Mundo Subterrâneo
1 Caos
É incrível como a vida pode mudar de um instante para o outro, em um minuto você está sentada no shopping com um amigo conversando e no outro, estão correndo pelas suas vidas.
Tudo começou quando pedi para Mattew se encontrar comigo no shopping, eu precisava de ajuda, e ele era o único que podia me ajudar. Quando se coloca assim, parece que matei alguém e estou precisando de ajuda para esconder um corpo, mas não é isso e se fosse ele também me ajudaria a esconder esse corpo. Na manhã anterior em que marquei o nosso encontro, descobri que estava gravida, e foi um misto de “não acredito que isso esta acontecendo” com “como vou criar essa criança se não cuido nem de mim”, e não ele não era o pai, o pai era um idiota, um daqueles com i maiúsculo, que quando isso acontece pula fora sabe, disse que não queria saber da criança pois tinha acabado de fechar um contrato de trabalho de oito anos na Holanda, e que um filho nesse momento atrapalharia todos os planos de vida dele, e com isso foi mais idiota ainda e me deu o dinheiro para realizar um aborto, o que obviamente eu não faria, mas peguei o dinheiro do mesmo jeito.
E, no dia anterior eu também havia sido expulsa se casa, não por estar gravida, eu não cheguei a contar, pois estava estressada demais com a proposta de aborto do progenitor da criança, pois pela atitude mesquinha dele, nunca seria o pai. Foi então minha mãe chegou com seus conceitos hipócritas e moralistas, e após uma vida toda guardando para mim o que eu sentia quando ela fazia isso, acabei explodindo com ela, e dizendo tudo o que eu segurei durante os anos. Está certo que eu deveria ter saído de casa a muito tempo, mas sempre posterguei por causa de desculpas inventadas, que usei como motivo de não sair da casa dos pais, e agora com vinte e cinco anos, fui expulsa por ferir o ego da matriarca da casa.
Quando o Matt, que chamo carinhosamente assim chegou, contei a ele tudo o que havia acontecido, enquanto comíamos batata frita e eu tomava refrigerante e ele suco. E por incrível que pareça, ele não se assustou, e ate achou que isso tinha demorado para acontecer, ele dizia que eu era como um balão que se enxia aos poucos de ar e que a qualquer momento poderia estourar e fazer muito barulho. Ele me encarou da maneira que eu mais detestava desde quando nos conhecemos, olhando para mim, mas com os olhos vazios, como se tivesse enxergando através de mim e disse:
— Bom Melinda, então nós casamos e eu assumo a cria.
— Primeiramente, não sou animal para ter cria e segundo, não quero casar e não estou pedindo para você ser o pai dessa criança, só preciso de um teto até eu conseguir me estabilizar financeiramente e emocionalmente.
— Mel, mas eu posso te dar tudo isso, uma família e um lar.
— Matt nós já conversamos sobre isso quando decidimos ser apenas amigos, você sempre disse que não estava pronto para um relacionamento e ambos seguiram em frente como amigos, e é de um amigo que eu preciso agora, e não de um cara que se arrependeu das decisões passadas querendo consertar as coisas com um casamento e assumindo um filho que não é dele.
— Agora percebi o motivo de sua mãe ter te colocado para fora, você está acida e amarga.
Após esse comentário do Matt, levantei para ir embora, eu não estava com um emocional muito bom, e ele me segurou pelo braço e disse:
— Está bem Mel, eu te deixo ficar no outro quarto de casa, e sem segundas intenções, eu prometo, vou ser somente o amigo que vai te ajudar, o tio legal que vai ajudar você a criar seu filho ou filha.
— Fica quieto — eu disse olhando ao redor da praça de alimentação.
— Eu te digo que vou te dar um quarto e você me diz para ficar quieto, me diz que são os hormônios da gravidez.
— Não é isso Matt, olha ao redor.
Quando ele olhou, ele me deu uma encarada sarcástica.
— Você é muito paranoica sabia?
— Não sou paranoica, mas já joguei muitos jogos de terror e já assisti muitas series e filmes de apocalipse zumbi para dizer que está na hora da gente correr nesse exato momento.
— Eu estou vendo apenas algumas pessoas apresentando sinal de gripe, e quando você se mudar nada disso vai entrar em casa viu.
— E eu olhando por cima, estou vendo aproximadamente que 65 de 100 pessoas estão apresentando febre alta, tosse e sinal de irritação, se elas começarem a ficar violentas e se socarem eu saio correndo e te largo aqui.
— É normal as pessoas estarem assim, está tendo campanha de vacinação por toda a parte, e as enfermeiras dizem que pode dar febre.
— Febre de no máximo 37,5°, no máximo 38º e não aquela febre de cozinhar o cérebro e fazer o povo suar em bicas, me diz que você não tomou.
— Claro que não tomei, sua louca, você sabe que morro de medo de agulhas.
Ele começou a rir, mas eu estava certa, alguns minutos depois as pessoas que apresentavam febre começaram a se atacar violentamente, e a atacar as pessoas que estavam, como podemos dizer, saudáveis. E quando o primeiro cara mordeu outra pessoa foi o estopim para mim, peguei o Matt pelo braço e sai correndo com ele, no caminho nos deparamos com Chloe e Lindsay, nossas amigas, apenas puxamos elas e não demos explicações, e fomos para o banheiro feminino, que era o mais próximo e por sorte estava vazio. Quando a Chloe questionou:
— Primeiro, vocês voltaram? Segundo, porque saímos correndo? E terceiro por que entramos num banheiro e a Melinda está trancando a porta?
— Primeiro, não nós não voltamos, estávamos apenas conversando, segundo ela é paranoica e terceiro ela é paranoica. – disse Matt
Quando olhei para a Lindsay ela estava praticamente sem cor e antes que eu falasse alguma coisa Chloe continuou:
— Bem, como estamos a luz do dia, não são vampiros, então são os zumbis?
Os três começaram a rir da minha cara, mas neste momento eu não estava me importando, pois eu sabia que tinha algo, então comecei a checar as portas, para ver se realmente não tinha ninguém, enquanto Lind e Chloe foram checar a maquiagem, Matt foi até as pias lavar o rosto.
— Hey Mel, sabia que você estragou a nossa compra de presente para você? Disse Chloe.
— Para mim? Meu aniversario ainda está bem longe e para o natal ainda faltam dois meses exatos.
— É que eu estava falando com o seu irmão e ele disse que você saiu de casa, então seria um presente para casa nova – disse Lind animada.
— Olha, a minha casa ta precisando de um micro-ondas novo, seria um bom presente – disse Matt brincando.
— Espera, você vai morar na casa dele? Perguntam as duas em uníssono.
— O meu irmão disse que sai de casa, mas não disse que fui expulsa né?
— O que aconteceu, você acordou e não arrumou a casa ou faltou no serviço de novo? – perguntou Chloe
— Voces vao tirar o dia para me zuar?
Faltavam três portas para eu checar e eu já estava ficando cansada, queria saber quem foi o ser humano abençoado que determinou que um banheiro de shopping deveria ter mais de quinze sanitários, mas eu estava perto do Matt, e sentia falta dele, então resolvi fazer uma brincadeira, mas não contava que nas três portas faltantes havia uma pessoa infectada, que saiu por de baixo da porta e foi diretamente na direção do Matt, e por instinto entrei na frente dele, e fui mordida, mordida bem no abdômen, mas como o Matt disse, eu era paranoica, então eu tinha um punhal escondido no meu sapato, e não sei como, enfiei o mesmo pela parte inferior do maxilar em um ângulo que atingiu o cérebro e a pessoa morreu no mesmo instante. Quando viramos a moça, ela tinha muitas veias pretas espalhadas pelo rosto e pupilas totalmente dilatadas, e foi nesse momento que Matt acreditou em mim.
— Melinda, de onde diabos foi que você tirou essa faca?
— Não é faca, é punhal – disse enquanto lavava ele.
— Esta, tanto faz, mas por que você estava com isso?
— Dormi num pensionato que a porta do quarto mal fechava, tive que escorar ela com a cama, e quando sai, coloquei ele na bota, andar com algo com que eu possa me defender me faz sentir mais segura.
As meninas estavam estáticas, elas não acreditavam no que acabaram de presenciar, e a Lind começou a surtar, tentávamos acalmar ela, mas ela estava frenética, em estado de choque, quando começaram a bater na porta e todos se calaram.
— Tem alguém aí? Ouvi gritos.
Mantínhamos o silencio, tentando não fazer nem o barulho de respiração, mas Lind estava em ataques de pânico, e ninguém tinha percebido que eu havia sido mordida, pois por sorte ou ironia do destino eu estava com uma blusinha vermelha, e pude usar a desculpa que me molhei quando estava lavando o punhal. E o homem do lado de fora da porta do banheiro insistia.
— Por favor abram a porta, está todo mundo louco aqui fora, preciso de abrigo, me machuquei e estou sangrando muito.
E mesmo receosa respondi:
— O senhor apresenta sinais de febre, irritabilidade ou foi mordido?
Todos me olharam como se eu estivesse louca, mas eu os ignorei.
— Não moça, só estou em pânico por ter me cortado no meio da bagunça.
Abri a porta o suficiente para ele poder passar, mesmo com meus amigos dizendo para não fazer. O cara trabalhava como segurança do shopping, o que significava que ele conhecia a planta do prédio, o que poderia parecer uma maneira segura de sairmos do shopping, mas como nem tudo era perfeito, o machucado dele era sério, ele precisaria de pontos, se não uma cirurgia para parar a hemorragia. Precisaríamos de anestésico e antibióticos para não infeccionar os ferimentos dele, e teríamos que cuidar dele, pois ele era o único que conseguiria tirar a gente de lá sem ser pelo descampado lotado de infectados.
A farmácia era perto, mas se não tivesse ninguém para atender, eu teria que adivinhar na sorte quais seriam as quantidades de anestésicos e antibióticos. E por que eu? Me voluntariei para essa empreitada, afinal já tinha sido mordida, estava infectada, então não fazia diferença para mim. Mas o que preocupava era ele ter pedido para pegar armamento também na sala de segurança, que era mais perto que o Walt Mart, porém não tão perto assim, pois eu poderia ficar violenta, agressiva e incontrolavel que nem os infectados a qualquer momento.
— Você não vai sozinha – disse o Matt.
— Ah, mas eu vou sim, e não há quem diga o contrário.
— Melinda o máximo que eu já vi você correr foi da praça de alimentação até o banheiro, e isso não é que nem os seus jogos, se você for pega já era, você vai precisar de suporte.
— Mattew, você sabe andar em silencio? Teria coragem de enfiar uma faca no crânio de alguém? Você conhece onde fica todas as lojas que eu vou precisar ir no caminho mais curto sem me atrapalhar?
— Bem, não, mas eu posso te ajudar.
— Você me ajuda ficando aqui, pois vou ter certeza que estará seguro, e lembre-se eu nasci para esse momento – eu disse piscando com sarcasmo.
Na realidade, eu adoraria ter mais alguém comigo, estava morrendo de medo de estar sozinha nesse momento, mas estava com mais medo de surtar e machucar um deles, então decidi que iria sozinha, pois pelo menos naquele banheiro eles estariam seguros, e se acontecesse algo comigo eles poderiam esperar passar o fervor e sair na espreita. O problema era que o Matt é muito teimoso, e poderia sair atrás de mim e me seguir de longe, e por a vida dele em risco.
Engraçado como em tempos de calamidade, as pessoas esquecem dos deveres cívicos e viram todas trombadinhas, e saem saqueando todas as lojas como se a vida deles dependesse disso e eu fui uma delas. Após sair do banheiro, com todas as recomendações de tomar cuidado e voltar viva, fui andando com toda a cautela possível e imaginável, e a primeira loja que eu parei foi uma esportiva, onde peguei uma mala e duas mochilas, precisaríamos de suprimentos, pois não sabíamos como estaria a situação fora do shopping. Imaginava que o surto era geral, e que todas as pessoas em todas as partes estariam surtadas, algumas por estarem infectadas e outras por estarem lutando por suas vidas.
Segui em direção a farmácia, em questão de duas horas o shopping tinha sido devastado, e não parecia que o tempo estava passando tão rápido assim, mas ficamos um bom tempo dentro do banheiro e como como estávamos apavorados de mais, não estávamos acompanhando as horas, as lojas estavam com as vitrines quebradas, pessoas caídas e não dava para identificar se estavam mortas ou não, e dava para ver várias pessoas infectadas vagando parecendo atordoadas, e algumas pessoas não infectadas tentando se esconder. Nesse momento estávamos apenas eu e Tori, se meu punhal ia defender a minha vida quase infectada totalmente, precisaria de um nome. Eu segurava Tori como se minha vida dependesse disso, e estava descalça para evitar fazer barulho com os sapatos, o que me incomodava demais.
Já na farmácia, que estava devastada e sem nenhum atendente, lotei uma mochila com remédios, de febre a antibióticos, bombinhas para asma e seringas para aplicação, faixas e gazes para curativos, e aproveitei e fiz assepsia no meu ferimento de mordida e fiz um curativo. Em seguida fui em direção a uma loja que vendia de tudo, e peguei comida, bem o que significava comida para mim, ou seja, chocolates, salgadinhos e refrigerantes, peguei lanternas, pilhas, canivetes e algumas cordas. Estava percebendo que era a paranoica que o Matt dizia que eu era, quando de repente sinto uma mão em meu ombro, eu que nunca fui muito religiosa, pedi ao universo para ser alguém querendo me prender por estar roubando.
Quando me virei, era uma mulher, ela estava vestida de social, e aparentava estar bem, mas só aparentava, ela perguntou se eu queria ajuda, ela era da administração do shopping e disse que poderia me levar a sala da segurança para pegar o armamento e uma planta do shopping.
— Antes de mais nada, essa é a Tori – eu disse mostrando o meu punhal.
— Bem, me chamo Susan, posso te levar até a sala que você precisa, mas temos que ser rápidas, pois não tenho muito tempo.
— E como você sabe que eu preciso ir a algum lugar e por que não tem muito tempo?
— Bem, estou te seguindo a algum tempo e te ouvi sussurrando que precisa ir à sala da segurança, e eu fui mordida – disse ela puxando a blusa e mostrando o ombro.
— Certo, e eu não percebi você me seguindo, se você fosse um estuprador eu estava ferrada – expressei com a mao na cabeça.
— Credo, vira essa boca para lá – ela disse se afastando um pouco.
— Posso te contar um segredo? Eu também fui mordida – digo mostrando o curativo em minha barriga.
— Faz muito tempo que isso aconteceu?
— Bem, faz mais que uma hora e quarenta minutos, por que?
— As pessoas têm ficado violentas e começam a atacar com no máximo uma hora após serem mordidas, eu fiquei observando e contando o tempo, e eu fui mordida faz mais ou menos vinte minutos e as veias ao redor da minha mordida já estão pretas e estão aumentando com o tempo e o seu está limpo, tem certeza que foi mordida?
Tirei o curativo para ela ver, e fiquei pensando sobre o que ela disse do prazo de transformação enquanto íamos até a sala de segurança, e no meio do caminho, tive que colocar para “dormir” alguns infectados, comecei o dia dizendo que daria em breve a luz a vida, e em duas horas e meia após isso já tinha tirado mais de oito. E para completar o espetáculo, parecia que eu era imune ao vírus e eu tinha certeza que a campanha de vacinação pela cidade é a responsável por esse surto.
Chegamos a sala de segurança o que levou praticamente trinta minutos, ou seja, Susan tinha aproximadamente mais dez minutos, porém, a febre dela estava escaldante, e não conseguia imaginar como ela acompanhou o meu ritmo, nas condições que ela estava, ela usou as credenciais dela e liberou a porta, por sorte ela também trabalhava no shopping e quando olhei para as câmeras, foi decepcionante, pois notei que seria praticamente impossível sair do shopping, pois tirando a parte que estamos que não tinha saída para lugar nenhum, o resto estava totalmente tomado. Tratei de encher a mala com algumas armas, munições, mapas e algumas chaves que estavam penduradas, pois poderiam ser uteis em algum momento.
Quando já havia pego tudo o que era necessário para podermos escapar do shopping, Susan estava caída no chão, fui checar se ela ainda estava viva, e quando aproximo minha mão do pescoço dela, tremendo de medo, eu suava frio por causa disso, ela me ataca, tinha certeza que fiz um pouco de xixi na calça, mas infelizmente a mulher que tinha me ajudado a chegar onde cheguei, e em segurança já havia sido infectada completamente, e eu não podia fazer nada pior ela, não queria pôr fim a vida dela, pois vai que aquilo fosse uma infeção momentânea e ela tivesse chances de se recuperar, mas não tinha muito tempo para pensar, pois eu tinha que voltar para o pessoal antes que nosso guia para a saída morresse por hemorragia, então num impulso peguei a Tori e a cravei em minha mais nova amiga, esse foi um belo jeito de começar uma amizade.
O fato de eu estar gravida não ajudava muito nessa situação, pois eu media apenas 1,64 metros de altura e estava carregando praticamente o meu peso em suprimentos e mais uma vida dentro de mim, e além disso mais quatro pessoas dependiam de mim para sobreviver, e eu queria ir no banheiro a cada meia hora e já estava segurando a muito tempo, e isso foi me deixando nervosa. Como já tínhamos limpado a área na ida para a sala de segurança, seria um pouco mais tranquilo voltar para o banheiro, mas mero engano meu, já tinha aparecido o dobro de infectados que havia antes e eu fiz o máximo para não ser notada, só tive que derrubar dois no meio do caminho.
Assim que cheguei a porta do banheiro, bati nela como se minha vida dependesse que ela abrise, e dependia, mas meus amigos estavam receosos demais em abrir ela.
— Gente, sou eu, a gente não combinou uma batida secreta ou contrassenha para a hora que eu voltasse lembram.
— Ah, e como saberemos que é você de verdade? Disse Chloe
— Claro, eu sou um clone zumbi do mal e quero matar todos vocês.
— Preciso de alguma prova para ter certeza que é você.
— Primeiro, para de gritar que você ta atraindo infectados para a nossa direção, e segundo, quer que eu conte algo seu ou meu?
— De ambas – replicou Chloe
— Quinze de agosto de três anos atrás.
— Esta bem, não continua, mas isso não diz nada, tinha mais gente junto.
— Cacete Chloe, abre logo a merda dessa porta, que tem seis infectados vindo nessa direção, e eu estou cansada pra caramba de carregar essas malas, e mais cansada ainda para derrubar a porta e te xingar até você desistir da sua existência.
— Bem, é você mesma.
Então ela abriu a porta, e passo correndo para vomitar, jogando as bolsas no chão, quando me recomponho, olho que Mattew está tentando estancar o sangue do segurança e Chloe está tentando acalmar Lindsay que está em choque, ela já tinha parado de gritar, mas a essa altura estava catatônica. Tratei de pegar a bolsa com suprimentos médicos, e separei 3 seringas e três frascos, linha de sutura e uma agulha curva, quando o Matt me interrompe.
— Hey, não é porque você é viciada em seriados médicos, que isso lhe dá o direito de sair aplicando injeções e costurando pessoas por aí.
— Olha, se quiser pode fazer, não fiz medicina ou enfermagem por um motivo, e você sabe qual é.
— Por que sua mãe te privou de seus sonhos, e você teve que seguir a profissão que ela escolheu para você.
— É tem isso também, mas é o outro motivo.
— Você é psicopata e pode gostar demais de cortar pessoas em sala de cirurgia e resolver cortar fora? — Disse Chloe
— Desisto de vocês, tenho que cuidar do nosso amigo aqui, e afinal, qual é seu nome mesmo?
— É Tony, e por favor, salve minha vida. — disse ele
Eu não sabia ao certo se tinha uma ordem para aplicar os líquidos dos frascos e nem a quantidade que teria de aplicar de cada um, mas tinha separado coagulante, anestésico e antibiótico, e o último foi o que apliquei mais, não tínhamos tempos de ler bulas e recomendações. Assim que o anestésico fez efeito, o costurei, não foi uma obra de arte, e nem algo tipo criatura do Dr. Frankenstein, mas deu para o gasto, só que ele ainda sentia dor, então demos analgésicos não sedantes para ele, pois precisávamos dele muito acordado.
Tínhamos que conseguir chegar ao estacionamento coberto subterrâneo, e irmos até o carro do Matt, ele era quem sempre dirigia, e eu detestava o estacionamento do subsolo, eu era paranoica, tinha medo do teto cair, ou de ficar presa nele em um apocalipse zumbi, e a única vez que comentei isso, o Matt ficou quatro meses tirando sarro da minha cara.
— Tony, você sabe como podemos chegar ao estacionamento coberto, especificamente no subsolo – perguntei a ele.
— Bem tem como chegar pela área dos funcionários, mas temos que passar pelo hall principal. — respondeu ele.
— Não querendo me intrometer, mas já, você começou a dirigir e eu não estou sabendo, por que o meu carro está perto da porta de entrada hoje, consegui vaga perto assim que cheguei e aproveitei.
Olhei para o Matt de um jeito que não olhava fazia tempos, só não disse que amava ele, por que eu realmente amava, e nunca consegui mentir para ele, então se ele perguntasse se era figura de linguagem ou sentimento verdadeiro, não conseguiria mentir. E de qualquer forma, teríamos que passar pelo hall principal, mas o Tony nos deu uma luz, e mostrou nos mapas que peguei, que tinha uma forma de sairmos sem passar pelo meio, onde um terço da cidade estava aglomerada, iriamos pela parte da administração, e sairíamos por uma porta lateral.
Até que não foi tão difícil esse percurso, pois a porta para a administração era em frente ao banheiro, tive que limpar a área, cinco infectados, quatorze na soma total. Eu não estava carregando nenhuma das bolsas, então era mais fácil de me mover, já que tinha ficado encarregada da “limpeza”. As únicas coisas difíceis foram identificar quem era e quem não era infectado, e carregar o Tony e a Lind pelo caminho.
Quando finalmente conseguimos sair do shopping, o nosso grupo de cinco pessoas somava mais de vinte. Tony resolveu que ia ficar, pois tinha pessoas para encontrar ainda, Chloe colocou Lind em seu carro e disse que a levava ela até a casa dela para encontrar a mãe dela, e eu fui para o carro do Matt com ele.
— Você quer passar na sua casa e ver como seus pais e irmãos estão?
— Já troquei mensagens com o meu irmão, ele disse que estão bem, saíram da cidade a tempo.
— E deixaram você?
— Bem, a minha bateria acabou antes de eu saber que minha mãe conseguiu convencer a todos que eu estaria bem sem eles e que saberia me virar, já que eu era autossuficiente.
— Nem tanto né cabeçuda, pois estou aqui com você certo?
— Certo cabeção.
Nesse momento ele segurou a minha mão, ele sempre fazia isso quando sabia que eu estava perdida em meus pensamentos, querendo fugir sem rumo e sem direção, e era incrível como ele sabia exatamente quando era esse momento sem eu precisar dizer nada, ele sempre percebia, mesmo quando estamos em meio a multidões, tendo que nos comportar de acordo com o ambiente e sorrir mesmo sem vontade e conversa como se tivéssemos a vida mais perfeita. E naquele momento, tudo o que eu mais queria era deitar em minha cama abraçada com o Matt, mas não seria possível, a cidade estava um caos, lojas arrombadas, casas pegando fogo e pessoas desesperadas.
Incrivelmente, o pandemônio não havia chego ao pardieiro que chamavam de pensão, onde tinha me hospedado, mas estava próximo, pois as pessoas apresentavam os mesmos sintomas que as do shopping, então, logo estaríamos na infecção parte dois, por isso tratamos de pegar o necessário, ou seja, a única mala que eu tinha, e assim que pegamos corremos em direção ao carro e partimos.
Matt ligou o rádio, ele odiava dirigir em silencio, uma coisa que tínhamos em comum, não gostávamos de ficar sozinhos com nossos pensamentos, mas todas as estações de rádio só falavam do surto que ocorria em toda a parte da América, e quando digo toda a parte, era em todas as américas, sul, central e norte, e também falava que as pessoas do outro lado do oceano já estavam em alerta e lotando hospitais. A CNN deveria ter guardado um pouco a informação para não despertar uma calamidade mundial. Acabei tirando da radio, e colocando um CD meu, que eu procurava a muito tempo e ele sempre disse que não estava com ele, mas estava no porta luvas do carro dele.
— Sabia que você tinha ficado com o meu CD da Avril, com o que mais você ficou?
— Com tudo que você não usava a meses e deixou na minha casa.
— Não acredito, você disse que tinha devolvido tudo. – disse dando um tapa no ombro dele.
— Mel, mudando um pouco de assunto, será que esse surto é duradouro?
— Por anos de experiência com jogos, filmes e series, se não houver um antidoto em algum lugar, ou eles bombardeiam a cidade infectada, ou as pessoas lutam pela sobrevivência, e normalmente, os não infectados são piores que os infectados.
— Certo, e caso isso seja duradouro, você consideraria...
— Se você ousar terminar essa frase, você perde uma de suas bolas enquanto dirige e vou cuidar para ser doloroso. – disse não deixando ele terminar a frase dele.
— Você não deve se prender a um erro que cometeu no passado Mel.
— E por isso não vou cometer novamente Matt, eu era jovem, inconsequente, não queria um vínculo eterno com aquele cara, pois eu tinha planos, sonhos. – Fiquei em silencio
— E mesmo assim, você engravidou novamente do mesmo cara.
— Olha, eu me arrependi do aborto na época, e não ter contado para ninguém, de ter tomado a decisão sozinha, e não tem um dia que eu não pense como seria se eu tivesse tido aquele bebe, como seria o sorriso, se ele teria o meu cabelo ou o dele, a cor dos olhos, o primeiro aniversário, o primeiro dente caindo.
— Ele teria o que? Uns seis anos?
— Por aí, seis ou sete anos, parei de contar com o tempo.
— Desculpe por ter pisado nesse calo, não foi a intenção, é que você foi embora, estava com raiva de mim, de tudo e de todos, e foi inconsequente, você fez o que sempre faz quando fica com raiva do mundo, faz besteira, se pelo menos fosse do outro cara, aquele que você foi embora pelo mundo, mas você voltou, e ao invés de me procurar, foi atrás desse idiota que ferrou com você de várias formas, não entendo por que você fez isso, e isso me deixa irritado.
— Bem, eu não procurei ele, não pretendia nem ver ele nunca mais em minha vida, mas quando voltei, fui atrás de você, e te vi de longe, bem, feliz, sorrindo como você sorria quando a gente se conheceu, você tinha brilho nos olhos novamente, e eu não queria estragar isso, trazer o meu mundo conturbado para o seu reestabelecido, tentei ir atrás de você umas sete vezes, até que esbarrei com ele novamente e o resultado você está vendo aqui.
— Estou aqui para você para o que der vier, se você que quiser ao seu lado claro.
— Claro que quero, quem vai dirigir?
Ele riu e me chamou de maluca.
— Já que você disse que vai estar comigo para o que der e vier, tenho que te contar mais uma coisa.
— Ai meu Deus, você está esperando gêmeos.
— Pode até ser, pois eu só fiz o teste de farmácia e o exame de sangue, não passei em medico, mas não é isso, é algo sério.
— Mel, sem rodeios, você está começando a me assustar.
— Certo, eu fui mordida.
— O que? Como assim? Quando foi isso? Quanto tempo a gente tem?
— Não vou me transformar, pode ficar tranquilo, fui mordida àquela hora no banheiro.
— O que? Àquela hora que você entrou na minha frente quando eu estava lavando o rosto? E como assim você não vai se transformar?
— É, foi naquela hora, mas se fosse para eu virar, já teria acontecido, eu e a Susan contamos, leva em média uma hora para o povo se transformar após mordida, e já faz mais de doze horas que eu fui mordida e nem sinal.
— Quem é Susan e se o vírus demorar mais para incubar no seu organismo e se manifestar?
— Susan, a mulher me ajudou a pegar as armas, ela era da administração e tinha sido mordida, com vinte minutos após a mordida, ela já apresentava as veias pretas ao redor e febre, eu não tive isso em nenhum momento. – disse levantando a blusa e mostrando a mordida.
— Mas e o bebe, será que não afetou ele?
— Isso só o tempo vai dizer, mas com os genes ruins do pai dele, é capaz de o vírus se assustar e nem chegar perto.
— Você consegue transformar um momento serio em comedia né, mas esse vai ser o nosso segredo.
Ele apertou firme a minha mão e continuou dirigindo pela noite a fora, e podemos dizer que apesar de tudo que já passamos, esse foi o dia mais louco de nossa vida. Perguntei a ele se ele queria que eu dirigisse um pouco, mas ele disse que confiava mais em eu matando infectados do que dirigindo para garantir a vida dele.
Fale com o autor