Murmúrio - hiatus
2 Capítulo dois
Notas iniciais
Doce, talvez fosse o adjetivo mais correto para descrevê-la. Amélia era dona de traço delicados e marcantes, que cativaram-me no segundo em que a vi. Nenhum sentimento havia se desenvolvido é claro, apenas um pequeno interesse. Não entendia o motivo, apenas sentia, guardando aquilo para mim. Mesmo surpresa e irritada, a garota ainda possuía uma aparência gentil, e o cheiro de flores exalava de sua pele. Meu olfato apurado também era capaz de sentir o cheiro de cacau de seus cabelos castanhos. Seu cheiro estava impregnado em minhas narinas, e tinha certeza de que agora, poderia senti-lo a quilômetros de distância.
Por sorte, sabia interpretar vários papéis, e aparentar indiferença, era um deles.
— Papai você não avisou que...
— Pare de bobagem, Amélia. — Adam a interrompe.— Coínin vem sendo minha salvação nesses últimos dias, é o mínimo que posso oferecer. Agora preciso subir, preciso me limpar. Fique a vontade, garoto!
Após ter me dado um tapa sem força em minhas costas, Adam anda em direção as escadas, subindo seus degraus. O homem parecia animado com a situação, por algum motivo que não conseguia entender. Conseguia ouvi-lo perfeitamente, até mesmo depois de ter entrado em seu quarto. Audição, mais um de meus dons, que preferia chamar de consequências.
— Olá, Amélia. — Dei um sorriso mórbido, que se destacava por minhas presas.— Você parece estar com medo.
— Medo? Não estou com medo.
O tom convicto da garota apenas afirmava que ela não havia gostado de minha visita. Despreocupado, dei dois passos em sua direção, vendo-a recuar. Amélia era dona de olhos esverdeados desconfiados, e de poucas sardas que se espelhavam por suas bochechas e nariz. Apesar do frio, a garota apenas usava um calção jeans curto, com meias ridículas de urso, que em uma tentativa falha deveriam combinar com sua blusa.
— Parece estar.— Agora estava parado a sua frente, deixando-a contra a parede.
— Se afaste de mim.
— Por que? Você acha que eu faria alguma coisa?
Dessa vez dei um sorriso irônico, apenas para irritá-la. Logicamente não faria nada com a garota, mas era irresistível provocar. Uma onde de assassinatos em um lugar tão pequeno, e uma visita inesperada não era o conjunto de coisas que deixariam alguém confortável. Vulnerabilidade atraia-me, e Amélia era o tipo ideal de "brinquedo".
— Eu pedi para você se afastar.— Ela ordenava, depois de um longo período em silêncio.
Desviei meus olhos para os degraus, assim que ouvi a porta do quarto se abrir. Sem respondê-la, apenas dei passos para trás, me afastando da garota. Segundos depois os passos de Adam eram pesados sobre a escada, descendo novamente até a sala. Finge que nada tinha acontecido, e apenas voltei a manter silêncio, assim que ele novamente estivesse entre nós.
— Já se conheceram?
— Sim, senhor Clarke.— Respondi.
— Ótimo, por que eu realmente estou com fome. Pode pegar um prato para Coínin, Amélia?
Sem questionar, a garota sai em direção a cozinha, enquanto Adam me convidava para ir também. Segui seus passos até a cozinha, que apresentava a mesma decoração tipica do resto da casa, com uma grande mesa de madeira em seu centro. Optei por sentar em uma das cadeiras laterais, até por que Adam sentou na ponta da mesa. Sem olhar diretamente para mim, Amélia deixou um prato com talheres em minha frente, sentando-se em seguida no lugar de frente para mim. Adam logo começou a servir, fazendo o mesmo para mim, mesmo que não tivesse pedido autorização.
— Então, de onde você vem? Até agora não sei a resposta dessa pergunta. — O prato de comida foi posto em minha frente, enquanto Adam parecia muito interessado em minha resposta.
— Sou viajante, sou de muitos lugares. Nasci em Kansas.
Mentiras, simples e complexas mentiras. À noite havia começado, e junto a ela, vinham as palavras enganosas. Não orgulhava-me de usá-las como uma arma, mas era isso que as pessoas procuravam. Não era tolo em pensar que Adam algum dia gostaria de saber quem eu era, e que os motivos que me trouxeram para cá não eram apenas um pesadelo. Respostas confortantes era o que todos queriam, mentiras era o que todos queriam. E Adam Clarke consumia-as com mais afinco do que as outras pessoas, fingindo ser feliz em sua vida falsificada enquanto ele mesmo afundava em seus segredos mais mórbidos e sombrios.
Como já imaginava mais perguntas foram despejadas em minhas costas, algumas que já tinha respostas prontas, outras invetadas na hora. Por sorte conhecia muitos lugares, o que facilitava um assunto. Amélia permanecia em silêncio, e aparentemente acreditava em minhas palavras. Em todas as hipótese não deveriam me preocupar de a garota acreditava em mim ou não, deveria manter meu foco em Adam. A parte boa de tudo era que por muito tempo não experimentava uma refeição caseira assim, tão boa. Apesar de apresentar boa forma, minha alimentação resumia-se em besteiras e mais besteiras.
— Está tarde.— A garota simplesmente interrompe nossa conversa, causando um olhar surpreso de Adam.— A família de Coínin deve estar preocupada. Você não acha que deveria ir?!
— Sem problemas.— Dei um sorriso irônico, contra atacando sua tentativa que me fazer sair.— Não tenho família, não vão se preocupar comigo.
— Independente, está ficando tarde para você voltar sozinho.
— Não tenho medo, não se preocupe com isso.
— Tem um animal selvagem a solta, eu insisto que pode ser perigoso.
— Amélia Clarke.— Adam pronúncia em um tom alto, batendo seu punho direito contra a madeira da mesa, levantando-se da cadeira.
Em meio a alfinetadas, não percebi a alteração de humor do homem. Amélia pareceu assustada com seu comportamento, que não parecia ser típico da relação dos dois. Seu olhas era de magoa, desentendimento e frustração. Como alguém escolhia um completo desconhecido no lugar de sua filha? Não precisava ser telepata para saber que essa questão perturbava a garota.
— Foi essa educação que eu lhe dei? — Suas sobrancelhas estavam arqueadas, e seu tom deixava claro sua desaprovação. — Já chega. Você tem razão, está tarde! Ótimo, Coínin vai passar à noite aqui.
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