Muse

24 XXIV - Palavras, para quê?


Notas iniciais
Surpresinha no fim. Boa leitura!

Muse

“Se eles pudessem de outro modo, também quereriam de outro modo. Os meios termos estragam tudo que é inteiro.”

Assim Falou Zaratustra (Nietzsche)

Capítulo XXIV:

Palavras, para quê?

Turno: Sakura Haruno

Poucos instantes da brusca freada do moreno, puxo o pino da trava e saio para a rua. Ainda ouço o pessoal chamar pelo nome atrás, mas não dou bola. Como de costume, as portas automáticas do hospital se abrem para mim, e a primeira pessoa que vejo é a que eu desejava. Gaara estava sentado na sala de espera relativamente cheia. Parecia me esperar, o que era de fato estranho. Aceno para o mesmo e ele dá um sobressalto da cadeira, com seu conjunto de moletom cinza manchado.

– Estava me esperando?- Lhe perguntei, após chegar até mim, coçando os cabelos rubros “labarentos”.

– Você sabe que eu sei tudo.- Piscou convencido, com um raso sorriso.- Estão indo para Nova Hampshire, Nashua. Mas ainda não entendo o motivo, Sakura...- Deixou meu nome soar rouco.

– Estou em busca do fim da BUNKER.- Respondi sua dúvida, enquanto caminhávamos em direção ao carro.

– Me amedronta não saber ao certo o seu objetivo.- O ouvi murmurar, olhando despercebidamente para o chão. Me conte, me conte, me conte... O que você esconde sobre a minha pessoa?, pensei frenética, mordiscando os lábios e olhando para o mesmo pelo canto dos olhos.

Próximo ao carro, encontro Sasuke fumando um cigarro, hábito que pensei ter vencido. Percebendo a minha presença e a de Gaara logo ali, joga a pequena e murcha bituca no chão, pisando em cima da mesma depois. Contornou o carro e perguntou, com ar de poder:

– Quem é ele, Sakura?

– Um amigo.- Demorei a responder, o quê , inconscientemente, pode ter dado a impressão de mentira.

– E por que ele tem que vir conosco?

– Por que ele não tem para onde ir. E pode nos ajudar a encontrar Itachi.

– Ah, sim, claro. Mas como ele conhece meu irmão?- Novamente com esse sarcasmo..., pensei, voltando a ficar revoltada com a atitude dele.

– Eu sei usar 100% do meu cérebro.- Respondeu Gaara por mim.

– Prove.- Desafiou o moreno, cruzando os braços e recostando-se no carro.

– Voltar á vida, te deu uma habilidade. Uma habilidade muito curiosa de conseguir ver pessoas que já morreram.- Gaara estreitou os olhos, o sorriso murchou de seu rosto.

– Você não contou isso para mim.- Passei a língua pelos lábios, deixando-os levemente abertos. Estava desacreditada.

– Me desculpe Sakura, eu ia te contar...- O moreno tomou a iniciativa de ir até mim, me consolar, mas não deixei que o fizesse e entrei no carro junto de Gaara. Pela janela, vi Sasuke chutar uma pedra para bem longe, mandando embora seu descontentamento. Me ajeitei no banco do motorista, e vi Naruto e Konohamaru dormindo no banco de trás. Olhei por trás do ombro dos mesmo, e enxerguei Gaara. Assenti com a cabeça, como num “Tudo bem, agora” e ele repetiu o gesto.

Seguimos viagem, e inúmeras vezes percebi Sasuke olhar, ora para o ruivo e ora para mim, pelo retrovisor do carro. Na maioria, desviava o olhar, mesmo estando ao seu lado, no banco do passageiro. De Sanford até Nashua, deveria dar umas duas horas de viagem, eu só esperava não olhar por muito tempo na cara do Sasuke.

– Bom dia...- Ouvi um resmungo dos bancos de trás, e me viro para ver Naruto com aquela cara de sono. Solto alguns risadinhas bobas.- Já chegamos?- Ele perguntou, ainda atônito da situação.

– Ainda nem saímos de Sanford.- Anunciou Gaara ,no banco reserva do porta-malas. O loiro, surpreso por haver uma nova pessoa ali no carro, soltou um grito de susto, o que novamente me fez cair na gargalhada.

– Que bicha, Naruto.- Xingou Sasuke, tentando conter uma risada entre dentes.

– Quem é essa pessoa, Sakura?!

– É o Gaara. Ele é meio quieto, mas é uma pessoa legal e irá nos ajudar a encontrar o Itachi.

– Hm, hm.- Naruto se recostou a porta do carro, se abaixando no banco e fitando Gaara com uma expressão suspeita.

– Gaara, quanto tempo de Sanford a Nashua?- Voltei minha atenção no ruivo, que olhava interessado para fora do carro.

– Creio que umas seis horas e meia...- Fiquei boquiaberta.

– Como assim? Eu jurava que não passaria de três horas de viagem!

– Seria três horas, senão fosse pelo congestionamento que começara alguns metros depois de termos ultrapassado a fronteira, em Rochester.- Novamente, vi a expressão de surpresa de Sasuke e logo depois, a de Naruto, mas que parecia mais confuso do que surpreso.

– Dá para escapar por outro caminho?- Os ônix do moreno reluziram no retrovisor, olhando diretamente para Gaara.

– Não, terão de pegar o trânsito.- Sasuke soltou um rosnado baixo, apertando o volante do carro e se concentrando na estrada.

O Uchiha não foi o único que ficou revoltado com tal notícia. Cruzei os braços, bufando infinitamente.

Já era pouco para as 20hrs, quando Naruto e Konohamaru começam a reclamar de fome. Realmente, dava para ouvir os estômagos dos pobres coitados, do banco da frente. Peço então, fingindo gentileza, para que Sasuke pare no próximo restaurante de estrada que aparecer. E acabou demorando meia hora para um enfim, aparecer. As estrelas eram menos tímidas em áreas mais abertas como a estrada em que estávamos, então ao sair do carro, deparo-me com uma imensa constelação iluminando aquele céu. Percebi Sasuke pelo canto dos olhos, olhando igualmente admirado para o céu, mas não queria ficar por muito mais tempo ali, então segui para dentro.

Por fora, o restaurante parecia uma pequena instalação de concreto, com duas paredes de tijolos ao lado da porta principal e um telhado de casa de campo. Ele era bem comprido, ocupando parte daquela área inteiro. Havia um casal saindo do estabelecimento com dois copinhos de sorvete, quando eu e Sasuke adentramos, após Naruto e Konohamaru que devoraram tudo que vinha pela frente.

Já dentro do restaurante, o espaço não era tão grande, e havia um balcão cheio de salgados e doces. As mesas ficavam nas laterais, todas encostadas na parede, menos quando chegava-se no fim da instalação, onde havia não mais que oito mesas espalhadas. Pegamos a mesa ao lado do caixa; depois seguimos pelo balcão, e eu apenas pedi um pão doce com café, pois não estava com tanta fome assim. Naruto e Konohamaru pediram uma boa porção de pastel, Sasuke escolheu uma garrafinha de água na geladeira de vidro próxima ás mesas espalhadas, e Gaara preferiu não comer nada.

Após sentarmos nas cadeiras, o silêncio permaneceu até que a comida começava a acabar.

– Aonde estamos agora?- Indagou Naruto, juntando as migalhas folhadas que sobraram do pote dos pastelzinhos.

– Lebanon.- Sasuke e Gaara responderam em uníssono, o que fez Naruto levar as sobrancelhas ás alturas. O moreno rosnou baixinho, virando a cara e raspando um buraco cheio de farpa na mesa.

– Ainda...?- Murmurei num suspiro.

Quando saímos, deveria haver umas três ou quatro pessoas no restaurante. O ar lá fora estava mais frio, e a lua tímida, escondia-se atrás de uma nuvem fina. Os grilos cantavam por trás das cercas, as cigarras entravam no coro e nós voltávamos para o agoniante silencio do KIA Soul de Sasuke Uchiha.

Estávamos atravessando a fronteira, quando percebe a frente os carros começando a se acumular. A estrada era estreita, e tinha carro por todos os lados. O som das buzinas, e de uma construção próxima a estrada começavam a me dar dor de cabeça. Fecho o meu vidro, e Sasuke faz o mesmo, ligando após, o ar-condicionado. Iríamos ficar parados ali por um bom tempo. Naruto e Konohamaru dormiam, para variar, e por incrível que pareça, Gaara também tirava uma soneca no banco do porta-malas. Fantástico, reclamei pelo silêncio. Abaixo para procurar meu fone de ouvido na bolsa, porém, lembro-me que deixara jogado no meio das cobertas de casa. Só faltava essa, reclamo novamente. Sasuke tinha a mão fixa no câmbio, e parecia atento a estrada, tentando ver até onde aquele infernal congestionamento ia.

– Acho que teremos que parar para dormir. Com esse trânsito, iremos demorar mais que cinco horas...- Seus olhos ainda estavam fixos na estrada, enquanto proferia a frase.

– Faz o que acha melhor.- Disse, naturalmente. Tudo que eu menos queria agora, era brigar, pois parecia que tinha um samba na minha cabeça, de tanto que pulsava.

Com o trânsito andando lentamente, apenas conseguimos sair de Rochester ás 23hrs. Depois o congestionamento começou a andar normalmente, e a pista em que estávamos começou a esvaziar. Acabei não pregando os olhos, até eu ver a placa de Northwood. Era uma cidadezinha com casas antigas. Havia verde para todo o lado e creio não existir nenhum prédio com mais de cinco andares nela. Foi então que Sasuke falou que iria parar em um hotel que havia logo a frente. Virei para trás, e cutuquei o joelho de Naruto, murmurando um: “Vamos parar”. O vejo me mandando um sinal de positivo, e sacudindo a cabeleira de Konohamaru, que acordou com os olhos apertados. Gaara estava acordando aos poucos, em logos bocejos e espreguiçadas.

O hotel era simples, tinha apenas dois andares, e deveria haver pelo menos oito quartos em cada andar. Sasuke foi para a pequena recepção do hotel, iniciando uma conversa rápida com a dona da instalação. Enquanto isso, permaneci sentada no nada confortável sofá daquela recepção, ao lado de Gaara. Naruto e Konohamaru se divertiam com uma daquelas máquinas de bola de chiclete.

– Você vai dormir com o Sasuke hoje.- Falou o ruivo, após uma fungada.

– O que?- Franzi o cenho, passando as mãos pelos meus jeans. Volvi meu olhar á Sasuke, e o mesmo vinha na nossa direção com duas chaves.

– Seu quarto, do Naruto, e do moleque, é ao lado do nosso.- Informou Sasuke á Gaara, entregando a chave do quarto. Eu, atônita, levantei-me do sofá e ergui a voz.

– Mas eu não quero dormir com você.

– Quer sim.- Gaara falou novamente, com sua fungada natural.

– Pare de ler meus pensamentos!- Dei um empurrão no mesmo, o que fez ele soltar uma risada abafada.

No fim, meu sono estava tão grande que acabei aceitando a ideia de dormir no mesmo quarto que o Sasuke. Por sorte, a cama não era de casal, e sim de solteiro. Joguei minha mala num canto, junto com meu casaco, e deixei meu corpo fundir-se com a cama. E no momento precioso em que consegui fechar os olhos, após um suspiro exaustivo, Sasuke corta o silêncio precioso:

– A gente precisa falar sobre ontem.

– Sasuke, foi só uma noite. Eu estava carente.- Falei em resposta, apenas para não continuar com a conversa, porém, acho que não resolvera.

– Humpf.- Fez um barulho com a boca, como quem diz: “Sei”, sarcasticamente.- Não minta para você mesma. Eu sei que você queria e que gostou. E que quer mais.

– Pare.- Voltei a me sentar na cama, o olhando seriamente. Não sei por que, mas neste instante, um bolo gigantesco formara-se na minha garganta.- Chega, Sasuke.- Foi tudo o que pude dizer pois o bolo levara as lágrimas, o que me fez esconder o rosto. Entretanto, prefiro ir para o banheiro do quarto.

Que atitude foi essa?, pensei, rangendo os dentes para conter as lágrimas. Sasuke estava batendo na porta, clamando pelo meu nome. É Sasori, olho para a minha imagem no espelho e vejo meus cílios presos por conta das lágrimas. Mordo os lábios. Eu sempre acabo me lembrando dele...

– Sakura? Por favor, abra a porta.

– Eu preciso te fazer uma pergunta.

– Eu só irei responder se você abrir a porta.- Não me demorei, e dei de encontro com ele.

Deixei meus pés seguirem até a cama, onde me sentei. Então Sasuke fez o mesmo.

– Por que você não me contou que consegue ver espíritos?

O moreno mudou de semblante, ao perceber que voltava ao assunto. Virou o rosto.

– Sasuke...- Ainda com ele de rosto virado, reuni forças para lhe perguntar.- Você viu alguém do meu lado? Alguém que já falecera?

Antes mesmo de eu terminar a frase, ele já virara o rosto. O ato lhe denunciou, o que me fez manear a cabeça despercebidamente, enquanto sofria com os olhos.

– Você viu Sasori?- Continuei com as perguntas, mesmo sem ele responder.

Ele parecia querer falar, mas sua boca apenas abria e fechava trêmula. Seu punho fechado, girava pela coxa.

– Sim.- Foi um “sim”. Um simples “sim” que me levou a choradeira novamente. Sasori sempre esteve por perto...- Mas ele não aparece mais...- Limpei as lágrimas teimosas, e entrelacei minhas mãos suadas.

– Por que? O que houve?- Um desespero estranho tomou conta de mim.

– Quando nós fizemos amor.- Então senti um aperto no peito, o que me fez ficar temerosa.- Mas ele estava sorrindo, Sakura. Foi muito intenso... e então ele sumiu.- Explicou.- Sakura, acho que ele está em paz agora.

– Em paz...- Repeti, com as mãos suadas.

Meus orbes moveram-se a mão que Sasuke se aproximava da minha. Ele a apertou e permiti que meus dedos se entrelaçassem nos dele, tão compridos e gélidos. Os nós de minha mão chegaram a ficar brancos de tão forte que apertei a sua. Não me contive, abraçando Sasuke e iniciando um choro silencioso com o queixo apoiado em seu ombro. Apertei os olhos com a dor de cabeça que se manifestava com mais veemência. Suas mãos afagavam calmamente minhas costas, às vezes sibilando palavras confortantes para mim. E então fui afastando meu rosto de seu ombro, novamente perante o mesmo. Olhos nos olhos.

– Você já chorou demais.- Conta o moreno, soltando uma risada abafada e limpando umas poucas lágrimas que cismavam em escorrer.

O olhava com um semblante sereno, quase acalentado. Fui me aproximando, podendo sentir o hálito fresco que escapava de seus finos lábios. A ponta fria de meu nariz roça no seu, quase como num atentado. Uma advertência. Contudo, meus dedos já tocavam seu rosto, parecendo reconhecê-lo. E assim fui aos seus lábios, impedindo meus olhos de cessarem, apenas permitindo sentir a textura de sua boca. Não demorou a estarmos abraçados em meio aos lençóis daquele motel vagabundo. A penumbra era a protagonista naquele quarto; deslumbrando minha silhueta em cima de seu colo, e seus braços que me envolviam. Senti seu rosto tocar meu peito, arfando, e os seus braços longos que me envolviam por completo. Até que nós nos desfizemos caindo na cama, com ele sempre atrás de mim, contornando minha anca e o seu nariz pousando despercebidamente na curva de meu pescoço. Acabei não sendo capaz de dormir por muito tempo, visualizando Sasori sentado na poltrona que fora posta no encontro de paredes. Seu semblante, absolutamente passivo. E tudo o que fiz, foi cerrar os olhos novamente.

[...]

Turno: Sasuke Uchiha

Já era de manhã, contudo, sabia que havia dormido mais do que o normal. Sakura não estava do meu lado, assim, levanto meus olhos e a encontro próxima a janela do quarto, enganchada nas venezianas. No mesmo momento, ela se vira e fixa suas belas esmeraldinas em mim. Uma canga era a única coisa que cobria seu corpo, e quase deslizava-se em cascata. Ela tinha os olhos caídos, e era possível notar um inchaço embaixo deles. Havia chorado mais nesta manhã. Acabamos por não trocar nenhuma palavra naquela hora e o dia inteiro.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.