Uma estranha e pesada névoa de verão ocupou a pequena cidade de Parvalle naquela noite de fevereiro, obrigando os moradores a cancelarem seus planos e permanecerem em suas casas para evitar possíveis acidentes de trânsito. Ainda assim, uma van branca em alta velocidade rodava pelas estradas em direção ao parque de diversões, localizado no topo da colina. Parte da neblina já havia se dissipado quando o veículo fora estacionado nas sombras da entrada do parque. A luz da lua cheia que brilhava no céu iluminava o rosto do jovem que saltou da van e cintilava em seus olhos que mais pareciam duas órbitas negras — prontas para absorver o que cruzava seu caminho. O homem abafou sua jaqueta de couro e deu três passos para frente, à espera de alguém.

— Débora?

Sua voz soou em eco noite adentro, espalhando sua presença por todo o espaço. Embora ele parecesse pálido o bastante para qualquer um supor fraqueza física, sua voz saiu bastante firme e segura. O homem ficou parado no campo aberto, observando atentamente o nada a sua frente enquanto sentia o vento bater em seus cabelos negros. O único sinal de movimento foi quando avistou ao longe dois olhos vermelhos vindo em sua direção.

Uma mulher pálida e de longos cabelos vermelhos se aproximava. Seus olhos eram da cor do sangue, sedentos e famintos. Quando finalmente ficaram um de frente para o outro, ela retirou um cigarro do bolso, acendeu e deu uma longa tragada.

— Oliver, minhas saudações — suas primeiras palavras revelaram uma voz rouca que não correspondia com a idade que aparentava ter. Era como se seu corpo tivesse permanecido congelado no tempo e o envelhecimento alcançou apenas suas cordas vocais.

— Não vim conversar, Débora. Poupa-me de suas saudações. Trouxe o que você pediu.

A mulher riu, sadicamente.

— Imagino que tenha sido uma tarefa difícil a julgar pelo seu péssimo humor. Ótimo que trouxe minha encomenda, já era tempo de encontrar um servo que me fosse útil.

Oliver contraiu a mandíbula, claramente incomodado com as palavras de Débora.

— Não se esqueça que esse foi meu último serviço à você. Apenas lhe peço para que cumpra nossa promessa. O pagamento, suficiente para que eu consiga viver por alguns meses, e claro, a segurança do resto da família.

A mulher deu um sorriso malicioso, o que já foi o suficiente para Oliver perceber que ela estava fazendo planos além do que o tratado proposto.

— Não seja ingênuo, servo. Tem tanto tempo para aproveitar sua vida… Diria até que para sempre.

— Apenas peço isso, cumpra sua promessa e te darei a chave que guarda o sangue do homem que tanto quer.

— Eles ainda estão com o Livro das Sombras, o que arrisca a existência de nosso mundo. Quero ele de volta, e preciso renovar minha imortalidade com sangue mestiço... Esse cheiro... É muito bom. Mas ele está forte demais nessa cidade.

Oliver cerra os dentes e fecha os punhos, já sabendo do assunto em que Débora estava, cautelosamente, se aproximando.

— Deixe-a em paz.

— Tenho uma proposta a você.

— Não quero ouvir. Chega de acordos. Estou livre agora.

Débora o ignorou e continuou.

— Você a traz para mim, quando estiver na idade certa. E em troca te darei tudo o que desejar. Riquezas. Conhecimento. Sua vida de volta.

Os olhos de Oliver se iluminaram na imensa escuridão da noite. Era certo que seu maior desejo era ter sua vida novamente e ele sabia que Débora tiraria vantagem disso por conhecer todos os seus sonhos.

— E se eu não a trouxer?

— Você sabe o risco que todos nós corremos quando um mestiço atinge a maioridade. O homem que está no seu porta-malas, seus ancestrais e descendentes jamais devem ter seu poder subestimado. Eles sabem mais do que deviam, é preciso exterminá-los para a segurança do nosso mundo.

Oliver recebeu, nauseado, as palavras de Débora. Pensar em suas decisões futuras nunca havia sido tão complicado quanto agora. A verdade é que não havia certo ou errado no mundo que ele vivia agora, mas era árduo o trabalho de se livrar dos seus antigos valores. Seu olhar cruzou com o de Débora e ele assentiu com a cabeça, sentindo-se derrotado.

A última visão que Oliver teve naquela noite foi Débora avançando velozmente para atacar o corpo assustado que estava dentro da van. Ouviu-se os gritos esganiçados de um homem desesperado, e então Oliver ficou trêmulo. Enquanto adentrava o parque de diversões abandonado, seus pensamentos se engasgaram todos ao mesmo tempo. Uma onda de tontura lhe atravessou o corpo e ele caiu no chão, perplexo, sabendo que não seria a última vez que isso iria acontecer. E também não é a primeira, pensou.