Mundo azul
10 Vermelho 09
Pela primeira vez, Susana não sentia a dor insuportável quando precisavam trocar o curativo.
Além dos remédios caros, os médicos eram bem cuidadosos e ela não sentia dor alguma.
— Que ótimo, Sra. Gray! Seus dedos logo vão poder se mexer — O médico afirma e sorri.
Ela ainda não sabia como reagir a isso, estava sendo cortês por ser pago a isso? Ou gostava de ajudar?
— Obrigada, doutor — Respondeu ela.
Seu marido, estava com roupas sociais, sentado ao seu lado. Um chapéu preto de motorista em mãos.
Ele agradeceu ao doutor e quando se retira, se aproxima da esposa, lhe dando um beijo na testa.
— Vai ficar tudo bem amor.
— Mas Robert… Ela diz insegura — E se for temporário? Essa família…
— O Sr. Crawford tem sido muito atencioso — Ele responde — Eu tenho medo sim, de em algum momento ele nos expulsar, ou se arrepender… Mas fui contratado honestamente e guardarei cada centavo que receber, para caso precisarmos. Me desculpe se for egoísmo, mas eu não suportaria mais te ver sofrer toda vez que trocava os curativos e aqueles médicos horríveis quebrarem seus dedos novamente por erro deles… — Ele suspira — Pode finalmente realizar seu sonho em ser professora.
— A Sophia…
— Com o dinheiro que ganhar do trabalho, ela vai poder também realizar o que desejar.
— Por mais que o Sr. Crawford seja bom, seus filhos parecem mimados, ele tem três e o último nem aparece em nada — Resmunga ela, tentando encontrar alguma falha.
— Bem, nosso acordo é só com o pai deles — Ele responde — E aí deles se forem intrometer! — ele finge saber lutar e mexe os braços para cima.
Susana gargalha e aceita a rendição.
— Preciso ir, o patrão logo sai da casa da esposa — Ele diz e agora lhe dá um beijo nos lábios — Sophia irá vir mais tarde, tchau amor.
— Até mais tarde amor.
Susana o vê sair e tenta se sentir calma com tudo isso.
Depois de um tempo, ela não sabe quanto a porta se abre e Sophia entra.
Uma máscara descartável cobria a boca, o cabelo estava solto e roupas moletom.
— Sophia? Chegou cedo.
Mas ela nada disse e se aproxima, Susana sente desconforto mas quando sua filha está próxima o suficiente ela entende.
Não era Sophia.
— Saimon?
— Ola, Senhora Gray — Disse ele baixo e com zombaria — Achei até que tinha se esquecido de mim.
— Como entrou?
Ele estende um caderninho que estava escrito “me perdoe, estou com a garganta inchada” e tinha se apresentado como Sophia.
— Fui no trabalho do pai, mas ele não estava lá. E como os “maravilhosos” Crawford são atenciosos, eles não anunciaram nada sobre isso aqui — Ele tira do seu bolso o anel de Alice — Bastou perguntar a um colega dele, me falaram que ele agora é motorista particular.
— Filho… por favor.
— Por favor, o que? — Ele agora baixa a máscara revelando o rosto masculino — Foi graças a mim que agora vocês tem tudo isso! — E aponta ao redor, girando os braços — Poderiam me dar uns créditos não?
Ela já não sabia mais como tratar o filho, sabia que não lhe deu tantas correções que deveria e vê-lo desta forma a fazia pensar no que errou com ele.
— Sabe que nosso mundo e o deles é diferente — Inicia ela — Sua raiva e inveja por mais, vai levar você à queda — Se ela pudesse lhe daria carinho, mas os dedos ainda não mexiam — Eu te amo filho, mas toda ação tem uma reação, cedo ou tarde será pego, e não terá ninguém para te ajudar.
— Não será preciso, porque não vão me pegar — Ele fala e volta com a colocar a máscara no rosto — Minha bagunça só está começando.
Ele riu e, guardando o anel no bolso, saiu do quarto deixando a mãe só.
“Como um garoto de dezoito anos consegue ser fugitivo?” Se pergunta.
Em seu coração ela sentia tristeza, pois sabia que o filho não voltaria atrás de seu orgulho e a raiva dele por desejar as coisas dos outros.
Ela precisa avisar Sophia que ele poderia aparecer a qualquer momento, e tinha receio no que ele poderia fazer.
~*~
Oliver não sabia quanto tempo estava encarando aquela caixinha vazia, até seu pai bater na porta do quarto.
— Posso entrar? — Pergunta gentil e suavemente, o filho dá de ombros e se senta na cama encapada.
Carlos senta ao lado o filho e vê a caixa em sua mão, e tocando em seu ombro ele tenha acalmar o filho:
— Sinto muito pelo anel da sua mãe — Começa — Eu não queria trazer alarde e chamar atenção indesejada… antes que você viesse aqui, a casa teve um assalto.
Oliver já compreende o final da história, mas espera que ele termine.
— Foram dois jovens, eles levaram algumas jóias e infelizmente o anel também foi levado.
Ouvir isso fez o coração dele murchar, ele estava feliz que ninguém se machucou, mas ainda assim o anel era a última lembrança da sua mãe.
— E isso… também inclui o motivo de Sophia estar aqui.
Oliver ergue uma sobrancelha, sem entender.
— Um dia ladrões é irmão da Sophia.
O garoto olha surpreso para o pai.
— Ele queria que ela fosse presa em seu lugar e a entregou à polícia, não a denunciei pois notei que a coitada era inocente. Então ela sabia que o irmão iria querer voltar, por orgulho talvez… Então ela está aqui para poder reconhecer ele, e quem sabe ele devolva o anel.
— Acho difícil com câmeras e futuramente um cachorro — brinca ele.
— Não vamos deixar fácil para esses ladrões — o pai sorri — Saiba filho, Sophia sofre muito com as atitudes do irmão, então não a julgue pelas atitudes dele ok?
— certo.
Oliver se lembra do apelido que o idiota a chamou e ele pensou que talvez o irmão dela já a atormenta desde a infância.
Mas Oliver se conhece e sabe que pode deixar escapar algo, agora que estava irritado pelo roubo.
— Só preciso de tempo longe dela — Responde e passa os dedos pelos cabelos.
— Tenha o seu tempo filho, mas não deixe que isso o atrapalhe — Ele o abraça — Os senhores das câmeras já foram embora, então não fique nervoso — Carlos levanta da cama — Semana que vem vai instalar.
— Contando que aquele idiota não ofenda Sophia, pode vir qualquer um.
Carlos sorri para o filho.
— Estou feliz por tê-la defendido.
Oliver deu de ombros e se deixou deitar um pouco na cama que outrora pertencia a sua mãe.
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