou-me, me passando o telemóvel, e sorriu – Já atendi.
Revirei os olhos e coloquei-o ao ouvido.
– Mãe? – chamei – Sim? Mãe?
O outro lado permaneceu mudo. A chamada havia caído.
– Vou lá fora ver se apanho rede. Volto já.
Ela assentiu com a cabeça, um brilho de humor nos olhos.
Eu sabia que ela já tinha falado com Atena e Frederick, seus pais. Eles eram realmente protetores com o seu único rebento feminino, embora ela tenha mais dois pirralhos como irmãos. Eu desconfiava que eles tivessem uma paixoneta por mim.
Continuei andando e olhando para as risquinhas da rede. Foi mais ou menos por esta altura que o caos se instalou.
Algo grande e duro trombou contra mim, e de repente estava coberta de coberta de Frappuccino. O cheiro forte deu-me náuseas e senti o líquido entranhar-se na minha blusa e molhar a minha pele. Senti um rubor instantâneo nas faces e sabia que os meus olhos estavam a queimar:
– Quem porra és tu?
Fale com o autor