Mundo medonho
21 Atrofia.
A cena triste é interrompida pelo barulho da estante da entrada se movendo. Passos são ouvidos. Devit levanta-se da cadeira lentamente e se esconde atrás das gavetas da mesa. Otsugua procura ver o que é, e a silhueta da coisa lhe assusta, e então ele tenta mover Agatha, só que a mesma fica estática de medo. Seu choro terminou abruptamente, e agora tudo que ela consegue fazer é ficar quieta, sem conseguir se mover, com a mente totalmente alerta pelo medo. Otsugua acaba se acovardando e se escondendo no teto.
Os passos largos se aproximam. A primeira certeza que Devit tem é: eles não são humanos. De repente, o som dos passos para. Devit ouve mais nada, e Otsugua vê mais nada. Quando o homem pensa em sair, o monitor do porão, que antes estava com falhas, começa a funcionar perfeitamente, e transmitir um som assustador. Algo espectral, algo... cósmico, nunca antes ouvido por Devit, nem Agatha, muito menos Otsugua. Agatha, ainda parada no meio da sala, contempla a visão, impressionada.
— O que...
Sua fala é interrompida por uma garra que começa a segurar seu ombro. A moça pensa em gritar, mas outra garra começa a passar pelo seu rosto. Agatha tenta controlar ao máximo sua respiração.
:origin()/pre07/b3b3/th/pre/f/2016/004/0/0/scene_by_littlecat403-d9mr9uy.jpg)
Devit sente uma fraca onda de pavor sendo emitida, então a moça não consegue mais evitar a pressão psicológica, e grita, tentando fugir, fracassando miseravelmente. Quem quer que seja a segura e abre um sorriso, dizendo:
— Oh, filha de César. Por que tu foges? Não és Medrosa tampouco Intrépida. O que é você?
Agatha diz nada, apenas tenta fugir.
— Responda, filha de César! — ordena a criatura.
— EU SOU COMUM! — berra a garota.
— Oh... Comum, é? — aquilo agarra Agatha. — Que ótimo.
Aquilo se vai numa velocidade assustadora, e tudo se torna silêncio. Devit fica paralisado por um tempo, sem crer no que acaba de ver. Sua intrepidez, por alguns momentos, se esvai, e ele fica apenas tentando absorver a cena que viu. Otsugua o desperta, e o homem sai debaixo da mesa. Eles começam a sair daquela sala.
— Às vezes... — diz Devit, sozinho na biblioteca. — Queria apenas que tudo isso não tivesse acontecido.
Colocando as mãos nos bolsos, começa a andar pelo palácio, procurando a saída, lembrando-se do pedido de César, antes de enlouquecer.
"Destrua aquele farol."
...
Ronald acorda. Está numa cela, junto com várias pessoas vestidas de capas escarlate acinzentado.
— Acordou finalmente? — um rapaz olha pra ele. — Os guardas trouxeram você aqui. Quem é você?
— Ronald Racnel. Sou dos Intrépidos. Quem são vocês?
— Scrupulum. Tem como deixar a rixa entre as organizações até que a gente saia?
— Eu não quero nem pensar em brigar com todos vocês.
— Heh, que bom. — ele sorri. — Os Medos enganaram a todos, hein?
— Sim. Já não sei o que está acontecendo!
O rapaz explicou em poucas palavras sobre o Rei Medonho tachar os Scruplum como traidores, e por isso prender todos ali. E como uma integrante da malta havia fugido, eles fecharam totalmente o Palácio. Não sabiam que destino aguardar. Ronald se perguntou como tudo havia chegado naquele ponto.
— Ei, mas vocês não são todos Medrosos? — perguntou Ronald. — Deveriam ter a força dos Medos. Ou... sei lá.
Aquele mesmo rapaz que explicara a situação para Ronald levantou-se, chegou até no amontoado de Medrosos na grade (todos de costas para o intrépido), pegou a cabeça de um dos companheiros e a virou para Ronald. Os olhos estavam totalmente brancos, e no rosto, estava estampada uma expressão de terror.
— Quase mortos. Sendo torturados por dentro, num Surto. — respondeu o rapaz, com certa frieza.
— Ué, mas e você? Não devia estar na mesma situação também?
— Sou um intruso. Não sou Intrépido, mas também não sou Medroso. É meio difícil de acreditar, mas eu sou uma pessoa comum.
— Maneiro! — Ronald não deixou de ser Ronald.
— Heh, é estranho um Intrépido achar alguém comum legal.
— 'Tá' maluco?! Você é um sobrevivente! Tu é tipo, o mais inteligente da turma, o único sobrevivente de uma casa assombrada por um monstro!
— Para com isso aí, assim você me deixa sem graça. — ele ri.
O rapaz se senta, e ele e Ronald ficam conversando, tentando esquecer o terrível cenário onde se encontram.
...
Adler sai vitorioso. Hugo solta uma risadinha sem graça.
— Você não é tão ruim. — diz Adler.
Eles se cumprimentam, e cada um vai para um lado diferente. Adler volta para sua casa, e seu Medo continua dormindo. Hugo volta para o lugar onde os Scrupulum estavam, sozinho. Ambos são recebidos com um silêncio assustador que os avisou que tinham chegado tarde. Quando tentam ir embora procurar seus companheiros, são impedidos por uma legião de Medrosos em Surto. Cada vez mais são encurralados, e chega a hora em que ambos quebram as regras dos Medrosos de não acabar com as vidas de seus 'irmãos': Cortam todos os Medrosos que os impediam de se mover. As espadas de néon cortavam a pele humana com facilidade, e queimavam a pele dos Medos pela gelidez da lâmina.
Hugo e Adler acabam se encontrando na praça da Sociedade Medonha, ambos trazendo consigo legiões de Medrosos em Surto. Conversaram rapidamente por olhares, e concordaram em ajudar-se. Os dois começaram a correr em círculos, com a espada empunhada na mão esquerda. Um fraco redemoinho começa a se formar ao redor dos dois, e então eles apontam as espadas para o redemoinho. A gelidez da arma se canaliza para a fraca ventania, tornando-a mais forte. Quando os Medrosos chegam perto dos dois, eles diminuem o perímetro do círculo, até começarem a girar lado a lado. A tontura começa a ameaçá-los, mas nenhum dos dois desistiu daquele golpe. Os Surtados chegaram até eles, e então os dois pararam de girar de repente, e o vendo do redemoinho se expandiu, congelando as legiões de Medrosos. Derrotados todos os Medos e Medrosos da praça, Hugo e Adler comemoraram com um "toca aqui".
— Como é que você sabia que aquilo iria acontecer? — perguntou Hugo.
— Eu já lutei contra Medrosos antes. — respondeu Adler.
— Aliás, você não me disse seu nome até agora.
— Fantasmas não tem nomes.
— Mas você está vivo!
— Sabe, eu detesto ter que suportar o Medo na minha mente. — ele ignorou a frase. — Quero ser livre, mesmo que eu volte a ser uma pessoa comum.
— Talvez se você começasse a procurar entendê-lo...
— Eles são nossos medos, cara dos Scrupulum. Os medos que nos prendem. Os mesmos que prendiam nossos braços diante de uma situação. Eles que nos enganavam, nos alimentavam com a paranoia. Não podemos tratar os medos como bichinhos de estimação. Se fizermos isso, estaremos condenados a viver como fantasmas. — o rapaz fitou o homem, sério.
Adler percebeu que um Medo corria em direção à Hugo e empunhou a espada, até que o homem disse que aquele Medo era seu. A criatura pulou nos braços do Medroso, e logo voltou para sua mente, em silêncio.
— Ainda acho que pode estar errad... — de repente, Hugo parou de falar. Alder, então, ouviu um sussurro vindo do Medo:
"Ei, sr. Hugo."
— Diga. — disse o homem.
"Sabe este rapaz? Ele é um traidor. O nome dele é Adler Saltber, e ele assassinou seu próprio Medo."
Hugo pareceu intrigado.
"Mate esse traidor, sr. Hugo. Antes que o câncer dele se espalhe pra você."
— É o que?!
"Mate-o, sr. Hugo! Ele não se importa de matar os outros."
— ... Fantasma, não é? — disse Hugo, olhando pra Adler.
Adler não sabia como reagir. Ele apenas olhava para o homem sem entender como ele conseguia acreditar no Medo com tanta convicção apesar de haver nenhuma prova.
— Nunca achei que tu fosse tão "pau-mandado" do Medo. — Adler deu uma risadinha.
"Veja! Ele está rindo de você! Mate ele, sr. Hugo!"
E repetindo a última frase, o Medo começou a, lentamente, esticar os braços e tapar os olhos do Medroso.
"Deixe que eu te guio, te poupando de pensar no que fazer com esse traste."
Hugo engoliu em seco, e se deixou guiar pelo Medo. Adler desembainhou a espada, e teve um verdadeiro duelo de espadas com o Medroso. Enquanto Adler parecia cansado de toda aquela correria, Hugo parecia totalmente revigorado, como uma boa marionete do Medo.
— O que você fez com ele, maldito?! — pergunta Adler para o Medo, depois de desviar de outro golpe.
"A... tro... fi... a." diz o Medo, com cuidado para não deixar o Medroso entender.
...
— 'Atrofia' é o nome dado à "fase final" da relação Medroso e Medo, apenas sendo possível se a relação dos dois for boa. Tem esse nome porque a relação de amizade entre os dois é interpretada se o Medo fosse definhando a alma do Medroso, fazendo com que ele se torne dependente ou muito próximo. O Medroso acaba por não conseguir mais desconfiar das palavras do Medo, e o aceita plenamente. Com a alma totalmente atrofiada, o Medo se aproveita para 'controlar' o Medroso sem precisar ativar o Surto, e o alienado aceita esse controle sem se importar.
— Isso aconteceu com eles? — pergunta Ronald.
— Pouco antes de eles virem para essa cela. — explica o rapaz. — Daí eles ficaram desse jeito que você está vendo agora.
— Você sabe bastante coisa sobre os Medos, isso é legal.
— Nunca ninguém me elogiou tanto em tão pouco tempo. — ele olha para cima.
— Quer que eu faça o que? Sou muito leigo quando se trata de Medos. Eu sei mais sobre Medrosos.
— Entendo. Isso é bem comum entre os Intrépidos.
— Ah, nem perguntei seu nome!
— É Alex.
— Agatha adoraria conhecer você.
— Quem?
— Uma amiga minha. Ela acabou se separando de mim numa confusão na cidade em que a gente estava. Não tive notícia desde então.
— Eu posso jurar que já ouvi esse nome em algum lugar... — Alex mexe nos cabelos castanhos, e os olhos da mesma cor fitam o lugar fora da cela, tentando relembrar. — Agatha... Agatha... Lembrei.
— Conhece ela?!
— Não, mas ela se tornou uma aliada famosa dos Scrupulum. Ela é que nem eu, comum.
— Desconfiei desde o princípio. Ela sempre parecia preocupada em querer lutar nessa guerra medonha. Agatha veio com vocês?
— Sim. Parando pra pensar, é muito estranho ela não estar com a gente agora.
— Vou te contar uma coisa que eu aprendi: Agatha é implacável. Deve estar fugindo agora.
— Nem conte com isso. — um dos surtados sussurra, se levanta e olha para os dois com os olhos brilhantes e totalmente brancos. Estava claro que o Medo que estava falando ao invés do humano.
— A filha de César, de quem estão falando, foi capturada pelo Segundo Medo Superior. Não se preocupem, ela vai ter o mesmo destino que vocês.
— Qual? — pergunta Ronald.
— Seremos todos Reis e Rainhas Medonhos. — ele sorriu, louco.
...
Devit se vê diante da porta trancada. Está coberta de uma gosma escura, que o impede de sair do Palácio. Escrito em letras medonhas, está uma mensagem direta:
"A única saída é pelo porão."
O homem se vira para o salão vazio, e começa a procurar Loch. Ele o encontra minutos depois, vasculhando a sala de reunião. Ambos trocam algumas palavras e informações. Decidem ir para o porão. Enquanto andam pelos corredores, Devit fala sobre tudo o que viu na sala, e sobre a aparição de Agatha. Quando Loch o pergunta onde ela está, Devit apenas diz para continuarem andando. Ela ainda estava no Palácio, disso não se havia dúvida.
...
Agatha luta contra o braço forte do Medo, mas é inútil. Desiste com certa facilidade, aceitando seu destino. O vento devido à grande velocidade do Medo açoita seus cabelos azuis. Ela chora baixinho, desolada.
— Alguém... me ache... — sussurra.
...
Alguém ouve o som das lágrimas caindo no chão. Está com vontade de chorar também. Oh, o que havia feito para merecer isso? Adoraria saber. Seu Grito não havia sido suficiente?...
Fale com o autor