Mundo medonho

8 O Medroso.


Ronald e Agatha acordaram mais cedo que o comum. Enquanto o rapaz teve uma ótima noite de sono, a moça tinha dormido muito pouco, porque acordara no meio da madrugada e passara boa parte dela tentando descobrir a senha daquele dia. A diferença entre os dois era gritante. Ele estava bem humorado, exalando tranquilidade. Porém ela... acordou sem paciência, com olheiras enormes e um olhar medonho. Se o medo fosse capaz de ser sentido, ela teria espantado todos os medrosos dali. O rapaz comentou sobre sua aparência e ela rosnou de volta, reclamando que era culpa daquela excursão. Eles caminhavam em direção à cela de Adler, que ficava numa ala chamada "Campos de Concentração".

Os Campos de Concentração eram locais semelhantes à prisões. A única diferença era o modelo de celas como 'Solitárias' (os Medrosos ficavam sozinhos e trancados o dia inteiro). Não havia convivência ali dentro, o que era ótimo, pois a possibilidade de rebelião era nula, juntamente com a de escapatória. Se alguém entrasse em um Campo desses, poderia ter a certeza que só sairia morto ou curado (o que era mais raro).

Certo tempo depois, Agatha e Ronald chegam até a cela de Adler, sem precisar passar por fiscalizações — eles acordaram mais cedo que os próprios vigilantes —, o que era ótimo. Agatha já sabia a senha daquele dia, então foi fácil destrancar a porta. O único problema era o risco de se tornar um Medroso. Agatha tentou convencer Ronald a desistir ali mesmo, mas o rapaz insistiu, apressado.

— Eu não teria tanta pressa assim. — uma voz desconhecida falou.

Ambos se viraram. Era Devit, o tal "mago" que Ronald havia visto. Ele sorriu satisfeito quando Ronald o reconheceu.

— Bom dia. — disse o mago.

— Por que diabos está acordado a essa hora? — perguntou Agatha.

— Ouvi vocês ontem. Então vocês queriam saber mais sobre eu e Adler, huh?

— Eu não, só ele. Apenas fui arrastada até aqui.

— Pra alguém arrastado, parece que dormiu pouco.

— Algum problema?!

— É melhor eu interromper. — interrompeu Ronald. — Devit, há a possibilidade de eu falar contigo e com Adler, sem a intromissão do Medo?

— Sim, há. — ele se virou para o nada. — Heus, Ostugua. Tenere timorem. Ieiunium.

Nesse momento, Ronald e Agatha sentiram uma estranha movimentação, que passou pelos dois, entrando para a cela, e segurando o Medo de Adler. Todos entraram na cela de repente, assustando o pobre Adler, que nada fazia a não ser ficar paralisado na cama, de costas para a porta, rezando para que não o machucassem.

— Bom dia, Mr. Adler. — disse Devit.

— Genera... digo, Mr. Devit?! — o homem virou-se quase de imediato.

— Você parece morto. Onde está o capitão Adler que era tão orgulhoso?

— Ele teve a alma devorada pelo Medo.

— Trágico. — Devit pegou Ronald pelo ombro. — Esse rapaz aqui deseja falar com você.

— O que tu quer de mim? — Adler estava com medo.

Ronald se aproximou de Adler, sem receio algum, e se sentou na cama do mesmo, que ficava ao lado da cadeira e da mesa com a máquina de escrever.

— Como você conseguiu ser amigo de um mago? Você deve ser muito poderoso! — de repente, aquele rapaz de dezoito anos parecia converter-se em uma criança de cinco.

Adler olhou para Devit com uma expressão que poderia ser traduzida em um ponto de interrogação enorme estampado na testa. O mago apenas deu uma risadinha e disse "Vá em frente".

— Huh... Ele era o comandante da Unidade de Pesquisa Sobrenatural, o lugar onde eu trabalhava. Como ele me considerava como um imediato, ficamos amigos. E... eu não tenho poderes, tá?

— Pesquisa Sobrenatural? — perguntou Agatha, olhando pra Devit.

— Exatamente. — Devit sorriu por um instante, como se relembrasse de algo. — Era uma categoria da Unidade Especial, comandada por um homem chamado César Vectorine. Investigava acerca de eventos e pessoas com poderes sobrenaturais. Por exemplo, eu sou alguém que nasceu com esses "poderes" e por esse motivo me chamam de mago. Mas hoje em dia, ela se tornou uma organização mais secreta do que já era, por causa dos Medos. Há pessoas que conseguem comandar os Medos ou afastá-los, mas isso é muito incomum.

— Um momento. Você tem poderes sobrenaturais, né? Por isso que consegue prender o Medo em um canto da sala para prevenir de nos tornarmos Medrosos. — Agatha olhou de relance para a criatura medonha, que estava presa no canto da parede. — Eles apenas funcionam através do latim, como um encantamento?

— Na verdade... — por um instante, ele desviou o olhar pra cima, como se estivesse olhando pra alguém. — Adler, me empresta um papel e uma caneta.

— Sim, senhor. — Adler atendeu o pedido do homem com rapidez.

Devit apoiou o papel na mesa e começou a desenhar. Fez um homem igual a ele, moreno claro de cabelos escuros e ondulados. “Não desenha mal” pensou Agatha consigo. Logo depois, ele fez um círculo onde devia estar o coração e riscou uma linha a partir dele, que ia até fora do corpo, e flutuava perto da cabeça dele. A mão pareceu perder o controle e começou a rabiscar no fim do trajeto. Então, desenhou uma seta apontando para si mesmo e para os rabiscos, colocando seus respectivos nomes: Devit e Otsugua.

— Essa é a maneira mais fácil de explicar o que eu sou exatamente. — ele deixou a caneta de lado, e então apontou para os rabiscos, nomeados de Otsugua. — Ganhei o cargo de comandante de Pesquisas Sobrenaturais porque eu nasci e cresci naquela unidade, e com o tempo consegui respeito e cargos. O porquê, é esse cara aqui. Ele é uma alma conectada à minha. Funciona como uma entidade, e apenas entende latim. Não me confunda com um receptáculo. Otsugua não me usa como marionete, mas sim é meu amigo. Não tenho poderes de verdade. Por exemplo, agora, quem está segurando o Medo é Otsugua, não eu.

Nesse momento, todos se viraram para o Medo. Prestando muita atenção, facilmente era possível ver uma levíssima silhueta, inundada de rabiscos finos e brilhantes, parecidíssima com a do desenho, a qual estava segurando o Medo com os "braços".

— Me ensina a ter amigos assim, sr. Adler! — pediu Ronald. — Ensina-me a ter essa mesma sorte!

A maneira que Ronald utilizou para fazer o pedido à Adler lembrava um poeta, o que fez todos soltarem algumas risadas. Passaram algum tempo quietos, e Devit murmurou algo, mas não foi audível.

— Sr. Adler, — começou Agatha — Você era um soldado? O que fazia na Unidade?

— Eu era um soldado especializado em sequestro e saque. Os meus trabalhos eram bem arriscados, e algumas vezes, quando precisávamos fugir, eles quase sempre me abandonavam. Talvez esse seja o motivo do meu Medo ser esse.

— Que irritante. — ela fez uma pausa e se virou para Ronald. — Está satisfeito?

— Muito. — o rapaz sorriu.

— Ótimo. — Agatha retribuiu o sorriso por um momento. — Mas agora é bom a gente ir embora, porque daqui a algumas horas o código vai mudar, e a porta vai "reiniciar", destrancando e trancando de novo, o que pode nos prender aqui até o final do dia.

Vagarosamente, todos saíram da sala. Porém, Ronald, antes de sair, se virou para Adler por uma última vez.

— Ei, Adler. Você não respondeu uma pergunta de Ísis: O Medo sai da sala?

—... — Adler ficou algum tempo em silêncio, como se tivesse receio de ser atacado pelo Medo. — Sim, sempre quando a porta reinicia. Ele examina lá fora e volta. Todos os dias. Faz isso porque mesmo sendo "conectado" a mim, ele precisa obedecer ordens vindas do Superior.

Superior?

— É. Medos são mais organizados e astutos do que parecem. Se um dia encontrar um deles, não deixe que te enganem.

E assim, Ronald saiu do quarto de Adler. O Medo foi solto por Otsugua, assim Adler estava novamente solitário, com apenas o medo como maldita companhia.

Devit se despediu de Ronald e Agatha, e os dois voltaram para o quarto. Ainda eram cinco da manhã. O turno deles começava no início da tarde. Ao saber das horas, a primeira coisa que Agatha fez foi dormir.

Ronald sentou-se na cadeira da mesa que ficava em frente à janela, e começou a escrever algumas coisas sobre aquela pequena excursão. Agatha ficou se perguntando o que realmente seria Otsugua. Ela achava aquilo suspeito. Aquela manhã prosseguiu calma, como qualquer outra. Mas então, Ronald ouviu um barulho. Ele não sabia o que era, por isso, apenas ignorou. Aquele erro iria ser o estopim para algo que modificaria a rotina tranquila daqueles dois. E não só deles. Todos daquela cidade iriam sentir o impacto.