Muse
12 Capítulo XII - Carpe Diem
Notas iniciais
Muse
“Para que tudo se consumasse, para que me sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muitos espectadores no dia da minha execução e que me recebessem com gritos de ódio”
Albert Camus – O Estrangeiro (pág.110).
Capítulo XII:
Carpe Diem
Turno: Sasuke Uchiha
– Acho melhor você sair da chuva, maninho.- Minha mente que navegava tão profundamente, emergiu como na superfície de um denso e azulado oceano. Itachi me prendia a atenção dos ouvidos agora, apesar de meus olhos continuarem a fitar o céu de peso nebuloso.- Pode acabar pegando um resfriado.- Continuei de pé alí no jardim, próximo á estufa que mamãe tanto ama. A chuva já me cobria da cabeça aos pés; ensopado.
– Certo.- Respondi quase num murmúrio, mas pelo visto Itachi entendera pois, já não sentia mais o cheiro de seu café. Deixei minha cabeça cair e passei as mãos pelo meu rosto molhado, arrumando a longa e repicada franja para trás. Enxuguei os pés no tapete do degrau de madeira, mesmo sabendo que não ajudaria muito a manter o chão seco pois minhas roupas estavam pingando. A calça jeans ensopada quase incapacitava os movimentos das pernas ao subir as escadas e não hesitei em arremessa-la em um canto do banheiro, junto da blusa azul petróleo. Vesti novas roupas e desci as escadas num solavanco ligeiro. Passei pela sala de estar onde Itachi repousava no sofá, com os pés acima da mesinha de centro.
– Onde vai, Sasuke?
– Livrar a cabeça.- Respondi ironicamente num suspiro.
Rumei para o meu canto especial pelas pistas de Sanford. A chuva continuava porém com pouco intensidade; era uma chuva apreciável. A estrada estava vazia e acabei me pregando em um ser que andava pelo acostamento. Possuía cabelos róseos e era pequenina; sua silhueta já me era conhecida. Sorri de canto, debochado; dei dois toques fracos na buzina. Ela pareceu se assustar e virou rapidamente para trás. Abaixei o vidro do carro e disse:
– Quer uma carona?- Ela tentava se proteger da chuva fazendo uma espécie de guarda-chuva com as mãos. Pareceu pensar por alguns segundos mas logo já adentrava no meu Opala.
– Oi.- Ela retirou a jaqueta de moletom molhada, sobrepondo-a em seu colo e sorrindo fino e simples para mim, como num “obrigado”.
Turno: Sakura Haruno
“Eu deveria ter aceitado a carona das meninas”, chicoteava-me andando pela chuva, “Eu deveria ter aceitado a maldita carona”, continuava arrependida. O sol ainda rachava no horizonte, dando aquela impressão úmida do ar. Andar por aquele acostamento me amedrontava pois, minha mente me pregava peças imaginando algo saindo da floresta ao lado. E numa dessas, escuto duas buzinas atrás de mim, fazendo-me dar um pulo de susto.
– Quer uma carona?- Estreitei os olhos por baixo do meu improviso de guarda-chuva com a mão para ver quem era. Cabelos negros e repicados; olhos de obsidiana. Murmurei um “humph” irônico nos lábios, adentrando naquela beleza de carro.
– Oi.- Retirei minha jaqueta para não molhar o estofado do banco do carro. Sorri de maneira gentil para ele e quando o carro começou a andar, soltei:
– Sasuke Uchiha, então, o homem-carona.- Fiquei remexendo a cabeça, concordando com minha própria piada. Já era a segunda vez que ele aparecia do nada oferecendo carona.
– Eu só estou no lugar certo e na hora certa.- Ele deu de ombros num sorriso debochado, mantendo as sobrancelhas juntas e os olhos caídos de sempre.
Recostei no banco mais confortavelmente, deixando minha cabeça cair um pouco na janela do carro. Sem perceber, adormeci em poucos instantes. Mergulhei em pesadelos; monstros que minha mente cria e aquela mesma pessoa toda enfaixada, chamando pelo meu nome. Acordei esbaforida, meu coração saltava a mil por hora. Quando recobro totalmente a consciência, Sasuke não estava no carro e estávamos parado. Sua porta estava aberta e quando olho para fora, o encontro com um cigarro nos dedos. Retirei meu cinto e sai do carro, tornando meus olhos pela paisagem á minha volta. Era um extenso campo verde; ainda havia um vestígio de neve por ali, mas o sol era forte e derretia em pingos. Podia-se apreciar um enorme lago há poucos metros, e a seu lado um gazebo todo branco. Sasuke estava a poucos passos de entrar no gazebo e após me ver próximo do carro, entrou no gazebo se apoiando e apreciando o lago. Suspirei, “deveria estar em casa”, cocei a nuca desajeitada e decidi entrar no gazebo. Era realmente lindo, cheio de detalhes; parecia ter sido esculpidas por mãos angelicais.
– Você adormeceu e eu pensei em parar por aqui.- Contorno meus dedos pela bainha de minha regata branca, subindo e ajeitando o decote de renda. Apreciei por poucos segundos o Uchiha dar uma tragada no cigarro, expelindo a fumaça pelo nariz. Soltei uma risada baixa. Pelo visto já está habituado ao vício.- Gosta daqui?- Ele virou-se, recostando no apoio do gazebo com os cotovelos para trás. A luz forte do sol lhe dava um contraste maravilhoso que eu não pude deixar de notar
– É bem calmo; pacífico.- Olhei em volta da paisagem, me aproximando do patamar do gazebo e me recostando também, só que, diferentemente do Uchiha, frente ao lago.- Acredito que aqui não exista muitos lugares desse tipo, não?- Apoiei minha cabeça com a mão e resvalei meus olhos ao Uchiha, que me olhava. Ele desviou seus orbes nesse instante e eu me virei de costas para o mesmo com um sorriso torto nos lábios. Ajeito uma mecha de cabelo atrás de minha orelha, com os olhos pregados ao chão.
– Carpe diem, quam minimum credula postero.- Soltou um pigarro no momento em que me virei para dá-lo atenção. Eu tinha um enorme ponto de interrogação na cabeça. Ele novamente riu debochado; seu cigarro estava quase no fim. E então ele deu alguns passos próximo á mim e esclareceu as minhas dúvidas.- Aproveite o dia de hoje e confie o mínimo possível no amanhã.- Uma brisa gostosa dá suas boas vindas; meus cabelos esvoaçavam e Sasuke pareceu dar sua última pitada no cigarro. E subitamente, quase num delírio prazeroso, sinto a fumaça proibida invadir a minha boca, vinda diretamente dos lábios friorentos de Sasuke Uchiha.
* * *
You put your arms around me
And I believe that it's easier for you to let me go
Christina Perri – Trecho de Arms
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