Mundo das Sombras
4 Capítulo III
— Outro pesadelo? — Lexi perguntou enquanto retirava um pequeno vidro da bolsa. Ela coloca um pouco do líquido oleoso no dedo anelar e dá batidinhas nas minhas olheiras. A sensação de refrescância faz minha pele arder no início, mas suaviza a mancha ao redor dos meus olhos e disfarça o fato de que passei a noite em claro.
— Já me acostumei com sonhos ruins — eu respondo, claramente mentindo. Por mais que os pesadelos me acompanhem desde a infância, me sinto atormentada nas noites em que sonho com meu pai.
— Sabe, você devia ir num psicólogo ou passar lá em casa qualquer dia desses. Vovó pode te ajudar com alguma técnica que ela conheça.
Lexi Wardwell é minha melhor amiga desde os oito anos de idade. Em praticamente dez anos de amizade, nunca conheci alguém tão puro quanto ela. Seus olhos castanhos brilham gentileza e seu abraço é sempre reconfortante. Lexi mora em uma pequena casa próxima a floresta de Parvalle junto com sua avó, a Sra. Wardwell, sacerdotisa do coven feminino da cidade. Conheci Lexi quando estávamos na primeira série. Lembro-me até hoje de como ela segurou Adam King pelos cabelos, segundos depois de ele ter caçoado a minha aparência na frente da turma inteira. E de como ela o arrastou pelo pátio, dizendo “espero que aprenda a nunca mais falar das garotas desse jeito”. Foi nesse momento que eu soube que iria amá-la pelo resto da minha vida.
— Depois me passa a receita — eu falo, apontando com os olhos para o vidrinho em sua mão.
— Um pouco de óleo de coco, alecrim, chá verde e umas coisinhas especiais da minha avó. Você gostou?! — Lexi sempre fica entusiasmada quando eu elogio seu lado místico. Ela é aprendiz da Sra. Wardwell e pretende se iniciar na bruxaria logo.
Antes que eu pudesse responder, o primeiro sinal do dia soa pelos corredores do colégio. Lexi segura minha mão e me puxa para fora do banheiro.
— Preparada para o primeiro dia, Meg? — encaro Lexi e respiro fundo antes de respondê-la.
— Nunca.
Seguro firme a alça da bolsa e entro na sala de biologia, sentindo todos os olhares recaindo sobre Lexi e eu. Vejo de relance uma mesa vazia no fundo da sala, localizada no canto da parede. Logo de imediato já sei que aquele vai ser o meu lugar até o final do ano letivo, se tudo sair como o planejado.
A instituição de ensino de Parvalle era renomada por oferecer uma educação de excelência. Apesar de ser uma cidade pequena, recebíamos muitos estudantes de intercâmbio e estagiários de todos os cantos do país para conhecer nosso sistema de ensino. Essa rotatividade de alunos fazia com que as turmas fossem passageiras e, por conta disso, havia pouquíssimos rostos familiares na sala comigo. Além de Lexi, reconheci apenas Nicole, Benjamin e Rebeca. Os outros trinta alunos eram completos estranhos para mim.
O Sr. Johnston adentra a sala cumprimentando os alunos enquanto liga o quadro interativo e, em seguida, coloca um vídeo sobre uma espécie de aracnídeo para assistirmos. A aranha fêmea é grande, suas patas dianteiras são mais compridas e seu tronco é colorido em tons avermelhados que atraem o macho para reprodução. A aranha macho, por sua vez, é bem menor, seu tronco é rechonchudo e sem cores vibrantes e suas patas são mais curtas comparadas às de sua companheira. Depois de uma apresentação mais detalhada da espécie, o documentário conta com algumas cenas da rotina delas em cativeiro. Apesar da diferença de tamanho, as aranhas vivem juntas e cruzam. Algumas risadas irrompem na sala, talvez porque a cena de uma pequena aranha atrás de outra majestosamente maior fosse algo interessante de se ver, talvez porque alguns não amadureceram suficientemente para não rir com toda e qualquer referência a sexo. De repente, a câmera dá aquele close que todos os programas sobre natureza fazem quando algo inesperado está prestes a acontecer. Depois de cruzarem, a fêmea atrai o macho para sua teia e o imobiliza sem grandes dificuldades — por ser naturalmente maior. Não demora muito para ela começar a comê-lo no sentido mais literal possível. A turma faz um som uníssono de repulsa. Eu afasto os olhos da tela.
— Certo, foi demais por hoje — o Sr. Johnston se levanta para desligar o quadro interativo antes de prosseguir com sua fala — Esse é o primeiro assunto que vamos estudar nesse período: a reprodução em diferentes espécies. De início, preciso que se juntem com quem estiver na mesa da frente para dividir o material que eu trouxe para vocês.
Houve alguns protestos e murmúrios, mas o Sr. Johnston não pareceu se importar com isso. Recolho meu material da mesa antes de arrastá-la para frente e olho para Lexi, sentada na primeira mesa da fileira oposta à minha. Ela me encara de volta e fala boa sorte com os lábios, sem emitir som algum. Depois de colocar minha mesa em sua mais nova configuração, sento e me preparo para me apresentar para minha dupla. Engulo em seco quando o vejo.
— Prazer, me chamo Oliver.
Ah, Lexi, talvez sorte não seja suficiente para essa situação…
Fale com o autor